"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



terça-feira, 27 de outubro de 2009

A COBRA FUMOU – O EMBARQUE DA FEB


Os mais céticos diziam que o Brasil só iria à guerra quando uma cobra fumasse. Pois tudo indica que, em algum lugar do país, um simpático ofídio puxou ao menos um cigarrinho de palha. No início de julho de 1944, após vários meses de expectativa, os primeiros soldados brasileiros seguiram rumo à Itália para juntar-se ao time Aliado que combatia as potências do Eixo. Nos próximos meses, deverão ser enviados cerca de 25.000 homens da Força Expedicionária Brasileira, a FEB, à Velha Bota.

O embarque do 1º Escalão verde-amarelo, sob o comando do general Zenóbio da Costa, no navio norte-americano USS General Mann encerra uma longa espera dos brasileiros para finalmente engajarem-se na batalha contra Itália, Alemanha e Japão. Quando, em dezembro de 1942, Getúlio Vargas anunciou que o Brasil não se limitaria ao fornecimento de materiais estratégicos para os países aliados e à simples expedição de contingentes simbólicos ao front, muitos duvidaram.

O primeiro passo oficial para a concretização dos planos do presidente aconteceu em 9 de agosto de 1943. Pela Portaria Ministerial 4.744, publicada em boletim reservado de 13 do mesmo mês, foi estruturada a FEB, constituída pela 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE) e por órgãos não-divisionários.

A 1ª DIE, comandada por um general-de-divisão, deveria compreender: um quartel-general constituído de estado-maior geral, estado-maior especial e tropa especial; uma infantaria divisionária comandada por um general-de-brigada e composta de três regimentos de infantaria; uma artilharia divisionária comandada por um general-de-brigada e composta de quatro grupos de artilharia (três de calibre 105 e um de calibre 155); uma esquadrilha de aviação destinada à ligação e à observação; um batalhão de engenharia; um batalhão de saúde, um esquadrão de reconhecimento, e uma companhia de transmissão - na verdade, de comunicações.
A tropa especial, além de um próprio comando, deveria incluir o comando do quartel-general, um destacamento de saúde, uma companhia do quartel-general, uma companhia de manutenção, uma companhia de intendência, um pelotão de sepultamento, um pelotão de polícia e uma banda de música.
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Soldados brasileiros embarcando no USS General Mann que os levaria à guerra

Ainda em agosto, o general João Batista Mascarenhas de Moraes, comandante da 2ª Região Militar, foi convidado pelo ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, para chefiar uma das divisões da FEB. Em seguida, o ministro partiu para os Estados Unidos carregando uma carta de Vargas ao presidente Franklin Roosevelt, em que Getúlio manisfestava o desejo do Brasil de participar das batalhas ativamente.


Material precário

Na fase de formação e estruturação da FEB, diversos oficiais foram despachados à terra do Tio Sam para participar de estágios nas bases militares estadunidenses. Desse modo, puderam se familiarizar com os procedimentos de combate dos americanos, que substituiriam os métodos franceses, historicamente ensinados nas escolas militares nacionais. Lá, a tropa brasileira se reeducaria para reduzir o emprego das marchas a pé e a utilização de cavalos, trocando-os por deslocamentos motorizados, rápidos e audazes.

Além de lidar com a dificuldade de adaptação dos soldados à nova doutrina, o general Mascarenhas de Moraes teve de vencer diversos obstáculos para tirar a FEB do papel. Um deles dizia respeito à seleção do contingente da tropa, sem critérios físicos ou intelectuais. O material disponível aos expedicionários também era precário. E, como se não bastasse, figurões do governo, simpáticos aos países do Eixo, trabalhavam contra a formação do agrupamento verde-amarelo.


Tropas da FEB desembarcam na Itália

No final de 1943, porém, decidiu-se que o Brasil mandaria um corpo militar para o teatro de operações do Mediterrâneo. Chefiando a recém-criada Comissão Militar Brasileira, na qual oficiais norte-americanos também tomaram parte, Mascarenhas de Moraes viajou à Itália e à África para observar os combates na região; antes de retornar, foi oficialmente nomeado chefe da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária.

Estava quase tudo pronto. Em 15 de maio de 1944, com a instalação do Estado-Maior Especial, que planejaria e executaria o embarque da 1ª DIE, ficou claro que não haveria mais volta. Na madrugada de 30 de junho para 1º de julho, finalmente, a promessa de Getúlio Vargas se cumpriu. O general Mascarenhas de Moraes e alguns oficiais de seu Estado-Maior embarcaram ao lado dos homens do 1º Escalão, que totalizava 5.075 homens - divididos entre um regimento de infantaria, um grupo de artilharia, uma companhia de engenharia e indivíduos ligados aos setores de manutenção, reconhecimento, saúde, comunicações, polícia, justiça, Banco do Brasil e correio. Todos os militares ostentam no ombro o brasão da Força Expedicionária Brasileira, cuja heráldica traz uma cobra, logo abaixo da inscrição "Brasil". O ofídio em questão, é claro, está fumando.


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Um comentário:

  1. Prezado Carlos:
    Em relação ao distintivo da Cobra Fumando, a informação de que no Primeiro Escalão TODOS ostentavam o referido no ombro é totalmente desprovida de razão histórica. Na verdade somente durante a visita de Dutra ao TO é que foi proposta a insignia pelo Gen Marc Clark no almo
    ço em homenagem ao Ex-germanófilo e Minstro da Guerra. Portanto ninguém foi para a Itália com o distintivo, até porque o pedido de confecção enviado para o Brail jamais foi feito.
    Parabéns pelo site!
    João Henrique Barone

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