"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



sábado, 28 de fevereiro de 2009

IMAGEM DO DIA - 28/02/2009

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O ano é 1932, nos primeiros dias da Revolução Constitucionalista. Confiantes, soldados paulistas voluntários aguardam para embarcar em uma composição ferroviária que os conduzirá à frente de combate. Estão armados com fuzis Mauser M908 de 7mm e possuem uma metralhadora Hotchkiss do mesmo calibre.


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GUERRA E INSTITUIÇÕES MILITARES

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O texto a seguir foi extraído da obra A Guerra: ensaios históricos, de André Corvisier e relaciona o papel das Instituições Militares com o Estado em função do fenômeno GUERRA.




“O papel da guerra e das armas, no nascimento do Estado, apresenta-se sob dois aspectos principais. O primeiro é o apelo aos recursos necessários para adquirir os serviços dos mercenários e, se eles já não constituem uma tropa equipada, para armá-los. Para isso, é preciso mais dinheiro do que aquele que as necessidades habituais de um soberano requerem. Portanto, o soberano terá de contar com os recursos ocasionais ou de criar novos. A ajuda feudal previa a prestação de serviços em bens naturais ou em dinheiro fornecidos pelos não-combatentes, quando o rei partia para a guerra. a necessidade transformou essa ajuda em imposto, logo que a guerra ganhou amplitude. ora,, quem diz imposto diz administração financeira, mesmo que esta seja atribuída, em parte, ao trabalho dos próprios contribuintes, (...). Se a administração da religião e da justiça são anteriores à criação do Estado moderno, as administrações financeiras foram as primeiras deste último”. (p. 175).

“Não há dúvida de que o nascimento dos exércitos e dos impostos permanentes contribuiu para reforçar a autoridade dos soberanos, tanto mais que estes últimos sempre procuraram subtrair sua administração das assembléias dos estados-gerais. Já sob Luís XI, Thomas Basin afirmava que os exércitos e os impostos permanentes eram uma forma de tirania, inútil a seu ver, porque ele ainda acreditava que a nobreza pudesse fornecer aos reis as forças armadas de que necessitavam.. O exército permanente também contribuiu para garantir o absolutismo, como a guerra levou à formulação da razão de Estado.


O absolutismo é um princípio político antigo. Na França, ele se consolidou com a ditadura de guerra de Richelieu, depois, com a monarquia administrativa realizada por Luís XIV. Foram as ameaças internas e externas, às quais o reino da França esteve submetido na primeira metade do século XVII, que lhe deram causa, e também as vitórias que lhe permitiram a consolidação pela transformação dos órgãos da tradicional auto-administração em aparelho de Estado”. (p. 176).

“A guerra é a ocasião que um Estado tem de exercer o máximo de sua autoridade, não somente sobre o território nacional, mas também sobre os países conquistados, onde o ocupante se arroga todos os poderes do Estado vencido e, muitas vezes, a eles superpõe aqueles que já exerce sobre seu próprio território. (p. 177)”.

“As estruturas do Estado têm influência sobre a maneira de conduzir a guerra. Sobre esse assunto podemos seguir a opinião de Roland Mousnier, que mostrou com clareza a passagem da monarquia judiciária “a monarquia administrativa e centralizada, bem como as diferentes formas do serviço de Estado assumido por proprietários oficiais de seu encargo, por comissários ou por funcionários ligados ao soberano por vínculos de natureza diferente. Malgrado a ação enérgica dos comissários, portadores da vontade do rei nas províncias, o Estado do Antigo Regime não podia mobilizar facilmente todos os recursos do país. Jean Meyer lembrou a fórmula paradoxal de Montesquieu: “O rei não pode tudo o que pode”.

Já vimos o rei recorrer ao empreendimento militar para mobilizar tropas. E recorre também para a manutenção e o equipamento de seus exércitos, por que a administração exige estruturas, pelo menos dos controles que se revelam ainda pouco eficazes em definitivo. Os gravames sociais e econômicos, bem como a fraquezas do aparelho do Estado, limitam sua ação. Ao contrário, essas fraquezas se transformam em forças de resistência em caso de invasão por um adversário que também não pode fazer tudo o que pode. Com efeito, o Estado no século XVII, incapaz de extrair rapidamente do país tudo o que é necessário para fazer a guerra, deixa muitos recursos potenciais aos quais poderia recorrer eventualmente. Em geral, sua situação financeira não lhe deixa folga. A lentidão, ou o caráter episódico das operações faz com que o sentimento nacional, se manifeste. Por sua vez, a ocupação das províncias inimigas é trabalhosa quando as populações reagem, ainda mais quando a deficiência das comunicações é um obstáculo quando se está longe das bases. Há um momento em que a guerra não alimenta mais a guerra. Daí o prolongamento de conflitos que acabam com a paz resultante do cansaço”. (p.178-179)

A instauração das monarquias feudais resultou da concentração das forças régias em torno dos suseranos e, depois, em torno do suserano supremo, que era o rei. Mas as instituições militares da realeza guardaram durante muito tempo o caráter de federação de forças locais, reunidas pelos suseranos que faziam pressão, não somente sobre os senhores feudais, mas também sobre as cidades. Assim, no exército real distinguiam-se os donzéis, combatentes que traziam “recomendação” do rei e que traiam até valetes, e os “bannerets” , que chegavam rodeados de seus vassalos, formando o que na Inglaterra se chamava uma retenue. As cidades teriam de garantir sua defesa e, eventualmente, enviar contingentes selecionados de sula milícia.

Esse sistema só funcionou bem na medida em que o príncipe tinha bastante autoridade e não garantiu a unidade do reino. A Guerra dos Cem Anos e a Guerra das Duas Rosas foram um testemunho disso. Podia muito bem ser utilizado por um partido ou por grandes vassalos para se sublevara contra o rei. Foi ainda o caso, na França, durante as guerras de Religião, as agitações sobre a minoridade de Luís XIII e a Fronda.

O estabelecimento dos períodos de paz, no entanto, fosse pelo desenvolvimento das cidades, como na Itália, fosse pelo progresso da autoridade real, com na França, presenciou, paralelamente , no século XV, o desenvolvimento do mercenarismo, um luxo que os reis de Castela, muito pobres antes da descoberta do ouro da América, não podiam se permitir. Atração crescente das atividades econômicas e recuo da vocação militar no seio dos súditos, preocupação dos soberanos com a liberação do sistema feudal, cada vez mais ineficaz e até perigoso, e com a manutenção de exércitos fortes, concorreram para o emprego de homens pagos por soldos, daí o nome de soldado. (...).  A mobilização de tropas para o príncipe transformou-se numa empresa”. (p.238-239).


Fonte: CORVISIER, André. A Guerra: ensaios históricos. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1999.

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

4a TURMA NO MUSAL





Esta é a 4ª Turma do Curso de pós-Graduação em História Militar Brasileira da UNIRIO / Instituto de Geografia e História Militar do Brasil por ocasião da visita ao Museu Aeroespacial da Força Aérea Brasileira, no Rio de Janeiro.
 
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UMA NOVA HISTÓRIA MILITAR


Hoje, 27 de fevereiro de 2009, inicio este blog, dedicado ao estudo e à pesquisa de assuntos relativos à História Militar Geral e à História Militar Brasileira.

Mas, afinal, o que é História Militar? Seria um ramo da História Política? Seria micro-história? Na verdade, o conceito atual de História Militar é compreendido como o estudo do fato histórico de tudo que diz respeito ao fenômeno GUERRA, em seus aspectos políticos, econômicos, sociais e até militares.

Não se trata apenas do estudo da batalha, elaborado por militares para leitores militares. A nova História Militar é muito mais abrangente e pretende estabelecer um link entre o meio militar e o meio acadêmico no Brasil - fato comum na Europa e nos EUA desde a primeira metade do século passado -, do qual certamente resultará um benefício para ambas as partes.

A proposta de estudo consiste na produção do conhecimento do fato histórico relacionado com a GUERRA de uma maneira científica, baseada na Teoria da História e na Metodologia de Pesquisa Científica.

Para clarear ainda mais o tema, iniciamos o Blog com o excelente artigo elaborado pelo Prof. Dr. Paulo André Leira Parente, da UNIRIO, UGF e IGHMB, o qual apresenta a visão dessa NOVA HISTÓRIA MILITAR e suas possibilidades.


 
UMA NOVA HISTÓRIA MILITAR?
ABORDAGENS E CAMPOS DE INVESTIGAÇÃO

Prof. Dr. Paulo André Leira Parente (UNIRIO – UGF - IGHMB)


I. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
 
Nosso objetivo é apontar os novos campos e objetos de investigação da história construídos a partir do conceito de Nova História Social, que podem contribuir para uma ampliação da investigação na área da História Militar. São campos explorados nos últimos anos pela ciência histórica que alcançaram resultados positivos na compreensão do passado. Por isso, entendemos que a identificação de tais campos de pesquisa amplia e enriquece a produção historiográfica da História Militar. Destacadamente, nossa contribuição pretende fornecer subsídios para um diálogo entre historiadores de tradição militar e seus congêneres oriundos da tradição acadêmica, que, a nosso ver, deve ser pautado por procedimentos metodológicos de acordo com a nova metodologia científica aplicada a ciência histórica.

Não cabe neste espaço, nem é nosso objetivo no momento, realizar uma interpretação historiográfica valorativa ou teórica da produção dos historiadores sobre a História Militar Brasileira. Não nos cabe julgar esta produção. Entretanto, podemos apontar para a renovação da investigação da História Militar no Brasil expressa através de grupos de pesquisa, publicações especializadas, coleções em importantes editoras das forças armadas e centros de memória e documentação que, em esforços individuais e institucionais, progressivamente ampliam a divulgação de novas formas científicas de compreensão do passado. O interesse atual pelos estudos relacionados a História Militar transcende as próprias instituições militares.

Sob um ponto de vista metodológico da Nova História é necessário identificar a diferente valoração assumida pelos fenômenos históricos de natureza militar nas diferentes culturas, que se tornam objeto de estudo do historiador militar. Devemos entender a Guerra como uma estrutura histórica dinâmica no tempo das civilizações, como outras estruturas históricas de investigação definidas pelos historiadores, tais como a economia, a cultura, a religião, o direito, dentre outras. Assim, a noção de História e o conceito de Guerra não são os mesmos em todas as culturas e muito menos não são auto-evidentes aos historiadores. Portanto, o historiador da nova história militar não deve trabalhar o conceito de Guerra como um conceito absoluto, mas sim, como um conceito histórico relativo e instrumental pautado por uma metodologia específica.

Os conflitos armados apresentam um peso relativo nos temas militares conforme as correntes historiográficas, ou seja, o tema da História Batalha não é necessariamente um ponto de chegada analítico da história militar. Pode e deve, inclusivamente, ser o seu ponto de partida. Entretanto, nem sempre está presente nos trabalhos e pesquisas da nova história militar e nem por isso deixamos de ter uma História Militar metodologicamente construída.

As concepções científicas da história assumiram diversas facetas em sua estrutura metodológica, influenciando desta maneira os temas militares. Assim, a história militar não é um ente próprio dotado de autonomia científica em relação à Teoria e a Metodologia da História. A história militar foi construída a partir de pressupostos próprios da ciência histórica, dentre outros pressupostos científicos, da mesma forma que diversos temas do saber histórico dotados de um campo de investigação definido, dentre os quais podemos apontar: a história econômica, a história do direito e das instituições, a história administrativa, a história da ciência e da tecnologia e seus diversos desdobramentos - a história da medicina, a história das doenças, a história da farmacopéia, a história da química ou da alquimia, a história do automóvel, a história do avião e a história do trem.

Dessa forma, em sua construção metodológica, a história ao se apresentar como crônica, descrição ou apologia, correspondeu à história militar se apresentar também como crônica, descrição ou apologia militar. Entretanto, esta não é necessariamente sua natureza como saber histórico, mas sim, uma de suas manifestações metodológicas e historiográficas.

Optar pela problemática da investigação histórica sobre a Guerra não implica, portanto, necessariamente em produzir uma História Tradicional, descritiva e valorativa. A metodologia da história atualmente permite ampliar sua compreensão além das fronteiras da História Batalha e dos fenômenos políticos identificados com as Batalhas. As novas metodologias desenvolvidas na ciência histórica recente permitem alcançar as múltiplas interfaces da História Militar, tais como a social, institucional, cultural, econômica, tecnológica, religiosa, sociológica ou política, dentre tantas outras.


II. ASPECTOS DO CONCEITO DE GUERRA NA TRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA OCIDENTAL.
 
Na Grécia Antiga a concepção da história estava baseada na noção de um tempo com movimento circular, cíclico, dotado de fases definidas expressas nas formas de governo que regiam os destinos da cidade. A direção do tempo manifestava-se no sentido rigoroso das origens para a decadência, repetidas vezes, dentro de um Eterno Retorno degenerativo. Na historiografia grega antiga, destacadamente em Tucídides, Xenofonte e Políbio, a Guerra assumiu um papel primordial, pois determinava o ponto de inflexão entre o apogeu ou decadência de uma fase para outra nas mudanças temporais que atingiam os homens e suas cidades. O conhecimento das guerras e seus desdobramentos interessavam não apenas aos estrategos, mas também aos políticos e aos homens que participavam das decisões relativas à cidade. Conhecendo as guerras antigas e suas manifestações poderiam decidir com maior precisão sobre os problemas da cidade.

Na tradição romana, a historiografia concedeu um lugar privilegiado aos fenômenos militares, pois estes haviam conduzido a cidade à sua grandeza, a dominação do mundo mediterrâneo e ao Império. A historiografia romana elaborada por Tito Lívio, Júlio César, Suetônio, Plutarco, Tácito e a própria História Augusta, definiram uma visão triunfalista e patriótica da Guerra como uma ação inerente à grandeza do povo romano, sua ação temporal e dominação sobre outros povos, inclusive os gregos.

A cultura Medieval, por sua vez, relacionou os fenômenos militares com a insegurança geral promovida pelas invasões da Europa, entre os séculos VI e XI. Após a passagem do milênio a ideologia medieval subordinou a Guerra à perspectiva bíblica do Apocalipse e ao providencialismo cristão e a identificou como um castigo divino, conforme observamos em Gregório de Tours e Joinville. Além disso, reservou a sua participação à nobreza, como um privilégio de ordem e condição da hierarquia social. Entre os séculos XIII e XVI, acompanhando o processo de formação das monarquias nacionais, surgiram as diversas crônicas gerais das monarquias, das nações e dos reinos, que privilegiaram os conflitos militares em sua formação e consolidação: a vitória nas guerras fazia surgir ou desaparecer as monarquias nacionais. A Guerra de natureza senhorial, expressa na convocação das hostes feudais, transformou-se num fenômeno que ligava o Rei a senhores da guerra em um vínculo particular, a Guerra por contrato.

Entre o Renascimento e o Iluminismo, na conjuntura de consolidação do Estado Nacional Absoluto e do Desencravamento Planetário, as Guerras entre os Estados, as Guerras Civis e as Guerras Coloniais se constituíram como tópicos diferenciados da reflexão historiográfica.

A instância militar no contexto do Estado Absoluto se torna uma função privilegiada pelos monarcas, assim como, também, a Fazenda Pública e o Fisco. Nesse contexto, a valorização da Antigüidade Clássica fez surgir a admiração pelos modelos militares greco-romanos, tais como o enaltecimento do arquétipo dos grandes generais – Temístocles, Alexandre, Júlio César, Marco Antônio – ou, por outro lado hierárquico, a apologia do legionário romano como o modelo do soldado ideal. A Antigüidade Clássica tornou-se uma matriz universal da experiência militar e propositalmente delimito o tema a Guerra, pois se tornou também uma matriz universal em outros aspectos culturais. As Guerras antigas serviriam como um modelo para se deduzir o conhecimento para as Guerras Modernas a partir do estudo científico e histórico de suas táticas e estratégias. Assim, a Guerra é uma categoria relativa da história e não pode ser tratada de forma linear, pois foi percebida de maneira variada nas culturas - e aqui destacamos sucintamente apenas a tradição ocidental. O conceito analítico não pode ser confundido como um conceito absoluto.

Ao longo do século XIX as historiografias Erudita, Positivista e Evolucionista - em suas vertentes variadas - valorizaram a Guerra no contexto dos grandes temas da história política: o Estado, a formação do território, o estabelecimento das fronteiras, as relações entre os Estados, etc. Os acontecimentos militares foram estudados de maneira científica (investigação metódica) e valorizados na medida em que reforçavam ou anulavam as características determinantes do Estado, seu crescimento, apogeu e declínio. Os dois principais modelos historiográficos da História Militar foram elaborados por Clausewitz e Ranke. Destacamos dois grandes temas da historiografia que foram construídos neste contexto intelectual e que ainda se manifestam nos estudos militares atuais:

· A História Batalha: formada a partir da busca de uma descrição precisa e de uma análise detalhada dos eventos militares propriamente ditos cujo modelo é, ainda, a batalha de Waterloo.

· A História Militar: no contexto da História Política como explicação privilegiada e muitas vezes definitiva, o que pode remeter para a própria História Batalha em suas análises finais.

Estas vertentes historiográficas foram elaboradas a partir de uma metodologia científica própria do século XIX, mas, também, a partir do campo da Memória conforme observamos na determinação de Lugares da Memória – Campos de Batalha, Pantheon de Heróis da Pátria, praças e monumentos comemorativos de batalhas ou de seus personagens.

A história militar foi influenciada ainda pelas vertentes historiográficas cientificistas preocupadas em encontrar as Leis Sociais do desenvolvimento histórico conforme os métodos definidos nas ciências naturais. Em suas doutrinas, positivistas e evolucionistas concordavam no aspecto de que a Guerra era um resquício bárbaro das Sociedades Militares,que seriam gradativamente substituídas pelas Sociedades Industriais ou Positivas, cujo principal requisito de existência seria a paz.

Comte e Littré consideravam a Guerra como uma característica das etapas anteriores da história: a Teológica e a Metafísica. Esta última preparatória da fase Científica ou Positiva, que lhe sucederia, na qual as grandes nações territoriais seriam substituídas por pequenas pátrias cuja segurança estaria entregue ao encargo de polícias locais sem a necessidade de existência de exércitos.
Ao longo do século XX o desenvolvimento de novas vertentes da história, tais como a História econômica, a história social e a história das mentalidades, tornou a história política e conseqüentemente a história militar, um campo desprezado pelas pesquisas históricas.

O estudo dos eventos militares ficou restrito ao campo da ciência política e da sociologia, conforme destacamos nos trabalhos de Gaston Bouthoul e Raymond Aron. A crítica contundente promovida pelo Grupo de Annales à História Política – generalizada como uma história “fatual, tradicional, positivista e reacionária”, atingiu também a história militar e relegou ambas a um descrédito injusto por parte das academias e universidades. Este descrédito somente agora começou a ser revertido.


III. PROPOSTAS METODOLÓGICAS E NOVOS CAMPOS DE INVESTIGAÇÃO NA PESQUISA DA HISTÓRIA MILITAR

1. A HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES.

O primeiro nível de objetividade da História das Instituições é o estudo da história interna das instituições. Assim, a história institucional é reconstruída a partir dos aspectos jurídicos formais encontrados em documentos fundadores, reguladores, normativos, disciplinadores e organizadores das instituiçõesem sua estrutura interna. Através destes documentos podemos reconstruir, também, os aspectos ideológicos que nortearam a criação e motivaram a atuação das instituições. Trata-se, portanto, de uma história interna das instituições. Entretanto devemos destacar dois problemas de ordem metodológica:

· O presentismo: ou seja, a importação de modelos teóricos da atualidade na explicação das administrações passadas;

· A redução do enfoque aos estratos superiores das instituições estudadas. Para corrigir este aspecto é preciso entender a Instituição em seu conjunto administrativo, seus vários níveis hierárquicos e seus processos decisórios.

O segundo nível de objetividade da História das Instituições é a Prosopografia. Este é um dos campos mais complexos e fecundos para a pesquisa na História das Instituições. Trata-se do estudo das biografias coletivas dos personagens e das carreiras dos indivíduos que, de alguma forma, se relacionam com a instituição estudada – inclusive de personagens externos que influenciam as instituições. O historiador, entretanto, deve ter cuidado para não criar um confinamento de sua compreensão. Por isso, é importante analisar também aspectos externos a instituição.

Através da Prosopografia o historiador percebe o funcionamento concreto da instituição e não apenas os seus aspectos legais. É possível alcançar o nível da instituição real e transcender a compreensão da instituição legal. Durante a pesquisa deve-se levantar e relacionar os aspectos que unem os personagens envolvidos com a instituição, tais como:
· Origem geográfica, social e familiar;

· Os estudos realizados, a influência educacional (que pode ser percebida através do estudo dos currículos), filosófica, ideológica e religiosa;

· A experiência administrativa, militar, as atividades anexas ou independentes, o desempenho nos cargos ocupados, a carreira anterior e posterior – se existir;

· As relações familiares, o compadrio, o clientelismo e a proteção: relacionar a esfera do público com o privado no âmbito das instituições;

· A inserção em redes políticas, econômicas e intelectuais: estudo dos grupos dentro das instituições, tais como, grêmios, irmandades, confrarias e associações, ou seja, a multiplicidade dos agentes sociais no âmbito da instituição;

· Os conflitos decorrentes da própria presença ou atuação das instituições com grupos sócio-profissionais locais, estruturas políticas, redes de poder, etc.;

· O intercâmbio entre as instituições: é necessário pesquisar as trocas de serviços, as trocas políticas e profissionais trazendo os indivíduos para o primeiro plano e compreender as relações orgânicas entre as instituições;

· Integrar os documentos normativos de natureza legal e institucional com a prática promovida nas instituições e desvelar suas instâncias decisórias e seus mecanismos de poder;
· O estudo das relações institucionais entre as forças armadas e as instituições militares (Forças Armadas em sua relação com as Forças Armadas);

· Criar modelos integrados de explicação e conceitos novos, conforme sugerido por Max Weber e outros, por exemplo, a polissemia da palavra Guerra – guerra clássica, guerrilha, guerra química e biológica, guerra civil, guerra econômica, guerra naval, guerra popular, guerra santa ou messiânica, guerra ideológica, guerra fria.


2. A APROXIMAÇÃO ENTRE A HISTÓRIA SOCIAL E A HISTÓRIA MILITAR

O desenvolvimento das metodologias da história social somada a sua própria capacidade de promover a interdisciplinaridade com outros ramos das ciências sociais e humanas criam no encontro da História Social com a História Militar um dos campos mais fecundos da historiografia atual. A categoria História Militar em seus desdobramentos é entendida a partir de uma rede complexa de estruturas sociais, o que permite compreender a inserção das instituições militares e dos fenômenos militares nas sociedades historicamente constituídas. Assim, podemos indicar como campos de estudo que estão amparados na atual metodologia da História Social:

· O estudo das Forças Armadas a partir de sua presença e atuação regional, destacadamente de sua inserção na vida quotidiana ao longo da história. Pouco se conhece sobre a atuação das Forças Armadas no âmbito de uma História Social e Regional (Ex. atuação da FAB na Amazônia, atuação do Correio Aéreo Nacional, importância da Base de Natal para a população, inclusive após a II Guerra Mundial, etc.);

· O estudo das formas de recrutamento ou engajamento – forçado, sorteio, obrigatório, voluntariado – em suas ideologias e motivações, nos grupos sociais, étnicos, econômicos ou regionais que atingiu. Ou o contrário do recrutamento, o seu oposto simétrico, a deserção, tema sobre o qual pouco se conhece na História Militar, não apenas a brasileira;

· O estudo da História Social de Gênero nas Forças Armadas: escravos, negros, mulatos, crianças, mulheres, etc., em sua atuação e relações sociais;

· A pesquisa da origem social ou sócio-econômica das diversas hierarquias nas Forças Armadas em sua relação com a formação pedagógica e atuação (profissional, política, social, ideológica) dos grupos militares: soldados, suboficiais, oficiais e oficiais superiores;

· As relações entre guerra e sociedade: a pesquisa das experiências pessoais dos soldados e sua vida quotidiana em tempos de paz ou durante as experiências de combate, a inserção social dos expedicionários das tropas brasileiras após o término da II Guerra Mundial;

· Os processos de formação da mentalidade militar em diferentes momentos da história e sua relação com a atuação política dos altos oficiais (ou ausência de atuação) que desempenharam papel de destaque em diversos eventos da História do Brasil: abolicionismo, proclamação da República, Revolução de 30, Revolução Constitucionalista de 1932, crises políticas do período populista, etc;

· A pesquisa dos Arquivos estaduais referentes à Força, Arma, Guarnição ou Instituição estudada;

· Estudo dos Conselhos de Guerra, para o exército e a marinha, das cortes marciais e do próprio Direito Militar, para as Forças Armadas como um todo. Portanto, o estudo da cultura legal e judicial na esfera militar e suas interfaces: os códigos do direito militar, códigos de ética ou conduta. Ou seja, é preciso conhecer a evolução dos critérios e valores da ética militar.


3. A HISTÓRIA E A MEMÓRIA MILITAR

· A formação da memória militar e suas relações com a memória coletiva, a memória social e a memória nacional;

· O estudo das Comemorações, feriados e efemérides militares;

· Estudo do significado das condecorações, emblemas, brasões, códigos de cores, sinais, gestos e símbolos;

· A presença da memória militar incorporada na memória nacional: seus símbolos, os personagens e vultos presentes nos dinheiros, moedas, selos, etc;

· O estudo das canções militares, cantigas da caserna, músicas e canções de trabalho, treinamento, combate, canções que se referem às forças militares em postura crítica ou de enaltecimento, etc. É possível através das canções caracterizar os valores, crenças, significado, objetivos, ideologias, etc.

· O estudo da construção dos vultos militares em sua perspectiva ideológica: os vultos fundadores das armas, tradições, instituições, etc;

· O estudo dos Lugares da Memória e seus significados ideológicos: Pantheon, Mausoléus, praças, monumentos, campos de batalha, etc.: destacar os valores que são enaltecidos e suas características;

· O oposto da Memória: o esquecimento, os tabus, o que não é dito.


4. A HISTÓRIA DAS IDÉIAS E A HISTÓRIA MILITAR

· Relacionar os níveis da história militar com as idéias em um determinado contexto histórico;

· O estudo da aviação militar nas diversas forças: aviação naval, aviação do exercito e aeronáutica;

· O impacto das novas tecnologias aeronáuticas nas forças armadas, nas doutrinas militares, nos processos de formação educacional, profissional e hierárquico;

· O estudo do pensamento aeronáutico e aeroespacial (papel preponderante do poder aéreo no contexto da Guerra fria em diante).

Os estudos históricos podem ser ampliados em seu campo de investigação através da incorporação da Guerra como uma estrutura histórica da tradição ocidental. Ou seja, a Guerra como constitutiva dos estados ocidentais antigos e medievais, como uma instância privilegiada dos estados modernos estamentais e como um componente fundamental das burocracias dos estados contemporâneos.

É necessário que os estudos históricos valorizem a Guerra em seus aspectos relacionados diretamente com outras estruturas históricas, como por exemplo: a Guerra e a cultura, a sociedade, a religião, a política, etc. Por outro lado, a investigação histórica deve incorporar em sua análise os diversos conceitos utilizados na ciência da Guerra, tais como identificamos nos estudos de estratégia (Liderança, Comando, etc.).

Os estudos produzidos no campo de investigação da História Militar devem estar atentos aos novos métodos e procedimentos de investigação surgidos nas ciências sociais. É importante buscar a incorporação de tais métodos e renovar constantemente o campo de investigação da História Militar.


BIBLIOGRAFIA:
 
BURKE, Peter. História e Teoria Social. SP: Unesp, 2002.
CORVISIER, André. A Guerra. RJ: Bibliex, 1999.
GIRARDET, Raoul.A Sociedade Militar. RJ: Bibliex, 2000.
LEGOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1996.
WEBER, Max. Metodologia das Ciências Sociais. SP: Cortez, 1992.
WEHLING, Arno. A Invenção da História. Estudos Sobre o Historicismo. RJ: Editoria Central da UGF e Editora da UFF, 1994.
______ . A Pesquisa da História Militar Brasileira. In: Revista da Cultura, RJ, Ano I, N° 1, Janeiro a Junho de 2001.