"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



sexta-feira, 21 de junho de 2019

IMAGEM DO DIA - 21/6/2019

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Tropas gregas defendem-se contra uma carga de cavalaria otomana durante a Batalha de Velestino, por ocasião da Guerra Turco-Grega de 1897 



segunda-feira, 17 de junho de 2019

REBELIÃO DOS MARINHEIROS DE KRONSTADT (1921)

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No dia 2 de março de 1921, 300 representantes de estaleiros e marinheiros da cidade russa de Kronstadt, no Mar Báltico, elegeram um Comitê Revolucionário Provisório.


Por Roselaine Wandscheer


Os marinheiros da cidade portuária de Kronstadt, no Mar Báltico, haviam se rebelado no final de 1917. A frota bloqueara a foz do Rio Neva, quando o cruzador Aurora deu o sinal para começar a histórica Revolução de Outubro.

A historiadora alemã Jutta Petersdorf dedicou-se intensamente ao estudo da história russa. Ela conta que os marinheiros de Kronstadt desempenharam papel muito importante do começo ao fim da revolução. O próprio Leon Trotski reconheceu este fato.


Retrocesso na Rússia

O povo russo continuava sofrendo mesmo depois da queda dos czares. A União Soviética de então estava literalmente arrasada pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e pela Guerra Civil (1918-1921). Fome e epidemias grassavam por toda parte, indústria e transportes estavam profundamente debilitados. Alguns setores apresentavam índices equivalentes aos de fins do século XVIII.

Havia greves, a agricultura estava paralisada, à espera de definições políticas, o descontentamento agitava a população urbana e provocava revoltas no campo. Protestos públicos eram punidos com prisão sumária.

Os comunistas governavam com mão de ferro. Quem parasse de trabalhar, podia ser condenado à morte. Esta efervescência provocou a insurreição dos marinheiros de Kronstadt contra os bolcheviques. No dia 2 de março de 1921, 300 representantes dos estaleiros daquela cidade portuária elegeram um Comitê Revolucionário Provisório. Os marinheiros entendiam-se responsáveis pelo regime, criticavam a inflação de poder do partido e queriam o retorno dos sovietes às suas origens.


"Somos invencíveis!"

Os sovietes eram os conselhos integrados por operários, camponeses e soldados. Eles apareceram pela primeira vez na Rússia em 1905. Com a revolução de 1917, passaram a ser órgão deliberativo no país. Mas Vladimir Lênin e Trotski viam nos amotinados apenas contrarrevolucionários, e não os apoiaram. Em 5 de março, Trotski enviou uma advertência aos rebelados para que encerrassem seu protesto. Caso contrário, "seriam caçados como coelhos".

Cartaz de mobilização dos marinheiros rebelados em Kronstadt


Como os marinheiros mantiveram suas reivindicações, dois dias mais tarde começou a invasão de Kronstadt pelo Exército Vermelho. Protegidos como numa fortaleza, os amotinados conseguiram defender-se e enviaram a seguinte mensagem a 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

"Da Kronstadt libertada para todas as operárias do mundo: estamos aqui em meio aos estrondos dos canhões, em meio às granadas explodindo, jogadas pelos comunistas, inimigos do povo trabalhador! Mesmo assim, enviamos fraternas congratulações a vocês, operárias de todo o mundo. Saudações da Kronstadt vermelha rebelada, do império da liberdade. Que nossos inimigos se atrevam a nos destruir. Somos fortes. Somos invencíveis!"


Rápida derrota

A invencibilidade durou apenas dez dias. Com o apoio de voluntários que participavam da 10ª Convenção do Partido Comunista, as tropas russas conseguiram conquistar a fortaleza de Kronstadt em 18 de março de 1921.

Tropas do Exército Vermelho atacam os marinheiros em Kronstadt


Uma parte dos amotinados foi executada, outra enviada para prisões afastadas, nas temidas ilhas Solofki, no Mar Branco, ao norte da atual Federação Russa; 8 mil rebelados conseguiram fugir de Kronstadt pelas águas geladas do Mar Báltico. Estava debelado, assim, um dos primeiros movimentos políticos na União Soviética.


Fonte: DW


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quarta-feira, 5 de junho de 2019

A MARINHA DO BRASIL BLOQUEIA O PORTO DE SANTOS

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Uma das primeiras reações do Governo Provisório contra o movimento de 1932, deflagrado em São Paulo, foi o bloqueio do litoral paulista e do porto de Santos pela Marinha do Brasil


Com a finalidade de conter e limitar o movimento revolucionário, de acordo com a doutrina estratégica da época, partiram do porto do Rio de Janeiro, entre os dias 10 e 11, o cruzador Rio Grande do Sul e os contratorpedeiros Mato Grosso, Pará e Sergipe, com a missão de bloquear o porto de Santos e controlar o litoral paulista. 

O cruzador "Rio Grande do Sul" foi uma das belonaves mobilizadas para bloquear o porto de Santos.


Para prover a esquadra de apoio aéreo, a Aviação Naval enviou três Savoia-Marchetti S.55A – matrículas nº 1, 4 e 8, comandados, respectivamente, pelo Capitão-de-Fragata Antônio Augusto Schorcht, pelo Capitão-de-Corveta Epaminondas Santos e pelo Capitão-Tenente Bráulio Gouvêa – e dois Martin PM, matrículas nº 111 e 112, sob o comando respectivo dos Capitães-Tenentes Ismar Brasil e Reynaldo de Carvalho.  As aeronaves, procedentes do Galeão, foram baseadas provisoriamente nas enseadas da Ilha de São Sebastião, próximo ao vilarejo de Vila Bela.   

Aeronaves Savoia-Marchetti da Aviação Naval também auxiliaram no controle do litoral de São Paulo.

A Marinha também tinha a intenção de enviar alguns Vought O2U-2A Corsair para Vila Bela, mas a Aviação Naval não confiava muito nos seus flutuadores operando a partir das enseadas da ilha.  Decidiu-se, então, melhorar a pequena e precária pista de pouso próxima ao vilarejo, para que os aviões pudessem operar com trem de pouso a partir de terra firme.  

O porto de Santos na década de 1930.


Detalhe de mapa desenhado por José Washt Rodrigues mostrando o bloqueio ao litoral paulista.


Quer saber mais sobre essa e outras histórias? Leia

UM CÉU CINZENTO: A AVIAÇÃO NA REVOLUÇÃO DE 1932

Garanta já o seu exemplar.



terça-feira, 4 de junho de 2019

MUSEU MILITAR DO COMANDO MILITAR DO SUL COMPLETA 20 ANOS

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Caros amigos do Blog Carlos Daróz-História Militar de POA e região, o Museu Militar do Comando Militar do Sul está completando sua segunda década de funcionamento.

Para você que curte História Militar, compareça na festa de aniversário e conheça o riquíssimo acervo desse modelar equipamento museológico e turístico da capital gaúcha.


Algumas das viaturas blindadas pertencentes ao acervo do museu


sexta-feira, 31 de maio de 2019

RELAÇÕES MILITARES BRASIL-EUA 1939/1943 - NOVA OBRA NO MERCADO

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Já se encontra disponível para a venda o novo livro do pesquisador Giovanni Latfalla, que trata das complexas relações entre Brasil e EUA nos anos que antecederam o envio de a Força Expedicionária Brasileira para combater nos campos de batalha da Itália, durante a Segunda Guerra Mundial.


O livro

Relações militares Brasil-Estados Unidos 1939/1943
Política, História, Relações Internacionais, Giovanni Latfalla

Hoje, passados mais de setenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial, é possível acrescentar alguns pontos esclarecedores a respeito das negociações militares do Brasil com os EUA entre os anos de 1939 e 1943, antes e depois do rompimento de relações com o Eixo, um assunto ainda com lacunas a serem preenchidas pelos pesquisadores do assunto.

A presente obra é relativa as negociações militares entre o Exército Brasileiro e autoridades militares dos Estados Unidos visando uma cooperação na defesa do hemisfério ocidental, no período anterior e posterior ao rompimento das relações diplomáticas do Brasil com as nações do Eixo, ocorrido em janeiro de 1942. Durante esta fase os entendimentos entre as duas nações não transcorreram serenamente, pois, ambos possuíam interesses e objetivos diferentes. As negociações foram tensas e eivadas de desconfianças, principalmente por parte dos norte-americanos que acreditavam que muitas autoridades brasileiras, inclusive militares, eram simpatizantes do nazismo e possuíam uma má vontade em aliar-se a eles. Esta obra demonstra que o Brasil nunca planejou uma aliança com o Eixo, e sim, sempre procurou uma aliança com os EUA, sem, contudo, colocar a soberania brasileira em xeque.


O autor

Giovanni Latfalla Possui graduação em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Carangola; graduação em Direito pela Faculdade de Direito de Cachoeiro de Itapemirim; mestrado em História pela Universidade Severino Sombra; e doutorado em Ciência Política pelo IUPERJ. 


Como adquirir

Diretamente com o autor via facebook (Giovanni Latfalla) ou pela página da Editora Gramma.



quarta-feira, 29 de maio de 2019

IMAGEM DO DIA - 29/5/2019

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Cavalaria romana enfrentando guerreiros celtas durante a Batalha de Talamone (225 a.C.) 

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sexta-feira, 24 de maio de 2019

BATALHA DE NOVARA (1849)

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A Batalha de Novara foi uma das batalhas travadas entre o Império Austríaco e o Reino da Sardenha durante a Primeira Guerra de Independência Italiana, dentro da era da unificação italiana. Com duração de todo o dia de 22 de março de 1849 e terminando na madrugada do dia 23 de março, resultou em uma severa derrota e retirada do exército piemontês (Sardenha).

Um armistício desconfortável feito em 1848 entre a Áustria e Sardenha durou menos de sete meses, antes de Carlos Alberto, rei da Sardenha, denunciar a trégua em 12 de março de 1849. O exército austríaco tomou a iniciativa militar na Lombardia, sob o comando do marechal Joseph Radetzky von Radetz, que tomou a cidade fortaleza de Mortara.

A captura de Mortara levou a uma batalha entre as tropas austríacas e piemonteses em Novara, 45 km a oeste do Milão, onde 70.000 soldados austríacos, mais disciplinados do que os 85.000 piemonteses, derrotaram o seu adversário, como ocorrera na batalha de Custoza do ano anterior. Piemonte também sofreu com a falta de apoio dos estados menores italianos. General Girolamo Ramorino foi acusado de desobedecer ordens antes da Batalha de Novara, e, no mesmo ano, foi executado.

Acusado de desobedecer ordens, o General Girolamo Ramorino foi executado

Os piemonteses foram levados de volta para Borgomanero, nos Alpes, e as forças austríacas ocuparam Novara, Vercelli e Trino, com a estrada para a capital de Piemonte, em Turim.

O General austríaco Barão Julius Jacob von Haynau subjugou Bréscia, a 87 km de Milão, e Carlos Alberto abdicou em favor de seu filho Vítor Emanuel, que mais tarde se tornaria o primeiro rei de uma Itália unificada. Friedrich Engels escreveu "que, após esta derrota, uma revolução e proclamação de uma república em Turim seria esperada, decorrente do fato de que a tentativa estava sendo feita para evitar a abdicação de Carlos Alberto, em favor de seu filho mais velho." 

Reencenação da Batalha de Novara

A República Piemontesa não foi criada, embora a República Romana já tivesse sido proclamada em fevereiro, e existisse uma República de Veneza também. Carlos Alberto se exilou no Porto, em Portugal, onde morreu pouco depois.


sábado, 11 de maio de 2019

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR - BERNARD DE SAXE-WEIMAR

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Bernard, Duque de Saxe-Weimar, foi um general protestante durante a Guerra dos Trinta Anos.

* 16/8/1604 - Weimar, Alemanha

+ 18/7/1639 - Neuenburg am Rhein, Alemanha


Tendo começado sua carreira muito jovem, no início do conflito, sofreu junto com as forças protestantes as primeiras derrotas contra as forças do imperador do Sacro Império Romano Germânico.

Sua fama teve início após a entrada da Suécia no conflito, pois Bernard logo conquistou a confiança do rei Gustavo II Adolfo. Distinguiu-se na batalha de Breitenfeld (1931) ao comandar o flanco esquerdo do exército sueco. Na batalha de Lützen, em novembro de 1632, desempenhou um papel ainda mais relevante. Quando, no auge da batalha, o rei sueco foi morto, coube a Bernard realinhar as forças protestantes, deter as tropas de Albrecht von Wallenstein e capturar a artilharia imperial.

Após a morte de Gustavo Adolfo, o campo protestante entrou em nova crise e Bernard, tendo a seu lado o general sueco Horn, foi fragorosamente derrotado na batalha de Nördlingen (1634).

Bernard Saxe-Weimar reunido com seus oficiais


Após aquela derrota, Bernard de Saxe-Weimar, embora sem deixar de combater os imperiais, tornou-se, na prática, um general mercenário. Em 1635 transferiu seu pequeno exército (cerca de 9.000 homens) à França, que acabara de entrar na guerra. Com estas ferozes tropas weimarianas, ele tentaria criar seu próprio domínio territorial, centrado na praça forte de Breisach. Antes que isto fosse possível, contudo, morreu após uma forte febre em 1639.

O príncipe Bernard em sua montaria

Após sua morte, os comandantes mercenários perderam sua influência política, e até militar, durante o absolutismo. Já não se veriam mais homens como Wallenstein, Mansfeld e Saxe-Weimar tentando usar seus exércitos para criar para si novos estados. Já não se veriam mais exércitos mercenários autônomos, mas sim regimentos formados por mercenários e enquadrados aos exércitos nacionais.

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quarta-feira, 8 de maio de 2019

UMA VERDADEIRA "BRUXA DA NOITE" RECEBE O NOSSO LIVRO EM MOSCOU

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Com muito orgulho e honra, eu e Ana Daróz, autores de Bruxas da Noite: as aviadoras soviéticas na Segunda Guerra Mundial, presenteamos com um exemplar do livro Galina Brok-Beltsova, a última das "Bruxas da Noite" viva.

O fato deu-se hoje pela manhã em Moscou, no Museu da Vitória da Grande Guerra Patriótica, em meio às comemorações relativas ao Dia da Vitória na Rússia. Para tal, contamos com a intermediação e colaboração do Consulado Geral da Federação da Rússia no RJ, da Associação Nacional dos Veteranos da FEB e do Comitê de Veteranos de Guerra da Rússia, organizações que nos permitiram prestar essa homenagem à aviadora heroína de guerra.
 
A surpresa e a emoção estampadas no rosto da veterana de 94 anos ao receber o livro
 
A tenente Galina Bork-Beltsova tinha apenas 16 anos de idade quando se alistou voluntariamente para lutar em uma das unidades aéreas criadas por Marina Raskova. Entre 1942 e 1945, voou como navegadora de um bombardeiro de mergulho Petlyakov Pe-2 pertencente ao 125º Regimento de Bombardeio de Guardas, no qual cumpriu 36 missões de combate. Após a guerra, tornou-se doutora em História e chefe do Departamento de História do Instituto de Engenharia de Moscou.

Galina Bork-Beltsova, ainda adolescente, quando combatia os nazistas voando bombardeiros de mergulho.
 

Registro aqui os agradecimentos ao Cônsul Geral da Rússia no Rio de Janeiro, Vladimir Tokmakov, ao diplomata Artem Fomin, ao Prof Israel Blajberg (ANVFEB) e ao coronel aviador Vladimir Bednev (Comitê de Veteranos de Guerra da Rússia) por possibilitarem esse momento único.

Ver a emoção e a surpresa estampados nos olhos da veterana "Bruxa da Noite" de 94 anos ao receber o livro valeu cada minuto dos dois anos e meio consumidos na pesquisa e escrita do nosso "Bruxas". Sem dúvida, hoje foi um grande dia para nós, autores.

Muito orgulho envolvido.


terça-feira, 7 de maio de 2019

ÁRABES E CHINESES VÃO À GUERRA – A BATALHA DO RIO TALAS (751)

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Poucas pessoas hoje ouviram falar da Batalha do Rio Talas. Contudo, esta pequena escaramuça entre o exército do Império Tang da China e os árabes abássidas teve consequências importantes, não apenas para a China e a Ásia Central, mas para o mundo inteiro. 


A Ásia do século VIII era um mosaico em constante mudança de diferentes tribos e poderes regionais, lutando por direitos comerciais, poder político e/ou hegemonia religiosa.  A época era caracterizada por um conjunto vertiginoso de batalhas, alianças, cruzamentos e traições.

Na época, ninguém poderia ter sabido que uma batalha em particular, que aconteceu nas margens do rio Talas no atual Quirguistão, iria parar os avanços árabes e chineses na Ásia Central e fixar a fronteira entre a Ásia budista/ confucionista e islâmica.

Nenhum dos combatentes poderia ter previsto que esta batalha seria instrumental na transmissão de uma invenção-chave da China para o mundo ocidental: a arte da fabricação de papel, uma tecnologia que alteraria a história do mundo para sempre.


Antecedentes

Durante algum tempo, o poderoso Império Tang (618-906) e seus predecessores tinham expandido a influência chinesa na Ásia Central. A China usou o “poder suave” em sua maior parte, contando com uma série de acordos comerciais e protetores nominais, em vez de conquistas militares para controlar a Ásia Central. O inimigo mais problemático enfrentado pelos Tang a partir de 640 à frente era o poderoso Império Tibetano, estabelecido por Songtsan Gampo.

O controle do que é agora Xinjiang, China Ocidental, e províncias vizinhas movia-se para frente e para trás entre a China e o Tibet ao longo dos séculos sétimo e oitavo. A China também enfrentou os desafios dos uigures turcos no noroeste, dos turfans indo-europeus e das tribos lao/thai nas fronteiras sul da China.


A ascensão dos árabes

Enquanto os Tang estavam ocupados com todos esses adversários, uma nova superpotência emergia no Oriente Médio. O Profeta Maomé morreu em 632, e os fiéis muçulmanos sob a dinastia Omíada (661-750) logo trouxeram vastas áreas sob seu domínio. Da Espanha e Portugal no Oeste, através do norte da África e do Oriente Médio, para as cidades oásis de Merv, Tashkent e Samarcanda no leste, a conquista árabe se espalhou com velocidade surpreendente. Os interesses da China na Ásia Central voltaram pelo menos até 97 a.C., quando o general Ban Chao da Dinastia Han conduziu um exército de 70 mil homens até Merv (no que é hoje o Turcomenistão ), em busca de tribos de bandidos que saqueavam as primeiras caravanas da Rota da Seda.

A China também há muito tempo cortejava as relações comerciais com o Império Sassânida na Pérsia, bem como com seus antecessores, os partos. Os persas e os chineses haviam colaborado para conter os poderes turcos em ascensão, jogando diferentes líderes tribais uns contra os outros. Além disso, os chineses tinham uma longa história de contatos com o Império Sogdiano, centrado no Uzbequistão moderno.

Guerreiros  do califado abássida


Conflitos antigos entre chineses e árabes

Inevitavelmente, a rápida expansão dos árabes entraria em conflito com os interesses estabelecidos pela China na Ásia Central. Em 651, os omíadas capturaram a capital sassânida de Merv e executaram o rei, Yazdegard III. A partir desta base, eles iriam para conquistar Bukhara, o Vale de Ferghana, e iriam tão longe quanto Kashgar (na fronteira chinesa/quirguiz hoje).

A notícia do destino de Yazdegard foi levada para a capital chinesa de Chang’an (Xian) por seu filho Firuz, que fugiu para a China após a queda de Merv. Firuz tornou-se mais tarde o general de um dos exércitos da China, e então governador de uma região centrada no moderno Zaranj, no Afeganistão. Em 715, o primeiro confronto armado entre as duas potências ocorreu no vale Ferghana do Afeganistão.

Os árabes e os tibetanos depuseram o rei Ikhshid e instalaram um homem chamado Alutar em seu lugar. Ikhshid pediu à China para intervir em seu nome, e os Tang enviaram um exército de 10.000 guerreiros para derrubar Alutar e reintegrar Ikhshid. Dois anos depois, um exército árabe/tibetano sitiou duas cidades da região de Aksu, no que agora é Xinjiang, no oeste da China. Os chineses enviaram um exército de mercenários qarluqs, que derrotaram os árabes e tibetanos que levantaram o cerco. Em 750, o Califado Omíada caiu, derrubado pela dinastía abássida mais agressiva.


Os abássidas

Desde sua primeira capital em Harran, na Turquia, o califado abássida começou a consolidar o poder sobre o vasto império árabe construído pelos omíadas. Uma área de preocupação era as fronteiras orientais – o vale de Ferghana e além.

As forças árabes no leste da Ásia Central com seus aliados tibetanos e uighures eram lideradas pelo brilhante tático, general Ziyad ibn Salih. O exército ocidental da China era chefiado pelo governador-geral Kao Hsien-chih (Go Seong-ji), um comandante coreano étnico  (na época, não era incomum que oficiais estrangeiros ou minoritários comandassem exércitos chineses porque o militarismo era considerado um caminho indesejável para os nobres chineses). Apropriadamente, o choque decisivo no rio Talas foi precipitado por outra disputa em Ferghana.

O general Ziyad ibn Salih

Em 750, o rei de Ferghana teve uma disputa de fronteira com o governante do vizinho Chach. Apelou aos chineses, que lhe enviaram o general Kao para ajudar as tropas de Ferghana. Kao cercou Chach, e ofereceu ao rei Chachan passagem segura para fora de sua capital, mas quebrou a promessa e o decapitou. Em paralelo ao que aconteceu durante a conquista árabe de Merv, em 651, o filho do rei Chachan escapou e relatou o incidente ao governador árabe abássida Abu Muslim em Khorasan.

Abu Muslim reuniu suas tropas em Merv e marchou para se juntar ao exército de Ziyad ibn Salih mais a leste. Os árabes estavam determinados a ensinar ao General Kao uma lição … e, incidentalmente,  afirmar o poder abássida na região.


A Batalha do Rio Talas

Em julho de 751, os exércitos destes dois grandes impérios se encontraram em Talas, perto da moderna fronteira quirguiz/cazaque. Os registros chineses indicam que o exército chinês era de 30.000 combatentes, quando as contas árabes puseram o número de chinês em 100.000. O número total de guerreiros árabes, tibetanos e uigures não é registrado, mas constituíam a maior das duas forças. Durante cinco dias, os poderosos exércitos entraram em confronto.

Quando os turcos qarluqs entraram no lado árabe durante vários dias na luta, a desgraça do exército Tang foi selada. As fontes chinesas implicam que os qarluqs haviam lutado por eles, mas traiçoeiramente trocaram os lados no meio da batalha. Os registros árabes, por outro lado, indicam que os qarluqs já estavam aliados com os abássidas antes do conflito. A conta árabe parece mais provável, uma vez que os qarluqs de repente montaram um ataque surpresa na formação Tang a partir da retaguarda (se as contas chinesas estiverem corretas, os qarluqs não estariam no meio da ação, em vez de subirem por trás? E a surpresa teria sido tão completa, se os qarluqs estivessem lutando lá o tempo todo?).

Forças chinesas enfrentam os árabes


Alguns escritos chineses modernos sobre a batalha ainda exibem um sentimento de indignação com essa traição percebida por um dos povos minoritários do Império Tang. Seja qual for o caso, o ataque de Qarluq assinalou o início do fim do exército de Kao Hsien-chih.

Das dezenas de milhares de homens que Tang enviou para a batalha, apenas uma pequena porcentagem sobreviveu. Kao Hsien-chih foi um do poucos que escaparam. Ele viveria apenas cinco anos a mais, antes de ser julgado e executado por corrupção. Além das dezenas de milhares de chineses mortos, um número foi capturado e levado de volta para Samarcanda (no Uzbequistão moderno) como prisioneiros de guerra.

O Abássidas poderiam ter pressionado sua vantagem, marchando sobre a própria China. No entanto, suas linhas de abastecimento já estavam esticadas até o ponto de ruptura, e enviar uma força tão grande sobre as montanhas do leste do Hindu Kush e para os desertos da China Ocidental estava além de sua capacidade.

Apesar da derrota esmagadora das forças Tang de Kao, a Batalha de Talas foi um empate tático. O avanço dos árabes para o leste foi interrompido, e o turbulento Império Tang voltou sua atenção da Ásia Central para as rebeliões nas suas fronteiras norte e sul.


Consequências

Na época da Batalha de Talas, seu resultado não ficou claro. Relatos chineses mencionam a batalha como parte do começo do fim para a Dinastia Tang. Nesse mesmo ano, a tribo Khitan na Manchúria (norte da China) derrotou as forças imperiais naquela região, e os povos tailandeses/laotianos na atual província de Yunnan, no sul, também se revoltaram. A Revolta An Shi de 755-763, que era mais uma guerra civil do que uma simples revolta, enfraqueceu ainda mais o império.

Em 763, os tibetanos foram capazes de tomar a capital chinesa em Chang’an (agora Xian). Com tanta agitação em casa, os chineses não tinham nem a vontade nem o poder de exercer muita influência além da Bacia do rio Tarim depois de 751. Para os árabes, também, esta batalha marcou um ponto de viragem desapercebido. Os vencedores são supostos como escritores da história, mas neste caso, (apesar da totalidade de sua vitória), não tiveram muito a dizer por algum tempo após o evento.

O historiador muçulmano do século IX al-Tabari (839-923) nem sequer menciona a Batalha do Rio Talas. Não é até meio milênio após a escaramuça que os historiadores árabes tomam nota de Talas, nos escritos de Ibn al-Athir (1160-1233) e al-Dhahabi (1274-1348).

Mapa da região onde ocorreu a batalha.


No entanto, a Batalha de Talas teve consequências importantes. O enfraquecido Império chinês já não estava em posição de interferir na Ásia Central, de modo que a influência dos árabes abássidas cresceu. Alguns estudiosos criticam que muita ênfase é colocada no papel de Talas na “islamização” da Ásia Central.

Certamente é verdade que as tribos turcas e persas da Ásia Central não se converteram imediatamente ao Islã em agosto de 751. Tal façanha de comunicação de massa através dos desertos, montanhas e estepes teria sido totalmente impossível antes das modernas comunicações de massa, até mesmo se os povos da Ásia Central fossem uniformemente receptivos ao Islã.

No entanto, a ausência de qualquer contrapeso à presença árabe permitiu que a influência abássida se espalhasse gradualmente por toda a região. Nos próximos 250 anos, a maioria das antigas tribos budistas, hindus, zoroastrianas e nestorianas da Ásia Central se tornariam muçulmanas.

Os mais significativos de todos, entre os prisioneiros de guerra capturados pelos abássidas após a batalha do rio  Talas, foi um número de artesãos chineses hábeis, incluindo Tou Houan. Através deles, primeiro o mundo árabe e depois o resto da Europa aprenderam a arte da fabricação do papel. (Naquela época, os árabes controlavam a Espanha e Portugal, bem como o Norte da África, o Oriente Médio e grandes áreas da Ásia Central).

Em breve, as fábricas de papel surgiriam em Samarcanda, Bagdá, Damasco, Cairo, Delhi … e em 1120 a primeira fábrica de papel europeia foi estabelecida em Xativa, Espanha (agora chamada Valencia). A partir dessas cidades dominadas pelos árabes, a tecnologia se espalhou para a Itália, Alemanha e toda a Europa.

O advento da tecnologia do papel, juntamente com a impressão em madeira e mais tarde a impressão de tipo móvel, alimentou os avanços da ciência, da teologia e da história da Alta Idade Média da Europa, que terminou apenas com a vinda da Peste Negra na década de 1340.

Fonte: Iqara Islam

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quarta-feira, 1 de maio de 2019

"BRUXAS DA NOITE" NA CÂMARA MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO

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A obra que trata da atuação das aviadoras soviéticas terá apresentação por ocasião das comemorações dos 74 da vitória sobre o nazismo na Segunda Guerra Mundial.
 

O Consulado Geral da Federação da Rússia no Rio de Janeiro tem a honra de convidar para a Solenidade de Celebração dos 74 anos do Vitória na Segunda Guerra Mundial, que terá lugar na Câmara Municipal do Rio de Janeiro em 6 de maio às 18:30.
 
No âmbito da Solenidade ocorrerá a apresentação do livro "Bruxas da Noite: as aviadoras soviéticas na Segunda Guerra Mundial" feita pelo autor brasileiro, historiador militar, escritor e professor Carlos Daróz.
 
A obra, escrita em coautoria com Ana Daróz, estuda a participação da mulher na guerra e aborda, particularmente, a fantástica e inédita experiência das corajosas jovens aviadoras soviéticas na luta contra o Nazismo, que deixou seu legado até os dias de hoje.

 
Data: 6 de maio de 2019
Horário: 18:30
Local: Plenário principal da Câmara Municipal do Rio de Janeiro (Praça Marechal Floriano s/nº - Cinelândia)

 
Caso tenha interesse em participar do evento, favor confirmar a presença até 4 de maio, pelo e-mail: consrio@yandrex.ru


Realização:



    

sábado, 20 de abril de 2019

OS TRENS BLINDADOS SOVIÉTICOS

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Há quase um século, centenas de trens militares blindados estiveram enfileirados pelas extensões do território russo, simbolizando a Guerra Civil que assolava o país.

Por Alexandr Korolkov


Com a rede ferroviária definindo o cenário de hostilidades e impulso das principais ofensivas, a Guerra Civil também chegou para estimular esse veículo militar pouco comum. A União Soviética mais tarde assumiu a liderança no desenvolvimento dos trens blindados, que ainda permanecem em serviço no Exército russo.

“Nós somos pessoas de paz, mas o nosso trem blindado está pronto na trincheira...”, dizia uma canção da época da Guerra Civil Russa. Quando uma guerra não tem frentes exatas, e forças dispersas lutam por uma vasta área sem nunca saber por onde o inimigo irá aparecer, a mobilidade é que determina o vencedor.

Naquela época, a mobilidade dos grandes exércitos costumava depender do controle das ferrovias para transportar reforços, munições e alimentos. E, com sua armadura, artilharia e metralhadoras, além de rapidez e prontidão para o combate, o bronepoezd, ou trem militar, era um recurso poderoso na Rússia.

As primeiras versões apareceram logo após a construção das primeiras estradas de ferro a vapor, mas acredita-se que o seu precursor tenha surgido na França ainda em 1826.

Equipar os trens com canhões e metralhadoras na Rússia foi uma iniciativa aprofundada pelo coronel Ivan Turtchaninov, um oficial do Exército que emigrou para os EUA e serviu no exército da União durante a Guerra Civil. Durante o cerco de Pittsburgh, em 1864, John Turchin, como ficou conhecido, equipou os trens com morteiros de 13 polegadas que podiam disparar granadas de 100 kg a uma distância de 4,5 km.

A primeira vez que engenheiros franceses equiparam trens com armas foi em 1884, e os avanços técnicos da época rapidamente superaram muitas falhas iniciais do projeto. Nas guerras dos bôeres, entre 1899 e 1902, os britânicos também usaram ativamente trens blindados para proteger suas linhas de comunicações das táticas de guerrilha dos inimigos.

Trem blindado do Exército Vermelho durante a Revolução Russa


Até o início da Primeira Guerra Mundial, a maioria dos exércitos europeus tinham um punhado de trens blindados rudimentares. Quando a Rússia se retirou da guerra, o país tinha sete em serviço. Foi a Guerra Civil que gerou um boom no poderio militar ferroviário.

Alguns trens blindados utilizados pelo Exército Vermelho eram provenientes dos pátios de estocagem do Exército Imperial; outros eram produzidos em massa. A maioria foi, no entanto, construído a partir de peças retiradas de carruagens de passageiros comuns.


Reforço soviético

Ao final da guerra, o Exército Vermelho possuía 122 trens totalmente blindados, com variantes improvisadas elevando o total para 400 unidades. Tal como outros equipamentos complexos herdados do Exército tsarista, os trens blindados foram inicialmente implantados sem grande planejamento tático, sendo simplesmente empurrados para o meio da batalha.

Mas à medida que os bolcheviques ganharam experiência de luta, eles aprenderam a melhor forma de usar esses poderosos “cruzadores de terra”. Durante a defesa de Tsaritsin, atual Volgogrado, no ano de 1918, trens blindados foram implantados em massa pela primeira vez na história.

Na época, 15 deles percorreram diversas linhas ferroviárias locais com grande eficácia. A URSS manteve essa ideia viva até que a Segunda Guerra Mundial exigiu a construção de novos projetos, incluindo baterias de defesa aérea e mudanças táticas. Com os avanços de artilharia, aviação e tecnologia de tanques, a vantagem da mobilidade dos trens foi parcialmente perdida – também armados com canhões e metralhadoras, os tanques podiam atacar com velocidade e sem a necessidade de trilhos.

Esse aparato era apoiado por veículos blindados BTR-40 com estrutura dobrável e amortecedores com molas que lhes permitiam operar a partir de plataformas, além de rodas de aço que facilitam a direção em estradas e trilhos. Quatro desses trens com tanques foram mantidos em armazenamento em subestações a 40 quilômetros da cidade de Chita, até o início da década de 1990.


Do fim ao começo

Trens blindados foram usados pela última vez na Chechênia, onde protegiam equipes de manutenção de trem e trens normais de ataques de insurgentes. Os trens das classes Baikal e Amur tinham portas de disparo para metralhadoras e lançadores de granadas AGS-17, bem como plataformas com veículos de combate de infantaria BMP-2. Eles também eram acompanhados pelos mesmos transportadores de pessoal BTR-40 modificados para fins de reconhecimento e comunicações.

Trem blindado soviético preservado em museu

Atualmente, as forças ferroviárias russas não adquirem mais armamentos para trem. Todos os trens das classes Baikal e Amur em serviço no Distrito Militar Sul foram finalmente desmantelados e desativados, trazendo um fim a essa era. Mas será mesmo?

A ampla experiência na construção e uso desses trens ajudou a melhorar a tríade nuclear soviética na década de 1980, com a introdução de mísseis a bordo de trem RS-22 (“bisturi”). Os sistemas foram desativados após o colapso da União Soviética, mas recentemente a liderança militar e política da Rússia decidiram rever o projeto.

Fonte: Gazeta Russa