"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



sábado, 7 de março de 2009

IMAGEM DO DIA - 7/3/2009


Na Guerra Russo-Japonesa de 1905, uma pequena torpedeira japonesa ataca um cruzador russo durante a Batalha Naval de Tsushima.
.

sexta-feira, 6 de março de 2009

DOCUMENTO - TRATADO DE FONTAINEBLEAU DE 1807

.

Em 1806, depois do fracasso na tentativa de invasão à Inglaterra, Napoleão decretou o Bloqueio Continental. Portugal, tradicional aliado da Inglaterra, nega-se a cumpri-lo. Napoleão então decide invadir Portugal. Mas, para isso, Napoleão precisava levar as suas tropas até o território português. Então, em 27 de Outubro de 1807, Manuel Godoy (Príncipe da Paz) e Napoleão assinaram o Tratado de Fontainebleau, por ele que se permitia o passar de tropas francesas pelo território espanhol a fim de invadir Portugal.


Tratado de Fontainebleau

«Nós Napoleão, pela graça de Deus e da constituição, imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, tendo visto e examinado o tratado, concluído, arranjado e assinado em Fontainebleau, a 27 de Outubro de 1807, pelo general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do nosso palácio, grão-cavaleiro da Legião de Honra, etc, ele., em virtude de plenos poderes conferidos por nós para este fim, com D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, conselheiro honorário de estado e da guerra de sua majestade o rei de Espanha, o qual também estava munido com plenos poderes pelo seu soberano, o qual tratado é na forma seguinte :Sua majestade, o imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, e sua majestade católica, o rei da Espanha, desejando regular por comum com sentimento o interesse dos dois estados, e determinar a futura condição de Portugal, de maneira que seja consistente com a boa política de ambos os países; tem nomeado para seus ministros plenipotenciários, a saber: sua majestade o imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, ao general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do palácio, grão-cavaleiro da Legião de Honra; e sua majestade católica, rei da Espanha, a D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, seu conselheiro honorário de estado e da guerra, os quais ministros, havendo ambos mutuamente trocado os seus plenos poderes, concordaram no seguinte:

Artigo 1.
A província de Entre Douro e Minho, com a cidade do Porto, se trespassará em plena propriedade e soberania para sua majestade, o rei da Etrúria, com o título de rei da Lusitânia setentrional.

Artigo 2.
A província do Alentejo e o reino dos Algarves se trespassarão em plena propriedade e soberania para o príncipe da Paz, para serem por ele gozados, debaixo do titulo de príncipe dos Algarves.

Artigo 3.
As províncias da Beira, Trás-os-Montes e Estremadura portuguesa, ficarão por dispor até que haja uma paz, e então se disporá delas segundo as circunstancias, e segundo o que se concordar entre as duas partes contratantes.

Artigo 4.
O reino da Lusitânia setentrional será tido pelos descendentes de sua majestade, o rei da Etrúria, hereditariamente e conforme as leis da sucessão, estabelecidas na família que ocupa o trono da Espanha.

Artigo 5.
O principado dos Algarves será lido pelos descendentes do príncipe da Paz hereditariamente e conforme as leis de sucessão estabelecidas na família que ocupa o trono da Espanha.

Artigo 6.
Se não houver descendentes ou herdeiros legítimos do rei da Lusitânia do norte, ou do príncipe dos Algarves, se disporá por investidura do rei de Espanha, de maneira que nunca se unirão debaixo de uma só cabeça, nem se anexarão à coroa de Espanha.

Artigo 7.
O reino da Lusitânia setentrional e o principado dos Algarves reconhecerão como protector sua majestade católica, el-rei de Espanha, e em nenhum caso os soberanos destes países farão paz ou guerra sem o seu consentimento.

Artigo 8.
No caso de que as províncias da Beira, Traz os Montes e Estremadura portuguesa, tidas em sequestro, se devolvam na paz geral à casa de Bragança, em troca de Gibraltar, Trindade e outras colonias, que os ingleses têm conquistado à Espanha e seus aliados, o novo soberano destas províncias terá, relativamente a sua majestade católica, el-rei de Espanha, as mesmas obrigações que tem o rei da Lusitânia setentrional e o príncipe dos Algarves, e as terá debaixo das mesmas condições.

Artigo 9.
Sua majestade, o rei da Etrúria, cede o reino da Etrúria em plena propriedade e soberania a sua majestade, o imperador dos franceses e rei da Itália.

Artigo 10.
Assim que as províncias de Portugal forem definitivamente ocupadas, os diferentes príncipes que as devem possuir nomearão mutuamente comissários para verificar os seus limites naturais.

Artigo 11.
Sua majestade, o imperador dos franceses e rei da Itália, garante a sua majestade católica, el-rei de Espanha, aposse dos seus domínios no continente da Europa, situados ao sul dos Pirenéus.

Artigo 12.
Sua majestade, o imperador dos franceses e rei da Itália, se obriga a reconhecer a sua majestade católica, o rei da Espanha, como imperador das duas Américas, quando tudo estiver pronto para sua majestade assumir este titulo, que pode ser, ou ao tempo da paz geral, ou o mais tardar tres anos depois daquela época.

Artigo 13.
As duas altas partes contratantes concordam mutuamente em uma igual divisão das ilhas, colonias e outras possessões transmarinas de Portugal.

Artigo 14.
O presente tratado será tido em segredo. Será ratificado e trocado em Madrid dentro de vinte dias, o mais tardar, da data da sua assinatura.

Dado em Fontainebleau, aos 27 de Outubro de 1807.

= Napoleão.
= O ministro dos negócios estrangeiros, Champagny.
=O secretario de estado, Maret.»


.

IMAGEM DO DIA - 6/3/2009



Guerra dos Bôeres, 1899. Tropas coloniais britânicas marcham em direção à Pretória-África do Sul a fim de reforçarem aquela guarnição.


.

GRANDE GUERRA PATRIÓTICA




A Grande Guerra Patriótica foi o nome pelo qual ficou conhecida a Segunda Guerra Mundial para os povos da União Soviética (URSS). 


Com forte apelo ideológico, a definição tinha por objetivo incutir na mente dos povos integrantes da URSS a ideia de que o combate com os alemães significava uma guerra em defesa da Pátria, nesse caso, o Estado Soviético. Por outro lado, juntamente com outras ações políticas, a definição tinha por objetivo alçar a figura de Stalin como o supremo líder e guia dessa Pátria.

As comemorações e o significado da vitória na guerra, pela qual a URSS pagou um preço alto, tanto em termos humanos como materias, foram sempre profundamente marcadas na consciência dos povos das repúblicas soviéticas. O "Dia da Vitória", ou "День Победы" - "Den' Pobiedy", era, junto com o Primeiro de Maio - Dia do Trabalho, um dos dois principais festejos populares na URSS. O episódio permanece importante para os russos devido às imensas perdas humanas sofridas no conflito, inclusive após a queda do regime soviético. É raro encontrar algum cidadão das ex-repúblicas soviéticas cuja família não tenha perdido um ente próximo na guerra.

Desfile militar alusivo ao Dia da Vitória na Praça Vermelha: 
comemoração que atravessa o tempo e exalta a Grande Guerra Patriótica

Embora o significado das batalhas entre Alemanha e URSS tenha sido enormemente relativizado no mundo capitalista pós-guerra, por conta de questões ideológicas próprias da Guerra Fria, a chamada frente oriental foi onde aconteceram as mais ferozes batalhas, com as maiores perdas civis e militares da história. Na resistência contra a Wehrmacht, o Exército Vermelho mostrou excepcional tenacidade e capacidade de reorganização e aprendizagem.

Cartaz de propaganda soviético

Apesar de imensas perdas, a URSS foi a única nação da guerra a ser invadida territorialmente pela Werhmacht a ser capaz de se reorganizar e, sem rendição ou acordos colaboracionistas (como o do “Governo de Vichy”, na França), resistir, combater, e efetivamente rechaçar as forças alemãs para fora de seu território sem tropas externas atuando conjuntamente (como na recuperação da França, por exemplo) e, mais importante, seguir um curso de vitórias até a capital da Alemanha, terminando, na prática, a guerra. Poucos dias depois do suicídio de Hitler em Berlim - já completamente ocupada pelo Exército Vermelho - as forças alemãs assinaram sua rendição incondicional.


quinta-feira, 5 de março de 2009

IMAGEM DO DIA - 5/3/2009



Guerra Civil Americana, 1863. Oficiais do 3º Regimento de Artilharia da Pennsylvania posam para fotografia durante uma reunião de planejamento.
.

OS JANÍZAROS OTOMANOS



Os janízaros constituíram a elite do exército dos sultões otomanos. A força, criada pelo sultão Murad I, era constituída de crianças cristãs capturadas em batalha, levadas como escravas e convertidas ao Islã. 


Os janízaros (do turco Yeni Tcheri, ou "Nova Força") constituíam a elite do exército dos sultões otomanos. A força foi criada pelo Sultão Murad I, por volta do ano de 1330, e era formada por crianças não muçulmanas - geralmente cristãs - capturadas em batalha, levadas como escravas e convertidas ao Islã.

Os jovens eram educados de acordo com a Lei islâmica e na língua turca, ao mesmo tempo em que aprendiam a manejar armas e eram instruídos na arte da guerra. Os jovens cresciam tendo o próprio Sultão como uma figura paterna, a quem estariam dispostos a defender até a morte, mesmo contra seu próprio povo de origem.
.
A justificativa para a adoção de um corpo de soldados convertidos, ao invés de turcos nativos, era que os turcos deviam lealdade ao seu povo e às suas famílias, e poderiam se tornar rebeldes em caso de uma ação do Sultão contra outros turcos. Já os jovens cristãos deviam lealdade apenas ao Sultão, e por ele lutariam contra qualquer inimigo que se apresentasse.

Apesar do Império Otomano ter adotado oficialmente o islamismo sunita, os janízaros eram adeptos de uma ordem chamada bektashi, em alusão ao seu criador, Hajji Bektash, que reunia elementos muçulmanos e cristãos, permitia o consumo de bebidas alcoólicas e a participação de mulheres sem véus. Quando em serviço, no entanto, eram rigorosamente disciplinados e proibidos de se casar. Os janízaros tinham o hábito de levar consigo símbolos ou citações cristãs para a batalha, com o consentimento de seus superiores.

Assim, tornou-se uma prática comum nas campanhas empreendidas pelos otomanos na Europa capturar meninos nas cidades conquistadas e levá-los para os centros de treinamento turcos. Quando não estavam em guerra, os sultões exigiam de seus estados vassalos cristãos nos Bálcãs uma remessa de jovens para compor o corpo de janízaros, prática conhecida como “imposto de sangue”.


Janízaros combatendo cavaleiros hospitalares em Rhodes, 1522

Organização

O Corpo de Janízaros era organizado em ortas, uma espécie de batalhão, comandadas pelos çorbaci. Quando reunidas todas as ortas, o Corpo era constituído sob a denominação de ocak (em tradução literal, "coração"). O Sultão Suleiman I, por exemplo, possuía 165 ortas.
.
Embora o sultão fosse o comandante nominal de todo o exército otomano, inclusive dos janízaros, estes eram comandados em batalha por um oficial denominado ağa. Em combate, a organização padrão do Corpo de Janízaros era a seguinte:

- os cemaat, constituindo a força de choque principal com 101 ortas;
- os beyliks (ou beuluks), com 61 ortas, desempenhavam a tarefa de guarda pessoal do sultão
- os sekban (ou seirnen), reunidos como reserva e contando com 34 ortas.

Além desse efetivo, o Corpo possuía 34 ortas de ajemi (cadetes), que permaneciam em constante treinamento.

Os janízaros eram normalmente promovidos por antiguidade dentro de suas próprias ortas, das quais somente podiam sair no caso de serem nomeados para o comando de outra unidade. Cada orta era identificada por um símbolo comum, como uma flor ou um peixe.

A hierarquia dos janízaros era estruturada de maneira bastante curiosa. Quando em acampamento, cada unidade se reunia em torno de um caldeirão de cobre onde seu alimento era preparado, do qual decorria uma forte simbologia com base na comida. Chamavam seus coronéis de "fazedor de sopa-chefe", oficiais-intendentes eram "cozinheiros-chefes", e assim por diante.

Os caldeirões eram conduzidos para as batalhas e, se fossem perdidos, toda a unidade era dispensada e impedida de combater. A disciplina era extremamente severa, mas o soldado janízaro somente podia ser punido por seu próprio comandante superior.

O efetivo das tropas de janízaros variou conforme a época, desde cem homens até a impressionante cifra de 200 mil soldados. De acordo com Nicolle, no século XIV havia cerca de 1.000 janízaros e, por volta de 1475, o efetivo era estimado em 6.000 soldados. No século XVIII, por sua vez, o Corpo de Janízaros compreendia mais de 113 mil homens.


Armamento e equipamento

Inicialmente, os janízaros eram especialistas no uso do arco composto, porém, tão logo as armas de fogo foram introduzidas, por volta de 1440, logo passaram a empregá-las. Por ocasião do cerco de Viena, em 1529, os engenheiros janízaros ganharam notoriedade, realizando tarefas de sapa e trabalhos de minagem. No combate aproximado empregavam sabres otomanos e machados de guerra. Em tempos de paz, os janízaros podiam portar somente uma adaga, exceto quando em serviço nas regiões fronteiriças do império, onde eram autorizados a portar armas de fogo.


Sabre utilizado pelos janízaros

No início do século XVI os janízaros utilizavam mosquetes pesados e armamento coletivo, em especial a chamada “arma de trincheira”, que disparava um projétil esférico de 80 mm e era especialmente temida por seus inimigos. Outros armamentos bastante empregados eram as granadas e os primitivos canhões portáteis. A partir da Guerra de Creta (1645-1669), os soldados começaram a utilizar pistolas para autodefesa em curtas distâncias.

Os janízaros eram muito bem equipados. Utilizavam uma armadura, por sobre a veste de combate, que lhes conferia boa proteção e mobilidade em combate. Tinham costume era raspar a cabeça, deixando um rabo de cavalo com um tufo de cabelo no topo e utilizavam um chapéu de feltro alto (Zarcolas) com o objetivo de parecerem mais altos e intimidarem seus oponentes.


Decadência

Os janízaros permaneceram por muito tempo como a elite do exército turco, entrando em batalha em momentos decisivos ou apenas como último recurso para garantir a segurança do Sultão. Ao longo de sua existência, participaram de praticamente todas as campanhas militares do Império Otomano, inclusive a tomada de Constantinopla (1453), a vitória sobre os mamelucos egípcios e as guerras contra a Hungria e a Áustria. Nessas oportunidades, demonstraram ser grandes soldados e bravos guerreiros.

No decorrer do século XIX, contudo, os janízaros entraram em franca decadência, em parte porque o recrutamento de jovens cristãos tornava-se cada vez mais difícil diante da oposição de potências igualmente fortes militarmente, como Reino Unido e França, e também devido à progressiva retração territorial do Império Otomano na Europa.

Os janízaros angariaram grande prestígio e prosperaram economicamente, o que os levou a se rebelarem algumas vezes em busca de poder no Império. Em 1807 os janízaros depuseram o Sultão Selim III, que tentava reorganizar o exército otomano segundo o modelo dos exércitos europeus, e colocaram em seu lugar Mahmud II. Em 1826, temendo ser também derrubado pelos janízaros, o Sultão Mahmud II também determinou a reorganização de seu exército nos moldes europeus, o que gerou nova rebelião dos janízaros. Mahmud II lançou, então, as demais tropas do exército contra o Corpo de Janízaros e conseguiu sufocar a revolta. Nesses combates os janízaros tiveram cerca de 4.000 baixas, seus remanescentes foram executados ou exilados e suas terras confiscadas pelo sultão. Os janízaros foram abolidos como força militar e, desde então, até o final do Império em 1922, uns poucos janízaros permaneceram como uma guarda pessoal simbólica do Sultão.


Janízaro turco da guarda pessoal do Sultão em 1914

Atualmente a banda de música do Exército Turco é a herdeira da tradição dos janízaros, apresentando-se nas cerimônias com seu uniforme e executando marchas e músicas compostas na época de sua existência.


Bibliografia

- GOODWIN, Godfrey. The Janissaries. London: Saqi Books, 2001

GOODWIN, Jason. Lords of the Horizons: A History of the Ottoman Empire. New York: H. Holt, 1998.

- KINROSS, Patrick. The Ottoman Centuries: The Rise and Fall of the Turkish Empire. London: Perennial, 1977.

- NICOLLE, David. The Janissaries. London: Osprey Publishing, 1995.

.

quarta-feira, 4 de março de 2009

IMAGEM DO DIA - 4/3/2009


Uma rara fotografia colorida mostra um bombardeiro de mergulho SBD Dauntless da Marinha dos EUA durante a Campanha do Pacífico na 2a Guerra Mundial, 1945.





.

terça-feira, 3 de março de 2009

OFENSIVA DO TET - 1968


Um interessante infográfico publicado no Jornal O GLOBO sobre a Ofensiva do TET, desfechada pelas forças norte-vietnamitas em 1968.




IMAGEM DO DIA - 3/3/2009

.
Guerra do Vietnã, 1968. Armado com um fuzil de fabricação chinesa e escondido no interior de um túnel, o guerrilheiro vietcongue aguarda o momento oportuno para emboscar uma patrulha norte-americana.


GUERRAS MÉDICAS (499 - 479 a.C.)

.

As Guerras Médicas (ou Guerras Medas) foram uma série de conflitos bélicos entre os antigos gregos e o Império Persa durante o século V a.C..


Após a derrota da Lídia frente aos persas (em 546 a.C., provavelmente), as cidades gregas da Jônia passaram ao domínio persa. Em 499 a.C., com o apoio de Atenas e Erétria, essas cidades revoltaram-se, mas foram vencidas entre 497 e 494 a.C. Em 490 a.C., o rei da Pérsia Dario (522 - 486 a.C.) decidiu enviar à Grécia continental uma expedição punitiva (a primeira guerra médica). 

Erétria foi arrasada e saqueada, mas, surpreendentemente, cerca de dez mil gregos, liderados pelo ateniense Milcíades (550-489 a.C.), conseguiram impedir o desembarque de mais de vinte mil persas (alguns autores falam em 50 mil, outros em 250 mil, não se sabe precisamente o efetivo persa), vencendo-os na batalha de Maratona em 490 a.C.



Para se defenderem dos persas, algumas cidades-estado gregas organizaram a liga de Delos, da qual se aproveitou Atenas para se sobrepor no mundo grego, pois era responsável pelo dinheiro da Confederação e passou a usá-lo em benefício próprio. Com isso, impulsionou sua indústria, seu comércio e modernizou-se, ingressando numa era de grande prosperidade, e impondo sua hegemonia ao mundo grego. O auge dessa época ocorreu entre 461 e 431 a.C., durante o governo de Péricles, por isso o século V a.C. é também chamado o "Século de Péricles".

Os persas, entretanto, não desistiram. Dez anos depois, voltaram a atacar as cidades gregas (segunda guerra médica). Inicialmente, os persas venceram os gregos nas Termópilas e em Artemision; a seguir, invadiram e saquearam Atenas. A frota ateniense, porém, comandada por Temístocles (524 a.C.- 459 a.C.), conseguiu destruir a frota persa na baía de Salamina (480 a.C.), mudando o rumo da guerra. Meses depois, comandada pelo espartano Pausânias (510-467 a.C.), o exército da coalizão grega venceu o exército persa em Platéia (479 a.C.), pondo fim à invasão.

Os gregos conseguiram, dessa forma, impedir a presença dos persas em seu território, mas estes continuaram influindo no relacionamento entre as cidades gregas durante todo o Período Clássico.




Soldado persa


.

segunda-feira, 2 de março de 2009

IMAGEM DO DIA - 2/3/2009

.

Itália, 1944. Obuseiro M-1A1 de 155 mm do IV Grupo de Artilharia da Força Expedicionária Brasileira em posição camuflada pronto para disparar contra as linhas alemãs.

.

O EXÉRCITO E A PAX ROMANA




A expansão romana demorou séculos e o exército foi o instrumento indispensável para tal. 


O exército romano era dividido em legiões; sua organização meticulosa e a disciplina severa permitiram-lhes alcançar inúmeras vitórias sobre outros povos. No final do século I a.C., a legião era formada por 300 cavaleiros e 4.200 homens de infantaria, organizados em grupos de 100 (as centúrias, comandadas por centuriões). O exército era comandado superiormente por magistrados chamados cônsules ou pelo próprio imperador. Os oficiais, os tribunos militares, eram escolhidos entre jovens da classe superior da sociedade romana.

A glória máxima dos generais romanos era o "triunfo", concedido apenas aos grandes vencedores: um desfile festivo pelas ruas de Roma, por entre aclamações populares. Atrás, acorrentados, desfilavam os chefes vencidos e centenas de escravos transportando o produto dos saques.

O exército foi, igualmente, um importante instrumento para a integração dos povos dominados no mundo romano. Depois das conquistas, as legiões permaneciam nas terras conquistadas, para impor o domínio romano e garantir a paz - a "pax romana"(1), uma paz armada com o exército controlando qualquer tentativa de revolta das populações e vigiando as fronteiras.

O Império Romano no ano 117 d.C.

A permanência dos soldados, por longas temporadas, nos diferentes pontos do Império, contribuiu para a romanização (2) das populações. Por outro lado, era frequente fundarem-se colônias militares nas províncias: os soldados, no final da carreira (os veteranos), recebiam terras como recompensa pelos serviços prestados no exército, e nelas se estabeleciam com suas famílias. 

No ano de 25 a.C., por exemplo, o imperador Augusto recompensou vários soldados de duas das suas legiões com terras situadas na Península Ibérica, nas margens do rio Guadiana. Estes soldados "eméritos", isto é, reformados e recompensados devido ao seu mérito, fundaram aí a cidade de Emerita Augusta (Mérida, futura capital da província romana da Lusitânia). Deste modo, estas colônias tornavam-se, autênticos centros de difusão da civilização romana.

(1) A expressão latina "pax romana" designa a situação de paz que o Império Romano conheceu durante os dois primeiros séculos da nossa era, graças à ocupação das províncias por exércitos permanentes que impunham a ordem, reprimindo pela força, qualquer tentativa de revolta. Apesar deste caráter violento, a "pax romana" proporcionou uma época de estabilidade e de prosperidade, durante a qual a civilização romana se estendeu a todo o Império.

(2) Romanização é a influência exercida pela civilização romana sobre as populações do Império. Pouco a pouco, os diferentes povos absorveram a língua, a religião, a cultura e os costumes dos romanos, a ponde de, alguns séculos depois da conquista, poucas diferenças se notarem entre os habitantes da Itália e os da Península Ibérica, por exemplo.

.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

IMAGEM DO DIA - 28/2/2009

.

O ano é 1932, nos primeiros dias da Revolução Constitucionalista. Confiantes, soldados paulistas voluntários aguardam para embarcar em uma composição ferroviária que os conduzirá à frente de combate. Estão armados com fuzis Mauser M908 de 7mm e possuem uma metralhadora Hotchkiss do mesmo calibre.

.

GUERRA E INSTITUIÇÕES MILITARES - REFLEXÕES DE ANDRÉ CORVISIER

.

O texto a seguir foi extraído da obra A Guerra: ensaios históricos, de André Corvisier e relaciona o papel das Instituições Militares com o Estado em função do fenômeno GUERRA.

“O papel da guerra e das armas, no nascimento do Estado, apresenta-se sob dois aspectos principais. O primeiro é o apelo aos recursos necessários para adquirir os serviços dos mercenários e, se eles já não constituem uma tropa equipada, para armá-los. Para isso, é preciso mais dinheiro do que aquele que as necessidades habituais de um soberano requerem. Portanto, o soberano terá de contar com os recursos ocasionais ou de criar novos. A ajuda feudal previa a prestação de serviços em bens naturais ou em dinheiro fornecidos pelos não-combatentes, quando o rei partia para a guerra. a necessidade transformou essa ajuda em imposto, logo que a guerra ganhou amplitude. ora,, quem diz imposto diz administração financeira, mesmo que esta seja atribuída, em parte, ao trabalho dos próprios contribuintes, (...). Se a administração da religião e da justiça são anteriores à criação do Estado moderno, as administrações financeiras foram as primeiras deste último”. (p. 175).

“Não há dúvida de que o nascimento dos exércitos e dos impostos permanentes contribuiu para reforçar a autoridade dos soberanos, tanto mais que estes últimos sempre procuraram subtrair sua administração das assembleias dos estados-gerais. Já sob Luís XI, Thomas Basin afirmava que os exércitos e os impostos permanentes eram uma forma de tirania, inútil a seu ver, porque ele ainda acreditava que a nobreza pudesse fornecer aos reis as forças armadas de que necessitavam.. O exército permanente também contribuiu para garantir o absolutismo, como a guerra levou à formulação da razão de Estado.


O exército permanente contribuiu para garantir o Absolutismo

O absolutismo é um princípio político antigo. Na França, ele se consolidou com a ditadura de guerra de Richelieu, depois, com a monarquia administrativa realizada por Luís XIV. Foram as ameaças internas e externas, às quais o reino da França esteve submetido na primeira metade do século XVII, que lhe deram causa, e também as vitórias que lhe permitiram a consolidação pela transformação dos órgãos da tradicional auto-administração em aparelho de Estado”. (p. 176).

“A guerra é a ocasião que um Estado tem de exercer o máximo de sua autoridade, não somente sobre o território nacional, mas também sobre os países conquistados, onde o ocupante se arroga todos os poderes do Estado vencido e, muitas vezes, a eles superpõe aqueles que já exerce sobre seu próprio território. (p. 177)”.

“As estruturas do Estado têm influência sobre a maneira de conduzir a guerra. Sobre esse assunto podemos seguir a opinião de Roland Mousnier, que mostrou com clareza a passagem da monarquia judiciária ´a monarquia administrativa e centralizada, bem como as diferentes formas do serviço de Estado assumido por proprietários oficiais de seu encargo, por comissários ou por funcionários ligados ao soberano por vínculos de natureza diferente´. Malgrado a ação enérgica dos comissários, portadores da vontade do rei nas províncias, o Estado do Antigo Regime não podia mobilizar facilmente todos os recursos do país. Jean Meyer lembrou a fórmula paradoxal de Montesquieu: ´O rei não pode tudo o que pode´”.

Já vimos o rei recorrer ao empreendimento militar para mobilizar tropas. E recorre também para a manutenção e o equipamento de seus exércitos, por que a administração exige estruturas, pelo menos dos controles que se revelam ainda pouco eficazes em definitivo. Os gravames sociais e econômicos, bem como a fraquezas do aparelho do Estado, limitam sua ação. Ao contrário, essas fraquezas se transformam em forças de resistência em caso de invasão por um adversário que também não pode fazer tudo o que pode. Com efeito, o Estado no século XVII, incapaz de extrair rapidamente do país tudo o que é necessário para fazer a guerra, deixa muitos recursos potenciais aos quais poderia recorrer eventualmente. Em geral, sua situação financeira não lhe deixa folga. A lentidão, ou o caráter episódico das operações faz com que o sentimento nacional, se manifeste. Por sua vez, a ocupação das províncias inimigas é trabalhosa quando as populações reagem, ainda mais quando a deficiência das comunicações é um obstáculo quando se está longe das bases. Há um momento em que a guerra não alimenta mais a guerra. Daí o prolongamento de conflitos que acabam com a paz resultante do cansaço”. (p.178-179)

A instauração das monarquias feudais resultou da concentração das forças régias em torno dos suseranos e, depois, em torno do suserano supremo, que era o rei. Mas as instituições militares da realeza guardaram durante muito tempo o caráter de federação de forças locais, reunidas pelos suseranos que faziam pressão, não somente sobre os senhores feudais, mas também sobre as cidades. Assim, no exército real distinguiam-se os donzéis, combatentes que traziam “recomendação” do rei e que traiam até valetes, e os “bannerets”, que chegavam rodeados de seus vassalos, formando o que na Inglaterra se chamava uma retenue. As cidades teriam de garantir sua defesa e, eventualmente, enviar contingentes selecionados de sula milícia.

Esse sistema só funcionou bem na medida em que o príncipe tinha bastante autoridade e não garantiu a unidade do reino. A Guerra dos Cem Anos e a Guerra das Duas Rosas foram um testemunho disso. Podia muito bem ser utilizado por um partido ou por grandes vassalos para se sublevara contra o rei. Foi ainda o caso, na França, durante as guerras de Religião, as agitações sobre a minoridade de Luís XIII e a Fronda.

O estabelecimento dos períodos de paz, no entanto, fosse pelo desenvolvimento das cidades, como na Itália, fosse pelo progresso da autoridade real, com na França, presenciou, paralelamente , no século XV, o desenvolvimento do mercenarismo, um luxo que os reis de Castela, muito pobres antes da descoberta do ouro da América, não podiam se permitir. Atração crescente das atividades econômicas e recuo da vocação militar no seio dos súditos, preocupação dos soberanos com a liberação do sistema feudal, cada vez mais ineficaz e até perigoso, e com a manutenção de exércitos fortes, concorreram para o emprego de homens pagos por soldos, daí o nome de soldado. (...).  A mobilização de tropas para o príncipe transformou-se numa empresa”. (p.238-239).

Fonte: CORVISIER, André. A Guerra: ensaios históricos. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1999.

.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

4a TURMA NO MUSAL



Esta é a 4ª Turma do Curso de pós-Graduação em História Militar Brasileira da UNIRIO / Instituto de Geografia e História Militar do Brasil por ocasião da visita ao Museu Aeroespacial da Força Aérea Brasileira, no Rio de Janeiro.
.

UMA NOVA HISTÓRIA MILITAR


Hoje, 27 de fevereiro de 2009, inicio este blog, dedicado ao estudo e à pesquisa de assuntos relativos à História Militar Geral e à História Militar Brasileira.

Mas, afinal, o que é História Militar? Seria um ramo da História Política? Seria micro-história? Na verdade, o conceito atual de História Militar é compreendido como o estudo do fato histórico de tudo que diz respeito ao fenômeno GUERRA, em seus aspectos políticos, econômicos, sociais e até militares.

Não se trata apenas do estudo da batalha, elaborado por militares para leitores militares. A nova História Militar é muito mais abrangente e pretende estabelecer um link entre o meio militar e o meio acadêmico no Brasil - fato comum na Europa e nos EUA desde a primeira metade do século passado -, do qual certamente resultará um benefício para ambas as partes.

A proposta de estudo consiste na produção do conhecimento do fato histórico relacionado com a GUERRA de uma maneira científica, baseada na Teoria da História e na Metodologia de Pesquisa Científica.

Para clarear ainda mais o tema, iniciamos o Blog com o excelente artigo elaborado pelo Prof. Dr. Paulo André Leira Parente, da UNIRIO, UGF e IGHMB, o qual apresenta a visão dessa NOVA HISTÓRIA MILITAR e suas possibilidades.


 
UMA NOVA HISTÓRIA MILITAR?
ABORDAGENS E CAMPOS DE INVESTIGAÇÃO

Prof. Dr. Paulo André Leira Parente (UNIRIO – UGF - IGHMB)


I. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
 
Nosso objetivo é apontar os novos campos e objetos de investigação da história construídos a partir do conceito de Nova História Social, que podem contribuir para uma ampliação da investigação na área da História Militar. São campos explorados nos últimos anos pela ciência histórica que alcançaram resultados positivos na compreensão do passado. Por isso, entendemos que a identificação de tais campos de pesquisa amplia e enriquece a produção historiográfica da História Militar. Destacadamente, nossa contribuição pretende fornecer subsídios para um diálogo entre historiadores de tradição militar e seus congêneres oriundos da tradição acadêmica, que, a nosso ver, deve ser pautado por procedimentos metodológicos de acordo com a nova metodologia científica aplicada a ciência histórica.

Não cabe neste espaço, nem é nosso objetivo no momento, realizar uma interpretação historiográfica valorativa ou teórica da produção dos historiadores sobre a História Militar Brasileira. Não nos cabe julgar esta produção. Entretanto, podemos apontar para a renovação da investigação da História Militar no Brasil expressa através de grupos de pesquisa, publicações especializadas, coleções em importantes editoras das forças armadas e centros de memória e documentação que, em esforços individuais e institucionais, progressivamente ampliam a divulgação de novas formas científicas de compreensão do passado. O interesse atual pelos estudos relacionados a História Militar transcende as próprias instituições militares.

Sob um ponto de vista metodológico da Nova História é necessário identificar a diferente valoração assumida pelos fenômenos históricos de natureza militar nas diferentes culturas, que se tornam objeto de estudo do historiador militar. Devemos entender a Guerra como uma estrutura histórica dinâmica no tempo das civilizações, como outras estruturas históricas de investigação definidas pelos historiadores, tais como a economia, a cultura, a religião, o direito, dentre outras. Assim, a noção de História e o conceito de Guerra não são os mesmos em todas as culturas e muito menos não são auto-evidentes aos historiadores. Portanto, o historiador da nova história militar não deve trabalhar o conceito de Guerra como um conceito absoluto, mas sim, como um conceito histórico relativo e instrumental pautado por uma metodologia específica.

Os conflitos armados apresentam um peso relativo nos temas militares conforme as correntes historiográficas, ou seja, o tema da História Batalha não é necessariamente um ponto de chegada analítico da história militar. Pode e deve, inclusivamente, ser o seu ponto de partida. Entretanto, nem sempre está presente nos trabalhos e pesquisas da nova história militar e nem por isso deixamos de ter uma História Militar metodologicamente construída.

As concepções científicas da história assumiram diversas facetas em sua estrutura metodológica, influenciando desta maneira os temas militares. Assim, a história militar não é um ente próprio dotado de autonomia científica em relação à Teoria e a Metodologia da História. A história militar foi construída a partir de pressupostos próprios da ciência histórica, dentre outros pressupostos científicos, da mesma forma que diversos temas do saber histórico dotados de um campo de investigação definido, dentre os quais podemos apontar: a história econômica, a história do direito e das instituições, a história administrativa, a história da ciência e da tecnologia e seus diversos desdobramentos - a história da medicina, a história das doenças, a história da farmacopéia, a história da química ou da alquimia, a história do automóvel, a história do avião e a história do trem.

Dessa forma, em sua construção metodológica, a história ao se apresentar como crônica, descrição ou apologia, correspondeu à história militar se apresentar também como crônica, descrição ou apologia militar. Entretanto, esta não é necessariamente sua natureza como saber histórico, mas sim, uma de suas manifestações metodológicas e historiográficas.

Optar pela problemática da investigação histórica sobre a Guerra não implica, portanto, necessariamente em produzir uma História Tradicional, descritiva e valorativa. A metodologia da história atualmente permite ampliar sua compreensão além das fronteiras da História Batalha e dos fenômenos políticos identificados com as Batalhas. As novas metodologias desenvolvidas na ciência histórica recente permitem alcançar as múltiplas interfaces da História Militar, tais como a social, institucional, cultural, econômica, tecnológica, religiosa, sociológica ou política, dentre tantas outras.


II. ASPECTOS DO CONCEITO DE GUERRA NA TRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA OCIDENTAL.
 
Na Grécia Antiga a concepção da história estava baseada na noção de um tempo com movimento circular, cíclico, dotado de fases definidas expressas nas formas de governo que regiam os destinos da cidade. A direção do tempo manifestava-se no sentido rigoroso das origens para a decadência, repetidas vezes, dentro de um Eterno Retorno degenerativo. Na historiografia grega antiga, destacadamente em Tucídides, Xenofonte e Políbio, a Guerra assumiu um papel primordial, pois determinava o ponto de inflexão entre o apogeu ou decadência de uma fase para outra nas mudanças temporais que atingiam os homens e suas cidades. O conhecimento das guerras e seus desdobramentos interessavam não apenas aos estrategos, mas também aos políticos e aos homens que participavam das decisões relativas à cidade. Conhecendo as guerras antigas e suas manifestações poderiam decidir com maior precisão sobre os problemas da cidade.

Na tradição romana, a historiografia concedeu um lugar privilegiado aos fenômenos militares, pois estes haviam conduzido a cidade à sua grandeza, a dominação do mundo mediterrâneo e ao Império. A historiografia romana elaborada por Tito Lívio, Júlio César, Suetônio, Plutarco, Tácito e a própria História Augusta, definiram uma visão triunfalista e patriótica da Guerra como uma ação inerente à grandeza do povo romano, sua ação temporal e dominação sobre outros povos, inclusive os gregos.

A cultura Medieval, por sua vez, relacionou os fenômenos militares com a insegurança geral promovida pelas invasões da Europa, entre os séculos VI e XI. Após a passagem do milênio a ideologia medieval subordinou a Guerra à perspectiva bíblica do Apocalipse e ao providencialismo cristão e a identificou como um castigo divino, conforme observamos em Gregório de Tours e Joinville. Além disso, reservou a sua participação à nobreza, como um privilégio de ordem e condição da hierarquia social. Entre os séculos XIII e XVI, acompanhando o processo de formação das monarquias nacionais, surgiram as diversas crônicas gerais das monarquias, das nações e dos reinos, que privilegiaram os conflitos militares em sua formação e consolidação: a vitória nas guerras fazia surgir ou desaparecer as monarquias nacionais. A Guerra de natureza senhorial, expressa na convocação das hostes feudais, transformou-se num fenômeno que ligava o Rei a senhores da guerra em um vínculo particular, a Guerra por contrato.

Entre o Renascimento e o Iluminismo, na conjuntura de consolidação do Estado Nacional Absoluto e do Desencravamento Planetário, as Guerras entre os Estados, as Guerras Civis e as Guerras Coloniais se constituíram como tópicos diferenciados da reflexão historiográfica.

A instância militar no contexto do Estado Absoluto se torna uma função privilegiada pelos monarcas, assim como, também, a Fazenda Pública e o Fisco. Nesse contexto, a valorização da Antigüidade Clássica fez surgir a admiração pelos modelos militares greco-romanos, tais como o enaltecimento do arquétipo dos grandes generais – Temístocles, Alexandre, Júlio César, Marco Antônio – ou, por outro lado hierárquico, a apologia do legionário romano como o modelo do soldado ideal. A Antigüidade Clássica tornou-se uma matriz universal da experiência militar e propositalmente delimito o tema a Guerra, pois se tornou também uma matriz universal em outros aspectos culturais. As Guerras antigas serviriam como um modelo para se deduzir o conhecimento para as Guerras Modernas a partir do estudo científico e histórico de suas táticas e estratégias. Assim, a Guerra é uma categoria relativa da história e não pode ser tratada de forma linear, pois foi percebida de maneira variada nas culturas - e aqui destacamos sucintamente apenas a tradição ocidental. O conceito analítico não pode ser confundido como um conceito absoluto.

Ao longo do século XIX as historiografias Erudita, Positivista e Evolucionista - em suas vertentes variadas - valorizaram a Guerra no contexto dos grandes temas da história política: o Estado, a formação do território, o estabelecimento das fronteiras, as relações entre os Estados, etc. Os acontecimentos militares foram estudados de maneira científica (investigação metódica) e valorizados na medida em que reforçavam ou anulavam as características determinantes do Estado, seu crescimento, apogeu e declínio. Os dois principais modelos historiográficos da História Militar foram elaborados por Clausewitz e Ranke. Destacamos dois grandes temas da historiografia que foram construídos neste contexto intelectual e que ainda se manifestam nos estudos militares atuais:

· A História Batalha: formada a partir da busca de uma descrição precisa e de uma análise detalhada dos eventos militares propriamente ditos cujo modelo é, ainda, a batalha de Waterloo.

· A História Militar: no contexto da História Política como explicação privilegiada e muitas vezes definitiva, o que pode remeter para a própria História Batalha em suas análises finais.

Estas vertentes historiográficas foram elaboradas a partir de uma metodologia científica própria do século XIX, mas, também, a partir do campo da Memória conforme observamos na determinação de Lugares da Memória – Campos de Batalha, Pantheon de Heróis da Pátria, praças e monumentos comemorativos de batalhas ou de seus personagens.

A história militar foi influenciada ainda pelas vertentes historiográficas cientificistas preocupadas em encontrar as Leis Sociais do desenvolvimento histórico conforme os métodos definidos nas ciências naturais. Em suas doutrinas, positivistas e evolucionistas concordavam no aspecto de que a Guerra era um resquício bárbaro das Sociedades Militares,que seriam gradativamente substituídas pelas Sociedades Industriais ou Positivas, cujo principal requisito de existência seria a paz.

Comte e Littré consideravam a Guerra como uma característica das etapas anteriores da história: a Teológica e a Metafísica. Esta última preparatória da fase Científica ou Positiva, que lhe sucederia, na qual as grandes nações territoriais seriam substituídas por pequenas pátrias cuja segurança estaria entregue ao encargo de polícias locais sem a necessidade de existência de exércitos.
Ao longo do século XX o desenvolvimento de novas vertentes da história, tais como a História econômica, a história social e a história das mentalidades, tornou a história política e conseqüentemente a história militar, um campo desprezado pelas pesquisas históricas.

O estudo dos eventos militares ficou restrito ao campo da ciência política e da sociologia, conforme destacamos nos trabalhos de Gaston Bouthoul e Raymond Aron. A crítica contundente promovida pelo Grupo de Annales à História Política – generalizada como uma história “fatual, tradicional, positivista e reacionária”, atingiu também a história militar e relegou ambas a um descrédito injusto por parte das academias e universidades. Este descrédito somente agora começou a ser revertido.


III. PROPOSTAS METODOLÓGICAS E NOVOS CAMPOS DE INVESTIGAÇÃO NA PESQUISA DA HISTÓRIA MILITAR

1. A HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES.

O primeiro nível de objetividade da História das Instituições é o estudo da história interna das instituições. Assim, a história institucional é reconstruída a partir dos aspectos jurídicos formais encontrados em documentos fundadores, reguladores, normativos, disciplinadores e organizadores das instituiçõesem sua estrutura interna. Através destes documentos podemos reconstruir, também, os aspectos ideológicos que nortearam a criação e motivaram a atuação das instituições. Trata-se, portanto, de uma história interna das instituições. Entretanto devemos destacar dois problemas de ordem metodológica:

· O presentismo: ou seja, a importação de modelos teóricos da atualidade na explicação das administrações passadas;

· A redução do enfoque aos estratos superiores das instituições estudadas. Para corrigir este aspecto é preciso entender a Instituição em seu conjunto administrativo, seus vários níveis hierárquicos e seus processos decisórios.

O segundo nível de objetividade da História das Instituições é a Prosopografia. Este é um dos campos mais complexos e fecundos para a pesquisa na História das Instituições. Trata-se do estudo das biografias coletivas dos personagens e das carreiras dos indivíduos que, de alguma forma, se relacionam com a instituição estudada – inclusive de personagens externos que influenciam as instituições. O historiador, entretanto, deve ter cuidado para não criar um confinamento de sua compreensão. Por isso, é importante analisar também aspectos externos a instituição.

Através da Prosopografia o historiador percebe o funcionamento concreto da instituição e não apenas os seus aspectos legais. É possível alcançar o nível da instituição real e transcender a compreensão da instituição legal. Durante a pesquisa deve-se levantar e relacionar os aspectos que unem os personagens envolvidos com a instituição, tais como:
· Origem geográfica, social e familiar;

· Os estudos realizados, a influência educacional (que pode ser percebida através do estudo dos currículos), filosófica, ideológica e religiosa;

· A experiência administrativa, militar, as atividades anexas ou independentes, o desempenho nos cargos ocupados, a carreira anterior e posterior – se existir;

· As relações familiares, o compadrio, o clientelismo e a proteção: relacionar a esfera do público com o privado no âmbito das instituições;

· A inserção em redes políticas, econômicas e intelectuais: estudo dos grupos dentro das instituições, tais como, grêmios, irmandades, confrarias e associações, ou seja, a multiplicidade dos agentes sociais no âmbito da instituição;

· Os conflitos decorrentes da própria presença ou atuação das instituições com grupos sócio-profissionais locais, estruturas políticas, redes de poder, etc.;

· O intercâmbio entre as instituições: é necessário pesquisar as trocas de serviços, as trocas políticas e profissionais trazendo os indivíduos para o primeiro plano e compreender as relações orgânicas entre as instituições;

· Integrar os documentos normativos de natureza legal e institucional com a prática promovida nas instituições e desvelar suas instâncias decisórias e seus mecanismos de poder;
· O estudo das relações institucionais entre as forças armadas e as instituições militares (Forças Armadas em sua relação com as Forças Armadas);

· Criar modelos integrados de explicação e conceitos novos, conforme sugerido por Max Weber e outros, por exemplo, a polissemia da palavra Guerra – guerra clássica, guerrilha, guerra química e biológica, guerra civil, guerra econômica, guerra naval, guerra popular, guerra santa ou messiânica, guerra ideológica, guerra fria.


2. A APROXIMAÇÃO ENTRE A HISTÓRIA SOCIAL E A HISTÓRIA MILITAR

O desenvolvimento das metodologias da história social somada a sua própria capacidade de promover a interdisciplinaridade com outros ramos das ciências sociais e humanas criam no encontro da História Social com a História Militar um dos campos mais fecundos da historiografia atual. A categoria História Militar em seus desdobramentos é entendida a partir de uma rede complexa de estruturas sociais, o que permite compreender a inserção das instituições militares e dos fenômenos militares nas sociedades historicamente constituídas. Assim, podemos indicar como campos de estudo que estão amparados na atual metodologia da História Social:

· O estudo das Forças Armadas a partir de sua presença e atuação regional, destacadamente de sua inserção na vida quotidiana ao longo da história. Pouco se conhece sobre a atuação das Forças Armadas no âmbito de uma História Social e Regional (Ex. atuação da FAB na Amazônia, atuação do Correio Aéreo Nacional, importância da Base de Natal para a população, inclusive após a II Guerra Mundial, etc.);

· O estudo das formas de recrutamento ou engajamento – forçado, sorteio, obrigatório, voluntariado – em suas ideologias e motivações, nos grupos sociais, étnicos, econômicos ou regionais que atingiu. Ou o contrário do recrutamento, o seu oposto simétrico, a deserção, tema sobre o qual pouco se conhece na História Militar, não apenas a brasileira;

· O estudo da História Social de Gênero nas Forças Armadas: escravos, negros, mulatos, crianças, mulheres, etc., em sua atuação e relações sociais;

· A pesquisa da origem social ou sócio-econômica das diversas hierarquias nas Forças Armadas em sua relação com a formação pedagógica e atuação (profissional, política, social, ideológica) dos grupos militares: soldados, suboficiais, oficiais e oficiais superiores;

· As relações entre guerra e sociedade: a pesquisa das experiências pessoais dos soldados e sua vida quotidiana em tempos de paz ou durante as experiências de combate, a inserção social dos expedicionários das tropas brasileiras após o término da II Guerra Mundial;

· Os processos de formação da mentalidade militar em diferentes momentos da história e sua relação com a atuação política dos altos oficiais (ou ausência de atuação) que desempenharam papel de destaque em diversos eventos da História do Brasil: abolicionismo, proclamação da República, Revolução de 30, Revolução Constitucionalista de 1932, crises políticas do período populista, etc;

· A pesquisa dos Arquivos estaduais referentes à Força, Arma, Guarnição ou Instituição estudada;

· Estudo dos Conselhos de Guerra, para o exército e a marinha, das cortes marciais e do próprio Direito Militar, para as Forças Armadas como um todo. Portanto, o estudo da cultura legal e judicial na esfera militar e suas interfaces: os códigos do direito militar, códigos de ética ou conduta. Ou seja, é preciso conhecer a evolução dos critérios e valores da ética militar.


3. A HISTÓRIA E A MEMÓRIA MILITAR

· A formação da memória militar e suas relações com a memória coletiva, a memória social e a memória nacional;

· O estudo das Comemorações, feriados e efemérides militares;

· Estudo do significado das condecorações, emblemas, brasões, códigos de cores, sinais, gestos e símbolos;

· A presença da memória militar incorporada na memória nacional: seus símbolos, os personagens e vultos presentes nos dinheiros, moedas, selos, etc;

· O estudo das canções militares, cantigas da caserna, músicas e canções de trabalho, treinamento, combate, canções que se referem às forças militares em postura crítica ou de enaltecimento, etc. É possível através das canções caracterizar os valores, crenças, significado, objetivos, ideologias, etc.

· O estudo da construção dos vultos militares em sua perspectiva ideológica: os vultos fundadores das armas, tradições, instituições, etc;

· O estudo dos Lugares da Memória e seus significados ideológicos: Pantheon, Mausoléus, praças, monumentos, campos de batalha, etc.: destacar os valores que são enaltecidos e suas características;

· O oposto da Memória: o esquecimento, os tabus, o que não é dito.


4. A HISTÓRIA DAS IDÉIAS E A HISTÓRIA MILITAR

· Relacionar os níveis da história militar com as idéias em um determinado contexto histórico;

· O estudo da aviação militar nas diversas forças: aviação naval, aviação do exercito e aeronáutica;

· O impacto das novas tecnologias aeronáuticas nas forças armadas, nas doutrinas militares, nos processos de formação educacional, profissional e hierárquico;

· O estudo do pensamento aeronáutico e aeroespacial (papel preponderante do poder aéreo no contexto da Guerra fria em diante).

Os estudos históricos podem ser ampliados em seu campo de investigação através da incorporação da Guerra como uma estrutura histórica da tradição ocidental. Ou seja, a Guerra como constitutiva dos estados ocidentais antigos e medievais, como uma instância privilegiada dos estados modernos estamentais e como um componente fundamental das burocracias dos estados contemporâneos.

É necessário que os estudos históricos valorizem a Guerra em seus aspectos relacionados diretamente com outras estruturas históricas, como por exemplo: a Guerra e a cultura, a sociedade, a religião, a política, etc. Por outro lado, a investigação histórica deve incorporar em sua análise os diversos conceitos utilizados na ciência da Guerra, tais como identificamos nos estudos de estratégia (Liderança, Comando, etc.).

Os estudos produzidos no campo de investigação da História Militar devem estar atentos aos novos métodos e procedimentos de investigação surgidos nas ciências sociais. É importante buscar a incorporação de tais métodos e renovar constantemente o campo de investigação da História Militar.


BIBLIOGRAFIA:
 
BURKE, Peter. História e Teoria Social. SP: Unesp, 2002.
CORVISIER, André. A Guerra. RJ: Bibliex, 1999.
GIRARDET, Raoul.A Sociedade Militar. RJ: Bibliex, 2000.
LEGOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1996.
WEBER, Max. Metodologia das Ciências Sociais. SP: Cortez, 1992.
WEHLING, Arno. A Invenção da História. Estudos Sobre o Historicismo. RJ: Editoria Central da UGF e Editora da UFF, 1994.
______ . A Pesquisa da História Militar Brasileira. In: Revista da Cultura, RJ, Ano I, N° 1, Janeiro a Junho de 2001.