"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



terça-feira, 25 de abril de 2023

IMAGEM DO DIA - 25/4/2023

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Blindados do Exército Português ocupam o centro de Lisboa em 25 de abril de 1974 por ocasião da Revolução dos Cravos, que deu início ao restabelecimento do regime democrático em Portugal.


segunda-feira, 24 de abril de 2023

CARTA DE DESPEDIDA DE UM PILOTO KAMIKAZE

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Carta manuscrita de despedida para sua família escrita pelo Cabo Nobuo Aihana, 18 anos de idade, pertencente ao Corpo Especial Kamikaze da Marinha Imperial japonesa. 


“Entrei para o Corpo Shinbu Esquadrão de Ataque e vou pagar minha dívida de gratidão para com o país.

Pai e Mãe, eu me propus à batalha em alto astral. Pai e Mãe, eu coloquei uma foto do meu irmão mais velho no meu macacão de voo. Pai e mãe, estou profundamente envergonhado de mim mesmo que, até o final, não corrigi o meu discurso impróprio e rude de uma criança.

Mãe, você me criou desde que eu tinha seis anos de idade, e eu nunca disse 'mãe' para você que é mais do que minha mãe biológica. Como deve ter sido triste para você. Eu pensei muitas vezes em chamá-la, mas eu não fiz diante de você, pois tinha vergonha. Agora é a hora para eu chamá-la em voz alta: 'Mãe'.

Aeronave Kamikaze atacando em baixa altura o porta-aviões USS Yorktown

Provavelmente o meu irmão mais velho, no centro da China, também sente o mesmo. Mãe, por favor, perdoe nós dois. Agora, como estou saindo para a batalha para fazer um ataque especial, a minha única preocupação são as duas coisas mencionadas acima. Para além destas, eu não tenho arrependimentos.

As pessoas vivem 50 anos e eu viverei uma vida longa de 20 anos de idade. Quanto aos 30 anos restantes, dei a metade a cada um de vocês, pai e mãe. Por favor, usem o dinheiro guardado na caixa de cigarros.

Pai e Mãe, eu estou indo. Eu estou indo com um sorriso e a certeza de destruir um navio inimigo."
Nobuo Aihana


Cabo Nobuo Aihana, kamikaze da Marinha Imperial japonesa morto aos 18 anos de idade


Fonte: Museu de Imagem do Japão

quarta-feira, 19 de abril de 2023

EDITOR DO BLOG APRESENTA COMUNICAÇÃO EM COLÓQUIO DO EXÉRCITO PORTUGUÊS

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O editor do Blog Carlos Daróz-História Militar representou hoje o Brasil e o Exército Brasileiro junto ao Exército Português, o qual, por intermédio de sua Direção de História e Cultura Militar (DHCM), realizou uma homenagem ao Dia do Exército Brasileiro com a realização do Colóquio "A DEFESA DO BRASIL PORTUGUÊS CONTRA OS HOLANDESES (1645-1654)".

Dividindo o tablado com o Tenente-Coronel Abílio Lousada, do Exército Português, Carlos Daróz apresentou a comunicação "GUARARAPES E SEU LEGADO PARA O BRASIL E PARA O EXÉRCITO BRASILEIRO".

Na parte final do evento, os convidados puderam apreciar uma exposição com painéis ilustrados com a evolução histórica da Insurreição Pernambucana e seus líderes militares. Coroando a exposição, figuravam armamentos leves e uma couraça e capacete originais do século XVII, expostos pelo Museu Militar de Lisboa. 











O evento foi presidido pelo Major General Anibal Flambó, Diretor de História e Cultura Militar, e organizado pelo Coronel Vilela Santos (da equipe da DHCM) e pelo Coronel Hermes Menna Barreto Gonçalves, Oficial de Ligação Cultural e Doutrinária do Exército Brasileiro na República Portuguesa. 

O editor do Blog manifesta seu orgulho em poder representar o EB e o Brasil neste importante evento bilateral na área da História e da Cultura, e contribuir para estreitar os laços entre as duas Nações-irmãs.



sábado, 8 de abril de 2023

POR QUE OS SOVIÉTICOS BOMBARDEARAM BERLIM QUANDO OS NAZISTAS ESTAVAM ÀS PORTAS DE MOSCOU?

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A famosa operação Doolittle, na qual a Força Aérea dos Estados Unidos atacou Tóquio em retaliação a Pearl Harbor, teve um ancestral eslavo ainda mais arriscado. A URSS, já severamente enfraquecida, resolveu bombardear Berlim pelos céus.


Por Boris Egorov

Quando, em 7 de agosto de 1941, aviões inimigos apareceram no céu sobre Berlim, os alemães pensaram que se tratava de equipamentos britânicos. Porém, eles logo notaram que a capital do Terceiro Reich estava sendo bombardeada pelos soviéticos, algo que não achavam possível, já que os alemães estavam convencidos de que a URSS havia perdido a guerra. A essa altura, a Wehrmacht já ocupava a maior parte da região do Báltico, a Bielorrússia, metade da Ucrânia, e estava nos arredores de Leningrado (atual São Petersburgo), avançando em direção a Moscou.

No mês de julho, o comandante da Luftwaffe alemã, Hermann Goering, assegurou a Hitler que a Força Aérea Soviética fora completamente destruída. Na realidade, porém, continuava em operação e capaz de bombardear Berlim por um mês inteiro.


Vingança pela capital

A ideia de um ataque aéreo de retaliação contra Berlim surgiu à liderança soviética após os alemães começarem a bombardear Moscou em julho de 1941. O bombardeio da capital da URSS minou a fé do povo soviético em sua força militar e de sua capacidade para resistir ao inimigo; por isso, decidiu-se combater fogo com fogo, bombardeando o coração do Terceiro Reich.

“Se bem-sucedido, um ataque a Berlim terá grande importância. Afinal, os nazistas garantiram ao mundo que a Força Aérea Soviética estava destruída”, recordou o comandante da Marinha Soviética, almirante Nikolai Kuznetsov, em sua autobiografia de 1975. 

As possibilidades, no entanto, eram incertas. A Força Aérea Soviética sofreu perdas catastróficas (milhares de aeronaves) durante os primeiros meses da guerra, o que deu aos alemães a supremacia nos céus. É por isso que cada avião valia ouro e tinha que ser usado racionalmente. Além disso, a URSS não controlava mais os aeródromos dos quais os aviões poderiam fazer voos sem escalas para Berlim.

Bombardeiro DB-3 soviético camuflado na região do Báltico

Os aeródromos em operação mais próximos à capital alemã estavam situados nos entornos de Leningrado, mas, ainda assim, eram muito distantes, e os bombardeiros soviéticos só poderiam chegar a Libau (atual Liepāja, na costa oeste da Letônia). Foi então que a liderança chegou a uma decisão ousada: a URSS usaria pistas precárias no arquipélago Moonsund, no Mar Báltico, que ficavam mais perto do inimigo.

A partir dali, os bombardeiros soviéticos DB-3 poderiam percorrer 900 quilômetros de ida e volta para Berlim. No entanto, as tropas alemãs estavam então perto Tallinn, a principal base do mar Báltico, e se dirigiam ao Golfo da Finlândia. 

Bombardeiro Illyushin DB-3: capacidade para lançar 2,5 toneladas de bombas


Preparativos

O aeródromo na ilha de Ösel (atual Saaremaa), a maior do arquipélago Moonsund, não estava preparado para o uso de bombardeiros de longo alcance. Teve de ser urgentemente reequipado para os bombardeiros soviéticos serem implantados na ilha.

“Os homens da Marinha enfrentaram uma tarefa difícil. Não havia suprimentos suficientes de combustível nem bombas aéreas na ilha. Sob proteção pesada, pequenas barcaças carregadas com gasolina e munição atravessaram as águas minadas do Golfo da Finlândia até Tallinn, e, em seguida, para a ilha de Ösel. Havia perigo a cada passo. Deve-se notar que Tallinn já estava sendo sitiada pelo inimigo”, escreveu Kuznetsov em seu já citado livro de memórias.

Ainda mais perigosos eram os possíveis ataques da Luftwaffe. Para não atrair a atenção dos alemães, os aviões foram escondidos em diferentes partes da ilha, em fazendas e cobertos com redes de camuflagem. O aeródromo de Ösel continuava parecendo abandonado e sem qualquer utilidade.


Operação Berlim

Em 6 de agosto, cinco aviões fizeram um voo de reconhecimento rumo a Berlim, o que acabou sendo um sucesso. Dois dias depois, 15 bombardeiros DB-3 plenamente carregados iniciaram a Operação Berlim no meio da noite. A maior parte da viagem foi realizada sobre o mar Báltico, mudando de rota em Stettin (atual Szczecin, na Polônia) e então se dirigindo para a capital alemã.

A invasão pegou os alemães de surpresa. A princípio, eles pensaram que os aviões soviéticos eram de seu própria força aérea. “Os alemães não esperavam nada tão ousado. Quando nossos aviões se aproximaram do alvo, eles nos enviaram sinais do solo: ‘Que aviões são vocês?’, ‘Para onde estão voando?’. Eles pensaram que eram aviões alemães que haviam perdido o rumo, e os convidaram para pousar nos aeródromos mais próximos”, escreveu Kuznetsov.

Bombeiros alemães combatendo incêndio após ataque aéreo contra Berlim

A capital alemã estava totalmente iluminada e era claramente visível. Ataques aéreos britânicos costumavam vir do oeste e naquela época eram raros. A defesa aérea alemã não esperava um ataque a partir do norte e reagiu tarde demais.

Cinco aviões soviéticos chegaram a Berlim e lançaram bombas; os outros bombardearam os subúrbios e Stettin. Após a operação, todas as tripulações retornaram à base sem sofrer perdas.

No mesmo dia, a rádio alemã informou: “Nas primeiras horas de 8 de agosto, um grande destacamento da Força Aérea Britânica, cerca de 150 aviões, tentou bombardear nossa capital. Dos 15 aviões que chegaram à cidade, 9 foram abatidos”.

Quando ficaram sabendo quem havia bombardeado Berlim, a reação foi de choque total, tanto entre os líderes da Alemanha nazista, quanto entre as pessoas comuns. Ninguém percebera que a Força Aérea Soviética ainda estava viva – e atacando. 


Vitória psicológica

Ao longo de um mês, aviões soviéticos fizeram outras nove incursões à capital alemã, mas o elemento surpresa já não existia mais: o inimigo estava pronto.

Nos ataques subsequentes, a União Soviética perdeu 18 aeronaves. No início de setembro, após a tomada de Tallinn, as tropas alemãs invadiram as ilhas de Moonsund e, em 5 de setembro, a operação “Berlim” foi interrompida.

Major Rasskazov parabeniza tripulação de bombardeiro DB-3 pela missão bem-sucedida

Os ataques aéreos soviéticos receberam ampla cobertura na imprensa nacional e ocidental. Embora não tenha causado danos sérios, o bombardeio de Berlim teve um importante efeito psicológico: mostrou ao mundo que a aviação soviética não apenas seguia viva, mas era capaz de desferir golpes dolorosos contra a Alemanha nazista.

“Depois do primeiro bombardeio, o povo russo começou a dizer, pensar e escrever nos jornais: se chegamos a Berlim por via aérea, também iremos fazê-lo por terra”, relembrou o tenente-coronel Serguêi Ostápenko, que conhecia alguns dos pilotos que participaram dos ataques.

Fonte: Russia Beyond


quarta-feira, 22 de março de 2023

A QUEDA DE CONSTANTINOPLA (1453)

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A Queda de Constantinopla ocorreu em 29 de maio de 1453, após o ataque dos turco-otomanos comandados por Mehmet II.  
O episódio marcou a transição da Idade Média para a Modernidade.


A cidade, vestígio do Império Romano do Oriente e do Império Bizantino, era a última depositária da Antiguidade Clássica. A capital do Império Bizantino já havia sido cercada duas vezes pelas frotas muçulmanas. O primeiro cerco durou cinco anos de 673 a 677; o segundo, um ano somente, em 717. Nos dois cercos, os muçulmanos foram repelidos com o uso de fogo grego. Entretanto, ao longo dos séculos, os bizantinos foram perdendo sua capacidade militar, além disso, as perdas de territórios, a expansão islâmica e as cruzadas podem ser considerados como fatores determinantes para o que ocorreria em 1453. Quando os turcos otomanos, atravessaram o Estreito do Bósforo. Tomaram a maior parte dos Bálcãs e instalaram a sua capital em Adrianópolis, cercando Constantinopla. Isolando a cidade e impedindo qualquer apoio das nações ocidentais. 

No século XIV, as vitórias dos turcos em Kosovo e Nicópolis sobre os cristãos prenunciavam a queda iminente de Constantinopla. A cidade de Constantino I, em meados do século XIV, era um pequeno Estado relacionado com os mercados do Extremo Oriente, porém em benefício dos mercadores de Veneza e Gênova. 

Em 1451, Maomé II sucede a seu pai, Murad II, à frente do Império Otomano, o novo sultão, de 19 anos, decide acabar com Constantinopla.

Tropas do sultão aproximam-se da muralha transportando um dos gigantescos canhões que seriam utilizados no sítio


Em Julho de 1452, é enviada uma declaração de guerra ao imperador bizantino. Dois meses mais tarde, são desencadeadas as hostilidades testando as muralhas da cidade com 50 mil homens. O cerco começa em abril de 1453 com 150 mil homens e uma poderosa frota. Os bizantinos só dispunham de sete mil soldados gregos e um destacamento de 700 genoveses sob o comando de Giovanni Giustiniani Longo, além de 40 navios.

O imperador Constantino XI Paleólogo envia emissários, disfarçados de turcos, que se infiltraram entre os navios e chegaram a Veneza. A Sereníssima República logo arma 10 embarcações para socorrer os seus tradicionais aliados. Porém, a ausência de vento e a pouca pressa dos venezianos não permitiram chegar a tempo para salvar Constantinopla.

Diante do tríplice anel de muralhas, Maomé II recorre a todos os seus recursos de artilharia. Durante semanas, sem trégua, arremessam projéteis com seus canhões. A frota do sultão cerca a cidade pelo Bósforo e o mar de Mármara mas não consegue entrar no canal do Corno de Ouro que fecha a cidade pelo leste.

Constantinopla sitiada

No dia 28 de Maio, os arautos do sultão anunciam a batalha decisiva. Na alvorada de 29, dezenas de milhares de soldados invadem a cidade. Diante da Igreja de Santa Sofia, o imperador Constantino XI Paleólogo, de armas na mão, morre no meio dos seus soldados. Ao meio-dia o sultão entra triunfalmente na cidade. Os combates fizeram pelo menos quatro mil mortos. Caía finalmente, depois de mais de dez séculos, a maçã de prata ou simplesmente Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente.

O sultão Mehmet II já dentro das muralhas da cidade

A queda de Constantinopla teve grande impacto no Ocidente. Chegou-se a iniciar conversações para uma nova cruzada para liberar Constantinopla do jugo turco, mas nenhuma nação poderia ceder tropas naquele momento. Os próprios genoveses se apressaram a prestar respeitos ao sultão, e assim puderam manter seus negócios por algum tempo.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

IMAGEM DO DIA - 26/2/2023

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Posto de comando da Legião Estrangeira na frente de Belloy-en-Santerre em 4 de julho de 1916, durante a Primeira Guerra Mundial.
 


sábado, 25 de fevereiro de 2023

O FIM DO PACTO DE VARSÓVIA (1991)

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Em 31 de março de 1991, foi extinto o Pacto de Varsóvia, fundado em 1955 pela União Soviética e seus satélites, em contraposição à Otan e em resposta à inserção da Alemanha em alianças militares ocidentais.

Por Christa Kokotowski


As estruturas militares da aliança militar do Leste Europeu deixaram de existir no dia 31 de março de 1991. Sua dissolução foi decretada numa conferência dos ministros do Exterior e da Defesa dos países-membros, realizada em fins de fevereiro daquele ano em Budapeste.

Justamente os representantes da União Soviética estavam ausentes. Ou será que eles simplesmente quiseram evitar uma situação desagradável? Afinal, 35 anos antes, os tanques soviéticos haviam acabado com uma revolução popular ali mesmo em Budapeste, capital da Hungria. Além disso, a cerimônia que punha fim ao Pacto tinha lugar no salão de baile de um luxuoso hotel americano.


Resposta do Leste à OTAN

Fazia quase 36 anos que fora criado, a 14 de maio de 1955, na capital que lhe deu o nome, o Pacto de Varsóvia, com o qual os países do bloco comunista se contrapunham à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Mais ainda, reagiam ao fato de a Alemanha ter recuperado, por meio dos Tratados de Paris, a soberania perdida após a derrota na Segunda Guerra e ter sido aceita na Otan e na União da Europa Ocidental.

Haviam participado da fundação, ao lado da União Soviética: Albânia, Bulgária, Hungria, Polônia, Romênia, assim como as antigas República Democrática Alemã e Tchecoslováquia. Formalmente, o Pacto de Varsóvia – que se reportava aos estatutos das Nações Unidas – era um acordo regional entre parceiros em igualdade de direitos, para a defesa coletiva em caso de agressão externa. Na verdade, tratava-se de um instrumento tanto militar como político da União Soviética, com a meta de disciplinar seus membros.

Um ano após a fundação, os húngaros sentiram na pele o que isso significava, quando seu desejo de liberdade foi massacrado pelos tanques soviéticos. E o mais tardar em agosto de 1968 a organização deixou claro ao mundo o que ela era na realidade: um instrumento de poder em mãos de políticos soviéticos, capazes de tudo para impor a hegemonia de seu conglomerado de países. Desta vez o alvo foi a então Tchecoslováquia, em cuja capital tinha lugar o movimento pela democracia que ficou conhecido como a Primavera de Praga.

Primavera de Praga: o Pacto de Varsóvia sufoca o movimento pela democracia iniciado na Tchecoslováquia


Começo do fim

Foi justamente com a intervenção em Praga que começou o fim do Pacto de Varsóvia: os albaneses saíram da aliança em sinal de protesto e os romenos não participaram da invasão. Nos anos seguintes, multiplicaram-se as tentativas de reorganização da aliança: no fundo, apenas gestos para dar a impressão de que seus membros tinham o que dizer. Na realidade, o Pacto continuou a ser o que era: na era de distensão dos anos 1970, um instrumento da política externa soviética; no início da década de 1980, um instrumento de propaganda contra as estratégias da Otan.

A política de abertura de Mikhail Gorbatchev acelerou o processo de desintegração, reforçado ainda pelas transformações políticas na RDA, Bulgária e Romênia, e pela retirada das tropas soviéticas da Hungria e Tchecoslováquia. Por fim, com a anuência de Gorbatchev para a reunificação da Alemanha e a permanência desta na Otan, o Pacto de Varsóvia perdeu a razão de existir.

Os generais do Pacto de Varsóvia reunidos no encontro que selou o fim da aliança, em 1991

Três meses após a cerimônia em Budapeste, na qual se dissolveu sua estrutura militar, foi assinado em Praga o protocolo do término do "acordo de amizade, cooperação e assistência mútua", como era seu nome oficial.

Oito anos mais tarde, a República Tcheca, Polônia e Hungria passaram a integrar a Otan, à qual pertencem desde março de 2004 também a Bulgária, Romênia, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Letônia e Lituânia – ou seja, quase todos os antigos inimigos, integrantes do extinto Bloco Comunista.

Fonte: DW



domingo, 5 de fevereiro de 2023

QUATRO CARTAS DE UM COMANDANTE DE CAVALARIA DO EXÉRCITO NAPOLEÔNICO

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As correspondências entre lideranças ou pessoas comuns constituem-se em valiosas fontes para o estudo dos fatos históricos.  


Publicamos, a seguir, quatro cartas escritas pelo coronel Castex, do Exército Francês, publicadas, pela primeira vez, na revista Carnet de la Sabretache n° 123, de março de 1903.
Bernard-Pierre Castex foi um hábil comandante de cavalaria francês. 

Castex nasceu em Pavie, na região de Armagnac, em 29 de junho de 1771. Em 1792 voluntariou-se para os Caçadores a Cavalo (Chasseurs à cheval) de seu departamento (Gers) e foi feito general de divisão, em 28 de outubro de 1813. Napoleão tornou-o Barão do Império em 1808. Luís XVIII concedeu-lhe o título de Visconde em 1822, nomeou-o Grande Oficial da Legião de Honra e concedeu-lhe a Grã-Cruz de Saint-Louis. O Visconde de Castex faleceu em Strasburgo, no dia 19 de abril de 1842.

A seguir, quatro correspondências do coronel Castex que contribuem para a pesquisa histórica das Guerras Napoleônicas:


Belmar, 15 de outubro de 1806.

Você deve ter ficado surpreso por não ter recebido notícias minhas durante minha estada em Versalhes. Não pude fazê-lo, tendo permanecido ali apenas seis dias, em meio a uma variedade de ocupações. Além disso, eu não teria lhe dado nenhuma notícia mais satisfatória do que esta.

Ontem (em Jena), derrotamos completamente o Exército Prussiano. Os remanescentes desse exército se retiraram em desordem. Perseguimos o inimigo sem que ele pudesse se evadir. Eu mandei realizar uma carga pelo 7º Regimento de Caçadores que eu havia comandado como major por três dias, que resultou na minha promoção a coronel no campo de batalha. O Imperador pediu para me ver e disse: “Você é um homem corajoso, você é um coronel. Diga aos caçadores que eu sabia que eles eram melhores que os saxões e os prussianos”. Para mim, aquele foi o melhor dia da minha vida. Meu pai e minha mãe, sem dúvida, compartilharam a satisfação que a ocasião me proporcionou.

Mais tarde, quando tiver tempo, darei alguns outros detalhes. O coronel Marigny (do 20º de Caçadores) havia assumido o comando de seu regimento oito dias antes desta batalha. Ele foi morto por uma bala de canhão: é o seu regimento que agora comando.

CASTEX.


(Para seu amigo Despax).
Ming, 12 de março de 1807.

Tem sido impossível para mim, meu caro amigo, enviar-lhe qualquer notícia mais cedo. Desde 28 de janeiro [de 1807] me encontro constantemente na vanguarda e você deve saber que o correio não costuma seguir muito de perto. É, portanto, somente esta razão que me deu o prazer de escrever para você. Eu estava tanto mais ansioso para encontrar um momento favorável para esta ocasião, pois estou convencido de que todos vocês devem estar preocupados, especialmente depois das várias batalhas que vivemos no mês de fevereiro.

A do 8º em particular [Eylau] não poderia ter sido mais devastadora para os russos, muito mais do que foi para nós. Em uma palavra, o campo de batalha de Eylau é o mais horrível de todos os terrores já testemunhei em minha vida. Notei que havia pelo menos quatro russos mortos para cada francês. Meu regimento sofreu um pouco em todo esse tempo, mas com alguns dias de descanso não será mais perceptível. Os bravos homens que morreram serão substituídos por outros.

Quanto a mim, estou indo muito bem. O descanso que estou desfrutando no momento está me fazendo muito bem. Eu até gostaria que durasse mais alguns meses, mas duvido que dure.

CASTEX.


Burghausen, 30 de abril de 1809.

Três batalhas, três combates e tantas vitórias. Eu estou indo bem.

A Baviera foi completamente evacuada e estamos marchando para Viena, onde provavelmente estaremos dentro de um mês. Os jornais fornecerão outros detalhes.

Enquanto isso estou montando meu cavalo para encontrar meu lugar na vanguarda do exército.

CASTEX.


Neustadt, 17 de maio de 1809.

Estou bem, meu caro amigo.

O exército está em Viena e meu regimento fica nas fronteiras da Hungria, onde esperamos encontrar mais milho do que o Landsturm (de que nos falaram), se tivermos vontade de cruzar a fronteira.

Enquanto isso, estamos nos recuperando um pouco de nossas fadigas. Não vou falar de nossos sucessos, convencido de que os jornais se preocuparam em lhe dar todos os detalhes, mas lhe direi que Dayrens estava tão cansado que ficou para trás, a 30 léguas daqui, junto com os outros oficiais feridos.

CASTEX.



terça-feira, 24 de janeiro de 2023

27 DE JANEIRO DE 1944 - TERMINA O CERCO DE LENINGRADO

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No dia 27 de janeiro de 1944 terminavam os 872 dias do cerco a Leningrado.


Por Aleksandr Korolkov


No dia 27 de janeiro de 1944, as tropas soviéticas fizeram os soldados de Hitler recuar para uma posição de até 100 km de Leningrado, restaurando as ligações de transporte com a cidade. Acabavam assim os 872 dias daquilo que entraria para os livros de história como  o cerco a Leningrado.

Naquela noite de janeiro provavelmente todos os que conseguiram saíram para a rua para assistir aos fogos de artifício em comemoração da libertação, mas de longe nem todos viram junto a si os seus vizinhos, amigos e parentes. De quase três milhões de habitantes da maior cidade soviética antes do cerco, 1,5 milhão de foram evacuadas e mais de 650 mil morreram, a maioria de fome.

Por que razão Leningrado (como era chamada São Petersburgo) era tão importante para Hitler? Ela não apenas ameaçava o flanco esquerdo das tropas nazistas, mas era importante em termos de logística. Se tomassem Leningrado, os alemães teriam à sua disposição um porto marítimo e um importante entroncamento ferroviário de abastecimento.

Bateria antiaérea russa defendendo Leningrado


A cidade se defendeu bem. O trabalho de cerca de meio milhão de seus habitantes a transformou em uma verdadeira fortaleza. Sitiados, eles se defendiam com os canhões navais da Frota do Báltico e a artilharia pesada do forte de Krasnaia Gorka. A densidade da artilharia antiaérea de defesa era dez vezes maior do que na defesa de Londres.

Sem conseguirem tomar a cidade, os soldados do Grupo de Exércitos Norte alemão bloquearam por completo Leningrado, já cercada ao norte pelos finlandeses.

As tropas soviéticas iniciaram as tentativas de libertar a cidade no outono de 1941, mas sem sucesso.


Evacuação

A evacuação dos habitantes de Leningrado, como da população de muitas outras grandes cidades do oeste da União Soviética, foi organizada logo após o início da guerra. No dia 29 de junho trens retiraram os primeiros refugiados para leste. Naquela altura a guerra soava ainda longe e muitas pessoas se recusaram a abandonar suas casas.

Quando no dia 27 de agosto as forças da Wehrmacht se apoderaram da ferrovia que saía de Leningrado, muitos civis ficaram. Tinha então início uma séria crise no abastecimento e era impossível alimentar os que restavam na cidade.



A situação começou a mudar apenas depois de o Lago Ladoga congelar. Em outubro de 1942, mais de 1 milhão de pessoas foram evacuadas de Leningrado através do “caminho da vida”, feito ao longo deste lago.


Fome

Antes, tal como agora, os suprimentos armazenados em qualquer grande cidade chegavam no máximo para garantir duas semanas de autonomia. E a sitiada Leningrado não foi exceção. O fogo nos depósitos de comida, deflagrado pelo bombardeamento dos aviões alemães, apenas apressou o inevitável. Já em outubro a cidade se viu com sérios problemas de falta de comida e em novembro, de fome declarada.

Fazer entrar comida por via aérea era impossível e o período entre o momento em que o lago Ladoga deixou de ser navegável até o seu gelo solidificar por completo foi o mais difícil durante o bloqueio: os barcos já não podiam atravessar o lago, mas os caminhões ainda não podiam passar por cima dele.

Muitos moradores de Leningrado morreram de fome durante o longo cerco


O sistema de racionamento apenas veio organizar a fome, mas não conseguiu vencê-la. Começou com a diminuição das doses de distribuição de comida, cujo pico se deu no dia 20 de novembro de 1941, quando os soldados na linha da frente receberam para todo o dia apenas 500 gramas de pão, os trabalhadores, 250 gramas, e os empregados e dependentes, 125 gramas.

No primeiro inverno do cerco, morriam diariamente de fome e de frio milhares de pessoas. A morte de fome em massa continuou até o verão de 1942, mas mesmo depois as normas de ração diária se mantinham muito baixas e até mesmo os soldados, que recebiam rações reforçadas, passavam frequentemente fome extrema.


A vida na cidade sitiada

Apesar da fome e dos bombardeios constantes, a cidade continuava a viver. A linha da frente estava posicionada a 16 km do Palácio de Inverno, ou seja, do coração da cidade. Os tanques que saíam das oficinas da fábrica de Kirov, constantemente sob fogo inimigo, seguiam direto para a frente de combate e do centro da cidade havia um bonde que fazia o percurso também até a linha da frente.

Apesar de tudo, a cidade preservava a ordem. Quando em novembro de 1941 as mortes derivadas da fome se tornaram generalizadas, foram organizadas equipes especiais que retiravam diariamente das ruas e calçadas dezenas e até centenas de cadáveres. Em março de 1942, toda a população ativa saiu para limpar o lixo da cidade e em abril começou a restauração dos canos e de outras estruturas.


Vida cultural

Apesar dos bombardeios e do bloqueio, Leningrado mantinha a sua vida cultural. Mesmo durante o primeiro inverno do cerco, alguns teatros e bibliotecas se mantiveram abertos ao público, e no verão de 1942 foram inauguradas algumas escolas e outros teatros. No dia 9 de agosto de 1942 se realizou o primeiro concerto sitiado da filarmônica municipal, no qual foi tocada a famosa Sinfonia Heroica de Leningrado, de Dmítri Chostakovitch, que se tornou o símbolo musical do bloqueio.

Fonte: Gazeta Russa


sábado, 21 de janeiro de 2023

UNIFORME - CONSELHEIRO MILITAR CUBANO

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Exército Cubano
Conselheiro militar
Guerra do Ogaden (1977-1978)

A breve Guerra do Ogaden começou com a invasão somali da Etiópia. A União Soviética desaprovou a invasão e cessou seu apoio à Somália, passando a apoiar a Etiópia. A Etiópia foi salva de uma grande derrota e da perda permanente de território por meio de um transporte aéreo massivo de suprimentos militares no valor de US$ 1 bilhão, a chegada de entre 12.000 e 24.000 soldados cubanos enviados por Fidel Castro para obter uma segunda vitória africana (após seu primeiro sucesso em Angola em 1975-1976).

O sargento cubano atuou como conselheiro militar cubano junto ao Exército etíope. Utiliza uniforme com peças de camuflagem de origem cubana e soviética, bastante adequado ao combate no ambiente operacional africano. Está armado com um fuzil de assalto AKS-47 com coronha rebatível, de fabricação soviética. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR - CARLO DEL PRETE

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* 21/8/1897 - Luca, Itália

+ 16/8/1928 - Rio de Janeiro, Brasil


Herdeiro da influente família Lucchese, Carlo del Prete começou sua carreira militar se inscrevendo na Academia Naval de Livorno. Ainda como estudante participou de algumas operações da Guerra da Líbia. Ao deflagrar-se a 1ª Guerra Mundial foi designado, pela Marinha Real italiana no Adriático, primeiro para o encouraçado Giulio Cesare, e depois para o cruzador Aquila.

Nesse período começou a conhecer os hidroaviões. São célebres seus voos com Francesco De Pinedo e Arturo Ferrarin, que o levaram à Austrália e estabeleceram diversos recordes de permanência em voo e de distância percorrida. 

Em 1928, em dupla com Ferrarin, a bordo do hidroavião Savoia-Marchetti S.64, conquistou o recorde mundial de duração de voo em circuito fechado (7.666 km, em 58 h 37 min) e o recorde de distância percorrida sem escala, saindo de Montecelio, em Roma, e chegando em Touros, no Brasil, em 49 h 19 min, cruzando 7.163 km.

Cortejo fúnebre no centro do Rio de Janeiro em homenagem a Carlos del Prete

No dia 8 de julho do mesmo ano, enquanto estava no Brasil testando o Savoia-Marchetti S.62, sofreu um grave acidente. Transportado ao Rio de Janeiro, teve uma perna amputada, mas suas condições pioraram, morrendo em 16 de agosto de 1928. Foi condecorado com a medalha de ouro do Valor Aeronáutico. 

Em homenagem ao aviador nativo da cidade, o aeroclube de Luca foi batizado com seu nome.  Também no Brasil, diversas cidades deram o seu nome a logradouros públicos, como ruas e praças.

Estátua em homenagem a Carlo Del Prete na Rua das Laranjeiras, no Rio de Janeiro




sábado, 7 de janeiro de 2023

A DESCONHECIDA GUERRA PSICOLÓGICA UTILIZADA PELOS BRITÂNICOS NAS FALKLANDS/MALVINAS

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Em plena Guerra das Malvinas, um soldado argentino mal treinado e desprovido de armamentos, com frio e fome, faz a guarda de uma colina. O ano era 1982.

Por Max Seitz


Ali, assim como no resto do arquipélago, o vento é constante e não há uma única árvore para se proteger da chuva - somente pedras. O jovem está mais longe de casa do que nunca, quer fugir e ficar perto de sua família. Ele tem medo e poucas esperanças. A comida e os suprimentos são cada vez mais escassos e é improvável que o local seja reabastecido tão cedo. Mas não há outro remédio senão esperar a hora fatal, quando lutará contra as forças britânicas, muito melhor preparadas e armadas do que ele.


De repente, cai em suas mãos um panfleto com os escritos: "Ilha de Condenados".
"Soldados das forças argentinas: vocês estão completamente sozinhos. Da sua pátria não há esperança ou ajuda. Vocês estão condenados à triste tarefa de defender uma ilha remota (...) Não é justo que paguem com suas vidas pelas ambições tortuosas desta louca aventura."

Poucos dias depois, o jovem soldado abandona seu posto e se entrega à unidade britânica mais próxima.


Guerra psicológica

Assim, o governo do Reino Unido imaginava que poderia executar uma "guerra psicológica" (Psywar, na expressão em inglês), estratégia adotada no início do conflito no sul do Atlântico para atingir a moral dos soldados inexperientes que a Argentina havia enviado ao arquipélago. O panfleto é real e faz parte de uma série de documentos secretos recém-revelados pelo Ministério da Defesa britânico.

Os arquivos revelam detalhes até então desconhecidos dessa missão secreta para tentar "manipular" as forças argentinas durante a guerra que matou 649 soldados argentinos e 255 britânicos, entre 2 de abril e 14 de julho de 1982. "Esse material vem à tona só agora porque acabaram de transcorrer os 35 anos exigidos por lei para que pudéssemos divulgá-lo", explicou a autoridade dos Arquivos Nacionais, em Londres, onde os documentos podem ser consultados sob medidas de segurança restritas. Trata-se de uma pasta que contém 189 páginas de documentos etiquetados como "ultra-secretos", sob a referência DEFE 24/2254. Neles, são revelados os detalhes do plano, implementação, exemplos e lições aprendidas da guerra psicológica no arquipélago.


'Explorar o sentimento de isolamento'

A missão de "Psywar" fazia parte da "Operação Corporate", o nome da maior ofensiva militar para recuperar as Ilhas Malvinas. Nos documentos, é possível constatar que o governo britânico deu ao chamado Grupo Especial de Projetos (GEP) a missão de "enganar" as tropas argentinas no arquipélago em abril de 1982, quando a guerra havia acabado de começar. O GEP é uma pequena unidade de oficiais especializados em guerra psicológica dentro do Ministério da Defesa britânico.

Em termos gerais, a missão deles era espalhar o medo diante de um contingente britânico com melhor preparo, contra o qual a derrota seria inevitável. Seguindo essa "ideia de força", um dos documentos definia três metas específicas para o GEP.

- A primeira era "reforçar a percepção argentina sobre a determinação do governo britânico (de recuperar as ilhas) e ressaltar também o poder da força-tarefa (a frota enviada ao arquipélago) mostrando a capacidade do arsenal do Reino Unido."
A segunda era "intensificar a percepção entre os argentinos de que seus líderes são irresponsáveis", ao enfatizar a "escassez de suprimentos nas ilhas".
O terceiro objetivo, o mais ambicioso da operação, era "a desmoralização da tropa argentina nas ilhas", apelando para emoções.

Um dos pressupostos utilizados pelo GEP foi explorar o isolamento dos soldados argentinos nas ilhas.

Isso implicava "explorar qualquer sentimento de isolamento nas tropas de ocupação (argentinas) para que a defesa argentina das Ilhas Falklands (denominação britânica para as Malvinas) pareça insignificante diante da força-tarefa britânica", diziam os documentos. E quando nos arquivos se fala em isolamento, a referência feita não é apenas ao isolamento físico das ilhas, mas também ao desamparo psicológico: a ideia era também tirar proveito do afastamento dos soldados de seus familiares e amigos.


Guerra de panfletos

Para levar a guerra psicológica ao arquipélago, o Grupo Especial de Projetos escolheu "duas armas", segundo os documentos secretos: a produção de panfletos e a instalação de uma emissora de rádio em espanhol. A história da Rádio Atlântico Sul (RAdS) é bastante conhecida. Muito já foi escrito sobre ela, mas há aspectos menos conhecidos, como seu surgimento, operação e alcance - algo que os arquivos do Ministério da Defesa do Reino Unido revelam parcialmente.

Os panfletos produzidos em diferentes momentos do conflito - foram impressos 12 mil exemplares de cada um - são, talvez, o capítulo mais fascinante da guerra psicológica descrita nos documentos oficiais. Um dos panfletos se inspira na rápida derrota da tropa argentina nas Ilhas Geórgia do Sul, também ocupadas pelo país sul-americano. Ali, o capitão-de-fragata Alfredo Astiz sucumbiu em 24 de abril de 1982 diante da superioridade das forças britânicas.


O panfleto, que inclui uma foto de Astiz se rendendo, explora em particular o sentimento de separação.
"Seus valorosos companheiros de armas que estavam há pouco tempo nas Ilhas Geórgia do Sul voltaram à terra natal. Fotografias deles recebendo honras militares e reunidos com seus entes queridos apareceram em todos os jornais", diz o documento.

"Eles tomaram uma decisão correta e honrada. Você deve agora fazer o mesmo. Pense no perigo em que você se encontra. Seus suprimentos de guerra e alimentos são muito escassos. Pense em seus familiares e em sua casa, todos esperando seu retorno."

Outro panfleto descreve uma situação ainda mais dramática: 
"Todos os rigores de um inverno cruel irão cair sobre vocês e o exército argentino não está em condições de enviar os suprimentos e reforços de que vocês tanto precisam".
E completa: "Seus familiares vivem sob terror, sob o medo de que nunca voltarão a vê-los."


Salvo-conduto e canhões

Entre os panfletos impressos durante o conflito, um deles oferece aos soldados argentinos uma solução prática para "fugir" de sua "situação de desespero": um salvo-conduto assinado por ninguém menos do que o comandante das forças britânicas, o almirante John "Sandy" Woodward.


O documento, com objetivo claro de estimular a deserção, certifica: 
"O soldado que estiver portando este passe assinou seu desejo de não continuar na batalha. Ele será tratado estritamente de acordo com o estipulado pela Convenção de Genebra e deverá ser retirado da área de operações o mais rápido possível".

E ainda acrescenta, para tranquilizar o soldado: 
"Serão providenciados alimentos e tratamento médico e depois ele será internado em algum albergue, onde esperará sua repatriação com segurança".

O texto traz instruções precisas sobre como usar o salvo-conduto. Recomenda ao beneficiário: 
a) entregar sua arma; 
b) manter o documento de salvo-conduto em posição bem visível; 
c) aproximar-se do integrante das forças britânicas que estiver mais perto.

No entanto, a guerra psicológica com panfletos não terminou como havia planejado o GEP britânico, a unidade encarregada pela "ofensiva desmoralizadora". Por várias razões. Em um dos documentos secretos, o GEP reclama das dificuldades causadas pela "falta de (informações de) inteligência" sobre as "características psicológicas do público" para tirar o maior proveito da estratégia com os panfletos. Essa falta de inteligência, acrescenta, também impossibilitou comprovar se os panfletos tiveram alguma efetividade na região.

O que fica claro com os arquivos revelados é que os panfletos foram despachados para as Malvinas nos navios HMS Fearless e HMS Hermes e que houve relatos de que vários deles chegaram a ser distribuídos, ainda que em outros casos tenha sido impossível confirmar se eles efetivamente chegaram aos destinatários.

Tropas britânicas em marcha após desembarcarem nas ilhas

O GEP ressalta outro obstáculo que teve de enfrentar: as limitações técnicas para lançar os folhetos no "teatro de operações". "Não foi desenvolvido nenhum projétil para lançar os panfletos como um canhão de 105mm", lamenta. "Também não houve qualquer dispositivo de uso oficial para lançar os panfletos dos aviões de guerra." Na prática, tudo dependia da boa vontade dos militares britânicos no campo de batalha, que tinham outras prioridades na guerra.


Ondas de rádio

Nos documentos divulgados pelas autoridades britânicas, é possível ler que no fim de abril de 1982 o Ministério da Defesa do Reino Unido propôs a criação de uma emissora de rádio para "rebaixar a moral dos soldados argentinos" nas Malvinas. A missão, que levava o nome secreto de "Operação Moonshine" ("Luz da Lua"), deu origem à Rádio Atlântico Sul (RAdS). Seus programas, destinados a "intensificar o sentimento de isolamento das tropas argentinas e estimular sua rendição", seriam produzidos em Londres por uma equipe de 25 pessoas, majoritariamente militares.

Entre eles: um diretor, jornalistas, apresentadores, tradutores, engenheiros do rádio e "coletores" (membros do serviço de inteligência encarregados de obter informações relevantes de todas as fontes possíveis).


De acordo com um dos documentos divulgados, a equipe trabalhou de maneira secreta, em um local da capital britânica. Para evitar comprometer suas operações, os empregados precisavam usar uma senha secreta - "Pinóquio" - para se referir à rádio ou aos seus objetivos. Essa senha sugere a ideia de engano, mas, paradoxalmente, o grupo encarregado da guerra psicológica insiste que "a RAdS se apresentava como uma emissora neutra e imparcial", que "informava os fatos" com fontes do governo britânico e da Argentina, "se este último fosse compatível com as metas".

A justificativa para esse tipo de orientação editorial pode ser encontrada em um dos documentos: "No decorrer da crise, as autoridades argentinas buscaram maneiras de justificar suas ações e provar, especialmente para seu próprio povo, que estavam sendo bem-sucedidos." "Montaram uma campanha de propaganda em grande escala em que a verdade foi ignorada. Muitas declarações eram tão exageradas e absurdas que se desmentiam por si mesmas", completa.


'De iniciantes'

Segundo os arquivos secretos do Ministério da Defesa, a "Operação Moonshine" gerou resistência em outras áreas do governo britânico e na BBC, cujos serviços Mundial e Latino-Americano já faziam transmissões no arquipélago e no território argentino. A BBC também se opôs à iniciativa do governo de assumir o controle de uma de suas antenas na Ilha Ascensão - no meio do Oceano Atlântico - para lançar sua "arma psicológica" pela frequência 9,71 MHz. 

A RAdS fez transmissões em espanhol entre 19 de maio e 15 de junho durante quatro horas por dia. A programação incluía boletins de notícias, comunicados, reportagens, e, eventualmente, até músicas.

No entanto, conforme se constata no material divulgado, os líderes da "Operação Moonshine" acabaram frustrados. Em um dos documentos, há uma pergunta ao então ministro da Defesa, John Nott, se ele acreditava que a RAdS havia contribuído de alguma maneira na captura dos soldados argentinos. "As transmissões eram muito boas...mas eu diria que não tiveram um efeito maior no resultado", respondeu. Nott parecia julgar de maneira otimista a qualidade da programação da rádio. Porque os arquivos secretos detalham vários problemas nela - para começar, há uma citação à própria BBC dizendo que ela considerava que o conteúdo era "de principiantes" e denunciando que "comprometia" sua imparcialidade.

É possível identificar outros problemas por meio de uma comunicação do Exército argentino interceptada pela inteligência britânica, que é falha e cujas conclusões o governo do Reino Unido acabou aceitando. "A linguagem usada era similar à da América Central e faltava conhecimento do espanhol falado na Argentina", dizia o documento. Os britânicos reconhecem isso como um erro estratégico: como poderiam conseguir uma identificação emocional na guerra psicológica se usam expressões da língua que não são faladas ali?

Mas o documento em questão vai além: "Nenhum soldado tinha ideia do que era a RAdS (...) Os soldados argentinos nem estavam sabendo dessas transmissões, nem chegaram a escutá-la devido às circunstâncias." "A maioria das tropas se encontrava no chão e, com exceção de alguns oficiais, nenhum deles tinha receptores" e que "quando surgia alguma oportunidade de escutar rádio, sintonizavam nas rádios da Argentina".

Fonte: BBC