"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



quarta-feira, 3 de junho de 2009

LEGIÃO LIVRE INDIANA - O EXÉRCITO VOLUNTÁRIO DE HITLER


Por Mike Thomson


Nos estágios finais da Segunda Guerra Mundial, enquanto os Aliados e as forças de resistência francesas expulsavam as agora desmoralizadas tropas de Hitler da França, três altos oficiais alemães desertaram.
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A informação que eles deram à inteligência britânica foi considerada tão crítica que, em 1945, foi trancada, não sendo marcada para liberação antes de 2021. Agora, 17 anos antes, o departamento de documentação da BBC teve acesso especial a esse arquivo secreto.Ele revela que milhares de soldados indianos que tinham se juntado aos britânicos na luta contra o fascismo trocaram seus juramentos à coroa britânica por outros para Adolf Hitler – um impressionante conto de lealdade, desespero e traição que ameaçou o domínio britânico na Índia, conhecido como Raj.

A história que os oficiais alemães contaram aos seus interrogadores começou em Berlim, em 3 de abril de 1941. Essa foi a data em que o líder revolucionário indiano Subhas Chandras Bose chegou à capital alemã. Bose, que tinha sido preso 11 vezes pelos britânicos na Índia, fugiu do Raj com uma missão em mente: buscar o apoio de Hitler para expulsar os britânicos de seu país. Seis meses depois, com a ajuda do ministro alemão das relações exteriores, ele tinha montado o que chamava de “Centro da Índia Livre”, de onde publicava panfletos, escrevia discursos e organizava transmissões de rádio em apoio à sua causa.

No fim de 1941, o regime de Hitler reconheceu oficialmente o “Governo da Índia Livre” provisório no exílio, e até concordou em ajudar Chandras Bose a montar um exército para lutar por sua causa. Foi a chamada “Legião da Índia Livre”. Bose esperara conseguir uma força de 100.000 homens que, quando armados e treinados pelos alemães, poderiam ser usados para invadir a Índia britânica.Ele decidiu recrutar seus homens durante visitas a campo de prisioneiros de guerra que, naquele tempo, era lar de dezenas de milhares de soldados indianos capturados por Rommel no Norte da África. Finalmente, em agosto de 1942, o recrutamento de Bose começou a ganhar impulso. Cerimônias públicas eram realizadas nas quais dúzias de prisioneiros indianos prestavam juramento de fidelidade a Adolf Hitler. Essas foram as palavras usadas pelos homens que previamente haviam jurado fidelidade ao Rei da Inglaterra:

“Eu faço por Deus este juramento sagrado,no qual obedecerei ao líder da raça e do estado alemão, Adolf Hitler, como comandante das forças armadas alemãs na luta pela Índia, cujo líder é Subhas Chandras Bose”.

Consegui rastrear um dos antigos recrutas de Bose, Tenente Barwant Singh, que ainda se lembra do revolucionário indiano chegando a seu campo de prisioneiros. “Ele foi apresentado a nós como líder do nosso país que queria falar conosco”, ele diz. “Ele queria 500 voluntários que seriam treinados na Alemanha e saltariam de pára-quedas na Índia. Todos levantaram as mãos. Milhares de nós se voluntariaram”.

Ao todo, 3.000 prisioneiros indianos se alistaram na Legião da Índia Livre. Mas, ao invés de ficar feliz, Bose ficou preocupado. Um esquerdista admirador da Rússia, ele ficou arrasado quando os tanques de Hitler penetraram a fronteira soviética. As coisas ficaram mais difíceis após a derrota em Stalingrado, quando tornou-se claro que as forças alemãs agora em retirada não estavam em posição de oferecer a Bose qualquer ajuda para expulsar os ingleses da distante Índia. Quando o revolucionário indiano encontrou-se com Hitler em maio de 1942 suas suspeitas foram confirmadas, e ele começou a acreditar que o líder nazista estava mais interessado em usar seus homens mais para ganhar vitórias de propaganda do que militares. Então, em fevereiro de 1943, Bose deu as costas aos legionários e entrou secretamente em um submarino a caminho do Japão. Lá, com ajuda japonesa, ele iria formar uma força de 60.000 homens que marcharia para a Índia. Já na Alemanha, os homens

recrutados por Bose tinham sido deixados sem liderança e desmoralizados. Após muita decepção e mesmo um motim, o Alto-Comando alemão os despachou inicialmente para a Holanda e depois para o sudoeste da França, onde ajudariam a fortificar a costa contra a esperada invasão Aliada.

Após o Dia-D, a Legião da Índia Livre, que tinha sido trazida para a Waffen-SS de Himmler, estava em franca retirada através da França, junto com unidades regulares alemãs. Foi durante esse período que eles ganharam uma reputação selvagem entre a população civil. O antigo membro da Resistência Francesa, Henri Gendreaux, se lembra da Legião passando por sua casa na cidade de Ruffec: “Me lembro de diversos casos de estupro. Uma senhora e suas duas filhas foram estupradas e em outro caso eles ainda fuzilaram uma pequena garota de dois anos de idade”.
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Finalmente, ao invés de expulsar os ingleses da Índia, a Legião da Índia Livre se viu expulsa da França e depois da Alemanha. Seu tradutor militar alemão naquele tempo era o Soldado Rudolf Hartog, que agora tem 80 anos: “No último dia em que estávamos juntos um tanque apareceu. Eu pensei, meu Deus, o que posso fazer? Estou acabado”, ele diz. “Mas ele queria apenas levar os indianos. Nós nos abraçamos e começamos a chorar. Você percebe quando é o fim”.

Um ano depois os legionários indianos foram mandados de volta para a Índia, onde todos foram soltos após pequenas sentenças prisionais. Mas, quando os britânicos puseram três de seus oficiais mais graduados em julgamento perto de Delhi, houve motins no exército e protestos nas ruas. Com os britânicos agora cientes de que o Exército Indiano não mais dependia do Raj para exercer sua função, a independência seguiu-se quase imediatamente. Não que Subhas Chandras Bose tenha vivido para ver o dia pelo qual tanto tinha lutado. Ele morreu em 1945.

Desde então, pouco tem sido dito sobre o Tenente Barwant Singh e seus companheiros legionários. No fim da guerra a BBC foi proibida de divulgar sua história e essa impressionante saga foi trancafiada nos arquivos, até agora. Não que o Tenente Singh tenha se esquecido daqueles dramáticos dias:

Em frente aos meus olhos eu posso ver como todos nos éramos, como nós cantávamos e como todos falávamos sobre o que eventualmente iria acontecer conosco”, recorda ele.


Fonte: BBC News

 

Um comentário:

  1. Parabéns, excelente página... O Sr. poderia me indicar livros sobre a Guerra da Indochina?

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