"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



terça-feira, 14 de julho de 2020

KHIUAZ DOSPANOVA – A CORAJOSA “BRUXA DA NOITE” CAZAQUE QUE RENASCEU DENTRE OS MORTOS

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Khiuaz Dospanova nasceu em 1922 na região de Atyrau, Cazaquistão, e desde cedo demonstrou ser uma garota inteligente e diligente. Um ano antes do início da Grande Guerra Patriótica, em 1940, ela terminou a escola secundária com honras.  Khiuaz foi inspirada pelos feitos dos pilotos soviéticos e, desde a infância, a menina sonhava em ser piloto. Durante os anos letivos, ela frequentou o clube local de voo, até conseguir o certificado de piloto da reserva. Então, ela seguiu para Moscou, mas a Academia da Força Aérea de Zhukovsky rejeitou sua inscrição, porque a escola aceitava apenas homens. 

Khiuaz ficou irritada, mas adaptou-se e ingressou no Instituto Médico. Quando ela terminou o primeiro ano no instituto, a guerra começou. Era o verão de 1941. Logo depois disso, Khiuaz Dospanova soube que um novo regimento de aviação feminino estava sendo formado sob o comando de Marina Raskova. Khiuaz, então, se inscreveu e foi aceita para o 588º Regimento de Bombardeio Noturno, organizado e treinado em Saratov e formado unicamente por mulheres. Em maio de 1942, o regimento feminino de bombardeiros leves foi colocado sob o comando da major Yevdokiya Bershanskaya. 

A destemida piloto cazaque Khiuaz Dospanova

As mulheres desta unidade aérea tiveram um desempenho tão bom, que os alemães as chamaram de "Nachthexen" ("bruxas da noite"). Elas adotaram uma tática inusitada - as pilotos aproximavam-se dos alvos e desligavam os motores para diminuir o ruído das aeronaves. Os bombardeiros perdiam altura e jogavam suas bombas sobre o inimigo antes de serem vistos. As pausas entre os voos eram de cinco a oito minutos. Às vezes, uma tripulação fazia de seis a oito missões em uma única noite no verão, e dez e doze no inverno, quando as noites eram mais longas. 

No total, as aeronaves do 588º (depois renomeado 46º Regimento de Guardas) passaram 28 676 horas (1.191 dias) voando.  Khiuaz Dospanova totalizou 300 horas de voo em combate. Ela era a única no regimento que nunca usava cintos de segurança. Provavelmente, isso salvou sua vida na primavera de 1943, quando a aeronave de Pashkova e Dospanova colidiram com o bombardeiro de Makogon e Svistunova, enquanto pousavam no aeródromo. Os primeiros socorros foram fornecidos imediatamente, mas Makogon e Svistunova estavam mortas. Dospanova e Pashkova, inconscientes, foram transportadas para um hospital de campanha. Julia Pashkova morreu na mesa de operações. Khiuaz também não mostrava sinais vitais e foi colocada ao lado de sua amiga morta. Depois de um tempo, as enfermeiras perceberam que sua pele não estava pálida. Imediatamente eles começaram a reanima-la e conseguiram que a jovem abrisse os olhos. Os médicos passaram vários dias e noites tentando salvar sua vida. Havia alguns sinais de gangrena nas pernas. Mas o médico recusou a amputação: "Não posso cortar as pernas dessa garota. Se ela sobreviver, precisará delas". 

Khiuaz Dospanova escapou milagrosamente da morte e continuou a voar na guerra

E Khiuaz sobreviveu, praticamente ressuscitando do mundo dos mortos. Ela estava usando gesso quando voltou para a frente de combate. Apesar das sequelas de seus ferimentos, ela voltou a voar, contando com a ajuda de suas colegas para entrar e sair de seu avião.  O tempo passou e ela foi nomeada Oficial de Ligação do regimento.

Hoje é difícil imaginar que essa garota jovem e delicada pudesse bombardear o inimigo e matar fascistas. Cada um de seus voos era como um exame - um teste de suas habilidades de voo, bravura, desenvoltura e autocontrole. Ela passou no teste com sucesso. Por sua bravura, Khiuaz Dospanova recebeu a Ordem da Estrela Vermelha, a Ordem da Grande Guerra Patriótica de 2ª Classe, a Ordem da Bandeira Vermelha, e as medalhas da defesa do Cáucaso, libertação de Varsóvia e vitória sobre a Alemanha. Em 2004, Khiuaz Dospanova recebeu a condecoração mais alta da República do Cazaquistão - a Estrela Dourada "Khalyk Kakharmany" ("Herói Nacional"). 

As três heroínas cazaques da Grande Guerra patriótica: Khuiaz Dospanova, Aliya Moldagulova e Manshyk Mametova.

A brava piloto feminina que lutou na Grande Guerra Patriótica faleceu em 2008, deixando um legado de patriotismo, sacrifício e coragem, e inscrevendo seu nome na história da aviação de combate.

Conheça essa e outras histórias lendo


Garanta já seu exemplar.



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segunda-feira, 13 de julho de 2020

IMAGEM DO DIA - 13/7/2020

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Cavalaria norte-americana atacando uma posição de artilharia do Exército do México, durante a Guerra Mexicano-Americana (1846-1848)

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O MASSACRE DE MY LAI, UM CRIME DE GUERRA NO VIETNÃ

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Há 52 anos, no episódio mais infame da Guerra do Vietnã, um ataque de fúria irracional levou ao extermínio de até 504 aldeões


Por Isabelle Somma

O massacre de My Lay foi abafado pelos oficiais da companhia por quase um ano, estima-se que as tropas americanas mataram entre 347 e 504 vietnamitas, sendo homens, mulheres, crianças, idosos e até bebês, um verdadeiro extermínio de toda a aldeia. Apenas 26 soldados foram acusados e houve uma retratação pública, depois de 52 anos.

Tudo isso aconteceu no dia 16 março do agitado ano de 1968. Logo nas primeiras horas daquela manhã, os 120 soldados da Companhia Charlie receberam uma missão: “limpar” a aldeia de My Lai. Suspeitava-se que ali, no humilde vilarejo, estivessem escondidos alguns gooks – ou lodos, como os americanos chamavam os soldados inimigos. Pouco depois das 8 horas, dois pelotões invadiram o povoado, enquanto um terceiro ficou na retaguarda.


Tragédia

Em quatro horas, estava consumada uma enorme tragédia. Os combatentes dos Estados Unidos vasculharam as choupanas, onde se encontravam apenas mulheres, crianças e idosos. Centenas de tiros foram disparados sem alvo certo. As mulheres eram estupradas e mortas. Os homens, torturados e mutilados antes de serem assassinados a sangue-frio. A soldadesca ainda usou baionetas para inscrever “Companhia C” no peito das vítimas. No fim do espetáculo sangrento, o saldo: 504 aldeões abatidos de uma só vez sob a liderança do tenente William Calley.

O tenente William Calley, que liderou as tropas americanas no massacre de My Lai, fotografado durante seu julgamento nos EUA: somente ele foi condenado pelo crime de guerra
 
O genocídio só veio a público em 1969, provocando reações de repúdio mundo afora. Durante as horas de atrocidades, não houve sequer um tiro que não tivesse saído das armas dos soldados americanos. Ou seja, a suspeita de que My Lai era esconderijo de combatentes do Vietnã do Norte era falsa.

“Pressões psicológicas, medo, raiva e fraca liderança são elementos chave para explicar tal comportamento brutal”, afirma, David L. Anderson, autor de Facing My Lai (“Encarando My Lai”) e ex-combatente da Guerra do Vietnã. “Quando o massacre foi divulgado, mostrou o que o conflito estava causando a americanos e vietnamitas. Revelou também os rumos que a guerra tinha tomado em termos de objetivos e custos, e como era urgente um desfecho.” Segundo o professor, o pelotão responsável pelo massacre estava há apenas três meses no Vietnã.


Farsa

Jovens e sem experiência de guerra, muitos soldados da Companhia Charlie entraram em pânico durante a carnificina. O único americano ferido foi um soldado que deu um tiro no pé para não ser obrigado a participar do show de horror que se descortinava à sua frente. Um piloto de um helicóptero que dava cobertura à operação, Hugh Thompson, pousou na frente de um dos pelotões pedindo para que parassem de atirar. Mesmo tendo causado asco em muitos dos combatentes da própria companhia, a verdade sobre o massacre demorou a aparecer.

Ao reportar-se a seus superiores, o capitão Ernest Medina disse que haviam morrido apenas 20 civis na ação. De acordo com Anderson, os oficiais também deram ordem de silêncio à tropa. Mas, um ano depois, o recém-chegado Ronald Ridenhour ouviu o relato contado pelos colegas da Companhia Charlie. E, chocado, escreveu às autoridades revelando os bastidores de My Lai. A imprensa publicou a história. Chegava ao fim a terrível farsa.

O massacre de Mi Lay somente foi descoberto após a denúncia de Ronald Ridenhour, aqui fotografado em Saigon
 
De todos os oficiais que foram à corte marcial, apenas Calley saiu condenado. Ele teria de cumprir prisão perpétua. Mas não chegou sequer a ficar em uma cela. Durante três anos permaneceu em prisão domiciliar em um forte do exército, no Estado da Geórgia. Em 1974, sua pena acabou comutada para dez anos. E, no mesmo ano, foi perdoado pelo presidente Richard Nixon e libertado. “Era impossível para um tribunal determinar se houve ordens superiores para matar os aldeões. Mas é verdade que os comandantes responsáveis pelo planejamento e a liderança da operação deveriam ter evitado o massacre”, diz Anderson.

O piloto Hugh Thompson, por outro lado, foi considerado um traidor durante anos, recebendo até ameaças de morte. O reconhecimento pelo ato de heroísmo só aconteceu quando seu nome entrou para o Hall da Fama da Aeronáutica norte-americana.


Para saber mais

- Four Hours in My Lai, de Michael Bilton e Kevin Sim,1993
- My Lai: A Brief History With Documents, de James Stuart Olson e Randy Roberts,1998
- Facing My Lai, de David L. Andrerson, 2000

Fonte: Aventuras na História

segunda-feira, 6 de julho de 2020

IMAGEM DO DIA - 6/7/2020

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Soldados bizantinos utilizando um trabuco durante operação de sítio, Século X



sábado, 4 de julho de 2020

DISCRETAMENTE, FORÇA AÉREA DA FINLÂNDIA APOSENTA A SUÁSTICA

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Comando Aéreo exibia uma versão do símbolo desde 1918, antes que o emblema passasse a ser associado aos nazistas, mas havia questionamentos sobre se era apropriado continuar a usá-lo. Mudança ocorreu sem anúncio oficial.

A Finlândia mudou o símbolo do Comando Aéreo do país sem fazer um anúncio oficial. O novo emblema mostra uma águia dourada cercada por um círculo de asas. Já o antigo trazia um símbolo com implicações mais sinistras: uma suástica. A mudança, feita discretamente, foi notada por Teivo Teivainen, professor de política internacional da Universidade de Helsinque.

A Força Aérea do país usava a suástica em seu emblema desde 1918, antes que o símbolo passasse irremediavelmente a ser associado aos nazistas. Embora a entidade tenha parado de estampar a suástica em seus aviões após a Segunda Guerra Mundial, o símbolo ainda figurou pelas décadas seguintes em bandeiras, uniformes e símbolos de unidades de combate, em versões na cor azul, enquanto o brasão do Comando Aéreo usava uma suástica adornada com asas douradas.

Um porta-voz das Forças Armadas finlandesas disse à rede BBC que o emblema do Comando da Força Aérea foi modificado já em 2017, para corresponder ao símbolo usado mais comumente pela Força Aérea desde o final dos anos 1940: a águia dourada: "Como os emblemas das unidades são usados nos uniformes, foi considerado impraticável e desnecessário continuar usando o emblema antigo, que causava mal-entendidos de tempos em tempos", disse o porta-voz.

A suástica foi substituída como símbolo na Força Aérea Finlandesa pela águia dourada (à direita)

O Comando Aéreo é responsável por centralizar a direção da defesa aérea do país e serve como quartel-general do comandante da Força Aérea. O QG está localizado em Tikkakoski, cerca de 250 quilômetros ao norte de Helsinque.

Segundo a BBC, o professor Teivainen, o primeiro a notar e anunciar a mudança, já havia questionado no passado se era apropriado continuar a usar a suástica. Ele levantou questionamentos de que o símbolo poderia gerar antipatia entre os jovens finlandeses em relação às Forças Armadas.

Ele ainda argumentava que a Rússia, vizinha da Finlândia, poderia interpretar a persistência do símbolo como um sinal de que os finlandeses ainda seriam inimigos. Ele também temia que o símbolo pudesse impactar a atitude dos vizinhos ocidentais em apoiar a Finlândia caso o país voltasse a ser ameaçado pelos russos.


História

Embora a suástica seja hoje mais comumente associada aos nazistas, a relação da Força Aérea finlandesa com o símbolo remonta a 1918. Ou seja, antes que o símbolo fosse apropriado por Adolf Hitler e pelo movimento nacional-socialista da Alemanha.

No início do século XX, a suástica era bastante disseminada como um adorno, sendo usada até mesmo como logotipo de empresas. No Brasil, figurou em propagandas da predecessora da empresa petrolífera Shell publicadas em jornais paulistas. No caso finlandês, a associação tem origem em um presente oferecido por um nobre sueco chamado Eric von Rosen (1879-1948).

O Conde Von Rosen, que deu origem à Força Aérea finlandesa, possuía uma suástica azul como símbolo pessoal

No início de 1918, ele presenteou os finlandeses com aquela que seria a primeira aeronave a compor a Força Aérea do país, um monoplano de origem francesa fabricado sob licença na Suécia. À época, a Finlândia havia acabado de obter a independência do antigo Império Russo e ainda tentava formar as suas próprias forças armadas.

O conde Von Rosen usava uma suástica azul como um símbolo pessoal, uma espécie de amuleto da sorte. O avião dado como presente tinha justamente o símbolo estampado na fuselagem. A partir daí, a suástica azul se disseminou em futuras aeronaves finlandesas, passando ainda a fazer parte dos uniformes e emblemas de unidades de combate.  

Aeronaves finlandesas voaram com o símbolo durante a Guerra de Inverno (1939-1940), quando o país enfrentou os invasores soviéticos. Ainda estamparam os aviões quando o país se envolveu mais diretamente na Segunda Guerra Mundial, se aliando à Alemanha nazista para combater os soviéticos mais uma vez. No país, essa segunda fase é conhecida como Guerra da Continuação. Depois do fim da guerra, os finlandeses pararam de usar a suástica na fuselagem dos aviões, mas ela persistiu até o século 21 em unidades de combate e uniformes. 

As aeronaves finlandesas combateram na Segunda Guerra Mundial ostentando a suástica em sua fuselagem. Aqui, um Hawker Hurricane durante a Guerra de Inverno contra a União Soviética

Apesar de Von Rosen não ter tido nenhuma associação com os nazistas em 1918 – que nem sequer existiam como movimento organizado ainda –, ele eventualmente acabou tendo conexões com a ditadura dos nacional-socialistas. A irmã de sua esposa, Carin von Kantzow, se casou em 1923 com Hermann Göring, que viria a ser um dos mais poderosos do regime nazista. Göring seria ainda o primeiro comandante supremo da Luftwaffe, a Força Aérea da Alemanha, em 1933. O casal se conheceu no castelo Von Rosen em 1920, quando Göring trabalhava como piloto na Escandinávia. 

Von Rosen também acabaria fundando o Bloco Nacional-Socialista Sueco, um grupo fascista que existiu entre 1933 e 1936. Em entrevistas da época, ele expressou admiração pelos nazistas e disse esperar um renascimento do "espírito nórdico" na Suécia.

Fonte: BBC/DW


domingo, 28 de junho de 2020

IMAGEM DO DIA - 28/6/2020

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O Karukaya era um destróier de segunda classe da classe Wakatak. Externamente, as classes Momi e Wakatake eram idênticas. O Karukaya foi afundado em 10 de maio de 1944 depois de ser torpedeado duas vezes pelo submarino USS Cod, 150 milhas náuticas a noroeste de Manila, nas Filipinas. Setenta e três membros de sua tripulação não sobreviveram.

terça-feira, 23 de junho de 2020

BATALHA DE VERDUN SIMBOLIZA ABSURDO DA 1ª GUERRA MUNDIAL

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Durante 300 dias de 1916, alemães e franceses se confrontaram com violência inaudita às margens do Mosa, resultando numa carnificina com centenas de milhares de mortos e sem sentido estratégico nem vencedores reais.


Por Volker Wagener

O rugido da artilharia pesada começa de manhã cedo: por nove intermináveis horas os alemães disparam armas de todos os calibres. O mundo nunca vira algo igual: a 200 quilômetros de distância ainda se ouvem os canhões de Verdun. "Tempestade de aço" é como o escritor Ernst Jünger denominaria esse horror.

O 21 de fevereiro de 1916, início da ofensiva que os alemães chamaram de "Operação Tribunal", não foi um dia normal de guerra. Os combates já duravam um ano e meio na Europa, mas a Batalha de Verdun viria a se tornar o símbolo mais eloquente da Primeira Guerra Mundial (1914-18).

Lá 162 mil franceses e 143 mil alemães perderam a vida: uma média de 500 mortos por dia do lado da Alemanha, mais ainda do outro lado. Na maioria dos casos não se trata de caídos em combate no clássico sentido militar: a violência das armas esfacela, explode, pulveriza os soldados.


"Sangria" de peso psicológico

Até hoje o sentido da ofensiva germânica continua sendo um enigma. Mas Erich von Falkenhayn, chefe do Estado-maior alemão, forneceu uma explicação: Verdun seria uma "bomba de sangue", com o fim de aplicar uma sangria nos franceses.

Para o General Von Falkenheyn, Verdun seria "uma bomba de sangue" para debilitar os franceses

Também perdura até nossos dias o debate sobre por que o local escolhido terá sido o acidentado terreno ao longo das margens do Rio Mosa, que faz uma curva em Verdun. Peritos militares são unânimes em apontar que – mesmo se fosse tomada pelos alemães – a cidade não seria um bom ponto de partida para investidas mais profundas em direção a Paris, localizada a 250 quilômetros de distância.

De fato, a meta de Von Falkenhayn com essa batalha não era nem um avanço nem um cerco, mas literalmente esgotar o sangue dos franceses, "sangrar até ficarem brancos", como definiu o general alemão. Um cálculo cínico, já que, para a França, Verdun era bem mais do que um nó estratégico-militar.

Como explica o historiógrafo Herfried Münkler, a cidade na região da Lorena representava "um símbolo da oposição franco-alemã". Lá pela primeira vez o Império Carolíngio fora dividido em três, no século IX. Mais tarde, no fim da Idade Média, se formaram a partir daí a França Oriental e Ocidental. Local de grande significado psicológico para os franceses, Verdun não podia, sob hipótese alguma, cair nas mãos do inimigo.


General Pétain envolve a nação inteira

Entretanto, o defensor da cidade, general Philippe Pétain, percebeu a intenção de Von Falkenhayn, contrapondo-lhe uma astuta tática. Ele envolveu literalmente toda a nação francesa na batalha no leste do país, mobilizando mais de 70% de seus soldados para as trincheiras de Verdun, pelo menos uma vez, por um período de oito e dez dias.

Com esse princípio rotativo, Pétain realizou uma jogada de xadrez com amplas consequências: quase todas as famílias da França estavam de alguma forma presentes no local da batalha. Sobretudo entre fevereiro e junho de 1916, contingentes importantes do Exército nacional concentraram-se lá.

General Pétain, o defensor de Verdun:  "On ne passe pas!"

Mesmo em retrospectiva, parece inimaginável o poder de fogo gerado por essa guerra industrializada que se travava pela primeira vez. Calcula-se que, em menos de 30 quilômetros quadrados, foram disparados 10 milhões de tiros, com um peso total de 1,35 milhão de toneladas de aço. O estrondo deixou muitos surdos, e aos sofrimentos dos soldados logo veio se somar um mau cheiro indescritível.


Carnificina disfarçada de vitória

Verdun transformou-se num polo de extrema concentração de violência em espaço reduzidíssimo. As substâncias de combate empregadas deixaram a área contaminada por décadas, com certos trechos declarados zone rouge – zonas interditadas.

Essas foram algumas das cicatrizes duradouras de uma orgia de destruição material e de vidas humanas que em nenhum momento rendeu mais de quatro quilômetros de terreno conquistado para os dois exércitos.

Cemitério militar em Verdun

A partir de julho de 1916, após o fracasso de várias ofensivas alemãs menores, o general Von Falkenhayn ordenou "defensiva estrita", pois há muito as tropas nacionais eram necessárias em outros focos de combate, sobretudo no Rio Somme, no front ocidental.

Em outubro os franceses avançaram, retomando, até dezembro, quase todos os territórios perdidos. Essa aparente vitória, contudo, fora na realidade um empate militar ao preço de uma catástrofe humana sem precedentes. E o início de um culto memorial que se mantém cem anos depois.


Símbolo da estupidez da Primeira Guerra

Entre os incontáveis monumentos aos 300 dias de Verdun, nenhum é tão impressionante quanto o Ossário de Douaumont, erguido em 1927 diante do forte mais poderoso e setentrional da zona de batalha. Na torre principal dessa sepultura de massa jazem os restos mortais de cerca de 130 mil soldados franceses e alemães, todos desconhecidos. Até hoje ainda são depositados lá ossos da época, achados por acaso em jardins, campos e bosques da região.

Para a França e os franceses, a catástrofe de Verdun é superposta hoje pelo sentimento de vitória, uma vitória de defensiva, segundo o lema de Pétain: "On ne passe pas!" – "Aqui não se passa!"

Restos mortais nas trincheiras de Verdun: a batalha foi um símbolo do desperdício de vidas ocorrido durante a 1ª Guerra Mundial

Para os alemães, em contrapartida, ela permanece como símbolo da total falta de sentido. Ainda assim não faltaram esforços para glorificar a posteriori a carnificina. Um exemplo são os 14 volumes de Die unsterbliche Landschaft – Die Fronten des Weltkrieges (A paisagem imortal – Os fronts da Guerra Mundial), de Erich Otto Volkmann, lançado em 1934-35, logo após a ascensão dos nazistas ao poder.

Além dos números astronômicos de suas vítimas, a Batalha de Verdun permanece na memória mundial também por motivos estratégico-militares, como um cínico exemplo de uma estratégia desumana.

Como analisa o historiador militar German Werth: "Ao contrário da 'batalha de movimento' no Rio Marne, a batalha no Mosa foi marcada por falta de imaginação e monotonia, fazendo dela um símbolo perfeito para a estupidez assassina de quatro anos de uma guerra de posições."

Fonte: DW


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domingo, 21 de junho de 2020

NOVO LIVRO CONTA A HISTÓRIA DA ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DA AERONÁUTICA

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Mesmo em tempos de Covid-19, chega ao mercado o primeiro volume da obra Pensando a educação: uma história da Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR), escrita pelo Coronel João Rafael Mallorca Natal, que atuou na instituição de ensino por cerca de doze anos.

O presente volume trata da gênese da Escola, ou seja, suas origens, como parte do processo de apoio fornecido pelos EUA ao Brasil, durante e logo após a Segunda Guerra Mundial, até 1948, ano da consolidação da ECEMAR em sua sede própria, no bairro carioca de Laranjeiras. Porção significativa da oficialidade da Força Aérea Brasileira cursou a ECEMAR, último degrau de educação na carreira militar aeronáutica. 



Em um futuro próximo serão publicados o Volume II (Laranjeiras e Galeão), e Volume III (Afonsos). Essa trilogia fornecerá uma visão ampla de Educação de Pós-Formação no âmbito da FAB.

Pensando a Educação é uma obra essencial para os estudiosos da história da educação militar e das instituições militares e preenche uma lacuna na historiografia sobre o tema.
Para garantir seu exemplar, basta seguir os procedimentos abaixo:

- Depositar o valor de R$ 40,00 (quarenta reais) na conta do Banco do Brasil, agência 4819-4, Conta Corrente 15.150-5.
- Enviar para o e-mail rafaeljrmn@uol.com.br o endereço completo, inclusive com CEP, para a remessa pelos Correios.



sábado, 20 de junho de 2020

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR - CAPITÃO MARCOLINO JOSÉ DIAS

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Por Renato Coutinho

O Capitão Marcolino José Dias (também conhecido como Marcolino Dias dos Santos) trouxe da Bahia, sob seu comando, a 2ª Companhia de Zuavos baianos. Tinha sido nomeado Alferes em comissão, depois efetivado no posto e, no momento do embarque para o Rio de Janeiro, já havia sido promovido ao posto de Tenente em comissão. No dia 19 de maio de 1865, a Ordem do dia nº 447, da Repartição da Ajudância-Geral, publicou a nomeação para Capitão em comissão do Tenente da 2ª Companhia de Zuavos baianos Marcolino José Dias. O Corpo de Zuavos, mais conhecidos como "Zuavos Baianos" ou "Zuavos da Bahia", chegou a ter como comandante interino o Capitão Marcolino José Dias. 

Sabemos que, infelizmente, o Corpo de Zuavos foi dissolvido e seus membros foram transferidos para outras unidades. Muitos deles foram servir no Corpo de Saúde e, os demais, foram incorporados em diversos batalhões de infantaria brasileiros. O Capitão Marcolino Dias foi servir no 8º Corpo (Batalhão) de Voluntários da Pátria, batalhão este que foi organizado no Rio de Janeiro com grande contingente da Província do Rio de Janeiro e, também, com pequenos contingentes de Alagoas e Sergipe.

O 8º de Voluntários da Pátria participou com destaque do assalto contra Curuzu (3 de setembro de 1866). Conquistamos a posição defensiva paraguaia ao custo de 941 baixas (baixas computadas entre os dias 1º e 3, incluindo as baixas da Marinha). Sofremos mais de 830 baixas, do Exército Brasileiro, no assalto de infantaria do dia 3. Os paraguaios sofreram 2.132 baixas. Avançando debaixo de fogo inimigo, o 8º de Voluntários penetrou no entrincheiramento paraguaio, lutou corpo a corpo com os infantes paraguaios e conquistou a posição com muita determinação e coragem (claro que outros batalhões brasileiros também combateram e tiveram participação na captura da trincheira inimiga). O 8º de Voluntários capturou duas bandeiras paraguaias nesta ação, uma que tremulava no topo da posição paraguaia e, outra, que pertencia a um dos batalhões de infantaria paraguaios que defendia Curuzu. O batalhão sofreu 105 baixas na tomada de Curuzu (talvez 106 baixas).

A bandeira paraguaia que tremulava no topo do entrincheiramento de Curuzu, "desafiando nossos soldados", foi derrubada e capturada pelo bravo e destemido Capitão Marcolino José Dias. Ele foi ferido quando estava se aproximando da bandeira inimiga, mas conseguiu capturá-la e protegê-la. Ficou de posse daquele troféu de guerra até quase o fim do combate e ai de quem tentasse tomá-la de suas mãos. Ele só foi passar adiante o troféu no momento em que o comandante da 1ª Divisão de Infantaria brasileira, Brigadeiro (General de Brigada) Joaquim José Gonçalves Fontes, apareceu no interior da trincheira paraguaia, entregando o estandarte inimigo para o comandante de sua divisão (o 8º de Voluntários fazia parte da 2ª Brigada de infantaria brasileira, a qual, por sua vez, fazia parte da 1ª Divisão de Infantaria brasileira).

O Capitão Marcolino José Dias foi muito elogiado na parte (relatório) de combate do comandante do 8º de Voluntários da Pátria, Major Rufino Voltaire Carapeba (descrevendo o feito de armas do mencionado Capitão). O comandante da 2ª Brigada de infantaria brasileira, Tenente-Coronel Augusto de Barros e Vasconcelos, também elogiou o comportamento e o feito de armas realizado pelo nosso ilustre capitão baiano.

Em 1867, por Decreto de 15 de junho, foram concedidas honras do posto de Capitão do Exército ao Capitão em comissão Marcolino José Dias. Ainda em 1867, Marcolino recebeu baixa por motivo de incapacidade física não especificada (talvez em decorrência do ferimento recebido em Curuzu). 

Fonte: História Militar e Militaria brasileira

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terça-feira, 16 de junho de 2020

BATALHA DO GELO (1242): ALEXANDER NEVSKY CONTRA OS CAVALEIROS TEUTÔNICOS

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Em 1242, com uma brilhante armadilha, Alexander Nevsky levou ao fundo os Cavaleiros Teutônicos


Por Sergio Cauti

Santo para a Igreja Ortodoxa, herói para o povo, mito para a Rússia. Protagonista central de eventos que realinharam o equilíbrio religioso e político no Leste Europeu, na Idade Média, e grande líder militar e político. O príncipe Alexander Nevsky foi tudo isso. O feito que lhe garantiu lugar na História e no imaginário mundial foi a vitória em uma batalha decisiva para a nação russa, travada sobre um lago congelado. A Batalha do Gelo foi um confronto modesto diante de épicos que mudaram a História, como Waterloo e Stalingrado. Mas mudaria para sempre o destino da Rússia.


Ataques de vikings

Os antecedentes do confronto tem lugar décadas antes. Na primeira metade do século XIII, a Rússia Kieviana – primeiro grande Estado eslavo da História – era uma mistura de etnias e culturas e vivia um período de prosperidade. Isso até os vikings dominarem a região. Mas Kiev entraria definitivamente em colapso em 1240, quando o mongol Batu Khan, descendente de Gêngis Khan, tomaria definitivamente a capital da Rússia. Os príncipes russos sobreviventes e as cidades-estado que não foram destruídas submeteram-se ao Khan, que fundou na região o Canato da Horda Dourada, anexando-o ao Império Mongol.

Novgorod estava entre as poucas que escaparam. Unindo habilidade política ao pagamento de pesados tributos aos mongóis, conseguiu manter sua independência. Mas na Idade Média, bonança atraía violência. Se Novgorod escapara da ameaça dos mongóis vindos do leste, estava prestes a enfrentar um perigo maior: os europeus, que pressionavam do oeste. Os suecos foram os primeiros.

Queriam controlar as ricas rotas fluviais entre o Báltico e o Mar Negro. Com uma forma de governo rara para a época, Novgorod escolhia, entre a aristocracia, o Kniaz, um príncipe com o mandato temporário de comandante político e militar. O cargo era revogável pela assembleia do povo, a Vetche. O Kniaz de então era Alexander Jaruslavic, de 19 anos.

Jaruslavic e sua pequena armada atacaram o Exército sueco às margens do Rio Neva, destruindo-o completamente. Foi tão definitiva a derrota, que a vontade dos suecos em conquistar o território russo desmoronou. A vitória mudaria o sobrenome de Jaruslavic para Nevsky (em russo, do Neva). Mas faria surgir forte inveja na aristocracia, os chamados boiardos, o que obrigaria o Kniaz a se exilar. Logo, uma ameaça bem pior do que os suecos faria a aristocracia mudar de ideia. Uma ordem de monges guerreiros de origem alemã, os Cavaleiros Teutônicos, invadira a vizinha Livônia, atual Letônia, que havia se tornado o epicentro das Cruzadas do Norte.

Alexander Nevsky, comandante militar e santo na Igreja Ortodoxa
 
O que os movia era o impulso de levar o cristianismo, pela espada, aos povos pagãos da Europa do Leste. Novgorod professava o cristianismo ortodoxo. Mas, se algum cavaleiro teutônico foi tomado por alguma dúvida moral sobre uma possível luta de cristãos contra cristãos, o papa Gregório IX, não. Abençoou a expansão como forma de glorificação do catolicismo.

Os cruzados avançavam em direção de Novgorod e os boiardos chamaram o príncipe de volta. A ofensiva teutônica começou no inverno de 1240. Os cruzados chegaram com sua pesada cavalaria. Devastaram e saquearam o que encontraram pela frente e conquistaram Pskov, parceira comercial de Novgorod. O jovem príncipe juntou à sua guarda pessoal, formada por cavaleiros de elite, uma milícia com gente de Novgorod e dos clãs tribais. Atacou de surpresa e reconquistou Pskov. Os prisioneiros foram libertados, mas não houve piedade aos boiardos que colaboraram com o invasor. Foram enforcados.


A armadilha

Os teutônicos eram soldados profissionais. Passada a surpresa, reorganizaram-se e passaram ao contra-ataque. Perto de Tartu exterminaram parte do Exército de Nevsky em missão de observação. O revés fez o príncipe mudar sua estratégia. Era hora de recuar para enfrentar os teutônicos em terras conhecidas. Como local do confronto, Nevsky escolheu o Lago Peipus.

O lago era profundo, estava congelado e era cercado por pântanos que davam passagem somente em três pontos, que Nevsky conhecia bem. O príncipe também sabia que naquele começo de abril a superfície gelada do lago era fina. E não aguentaria o peso da cavalaria teutônica. Era possível montar uma armadilha para os cruzados, percebeu. Posicionou suas tropas para obrigar o inimigo a cavalgar bem em cima do gelo e aguardou. Os alemães caíram no engodo. Mesmo em inferioridade numérica, 800 cavaleiros contra 5 mil russos, estavam seguros de sua superioridade bélica, com seus poderosos cavalos e pesadas armaduras.

O Lago Peipus nos dias atuais: cenário da batalha
 
Assim, subestimaram o inimigo, considerando-os um bando de camponeses mal-armados e sem treinamento militar. Não deixavam de ter razão. “Os homens de Nevsky não eram soldados. Eram camponeses tirados à força de seus trabalhos rurais, não treinados e mal-armados”, diz Mikhail Krom, professor de Estudos Históricos Comparados na Universidade Europeia de São Petersburgo.

Os cruzados repetiram a clássica e bem-sucedida tática utilizada em todos os confrontos precedentes: cavalgar compactos para o centro do Exército inimigo, usando a força de impacto da cavalaria pesada para dividi-lo em duas partes e enfrentá-las separadamente. Nevsky estava preparado.

Quando o inimigo estava próximo, deu a ordem de abrir a frente em duas partes, que atacaram os invasores pelos flancos. Isso obrigou os teutônicos a permanecerem no centro do lago. O príncipe escondia mais um trunfo: arqueiros mercenários mongóis a cavalo. Foram decisivos. Esse detalhe tático entrou na tradição eslava como o mito de que anjos chegaram dos céus salvando o príncipe.


Sob a água e o gelo

Cercados e ofuscados pelo sol refletido no gelo, os cruzados foram fustigados pelas flechas e atacados pela infantaria. O confronto foi rápido, mas sangrento. Os cruzados tentaram se retirar da superfície do lago, mas o gelo quebrava por debaixo deles. Cavalos e cavaleiros desapareciam nas águas geladas. O ponto de força da cavalaria teutônica, as armaduras pesadas, se revelou sua maldição. Somente 300 cruzados se salvaram do massacre.

A batalha sobre o gelo do Lago Peipus: vitória de Nevsky
 
Mais uma vez, Nevsky voltou triunfante como gênio militar. A estratégia de amizade com os dominadores asiáticos lhe assegurou, em 1252, a nomeação como Grão-Príncipe. Alexander começou uma política de acomodação com os mongóis. Não lutou contra eles e perseguiu os rebeldes que não queriam pagar os tributos ao Canato da Horda Dourada.

Mas, segundo uma versão aceita pelos historiadores, os mongóis mostraram-se ingratos e o teriam envenenado, aos 43 anos, durante uma visita oficial. “Provavelmente, ele tinha se tornado independente demais”, especula Mari Isoaho, professora de História da Universidade de Helsinque e autora do livro The Image of Aleksandr Nevskiy in Medieval Russia. Três séculos mais tarde, a Igreja Ortodoxa proclamou Alexander Nevsky santo, dedicando-lhe igrejas e monastérios em toda a Rússia.

Fonte: Aventura na História

terça-feira, 2 de junho de 2020

OS CANHÕES SOVIÉTICOS DE 305mm

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O gigante Canhão do Tsar em exposição no Kremlin de Moscou é símbolo da capital russa há muito tempo. Sempre que os guias turísticos contam aos visitantes sobre sua história, eles ressaltam que a arma nunca disparou um tiro sequer. No entanto, poucas pessoas sabem que o lendário canhão foi o protótipo de uma geração notável de armas que não só entrou em serviço de combate, mas também garantiu seu lugar como os exemplares mais poderosos de seu tempo.



Por Aleksandr Verchínin



A ideia de criar uma arma terrestre de alta potência foi primeiramente lançada nos círculos militares, em 1915, no auge da Primeira Guerra Mundial, quando o Exército russo sofreu uma sucessão de derrotas contra as forças alemãs.

Essas derrotas no campo de batalha se deviam principalmente a graves lacunas nos arsenais de artilharia da Rússia e na artilharia pesada em particular, enquanto os alemães eram capazes de usar armas de última geração para esmagar uma divisão russa após a outra. O Exército russo precisava urgentemente de poder de fogo capaz de infligir perdas iguais sobre o inimigo.

As armas mais poderosas eram tradicionalmente utilizadas pela Marinha russa, já que os navios proporcionavam uma plataforma conveniente para artilharia pesada. No verão de 1915, oito obuseiros 305 milímetros tinham sido produzidos para a Marinha. Mas por causa da situação difícil no fronte, ficou decidido que quatro deles seriam destinados para as forças de campo do Exército. Os monstros de 64 toneladas podiam ser transferidos entre as localizações por transporte ferroviário, sem qualquer efeito negativo para sua eficácia. O poder devastador dessa arma foi demonstrado logo nos primeiros testes, em que bombas incendiárias, pesando quase 400 kg, provaram ser capazes de perfurar qualquer fortificação reforçada de concreto. Além disso, disparar uma arma de 305 milímetros gerava tal pressão de gases que uma salva  toda criava um vácuo em um raio de vários metros, sugando itens soltos no caminho, como se fosse um redemoinho.

As armas de 305 milímetros chegaram ao fronte no verão de 1916 e tiveram seus primeiros disparos em um momento de ira em 19 de junho. Um ataque direto a um abrigo alemão literalmente o jogou a metros no ar criando uma coluna de terra e detritos.

Canhão soviético de 305mm montado em reparo ferroviário


Naquele inverno, uma divisão das armas também entrou em ação perto de Riga, transformando as posições de tiro e ninhos de metralhadora dos alemães em crateras enormes com alguns bons disparos. A infantaria russa não encontrou resistência ao tomar controle das posições inimigas que tinham sido construídas ao longo de 18 meses.

A Revolução de 1917 e o fim repentino da Primeira Guerra Mundial para a Rússia tornou essas armas pesadas desnecessárias. No entanto, as 30 armas retidas pelo Exército Vermelho serviram de base do projeto das armas soviética de 305 milímetros, que foram mais tarde instaladas em fortalezas e bases de defesa da Marinha.

Sua força foi mostrada sobre as forças de Hitler em setembro de 1941, quando as barragens de oito armas 305 milímetros interromperam o ataque alemão a Sebastopol. Disparando de uma margem de 44 km, a bateria permanecia imune a qualquer disparo do inimigo. As armas foram igualmente usadas para defender posições em torno de Leningrado, que nunca foi dominada pela forças alemãs.

Os velhos canhões do tsar foram agrupados em cinco divisões com poder de fogo especial e enviados para a frente de batalha em 1944. Seu momento de glória aconteceu durante a ofensiva soviética na Karélia, Bielorrússia e Polônia, onde as defesas inimigas estavam concentradas em uma série de linhas reforçadas e cidades-fortalezas.

Uma divisão de artilharia organizada em apoio de tanques e forças navais bastou para romper a zona fortificada finlandesa ao longo da Linha Mannerheim, que o Exército soviético tinha atacado com grandes perdas durante vários meses no inverno de 1939 e 1940.

Canhões soviéticos de 305mm preservados


O poder das armas russas de 305 milímetros também foi sentido por posições alemãs no rio Oder, que o comando nazista tinha calculado ser suficiente para verificar o avanço soviético. Em abril de 1945, as armas pesadas também deram apoiou à tomada de Berlim.

O ponto alto dos canhões do tsar, porém, se deu durante a operação para capturar o forte gigante do Terceiro Reich em Königsberg (atual Kaliningrado), quando três divisões da artilharia pesada infligiram mais de 200 ataques diretos no reduto. Apesar de apenas 15% das bombas penetraram o invólucro de betão das colocações, foi o suficiente para romper as defesas alemãs.

Depois de ter sido produzido para esses elevados padrões de montagem, as velhas continuaram a servir na artilharia soviética muito tempo depois da Segunda Guerra Mundial. As últimas unidades foram retiradas de serviço apenas no final de 1950, e uma delas está agora em exposição no Museu de Artilharia de São Petersburgo.

Fonte: Gazeta Russa