"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



domingo, 27 de outubro de 2019

A BATALHA DE MOSCOU (1612) PRESERVA O ESTADO RUSSO

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Combate foi travado pela Rússia contra tropas polonesas

Por Aleksêi Timofeitchev


“No fim de 1611, o governo de Moscou parecia estar à beira da demolição total. Os poloneses haviam tomado Smolensk, destruído Moscou e capturado o Kremlin, estabelecendo suas tropas no local. Os suecos haviam tomado Novgorod e proposto seu próprio candidato ao trono de Moscou. Enquanto isso, o país continuava sem governo...”

A descrição do historiador Vasily Klyuchevsky contrasta fortemente com a posição em que o jovem estado russo havia permanecido por diversas décadas após conquistar vastos territórios ao leste e introduzir diversas reformas políticas. No início do século XVII, essas vitórias datadas do reinado de Ivan, o Terrível, já faziam parte do passado. Com a morte do sucessor de Ivan, a dinastia Rurik, que governou territórios russos por sete séculos, estava acabada.


Competição de czares

A falta de popularidade dos governantes da Rússia após a queda da dinastia Rurik contribuiu para o sucesso do Falso Dmitry I, um aventureiro que dizia ser filho de Ivan, o Terrível. Com o apoio da nobreza de Moscou e dos poloneses, que naquela época tinham um papel importante nesta parte da Europa, ele foi proclamado tsar da Rússia em 1605.  

Falso Dmitry I jurando a Sigmundo III a introdução do catolicismo na Rússia

Mas a nobreza logo ficou insatisfeita com o novo governante, e ele foi assassinado menos de um ano após sua coroação. Os nobres então escolheram outro tsar, Vasily Shuysky, cuja autoridade foi logo desafiada por outro Falso Dmitry, o Segundo, e os poloneses.

Shuysky foi obrigado a fazer votos monásticos e acabou entregue ao rei da Polônia. Temendo o Falso Dmitry mais do que os poloneses, os nobres pediram ao filho do rei polonês que tomasse o trono de Moscou e deixaram que tropas polonesas entrassem na capital russa. Este conflito interno, que já desafiava o estado russo há anos, tornou-se uma luta pela sobrevivência da nação.

Como aponta o historiador Dmitry Volodikhin, a principal força motriz durante este período, conhecido na Rússia como o Tempo de Dificuldades, foi a nobreza provincial. Naquela época, “a nobreza provincial, formada por dezenas de milhares de homens, não oferecia um modo de ascensão social, já que esta era bloqueada pelos membros da alta classe de Moscou. Por esta razão, esta nobreza tornou-se um combustível perfeito para as causas de diferentes tipos de impostores e regimentos de aventureiros”.


O crescimento de movimentos de raiz

Parecia que o país estava focado em conflitos com a nobreza. Havia poloneses no Kremlin e suecos haviam tomado um enorme pedaço do norte da Rússia, que nunca seria reclamado de volta. Mesmo assim o estado sobreviveu, e a solução começou a se formar em um lugar inesperado.

Segundo o pensador do século XIX Konstantin Aksakov, embaixo do estado arruinado jazia uma sólida estrutura social. As classes média e baixa se uniram e tomaram a luta pelo país em suas próprias mãos. Kuzma Minin, um açougueiro, foi eleito oficial municipal em Nizhniy Novgorod, a 400 km de Moscou, e tornou-se um líder defensor da nação. Em 1611, ele foi eleito líder do Exército Voluntário Popular, a segunda tentativa de formar um exército para libertar Moscou dos poloneses.

Kuzma Minin e Dmitriy Pozharskiy 

A formação do exército começou em setembro, quando Minin fez um anúncio público. Ele pediu a seus companheiros que “não poupassem suas vidas” e que doassem tudo o que tinham para a causa da libertação do país. Minin assumiu o papel administrativo de organizar o exército, e o príncipe Dmitry Pozharsky tornou-se o líder militar. O príncipe já havia vencido diversas batalhas enquanto servia outros tsares e era muito estimado naquela época.


Dois exércitos convergem em Moscou

Os organizadores do Exército Voluntário Popular levantaram uma verba considerável, reuniram diversos milhares de soldados e começaram a marchar lentamente em direção a Moscou, recrutando mais homens ao longo do caminho. Quando alcançou quase 10 mil soldados, o exército finalmente chegou a Moscou, vindo do oeste.

Os poloneses queriam libertar a guarnição que estava sendo cercada no Kremlin pelos remanescentes do primeiro Exército Voluntário. A guarnição estava em péssimas condições – a comida havia acabado e os soldados estavam recorrendo ao canibalismo.

Os regimentos do Exército Voluntário chegaram ao centro de Moscou e tomaram suas posições. As tropas polonesas, sob o comando de Jan Karol Chodkiewicz, atacaram os russos em 22 de agosto. A batalha durou seis horas, mas Chodkiewicz e o exército polonês não conseguiram chegar ao Kremlin.


Uma retumbante derrota

A batalha final aconteceu no decorrer de dois dias. Após cinco horas de luta pesada no centro da cidade, as tropas polonesas forçaram o Exército Voluntário a recuar, mas perderam muitos homens nesse processo.

Poloneses entregam Kremlin ao príncipe Pojárski em 1612

Enquanto os poloneses se recuperavam, os russos conseguiram reagrupar-se e lançaram um contra-ataque. Um avanço inesperado de Kuzma Minin, acompanhado de várias centenas de cavaleiros, foi especialmente eficaz. Os cossacos também tiveram papel importante e, segundo crônicas da época, foram estimulados pelo poder do discurso do monge Avraámi Pálitsin, que reuniu as tropas desertoras tocando o sino de uma igreja e dirigiu a todos palavras inspiradoras.

Os poloneses não conseguiram mais segurar suas posições e fugiram de Moscou. A batalha havia sido vencida pelo Exército Voluntário. O feito selou o destino dos poloneses no Kremlin e eles se renderam alguns meses depois. Com esta derrota, as pretensões polonesas de controlar o governo de Moscou se perderam para sempre.

Este período de tumultos terminou no ano seguinte, com a ascensão ao trono do tsar Mikhail, fundador de uma nova dinastia: os Romanovs.

Fonte: Russia Beyond



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