"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."
(General Sir Ian Hamilton)

sexta-feira, 2 de março de 2012

CANUDOS E CONTESTADO – SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS






Durante a República Velha, apesar da aparente estabilidade do Governo Nacional, vários conflitos armados surgiram no Brasil. Canudos e Contestado foram movimentos sociais que se apresentavam como alternativas às estruturas políticas vigentes e que colocaram à prova as instituições militares.

Sob dois grandes pontos de vista, econômico-social e político-militar, guardavam semelhanças e diferenças. A seguir, algumas considerações sobre o tema.

Contestado e Canudos. O estudo destes conflitos brasileiros sempre nos instiga a comparações, pois encontramos entre eles uma série de semelhanças, bem como também significativas diferenças sob os aspectos sociais, econômicos, políticos e, por fim, militares. A priori, o conflito de Canudos obteve maior relevo histórico que o pouco enaltecido Contestado. Muitos atribuem isso à influência de Euclides da Cunha e sua obra Os Sertões, que efetivamente projetou a guerra de Canudos no imaginário popular por meio de sua clássica narrativa. O Contestado, embora apresente uma rica produção historiográfica, permaneceu esquecido da memória nacional, apenas evidenciada na cultura dos estados sulinos de Santa Catarina e Paraná.


Fatores socioeconômicos – semelhanças e diferenças

Tanto Canudos quanto o Contestado representam episódios que envolvem os miseráveis, os desassistidos, os excluídos, os ignorantes, os supersticiosos. A palavra de um místico, mesmo que pouco entendida, representava uma esperança que começava pálida e aos poucos se tornava brilhante graças aos adeptos que ia encontrando pelos caminhos daquela gente rude. Explorada pelos poderosos locais acobertados pela ausência dos governantes e a indiferença da Igreja, carente de tudo, principalmente de justiça, pouco importava que os monges se chamassem Conselheiro ou José Maria. Importava que existisse alguém com carisma suficiente para, através de um cristianismo primário, messiânico --- ou como querem alguns autores, um catolicismo popular --- conscientizá-la para a necessidade de superar a degradação em que vivia, fazendo nascer o espírito de coletividade. Bom Jesus, Belo Monte ou os redutos catarinenses da Irmandade Cabocla representaram a união dos menores, fortalecidos por leis e normas próprias, ligados por uma religiosidade radical, com novas formas de sustento, tudo isto contribuindo para despertar uma dignidade que a maioria desconhecia.

Vaqueanos fotografados durante a Guerra do Contestado.  Atuavam como milícia auxiliar do Exército


É certo que, em ambos os casos, vieram se juntar os bandidos, os malfeitores, os revolucionários derrotados, os fugitivos em busca de homizio. É certo também que nos dois episódios, a sociedade se preocupou apenas em expulsar, em retomar as terras, sem jamais tentar entender as causas e as conseqüências daqueles movimentos.

Em resumo, miseráveis e bandidos seguindo um místico na tentativa de fugir do poder dos coronéis, do desconhecimento da Igreja e da ausência do Estado.

Apesar das semelhanças, muitas diferenças tembém podem ser observadas. Canudos estava situado no interior da Bahia, região árida, de terras pobres, rios instáveis, clima com poucas chuvas. Os povoados da região eram pequenos e decadentes, juntando habitações construídas com pau a pique ou taipa de pilão e o cobrimento se resumindo ao uso de folhagens da região. A produção agrícola supria com muita dificuldade as necessidades de subsistência e a pequena pecuária era dirigida para a criação de caprinos, cujo couro representava uma das poucas atividades lucrativas. No entanto, criado solto no pasto, o gado dispensava o uso de mão de obra, pouco contribuindo para a solução do problema do desemprego.

Soldados brasileiros no sertão de Canudos


A região do Contestado era pretendida pelos estados do Paraná e Santa Catarina. Ninguém pretende tornar seu o que não serve, não tem utilidade, não traz riquezas. A área era cortada por caminhos por onde passavam as tropas de muares destinadas a suprir a região de mineração, as terras eram férteis e nelas havia intensa atividade na pecuária e no cultivo da erva mate. A extração de madeira era também um fator que cada vez mais enriquecia os fazendeiros e já se instalara em Três Barras, Santa Catarina, a segunda maior madeireira da América, a Southern Brazilian Lumber & Colonization Company Inc., pertencente, da mesma forma que a Brazil Railway, ao Sindicato Farqhuar. A construção desta estrada de ferro utilizava mão de obra brasileira e estrangeira proveniente da Europa.

O clima se mostrava ameno, os povoados estavam em crescimento e alguns já alcançavam o estágio de vilas. Ao que se sabe, havia sólidos motivos para que a região abrigasse terras altas denominadas Serra da Fartura, mas, se fartura realmente existia, só beneficiava os poderosos, jamais o populacho.



Fatores Político-militares – semelhanças e diferenças


Em Canudos ou na região do Contestado, não havia um referencial político a ser alcançado pelos revoltosos. Os líderes religiosos eram monarquistas e assim se tornavam aqueles que os seguiam sem qualquer crítica, porque aqueles líderes representavam a derradeira esperança. Segundo Noel Nascimento, “Monarquia para os camponeses de Canudos e do Contestado era o reinado de Deus, o paraíso terrestre, o fim do poder dos ricos, o nivelamento social, a antecipação do futuro. Na república viam a causa de todos os males”. Para Euclides da Cunha "O rebelado arremetia contra a ordem constituída porque se afigurava iminente o reino de delícias prometido. Prenunciava-se a República - pecado mortal de um povo - heresia suprema indicadora do triunfo efêmero do Anti-Cristo."

Soldados feridos sendo evacuados por trem no Contestado


Em verdade a reunião de miseráveis e bandidos acompanhando um líder messiânico incomodava os políticos, os senhores da terra e a igreja. Não se imagine, no entanto, que as virtudes estavam todas concentradas naqueles e inexistia entre estes. A preocupação era, até certo ponto, natural, principalmente pela ação dos malfeitores, tanto os que pertenciam à nova ordem quanto aqueles que, independentes, a respeitavam. A forma de externar esta preocupação é que trazia problemas. Denunciar e agir foram considerados como as melhores soluções para eliminar a questão, esquecendo que tudo deveria ser precedido pela tentativa de conhecer a realidade dos contrários. Talvez aí fosse entendido que o monarquismo não era uma opção política, mas tão somente uma palavra de ordem de significado discutível no meio de ignorantes, fruto do fanatismo religioso.

Em ambos os casos a presença do Exército foi, inicialmente, desastrosa. Usada como polícia, mal formada, mal equipada, sem maiores conhecimentos do terreno e do inimigo, a tropa foi arrebanhada de seus aquartelamentos onde sofria a indiferença e até o desprezo dos governantes. Usando uma expressão de Garcia Marques, as primeiras derrotas foram, simplesmente, crônicas de uma morte anunciada.

Oficiais do Exército Brasileiro em Canudos



Houve também diferenças quanto aos fatores político-militares.

O ambiente político em Canudos resumia-se na manutenção do status quo, o que significa a continuidade dos governantes, o crescimento do poder dos coronéis e o respeito à igreja. Longe dos grandes centros, adversários políticos eram, na verdade, atores sociais que disputavam maiores privilégios. O povo era mantido alheio, sem vontade reconhecida.

Na região do Contestado havia uma dura disputa entre dois estados da federação para aumento de seus territórios. A luta saía dos palácios e ia para o campo envolvendo as áreas em litígio, não sendo raros os enfrentamentos verbais e até físicos. Neste ambiente, questiúnculas entre senhores da terra tomavam a forma de divergências político-ideológicas, agravadas pela presença de estrangeiros desempregados após o término da construção da ferrovia, de nacionais expulsos de suas terras pelos benefícios concedidos às empresas norte americanas e de egressos das revoltas no Rio Grande do Sul. O ambiente político era muito diferente em Canudos e no Contestado, mas a população, quando muito, servia apenas como massa de manobra.

No campo militar, a diferença começa na localização do líder adversário. Enquanto Canudos obedecia a uma só cabeça, no Contestado havia uma pulverização, o que, talvez, tenha contribuído para que o banditismo tenha superado a fé religiosa.

A “Guerra do fim do mundo”, como a chamou Vargas Llosa, sob vários aspectos serviu como lição para o emprego do Exército no sul. O apoio administrativo, praticamente inexistente na Bahia, foi utilizado de forma eficiente no Contestado. Os Armazéns de Campanha, os Esquadrões de Trem, os Hospitais, as Formações Sanitárias Regimentais mantiveram as tropas quase livres da dependência dos meios locais, sempre escassos. Segundo Marli Auras, “A partir do instante em que as forças do Exército são melhor organizadas, a irmandade começa a desmoronar”.


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2 comentários:

  1. bom , só que muito explicado deu preguica de ler , kkk mais e isso ae (:

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  2. Baixar o Filme - Guerra dos Canudos - A história de Antônio Conselheiro e seus seguidores contra a República, que acabara de ser proclamada - http://mcaf.ee/2kvdw

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