"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



quarta-feira, 1 de setembro de 2010

OS PRIMEIROS NAVIOS ENCOURAÇADOS




A celebrada Batalha de Hampton Roads, travada em março de 1862 durante a Guerra Civil Americana, revelou ao mundo ocidental uma nova forma de enfrentamento naval: o choque entre os navios-encouraçados, quando o USS Monitor, da União, combateu o confederado CSS Virginia. O surgimento do encouraçado, no entanto, ocorreu quase trezentos anos antes e muito longe dali, no extremo-oriente.

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Um novo Japão
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Toyotomi Hideyoshi era um homem confiante, não sem razão. Nascido camponês, envolveu-se na interminável série de guerras civis que assolaram o Japão durante o século XVI. Por meio do talento – e não do berço – ascendeu na hierarquia e tornou-se o braço direito de Oda Nobunaga, o general que depôs o xogum Ashikaga Yashiaki.


Hideyoshi sucedeu a Nobunaga após sua morte e conseguiu unificar o Japão pela primeira vez em mais de um século. Hideyoshi sabia que uma maneira eficaz de manter o país unificado seria conduzir uma guerra externa e supunha que possuía os meios necessários para tal empreitada. O Japão tinha milhares de soldados experientes e calejados em batalha e, desde que adotara espingardas com dispositivo de disparo com mecha, armara seu exército com essas armas. Assim, Hideyoshi planejou conquistar primeiro a Coreia, depois a China e, finalmente, as Filipinas.



Os navios-tartaruga
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Os planos de Hideyoshi eram conhecidos na Coreia e lá um oficial chamado Yi Sun-sin preparou-se para frustrá-los. As instituições militares coreanas, a exemplo de outras nações orientais, não possuíam separação entre seu exército e sua marinha. Yi tornou-se oficial em 1576, comandou guarnições de fronteira ao longo do rio Yalu e combateu os nômades jurchens antes de ser nomeado almirante. Por experiência, sabia que a maior ameaça à Coreia seria uma invasão marítima pelo Japão, o que o levou a modificar completamente a esquadra coreana.
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Por mais de um século a marinha coreana baseava-se no kobukson, ou navio-tartaruga. Essas embarcações possuíam dois ou três conveses, sendo o superior coberto por um teto recurvado de madeira, com cerca de 25 cm de espessura. O teto curvo dava aos navios coreanos a aparência de uma tartaruga flutuante.



Réplica de um navio-tartaruga em museu coreano.   Pode-se observar o convés curvo com pontas de lança para evitar abordagens inimigas


Os navios eram propelidos tanto por velas como por remos e portavam, normalmente, 40 canhões. Pontas de lanças e lâminas de espadas eram fixadas no convés e no teto, a fim de desestimularem as ações de abordagem. Havia portinholas para canhões na blindagem e seteiras, através das quais flechas incandescentes podiam ser disparadas. A modificação que Yi implementou foi acrescentar placas de ferro ao teto e às laterais, tornando os navios-tartaruga ainda mais resistentes.


Ataque à Coreia

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Hideyoshi atacou em maio de 1592 e conseguiu conquistar Pusan. Poucos dias depois, os navios-tartaruga encouraçados de Yi-Sun-sin atacaram uma frota japonesa de 800 embarcações e conseguiram repeli-la, afundando ou queimando 26 navios japoneses. Em terra, contudo, o exército japonês não encontrou maiores problemas e, após investir pela península coreana, alcançou e subjugou Seul em apenas dezenove dias. O exército invasor, no entanto, precisava ser abastecido e Yi e seus navios-tartaruga mantiveram-se ocupados. Nos meses de maio e junho, a marinha coreana expulsou diversas flotilhas de abastecimento japonesas, afundando 72 navios inimigos no processo.


Almirante Yi Sun-sin: sob seu comando, a marinha da Coreia impediu a invasão japonesa


Embora o Japão tivesse abundância de armas de fogo portáteis, o mesmo não ocorria com a artilharia. Apesar dessa deficiência, Hideyoshi também instalou canhões pesados em seus navios e procurou protegê-los com placas de ferro. O sucesso de Yi Sun-sin, contudo, não se resumia na posse dos navios-tartaruga. O almirante coreano desenvolveu novas formações táticas, como a chamada “formação em rede de pesca” – um “V” invertido que visava ao cerco das formações inimigas enquanto nelas concentrava o fogo dos canhões por ambos os flancos. Uma ação típica ocorreu quando, com apenas 180 navios, atacou uma poderosa frota japonesa com 800 embarcações, resultando na destruição de cerca de 400 navios inimigos. Diante de tantos reveses, os japoneses se retiraram em 1593.



Novas investidas japonesas


Hideyoshi, no entanto, não desistira de seus planos na Coreia e planejou nova invasão, mas, em primeiro lugar, teria que eliminar o poder naval de Yi Sun-sin. Em 1597 um japonês, passando-se por espião coreano, informou sobre a chegada iminente de uma imensa esquadra japonesa e propôs enviar Yi Sun-sin e seus navios a um local determinado a fim de interceptar o inimigo. O rei coreano Seonjo ordenou que Yi Sun-sin levasse seus navios ao local indicado, mas o almirante recusou-se, pois sabia que a área era repleta de rochedos submersos e que poderia perder todos os seus navios. Diante da recusa, Yi Sun-sin foi torturado e continuou se negando a cumprir a ordem. O rei, então, ordenou que o almirante fosse executado, mas voltou atrás em função da intercessão da maioria de seus oficiais, que destacaram o histórico de Yi na defesa do país. Em vez de matá-lo, o rei rebaixou-o a soldado raso.


Um navio-tartaruga coreano ataca uma embarcação-capitanea japonesa com seus canhões

Um novo almirante, Won Kyun, foi nomeado para o comando da esquadra e, após demitir todos os oficiais ligados à Yi, conduziu os navios até a área sugerida, onde perdeu todas as embarcações. Rapidamente, o rei Seonjo restituiu Yi em suas funções, e este iniciou imediatamente a construção de uma nova frota de navios-tartaruga. Os coreanos possuíam apenas doze navios prontos quando uma nova frota de 133 navios japoneses apareceu. Yi a atacou com sua dúzia de navios e destruiu 31 embarcações inimigas, as demais fugiram.
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Os japoneses tentaram nova invasão mas, em novembro de 1598, na Batalha da Baía de Chinhae, Yi afundou duzentos dos quatrocentos navios inimigos, mas perdeu a vida nesse combate. Essa batalha encerrou a guerra e os marinheiros japoneses levaram a notícia do fracasso a um agonizante Hideyoshi, que morreria pouco depois. Sem a liderança do xogum, os japoneses renunciaram a seus sonhos de conquista.

Não fora por Yi Sun-sin - que venceu cada uma das 22 batalhas navais que travou e não perdeu sequer um navio – o Japão certamente teria conqusitado a Coreia no final do século XVI. Alguns historiadores sustentam que poderia também ter subjugado a China e, se os japoneses assumissem o controle dos mares orientais da Coreia, nada os impediria de anexar as Filipinas, onde as forças coloniais espanholas teriam sido facilmente superadas pelos japoneses.
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A campanha naval coreana com seus navios-tartaruga representou o debut do encouraçado no mar, que atingiria seu apogeu séculos mais tarde em plena era da Revolução Industrial.





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Um comentário:

  1. Muito bom! Fiquei sabendo desses navios atraves de um filme de 2014 q retrata essas batalhas!

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