"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



terça-feira, 7 de setembro de 2010

A CAVALARIA SOVIÉTICA NA 2a GUERRA MUNDIAL




Ao eclodir a 2ª Guerra Mundial, os exércitos das diversas potências beligerantes haviam atribuído às unidades de cavalaria um papel estritamente secundário. Essa arma, que durante séculos se constituíra no elemento decisivo das batalhas, encontrava-se em pleno declínio. Já no decorrer da 1ª Guerra Mundial, as armas de fogo automáticas haviam reduzido a cavalaria à inação por causa das terríveis baixas que causavam entre cavalos e cavaleiros.

Nos meses iniciais do conflito, os beligerantes tentaram, como no passado, lançar suas forças de cavalaria - sabre e lança em punho - contra as linhas inimigas. Estas operações terminaram numa verdadeira carnificina. Pareceu então soar a hora do desaparecimento definitivo da arma de cavalaria. Também o desenvolvimento das forças mecanizadas e blindadas no período anterior à eclosão da guerra de 1939-1945 pareceu confirmar a impressão de que a cavalaria não mais apareceria nos campos de batalha. E assim aconteceu, de fato, durante a primeira fase da blitzkrieg alemã na Europa. O tanque e a aviação conduziram as operações e revolucionaram a concepção e o desenvolvimento das batalhas. Somente os poloneses, numa tentativa desesperada, e na ausência de outros meios, recorreram em 1939 às cargas de cavalaria para enfrentar a maré de aço das formações blindadas alemãs. O resultado dessa luta desigual foi o extermínio da cavalaria polonesa.
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Cavalarianos soviéticos carregando contra tropas alemãs em campo aberto


Quando a luta se estendeu ao território da União Soviética, a cavalaria voltou, contra todas as previsões, a assumir seu valioso papel do passado, como arma de combate. Nas imensas planícies da Rússia meridional, que com o degelo e as chuvas se convertiam em mares de lama, num território que, naquela época, era extremamente pobre em estradas e vias férreas, coberto por enormes extensões de florestas e de pântanos, os elementos motorizados demonstraram pouquíssima aptidão. A cavalaria, portanto, teve que suprir com sua mobilidade as formações motorizadas. Foi o Exército Vermelho o primeiro a vislumbrar acertadamente as possibilidades que o emprego maciço da cavalaria oferecia nesse cenário. Os soviéticos não somente haviam conservado suas veteranas unidades de cavalaria, mas também, com a eclosão da guerra, foram fortalecendo-as continuamente, tanto em número como em eficiência combativa. Para este fim, reforçaram as divisões de cavalaria com regimentos de tanques. O número de efetivos da cavalaria soviética nunca deixou de aumentar e assim, ao terminar a contenda, chegara a reunir um total de 600.000 cavaleiros, cifra que jamais foi alcançada em nenhuma guerra do passado. Impelidos pelas mesmas circunstâncias, os alemães, por sua vez, tiveram que recorrer ao emprego de formações de cavalaria, embora em escala muito menor.


No início da campanha os soviéticos se limitaram a utilizar sua cavalaria para cobrir os setores secundários, existentes entre as principais frentes de luta. Contudo, já na grande contraofensiva diante de Moscou, no inverno de 1941, lançaram ao ataque grandes contingentes de cavalaria. Estas unidades assumiram o papel de forças móveis de perseguição, destinadas a irromper profundamente na retaguarda inimiga, para semear nela o pânico e a desorganização.

Cossacos da cavalaria dando um descanso para os animais

Assim como os cossacos, que em 1812 fustigaram implacavelmente a Grande Armée napoleônica durante sua retirada, os grupamentos de cavalaria, dirigidos pelos Generais Belov e Dovator, apoiados por tropas de esquiadores e tanques, acossaram, sem dar trégua, as colunas alemães em retirada. A partir de 1942, utilizam corpos inteiros de cavalaria em suas grandes ofensivas. As baixas que estas unidades sofrem são sempre muito elevadas, porém os resultados justificam plenamente o seu emprego. Na primavera de 1944, quando tanto os tanques soviéticos como os alemães se atolavam nos imensos lodaçais da Ucrânia, a cavalaria russa prossegue o seu avanço, mantendo o ritmo da ofensiva, que de outro modo estaria completamente paralisada.
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Na batalha de Korsun, frente ao Dnieper, em fevereiro de 1944, a cavalaria tomou a seu cargo o aniquilamento das colunas alemãs que tentaram forçar o cerco e matou a golpes de sabre mais de 20.000 combatentes alemães. Nesse mesmo ano, as divisões de cavalaria são agregadas pelo comando soviético às unidades blindadas nas operações de perseguição. Quando a infantaria se vê travada no seu avanço e tem que renunciar à missão de acompanhar os tanques, a cavalaria a substitui com vantagem e apóia de perto a penetração dos blindados. Por outro lado, quando os tanques se vêem obrigados a deter-se, ao enfrentar posições fortemente defendidas, que se encontram apoiadas em seus flancos por obstáculos naturais, como zonas florestais ou pantanosas, a cavalaria supera os redutos inimigos, deslocando-se sem inconvenientes por aquelas zonas.


A cavalaria assume assim um papel decisivo em todas as operações do Exército Vermelho. Sua ação nos anos finais da guerra viu-se sensivelmente facilitada pelo acelerado declínio do poderio bélico alemão. A Wehrmacht, carente de homens e armamentos, já não pode mais levantar uma sólida linha defensiva nas frentes, e, através dos grandes claros que se abrem entre uma formação e outra, a cavalaria irrompe e pode manobrar à vontade.


A cavalaria do Exército Vermelho avança na estepe congelada

Na grande ofensiva de junho de 1944, as divisões de cavalaria, comandadas pelo General Pliev arremetem contra as posições alemães em Bobruisk, superam a infantaria e cortam em profundidade as linhas de comunicações com o oeste. Sua intervenção contribuiu de maneira fundamental para o êxito das operações de cerco que culminaram com o aniquilamento do 4o Exército alemão. Embora à custa de um rio de sangue, a cavalaria russa conseguira reverdecer os seus lauréis.

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