"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



quarta-feira, 7 de julho de 2010

ARMAMENTOS FABRICADOS EM SÃO PAULO DURANTE A REVOLUÇÃO DE 32

.

Por Ana Beatriz Santos


Em 1932 o Laboratório de Ensaios de Materiais (LEM), da Escola Politécnica de São Paulo foi o responsável pela supervisão e execução de materiais bélicos destinados ao exército paulista que combatia na Revolução. O Laboratório, dirigido na época pelos engenheiros Ary Torres e Adriano Marchini, realizou estudos, projetou e executou diversos instrumentos e armamentos. Além do serviço prestado ao exército revolucionário, as dificuldades ajudaram a incrementar a gama de experimentos e o rigor científico aliou-se à criatividade, lançando a semente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, nome que o Laboratório receberia, em 1934, já com prestígio junto à indústria paulista.

A Politécnica, e todos os seus laboratórios, foi requisitada pelo governo para constituir o Serviço de Engenharia da Força Pública. Neste momento, o LEM já havia avaliado suas possibilidades e delineado planos de ação, o que vinha fazendo desde as primeiras horas em que o movimento constitucionalista foi deflagrado. Com a dificuldade de obtenção de matéria prima e a necessidade de dar início imediato à produção, buscando suprir o movimento de armas adequadas, os engenheiros do LEM desenvolveram vários armamentos, muitos deles sofisticados para a época, e difíceis de serem encontrados no Exército Brasileiro, contra quem combatiam. Além da intensa produção, o aspecto mais importante dessa experiência para o LEM foi o incremento de suas atividades e os desafios impostos pelo desenvolvimento e inovações, usando, para isso, aplicações mais nítidas das técnicas experimentais.

Oficial paulista com um lança-chamas produzido em São Paulo


Este aumento de atividades, aliado ao estreitamento do contato com as indústrias paulistas, levou à criação do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, o IPT, a partir do Laboratório de Ensaio de Materiais, em 1934. O estreitamento do contato e o prestígio do LEM junto a indústria paulista foi motivado pela sua participação ativa no Movimento de 32.

Os relatos da época descrevem a coragem e o empenho de alunos e professores da politécnica e de inúmeros voluntários, que colocaram a criatividade em ação onde sobrava perigo e faltava matéria prima. O engenheiro Miguel Siegel, fundador do Setor de Metalurgia do IPT, conta que a dificuldade começou já na elaboração dos mapas. Foi necessário ampliar fotos e preparar pranchas cartográficas, o que facilitou o trabalho intenso e meticuloso de um grupo de 300 desenhistas e alunos. "Um dia entrei em uma sala e vi o grupo ampliando os mapas à mão livre e pensei que deveria haver um modo mais simples de fazer isso", disse ele, ao se referir ao trabalho.

"Com a pesquisa, projeto e execução de diferentes armamentos, o IPT conseguiu realizar avanços importantes nos setores de metalurgia e metrologia", comenta Cristiane Sousa, coordenadora do Centro de Memória do IPT. Em 1932, os engenheiros do Laboratório foram responsáveis pelo estudo, projeto e execução de periscópios de trincheira, corretores de tiro para metralhadoras anti-aéreas, telêmetros e binóculos milimetrados para artilharia. Além disso, foram realizados ensaios e estudos com materiais para chapas de blindagem, capacetes, morteiros de trincheira e também para munições e granadas.

Os experimentos para a fabricação de granadas de mão e munição para artilharia foram os mais importantes, tanto pela técnica empregada como pela sua importante contribuição para o Movimento. Devido a dificuldade de encontrar o trotil, utilizado comumente na época, foi necessário o uso do amonal, matéria prima de comportamento incerto e por isso mais propensa a acidentes na fabricação de bombas e munições. Químicos e técnicos do LEM sabiam do risco que corriam. Uma fábrica com recursos e matéria prima da escola foi montada e produziu algumas toneladas de explosivos.


Mulheres paulistas produzindo capacetes de aço desenvolvidos a partir do modelo inglês "Tommy"


A granada de mão era uma arma pouco difundida entre o exército brasileiro. O LEM estudou vários tipos e decidiu adotar a granada de tipo Mill´s , que foi adaptada às condições de produção que a Politécnica dispunha. Essa arma era tão pouco difundida e eficiente, que "lançava o terror e o pânico", registrou a Revista Polytechnica, em dezembro de 1932, ao se referir ao Exército Brasileiro. As granadas produzidas na politécnica ficaram conhecidas entre os soldados como "abacaxizinhos". Seu alcance médio era de 30 metros, mas foi adaptada ao fuzil com bocal apropriado, também desenvolvido no laboratório, aumentando seu alcance para a média de 180 metros. A fábrica na Politécnica contou com 3.000 voluntários que, trabalhando em turnos, dia e noite, produziram 180 mil granadas.

Para ensinar os soldados a usar a arma, foi criada a Escola de Granadeiros, que teve suas primeiras instruções dentro da área da Escola. Nesse trabalho, os engenheiros Douglas McLean, Joaquim Bohn e o estudante José Greff  Borba, morreram. Na fabricação e testes com o artefato, o voluntário Mario Bertacchi e o engenheiro Adriano Marchini, na época diretor do LEM em substituição a Ary Torres, foram mutilados. O acidente do diretor Adriano Marchini foi relatado por Miguel Siegel, engenheiro do IPT, responsável pelo laboratório de metalurgia, como uma imprudência. "Havia uma câmara onde a granada era colocada e o detonador era puxado por uma corda. O detonador não abriu. Marchini foi lá e puxou com a própria mão", esclarece.

O desenvolvimento de ligas de metal mais leves proporcionou capacetes melhores e confortáveis, diferentes dos disponíveis no Brasil no começo da década de 30. Além da produção das granadas e munições, a Politécnica coordenou a compra e distribuição de matéria prima e o controle da qualidade de todo o material produzido pelas indústrias paulistas, que juntaram esforços na produção dos artefatos necessários. A adaptação das máquinas, também foi parte deste trabalho. Em 1930, a metrologia e a metalografia eram áreas de grande importância dentro da engenharia e foi com a demanda de trabalhos como esse que o LEM passou a ser cada vez mais solicitado pela indústria paulista, sendo desmembrado da politécnica para tornar-se o IPT.


Blindado lança-chamas fabricado em São Paulo durante testes de armamento


Sob a orientação da Politécnica foram construídos ainda trens e uma lancha blindados. Os carros blindados que tinham peso inicial de 14 toneladas, tinham mobilidade pequena, por causa da estrutura de pontes e estradas da época, que não suportavam seu peso. Assim, foi criado um modelo mais leve, de 4 toneladas, montado sobre chassi da Ford, reforçado com molas e eixos Lincoln e com motor Ford.

Outros artefatos desenvolvidos ou adaptados pelo IPT/LEM foram: morteiros, canhões de pequeno alcance, projétil de explosão por percussão, bombas para aviões, bombas de fumaça, controles de munição, lança-chamas, munições para fuzis e metralhadoras, materiais para trincheiras, lança-minas, capacetes, carregadores de água e filtros para cantis e também máscaras de proteção anti-gases. Alguns artigos foram fabricados na própria Politécnica e outros tiveram sua produção encaminhadas às fábricas do estado, concentradas no esforço de guerra, imposto pelo movimento.

Apesar da derrota do estado de São Paulo, as indústrias paulistas receberam inovações importantes e os experimentos realizados no LEM contribuíram para a formação do IPT e, de certa forma, prepararam o Brasil para a Grande Guerra que o mundo assistiria em poucos anos.

 

.

2 comentários:

  1. Parabéns pelo blog, ele é muito interessante, é uma ótima fonte de informações.

    ResponderExcluir
  2. Excelente matéria, gostei muito, sou policial militar e um apaixonado por história militar. Inclusive já ministrei algumas palestras referentes a revolução de 1932.

    ResponderExcluir