"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



domingo, 22 de abril de 2018

HISTÓRIA MILITAR EM PORTUGAL - PESQUISA DE CAMPO NAS LINHAS DE TORRES VEDRAS

.

Dentre os eventos programados pelo Instituto Universitário Militar, tivemos a oportunidade de realizar uma pesquisa de campo em um sítio de História Militar muito importante, a Linha de Torres Vedras.

   
Juntamente com os professores de História Militar do Instituto Universitário Militar, coronel Leonel Martins e major Fernando Ribeiro, e com o coronel José Paulo Berger, do Gabinete de Arqueologia da Engenharia Militar do Exército Português, e responsável pelos trabalhos arqueológicos e de recuperação das fortificações da linha, pude percorrer, no terreno, os sítios das defesas de Lisboa, preparados por ocasião da Guerra Peninsular, no princípio do século XIX.  

O coronel Berger encontra-se à frente de um projeto de mais de dez anos, que reúne o Exército Português e os concelhos de diversas municipalidades para preservarem os vestígios arqueológicos das Torres e preservarem a memória das defesas portuguesas contra a invasão  francesa.


Mapa mostrando as Linhas de Torres Vedras



Reencenadores portugueses revisitando um dos enfrentamentos contra as tropas francesas durante a Guerra Peninsular


As Linhas de Torres eram um conjunto de fortificações, dispostas ao longo de três linhas de defesa, que tinham como objetivo impedir o acesso à Lisboa às forças da terceira invasão francesa.  As Linhas de Torres foram mandadas construir pelo Duque de Wellington, em outubro de 1809, com o objetivo de deter uma terceira invasão francesa que se visualizava. Tentava-se evitar que as forças napoleônicas chegassem a Lisboa.

Diante do fosso da Obra nº 18 - Reduto da Ajuda Grande, com seu fosso inundado pela chuva


Aspecto do reduto da Ajuda Grande, com cavalos de frisa restaurados


Na entrada do Reduto da Ajuda Grande

Nesse sentido foram construídas três linhas de defesa com várias dezenas de quilômetros. A primeira linha estende-se de Torres Vedras, passa pelo Sobral do Monte Agraço e termina em Alhandra. A segunda percorre as áreas de Mafra, Montachique e Bucelas. A terceira cobre a enseada de S. Julião das Barra.


O coronel engenheiro militar José Paulo Berguer, do Gabinete de Arqueologia da Engenharia Militar do Exército Português, e responsável pelos trabalhos arqueológicos e de recuperação das fortificações da linha, mostrando o dispositivo e a configuração defensiva do Forte da Carvalha (Obra nº 10)



Junto ao paiol de munições do Forte da Carvalha



Posição de comandamento do terreno a partir do Forte da Carvalha, sobre o vale onde se deslocavam as forças francesas.

As construções defensivas aproveitaram as irregularidades do terreno e compreendiam linhas de trincheiras, baluartes de artilharia, fortins e fortes. Em alguns pontos foram também abertos fossos ou realçados acidentes naturais do terreno.

A construção deste intricado sistema de defesa levou cerca de um ano, e Wellington esperava parar as tropas francesas antes destas chegarem à capital ou, pelo menos, ganhar tempo para embarcar as tropas ingleses em Lisboa.


No mirante do Forte do Alqueidão (Grande Forte - Obra nº 14), uma das posições-chave das Linhas de Torres Vedras



Estrada militar (à esquerda), construída para fazer a ligação entre os fortes e redutos.



Planta do Forte do Alqueidão



No interior do paiol do Forte do Alqueidão

Após a batalha do Buçaco, em 27 de setembro de 1810, as tropas francesas continuaram a avançar apesar da derrota. As primeiras unidades francesas avistaram as linhas de torres em 11 de outubro e o marechal Massena, comandante francês, percebeu que seria impossível ultrapassar o obstáculo sem reforços.


Diante das muralhas do Forte São Vicente, em Torres Vedras, com uma guarnição de 2.000 homens e 26 bocas de fogo

Registro aqui o meu agradecimento ao coronel José Paulo Berger, do Gabinete de Arqueologia da Engenharia Militar do Exército Português, responsável pelo trabalho arqueológico e pela sensibilização das municipalidades no sentido da preservação do patrimônio histórico-militar. 

Homenageando o Regimento de Engenharia nº 1, tradicional unidade de Engenharia do Exército Português, que, ao longo de mais de dez anos, vem trabalhando em prol da preservação da Linha de Torres Vedras


A equipe que realizou o trabalho de campo. Muito orgulho e convicção da importância histórica do sítio.



sexta-feira, 20 de abril de 2018

OS ITALIANOS CONQUISTAM ADIS ABEBA (1936)

.

No dia 6 de maio de 1936, a Itália realizava o sonho de transformar o país em império. Da sacada do Palazzo Venezia, Mussolini anunciou que tropas italianas haviam ocupado Adis Abeba e dominado a Abissínia.


Por Oliver Ramme

No delírio da vitória, ninguém podia imaginar que a empreitada colonialista italiana na África Oriental seria de pouca duração. Em Roma, só se pensava em comemorar a revanche por uma derrota sofrida há 40 anos. Em 1896, a Itália fora humilhada na fronteira entre a Eritreia e a Etiópia, no maior conflito militar ocorrido até então em solo africano. Oito mil soldados italianos morreram na batalha de Adua.

Arrogantes, os italianos haviam subestimado a força e o engenho tático das tropas do imperador Menelik. Com a derrota, a Itália teve de enterrar as suas ambições de se tornar uma das grandes potências coloniais.

O país foi obrigado a pagar reparações; milhares de prisioneiros de guerra foram submetidos a trabalhos forçados, na construção da capital, Adis Abeba. Quarenta anos depois, essa humilhação continuava doendo aos italianos, como prova uma carta do escritor direitista Gabriele d’Annunzio a Mussolini: "Ainda sinto a cicatriz de Adua no meu ombro", escreveu.


Mais de dez anos de preparo

Pouco depois da subida de Mussolini ao poder, em 1922, haviam sido armados os primeiros planos para um ataque à Etiópia. Mas somente em 1935 a Inglaterra e a França consentiram silenciosamente a invasão. Supostamente, Paris e Londres teriam cedido para impedir que Mussolini fizesse uma aliança com Hitler. De março a setembro de 1935, 177 mil soldados italianos desembarcaram com armas e equipamentos de transporte na cidade portuária de Massaua (Eritreia).

Forças italianas modernas não encontraram dificuldade em subjugar a Abissínia


As advertências do imperador Haile Selassié de que a Etiópia não ficaria de braços cruzados no caso de uma invasão foram ignoradas em Roma. Na madrugada de 3 de outubro, o exército italiano cruzou o rio fronteiriço Mareb, abrindo uma frente de combate de 70 quilômetros.

Segundo a emissora BBC, poucos minutos após a invasão, o governo da Abissínia enviou um telegrama à Liga das Nações, em Genebra, informando que aviões italianos atacavam Adua e os combates já se estendiam em direção a Agamee.


Crueldade e transgressão à Convenção de Genebra

A campanha militar avançou lentamente. Sobretudo as longas distâncias dificultavam o abastecimento dos 500 mil soldados italianos. A Liga das Nações condenou a agressão, impôs um embargo de armamentos e um boicote econômico à Itália. As sanções, porém, não tiveram efeito e o embargo foi suspenso poucos meses depois.

A guerra na Abissínia foi conduzida com toda a crueldade imaginável, incluindo o uso do gás mostarda, numa evidente transgressão à Convenção de Genebra, assinada pela Itália em 1925. Os italianos levaram mais de meio ano e perderam 4 mil soldados até entrarem vitoriosos em Adis Abeba, obrigando Selassié a fugir para o exílio em Londres.

O fraco exército da Abissínia não foi capaz de conter os italianos


Nos anos seguintes, a resistência etíope foi duramente reprimida, principalmente depois de um atentado ao vice-rei Rodolfo Graziani – nomeado por Mussolini. Num dos incontáveis massacres, 400 monges foram executados num mosteiro copta.

O domínio do império italiano criado por Mussolini sobre a Etiópia só durou cinco anos. Fustigada pela guerrilha, a Itália praticamente não conseguiu ocupar o território e explorar as ambicionadas matérias-primas.

Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, tropas do Reino Unido expulsaram os italianos e recolocaram Selassié no trono. Um ano antes, Mussolini havia declarado guerra à França e ao Reino Unido. As relações entre a Itália e a Etiópia somente se normalizaram em 1997, quando o presidente italiano Oscar Luigi Scalfaro foi a Adis Abeba, "para encerrar definitivamente um vergonhoso capítulo da história".


Fonte: DW



quarta-feira, 18 de abril de 2018

HISTÓRIA MILITAR EM PORTUGAL - MUSEU DE MARINHA DE LISBOA

.

O Museu de Marinha está localizado na ala ocidental do Mosteiro dos Jerônimos, bem perto do Rio Tejo e do ponto de largada dos navios que partiram para descobrir o novo mundo


Prosseguindo em nossas pesquisas em Lisboa, estivemos no Museu de Marinha, um muito bem montado espaço museológico que possui um rico acervo, afinal, Portugal, com sua configuração geográfica voltada para o Atlântico, foi pioneiro na expansão marítima europeia.

O editor do Blog Carlos Daroz-História Militar pesquisando no Museu de Marinha de Lisboa

O Museu de Marinha foi fundado em 1863 pelo rei D. Luís, com sede inicial em um edifício da antiga Escola Naval de Lisboa. Em 1916, após um incêndio de grandes proporções que destruiu diversas peças do acervo, a necessidade de novas instalações tornou-se evidente e um objetivo a ser atingido.

Somente em 1948, com a doação feita por Henrique Maufroy de Seixas, foi possível a instalação no palácio do Conde de Farrobo, nas Laranjeiras, onde o museu permaneceu até 1962. Em 15 de agosto desse ano, o Museu de Marinha foi inaugurado no Mosteiro dos Jerônimos.  

Maquete de um galeão português do início do século XVI

Uniforme de 1º piloto da Marinha Portuguesa, 1806


Bandeira naval portuguesa exposta no museu


Maquete da canhoneira Pátria, construída no Arsenal de Marinha de Lisboa em 1903, como produto de subscrição pública de portugueses emigrados no Brasil


Os fuzileiros navais portugueses também merecem destaque no Museu de Marinha


A marinha moderna: fragata Vasco da Gama, classe Blohm & Voss, incorporada à Marinha Portuguesa em 1991. Um dos meios de combate navais mais atualizados a serviço de Portugal.

Atualmente possui cerca de 17 mil peças em seu acervo, incluindo fotografias, uniformes, desenhos, maquetes e planos de navios, com aproximadamente 2.500 delas em exposição permanente. Além do acervo permanente, o museu realiza exposições temporárias e, no momento, apresenta uma sobre o centanário da Aviação Naval portuguesa, que será objeto de uma postagem posterior do nosso blog.

O editor do Blog Carlos Daroz-História Militar na Sala das Galeotas do museu


Para quem vem a Lisboa, uma visita ao Museu de Marinha é essencial.


Museu de Marinha
Praça do Império 1400-206
Lisboa - Portugal
http://museu.marinha.pt.pt

terça-feira, 17 de abril de 2018

HISTÓRIA MILITAR EM PORTUGAL – MUSEU DO COMBATENTE

.


O Museu do Combatente, mantido em Lisboa pela Liga dos Combatentes de Portugal, é uma parada obrigatória para os que se dedicam ao estudo da história militar, especialmente nos temas ligados à Grande Guerra e à Guerra de Ultramar. O editor do Blog Carlos Daroz-História Militar visitou o museu.


Aproveitando nossa ida a Lisboa, para cumprir agenda acadêmica junto ao Instituto Universitário Militar, realizamos um estudo e pesquisa no Museu do Combatente, organizado e mantido pela Liga dos Combatentes de Portugal.

A Liga foi criada em 1923, com o nome de Liga dos Combatentes da Grande Guerra, para congregar os ex-combatentes da 1ª Guerra Mundial que pertenceram ao Corpo Expedicionário Português (CEP).  Posteriormente, passou a ser aberta todos os ex-combatentes portugueses, alterando a sua designação para Liga dos Combatentes.

Liga dos Combatentes de Portugal

O Museu do Combatente, mantido pela Liga, encontra-se instalado no Forte do Bom Sucesso, à beira do Rio Tejo e junto à Torre de Belém, adjacente ao Monumento aos Combatentes do Ultramar.

O Forte de Bom Sucesso é uma fortificação concebido pelo General Vallerée. Sua construção teve início em 1780, com o objetivo de reforçar a Defesa do porto de Lisboa. Em 1808, durante a ocupação de Lisboa pelas forças francesas comandadas pelo Marechal Junot, o Forte foi ligado à Torre de Belém por uma Bateria corrida, conhecida como “Bateria Nova do Bom Sucesso ou o flanco esquerdo”, armada com 47 Peças e 10 Morteiros. 

A fachada do Forte do Bom Sucesso, que hoje abriga o Museu do Combatente

Em 1815 foi construída a “Bateria do flanco direito”. Depois de um período em que a fortaleza permaneceu abandonada (entre 1836 e 1879), em 1870, no reinado de D. Luís I, iniciou-se a reconstrução de uma nova Bateria no local do antigo Forte do Bom Sucesso. Em 1876, construiu-se a plataforma das peças e paióis e, em 1881 foi transformada em Bateria de Artilharia de Costa, sob o comando do capitão Jacinto Parreira. Durante as campanhas do Ultramar, foi sede da Chefia do Serviço Postal Militar e, após abril de 1974, recebeu o Comando do Agrupamento Militar de Intervenção e a Associação 25 de Abril.  De julho de 1986 a 1992 passou a sediar o Comando da Brigada de Forças Especiais, e, em 13 de Janeiro de 1999, foi oficialmente entregue à Liga dos Combatentes. O museu foi, então, organizado e, em 2003, aberto ao público.

O espaço museológico tem como principal objetivo a significação dos feitos militares portugueses, constituindo um polo de divulgação da História de Portugal, que evidencia três épocas do século XX: 1ª Guerra Mundial, Campanhas do Ultramar e Missões de Paz.

A seguir, algumas peças pertencentes ao acervo do museu:

Viatura blindada BRDM-2, de fabricação soviética

Mina naval de contato AZ

Carro de combate leve M-5A1

Nariz da aeronave de ataque Fiat G-91


Macacão e equipamento de voo de piloto da Força Aérea portuguesa

O museu integra três espaços expositivos ao ar livre, com equipamentos e acervos relativos aos ramos das Forças Armadas Portuguesas, além de exposições temporárias diversas.  Por ocasião de nossa visita, o Museu do Combatente estava com algumas exposições temporárias bastante interessantes:

- A Trincheira, uma recriação do ambiente no qual estavam inseridos os soldados durante a Grande Guerra na Frente Ocidental. Com cenários bastante realistas, com luzes, sons, texturas, manequins, uniformes e equipamentos, a exposição dava uma experiência sensorial de como era a vida miserável dos soldados nas duras condições das trincheiras.

Exposição A trincheira: experiência sensorial sobre o cotidiano dos soldados na Grande Guerra


Junto a manequim com uniforme original do Corpo Expedicionário português


- A Grande Guerra ao vivo, trazendo a participação de Portugal na Grande Guerra, com a apresentação de uma bem elaborada linha do tempo, iconografia, armas e materiais empregados pelo CEP no conflito.

Armas e equipamentos utilizados pelo CEP na Grande Guerra


Linha do tempo: Portugal na Grande Guerra

O editor do Blog Carlos Daroz-História Militar rememorando, junto com o Museu do Combatente, o centenário da Grande Guerra e a partricipação do Corpo Expedicionário Português

Além dos acervos, destaca-se o Monumento aos Combatentes de Ultramar, construído em homenagem a todos aqueles que tombaram ao serviço da Pátria, durante a Guerra do Ultramar (1961 a 1974).  


Monumento em homenagem aos combatentes do Ultramar

A homenagem a todos que morreram por Portugal, é feita através das lápides colocadas na própria parede do Forte em que, a par das lápides nominativas, elaboradas, segundo as listas oficiais por anos e por ordem alfabética, existem duas lápides com o escudo nacional em que, na primeira, se faz referência a todos os combatentes envolvendo mesmo aqueles que, eventualmente, não constem nominalmente das lápides já referidas e na segunda, lhes é prestada a homenagem de Portugal. A frieza da geometria do Monumento é quebrada pela "chama da Pátria" que, ao manter-se sempre acesa, simboliza a perenidade de Portugal e a sua continuidade.

Em resumo, vale muito a pena uma visita ao Museu do Combatente, tanto pelo simbolismo, como pelo cuidado com o acervo e pela riqueza material e imaterial presente.

Museu do Combatente
Endereço: Forte do Bom Sucesso, 1400-038 Lisboa
Horário de visitação: 10:00h- 16:00h
Ingresso: 4€

.

domingo, 15 de abril de 2018

MORRE O ATOR E EX-MILITAR RONALD LEE ERMEY, AOS 74 ANOS

.

Ele foi indicado ao Globo de Ouro pelo papel do sargento fuzileiro de "Nascido para matar"

É famosa a história de Ronald Lee Ermey, morto na manhã deste domingo, nos Estados Unidos, aos 74 anos, em consequência de complicações com uma pneumonia.

É com grande tristeza que me cumpre a tarefa de informá-los que R. Lee Ermey morreu esta manha de complicações com pneumonia. Nós sentiremos muito a sua falta", diz o tuíte publicado na conta do ator pelo seu agente, Bill Rogin.

Foi Stanley Kubrick, para quem Lee Ermey trabalhava como consultor militar em "Nascido para matar" (1979), que lhe deu a oportunidade de fazer o sargento Hartman no filme. O personagem, responsável na primeira parte da trama pelo treinamento dos soldados que iam para a Guerra do Vietnã, lhe valeu uma indicação ao Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante na época.

Lee Ermey interpretando o sargento Hartaman em "Nascido para matar"


O sargento reformado do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA tornou-se, assim, um ator ligado ao arquétipo do homem autoritário. Ele foi o prefeito Tilman em "Mississippi em chamas", o xerife Hoyt na refilmagem de "O massacre da serra elétrica", o capitão de polícia em "Seven - Sete pecados capitais", entre muitos outros.

O jovem Lee Ermey, no tempo em que serviu no Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA na década de 1970


Fonte: O Globo


"O BRASIL NA I GUERRA MUNDIAL" NA RESIDÊNCIA UNIVERSITÁRIA MONTES CLAROS, EM LISBOA

.

Durante nossa estadia em Lisboa também vamos falar sobre a participação do Brasil na Grande Guerra na Residência Universitária Montes Claros, pertencente à European University Colleges Association.





.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

PRETORIANOS: A FORÇA OBSCURA POR TRÁS DOS IMPERADORES ROMANOS

.

Dois livros contam a história violenta da criticada guarda imperial da Roma antiga


Por Jacinto Antón

Poucas unidades militares têm uma reputação tão ruim quanto os pretorianos, a guarda dos imperadores de Roma, sua privilegiada (cobravam muito mais do que os legionários, e serviram menos tempo) e muitas vezes petulante escolta. O corpo, que também acompanhava o imperador em campanhas, entrando em combate como soldados, teve múltiplas funções, incluindo as de polícia secreta, espionagem e operações clandestinas (como assassinar inimigos do Estado). Foram precursores das unidades de elite e dos guarda-costas dos líderes modernos, influenciaram forças como a Guarda Suíça, a Guarda Imperial de Napoleão e as SS, e seu eco alcança até mesmo o universo de Star Wars, em cujo novo filme, Os Últimos Jedi, o líder supremo do mal conta com uma guarda pessoal inspirada diretamente neles (embora armada com espadas e lanças laser em vez de gladiums e pilums).

Os pretorianos originais, que podemos ver fazendo suas maldades de toga e sandália em dezenas de filmes, entre eles Quo Vadis, A Queda do Império Romano e Gladiador, já eram denunciados na antiguidade por se tornarem frequentemente o poder por trás do trono e por seu feio costume de colocar e remover (matando, é claro) césares segundo suas vontades. Estavam acostumados a receber um pagamento extra cada vez que havia uma mudança de imperador, o que fomentava seu desejo de mudança. Um dos seus emblemas era o escorpião, que lhes caía como uma luva, embora, na realidade, fosse retirado do signo do zodíaco do Imperador Tibério.

Sobre eles escreveu o grande historiador Edward Gibbon, que os acusou de serem sintoma e causa da queda de Roma: "Seu orgulho se viu alimentando pela consciência de seu peso irresistível (...) Foram ensinados a perceber os vícios de seus senhores com um desdém comum e a evitar o temor reverencial em relação a seus mestres que só a distância e o mistério podem preservar ". 

Em suas fileiras militaram alguns dos nomes mais detestáveis da história romana, verdadeiros sinônimos de traição, despotismo, crueldade e infâmia, como Cássio Queria, Sejano, Tigelino ou Plauciano, que chegou, dizem, a castrar uma centena de cidadãos nobres (de origem senatorial) para que sua filha Plaucila pudesse ser atendida por eunucos, o que já era um capricho.

Relevo antigo representando soldados pretorianos

As carreiras dos líderes dos pretorianos foram muito prósperas – o próprio Plauciano foi sogro do imperador Caracala – e alguns até alcançaram o trono, como Macrino e Filipe, o Árabe, que antes de imperadores foram prefeitos do pretório, ou seja, comandantes da guarda. A indignidade dos mais conhecidos não deve nos fazer esquecer que havia pretorianos decentes, e que vários de seus comandantes supremos morreram em campanha à frente de suas tropas (como o prefeito Cornelio Fusco, morto em combate contra os dácios enquanto servia a Domiciano).

Para rastrear a história do famoso corpo, que permaneceu ativo por 340 anos, desde a era republicana até ser dissolvido por Constantino após a batalha da ponte Milviana (312), em que apoiaram seu rival Maxentius, e para esclarecer em que medida merecia sua terrível reputação, o especialista britânico Guy de la Bédoyère dedica seu livro altamente documentado Praetorian: The Rise and Fall of Rome's Imperial Bodyguard (Pretorianos: ascensão e queda da guarda imperial de Roma), que também coincide nas livrarias com Pretorianos: La élite del ejército romano (Pretorianos: a elite do Exérito Romano), do historiador espanhol Arturo Sánchez Sanz.

O autor britânico deixa muito claro de onde vem a fama obscura dos pretorianos, e por que eles nos fascinam tanto. "Eram perigosos", responde sem rodeios. "Sempre perto do centro do poder". Sua reputação ruim é justificada? "Você poderia comprá-los, mas quando os imperadores eram bons e tinham grande prestígio, os pretorianos se comportavam. Foi sobretudo nos casos de imperadores incompetentes ou vulneráveis que os pretorianos cobriram as lacunas com sua ambição e tornaram-se fazedores de reis. O autoexílio de Tibério em Capri, o desastroso reinado de Calígula... ".

De la Bédoyère observa que grande parte do mal que fizeram os pretorianos, "uma das forças mais poderosas da história de Roma", deve ser atribuída a imperadores "que deixaram muito a desejar". Faz distinção entre os soldados da guarda, que na maioria, segundo ele, eram geralmente leais a seus imperadores, e seus oficiais e prefeitos, "dos quais não se pode dizer o mesmo". E enfatiza que, de uma maneira ou de outra, os pretorianos "eram como um vulcão adormecido que ameaçava entrar em erupção quando as circunstâncias permitiam".

Um dos episódios mais famosos em que os pretorianos intervieram foi quando, depois de matarem Calígula, fizeram imperador o relutante Cláudio, que tinha se escondido atrás de uma cortina e deu-lhes uma gorjeta generosa como suborno para comprar sua lealdade.

Sánchez Sanz mostra os pretorianos sob uma luz mais favorável que De la Bédoyère, e acredita que é preciso desmistificar sua imagem de "donos do poder" que, diz ele, corresponde estritamente a seus colegas legionários, que eram os principais motores de candidatos imperiais. Ressalta que os pretorianos provavelmente "salvaram a vida de tantos imperadores quanto os que arrebataram". A guarda pretoriana, resume com um certo tom de admiração, "eram os soldados de elite do império. Muitas vezes se aproveitavam disso, outras tantas o mostravam".

O livro de Sánchez Sanz, especialista em história antiga, é muito rico em detalhes sobre a organização, os uniformes e o equipamento dos pretorianos, uma questão complexa por causa da escassez de fontes iconográficas e variedade de funções que caracterizava o corpo.

A guarda pretoriana possuía sua própria cavalaria

Os pretorianos começaram como um destacamento de soldados, veteranos e de confiança, que protegiam como escolta pessoal os generais da era republicana, tendo o seu nome a partir da loja deles, o praetorium, ou pretório. Há referências a "coortes pretorianas", que é o tipo de unidade do Exército romano em que se agrupavam, desde o tempo de Cipião Africano, embora líderes como Júlio César tivessem outros guarda-costas (em seu caso, uma guarda de hispânicos que o malfadado ditador teve a má ideia de dissolver antes do Idos de março). Em todo caso, não encontramos os pretorianos verdadeiramente institucionalizados da maneira como os conhecemos até a época de Augusto. Foi ele quem estabeleceu uma força permanente de nove coortes, cada uma consistindo de 500 ou mil homens, de acordo com fontes (De Bédoyère aponta para mil), com acampamento em Roma, projetada para proteger o imperador e sua família, reprimir motins e desmantelar complôs.

À frente dos pretorianos estavam dois prefeitos do pretório, que foram ganhando mais poder e proeminência por sua posição tão próxima ao imperador. Os pretorianos tinham sua própria unidade de cavalaria, os equites singulares Augusti.

Para De la Bédoyére, o momento mais sórdido da história da guarda (e de Roma) foi o leilão feito pelos pretorianos da dignidade imperial no ano 193, após o assassinato de Pértinax, que havia tentado colocá-los na linha depois que na época de Cômodo tinham se acostumado a fazer o que queriam, incluindo bater em transeuntes. "Ofereceram o trono ao melhor lance, uma oferta indigna e degradante, um dos momentos em que eles e Roma foram ao fundo do poço". Quem comprou o trono, em ascensão, foi Didio Juliano, que durou apenas 66 dias porque não pôde pagar a quantia acertada com os pretorianos.

Com as necessidades do império cada vez mais pressionando as fronteiras, foi combinado o uso dos pretorianos como uma força de combate militar, e acompanhavam o imperador pessoalmente em suas campanhas cada vez mais frequentes (como no caso de Trajano em Dácia e Marco Aurelio em sua guerras), até se tornarem parte, embora sempre privilegiados e, portanto, invejados, do Exército regular.

Qual qualidade militar eles tinham? "Durante bastante tempo, surpreendentemente pouca", responde De la Bédoyére. "Uma boa parte deles passava seu tempo vagando em Roma como manequins militares e espadachins, capazes de matar, mas impróprios para a guerra real. Septímio Severo renovou a guarda com legionários experientes. Infelizmente, isso os tornou ainda mais perigosos para o imperador".

Quando perguntado sobre a semelhança perturbadora entre a guarda pretoriana e as SS, que também começaram como guarda pessoal e acabaram transformadas em poderosas unidades de elite dentro do Exército alemão, De la Bédoyére reconhece a semelhança, e ressalta que "sem dúvida, se Hitler tivesse vivido até ficar velho, seus rivais teriam se dirigido às SS prometendo-lhes mais dinheiro e privilégios em troca de seu apoio para se tornarem novos Führers, como na Roma antiga".

Os pretorianos são muito incomuns. Em parte porque eram um corpo muito versátil, além de terem mudado com o tempo. Sua iconografia, seu armamento e suas roupas não são claros, o que tem permitido fantasiar muito sobre elas. "Eles eram espiões (com um ramo especial dedicado a essa tarefa, os speculatores), soldados, guarda-costas, mas também topógrafos, mineiros, engenheiros, armadores", diz o estudioso britânico. "Faziam tudo o que o imperador precisava. Até mesmo esquadrões da morte ou parte da cenografia imperial: participando de demonstrações de poder. Cláudio colocou-os para caçar panteras diante do público e matar uma orca encalhada no porto de Ostia, e Nero transformou-os em plateia de suas performances artísticas e esportivas. Cumpriam missões em todos os lugares. Uma unidade foi até mesmo enviada para explorar o Nilo até a Etiópia, uma das aventuras mais curiosas do Exército romano".

Soldados pretorianos em batalha

Em termos de aparência, "mudavam constantemente, usavam uniformes vistosos quando estavam de guarda no palácio, armaduras especialmente projetadas para eles nas paradas, e equipamentos mais funcionais nas campanhas. Mas, muitas vezes, no cotidiano em Roma, eram muito discretos, se vestiam à paisana e não eram reconhecidos se não se observasse muito de perto".

Quando atacavam sigilosamente, usavam uma característica capa com capuz, a paenula. O autor afirma que o filme que provavelmente melhor nos mostrou os pretoriano é Gladiador, "mas também não é muito preciso". Um aspecto desconcertante é que às vezes usavam meias.

Qual é a herança dos pretorianos? "Mostraram quão instável é a corda sobre a qual um governante autoritário se sustenta no poder", resume De la Bédoyére. "Ele precisa de apoio para ficar lá, mas sua guarda tem que ser poderosa para dar-lhe esse apoio. E seu poder pode tornar-se maior que o dele a qualquer momento ... e depois, acabou. "


Pretorianos famosos

Vinio Valente, centurião pretoriano da época de Augusto, era um sansão capaz de parar um carro com uma mão. É citado por Plinio.

Sejano, conseguiu um poder onipotente com Tibério. O primeiro pretoriano que mostrou como poderiam ser perigosos. Sua inimizada significava uma pena de morte. Dião Cássio afirma que deitava com as esposas de homens relevantes para obter informação. Em sua queda arrastou toda sua família, e sua filha, Junila, ainda virgem, foi estuprada pelo executor para justificar a morte como uma mulher adulta.

Macrón, também prefeito do pretório como Sejano, foi o primeiro a participar da morte de um imperador, acelerando a de Tibério. Antes ofereceu sua mulher ao césar para que tivesse uma aventura com ela.

Cássio Quereia, assassinou Calígula após sofrer diversas humilhações e depois de o imperador o chamar continuamente em público de afeminado.

Tigelino, o algoz de Nero, cínico e dissoluto. Um verdadeiro canalha.

Gayo Vedennio Moderato. A outra cara da guarda, um pretoriano que serviu longa e fielmente durante a Dinastia Flaviana. Um bom soldado especialista em artilharia.

Fonte: El País