"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



sexta-feira, 29 de junho de 2018

QUERIDA HISTÓRIA, TE ESCREVO DA GUERRA

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Correspondência de soldados alimenta livros que se aprofundam no lado mais humano dos trágicos episódios do último século

Por Tereixa Constenla

Por acaso as vidas de Toyofumi Ogura e Humberto Alonso Pérez são menos história do que as vidas do imperador japonês Hirohito e do ditador espanhol Franco? Durante alguns séculos os historiadores marginalizaram as vidas minúsculas para debruçarem-se sobre as maiúsculas do poder. Vista assim, a guerra era uma história de planos, escaramuças, estratégias, generais, glórias e derrotas. Os soldados eram uma magnitude, um número no campo de batalha. “As pessoas a quem a história se refere só aparecem como figuras acessórias, como um pano de fundo, como uma massa escura no fundo da cena”, escreve Hans Magnus Enzensberger.

Esse caminho historiográfico teve seu dano colateral, na opinião da historiadora francesa Sabina Loriga. Durante a Primeira Guerra Mundial, a maioria dos historiadores políticos foi “incapaz de compreender as graves tensões sociais que perturbaram a Alemanha e a Europa em geral”.

Carta de um soldado alemão escrita no front em 1917


Existe uma história oficial sobre o 6 de agosto de 1945, quando Hiroshima perdeu 90% de suas construções e 25% de seus habitantes em meia hora. A destruição e as doenças continuariam crescendo muito tempo depois da explosão da bomba atômica Little Boy e da rendição do imperador Hirohito. Os norte-americanos mediram o impacto da catástrofe que eles mesmos causaram: 306.545 atingidos. Nos relatórios, entretanto, não é possível ver o medo, a incredulidade e a dor dos moradores de Hiroshima, protagonistas forçados da hecatombe. Para isso é bom ler as cartas que Toyofumi Ogura (1899-1996) escreveu a sua esposa Fumiyo: “Quanto mais avançava, mais me empenhava em seguir o ditado dos três macacos de ‘não ver o Mal, não escutar o Mal e não dizer o Mal’, e procurava não falar com ninguém. Depois de encostar no cadáver daquela mulher no final da ponte do bonde, rio abaixo a partir da ponte Kyobashi, decidi acrescentar um quarto macaco sábio que indicava ‘não tocar no Mal”.

Ogura, professor de História na Universidade de Hiroshima, escreveu 13 cartas que sua destinatária nunca chegaria a ler: “Logo depois de minha catástrofe me senti possuído pela sensação de precisar informar minha esposa, vítima da bomba, dos fatos posteriores a sua morte, ainda sem saber absolutamente nada da arma atômica e da doença causada pela radiação”. Após superar a censura das forças aliadas – o Japão era um país ocupado desde sua rendição em 1945 –, foram publicadas em 1948.

Soldados britânicos lendo cartas em 1944

Cartas desde el Fin del Mundo (Cartas do Fim do Mundo, ainda inédito em português) foi o primeiro relato pessoal sobre a bomba atômica e em poucos meses precisou ser reeditado seis vezes pelo interesse que causou. Ogura conta suas experiências, suas observações, seus sentimentos. De suas mãos percorrem-se caminhos transitados por pessoas comuns feridas, nocauteadas, fantasmagóricas, que perambulam por uma cidade em ruínas. Uma verdade íntima que ele compartilha.

Como fonte primária, as cartas estão ligadas à história desde sua origem – Plínio, o Jovem, narra a destruição de Pompéia pela erupção do Vesúvio no ano 79 em uma carta ao historiador Tácito –, ainda que sem o peso que alcançaram nas últimas três décadas. “Agora são o ponto de partida, e não só um instrumento de segunda ordem, para fazer uma análise histórica da cultura popular e explorar campos da história social que de outra forma não poderíamos”, diz Guadalupe Adámez Castro, autora de Gritos de Papel, uma história sobre o exílio espanhol realizada sobre os escritos de súplica de republicanos. Cartas que davam e tiravam vida, como relatou Eulalio Ferrer, preso em um campo de internação na França: “A correspondência é um elemento vital de nosso presente destino, significa tanto ou mais do que a comida. É o laço que nos une com o mundo, contribuindo para acentuar e diminuir nossas incertezas”.

Após seu estudo, Adámez concluiu que o exílio foi transversal tanto em origem como geográfico, mais heterogêneo do que a imagem de uma diáspora de intelectuais. E também que as cartas alimentavam uma relação de ida e volta: “Para o Governo republicano no exílio era uma forma de manter certa esperança na República e de poder saldar uma dívida com aquelas pessoas”.

Em uma guerra, afirma José Álvarez Junco no prólogo de Voces desde la Trinchera (Vozes da Trincheira), “ignoramos como viviam os soldados daquela experiência, o que pensavam, o quanto acreditavam da enxurrada retórica que lhes caía na cabeça, como aceitavam aquelas punições”. Nesse livro, James Matthews, membro do Centro de Estudos da Guerra na Universidade de Dublin, estuda cartas escritas entre 1938 e 1939 por soldados do Exército da Andaluzia, como Manuel Cantudo: “(...) se me visse descalço, andando com a sola do pé, e estou cheio de dizer ao tenente, e ele me fala que não há calçado”.

Carta de Humberto Alonso Pérez a sua esposa, Carmina, e ao seu filho, Guillermo, da prisão de El Coto (Gijón), em 14 de abril de 1938.

A publicação de cartas ajuda a rastrear o sentimento dos soldados da Wehrmacht – o correio militar alemão transportou 3 bilhões de cartas e pacotes durante a guerra –, o dos guerrilheiros condenados à morte pelos nazistas na França e o dos prisioneiros do campo de concentração de Mauthausen. “A carta é um documento particular que permite comparar o discurso do poder com o dos seres de carne e osso que não tiveram poder e, por outro lado, nos permite entrar no coração das pessoas para saber como vivenciaram os acontecimentos. O ápice tem muito a ver com o egodocumento, quando os historiadores começam a usar diários, memórias e cartas”, diz Verónica Sierra Blas, membro do Seminário Interdisciplinar de Estudos sobre a Cultura Escrita da Universidade de Alcalá de Henares e autora de dois livros sobre o século XX espanhol construídos sobre o gênero epistolar.

O primeiro, Palabras Huérfanas (Palavras Órfãs), reconstruiu a história das 30.000 crianças espanholas exiladas durante a Guerra Civil Espanhola na França, Bélgica, Inglaterra, México e Rússia a partir de suas cartas e diários. O segundo, Cartas Presas, se introduz no interior do sistema penitenciário durante a guerra e o franquismo através do estudo de 1.500 cartas. O remetente de uma delas é Humberto Alonso Pérez, que escreveu da prisão de El Coto, de Gijón, em 14 de abril de 1938, um mês antes de ser executado, a sua esposa, Carmina, e ao seu filho, Guillermo: “O destino me separa de vocês, me elimina da vida; o enfrento com integridade porque sei que suas vidas serão modelos e exemplares, cúmulo de honradez. Jamais se detenham em culpar alguém por minha sorte”. A história com outros nomes e sobrenomes.

Fonte: El País


domingo, 24 de junho de 2018

VOLGOGRADO, A CIDADE QUE MUDOU O DESTINO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

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Chamada de Stalingrado até 1961, cidade presenciou uma das batalhas mais sangrentas da história da humanidade


Por Thiago Tanji

Durante as escavações para a reforma da Arena Volgogrado, que receberá quatro jogos da Copa do Mundo de 2018, operários encontraram ossadas e vestígios de bombas no local em que foi construído o estádio. Essa não foi uma surpresa para os organizadores do evento: localizada às margens do Rio Volga, a cidade testemunhou uma das batalhas mais sangrentas já registradas. 

Ao menos 2 milhões de pessoas morreram ou foram feridas, em um evento-chave da Segunda Guerra Mundial que mudou os rumos da História. Ao final da luta, a cidade estava reduzida às ruínas e era um cemitério a céu aberto. A vitória soviética contra as tropas nazistas havia cobrado um grande preço da população local.

Ironicamente, durante mais de 35 anos, Volgogrado recebeu o nome do líder que conduziu a União Soviética à vitória (e quase pôs tudo a perder): fundada em 1589 com o nome de Tsarítsin, a cidade foi rebatizada de Stalingrado em 1925, como homenagem aos feitos de Josef Stalin — o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética comandara tropas bolcheviques no local durante a Guerra Civil, no começo da década de 1920. 

Em 1961, como parte dos esforços do líder Nikita Kruschev em "desestalinizar" a sociedade soviética, a cidade recebeu o nome do rio que corre na região. As memórias da batalha da Segunda Guerra Mundial, entretanto, jamais seriam esquecidas. Em 1967, foi construído um monumento de 85 metros de altura que representa a "Mãe-Pátria Russa": sobre a colina de Mamayev Kurgan, uma mulher com feições heroicas brande uma espada gigantesca. A estátua, que pode ser vista de diferentes pontos da cidade, está situada a pouco mais de um quilômetro da Arena de Volgogrado.

Monumento homenageando a "Mãe Pátria Russa"


Traição ou jogada de mestre?

O movimento socialista de todo o mundo ficou em choque com a notícia que o diplomata soviético Viatcheslav Molotov teria um encontro com o regime nazista da Alemanha, a poucos dias do início da Segunda Guerra Mundial. Com a benção de Josef Stalin, o tratado de não-agressão assinado em 23 de Agosto de 1939 também determinava a "partilha" do território polonês: em 1º de setembro, as tropas nazistas invadiriam o país do leste europeu e dariam início ao conflito mundial. 

Para alguns militantes, a tática soviética era um sinal de submissão ao poderio nazista — ou, até mesmo, um claro indício de traição. Mas a liderança da União Soviética sabia que a assinatura do tratado era apenas uma manobra para ganhar tempo: vivendo um tardio processo de industrialização, os soviéticos eram infinitamente mais fracos que os alemães.
Para piorar, Stalin conduzira entre 1936 a 1938 um processo de consolidação do poder que marcou a perseguição e eliminação física de qualquer vestígio de oposição. Líderes bolcheviques históricos, como Lev Kamenev, Grigori Zinoviev e Nikolai Bukharin, foram acusados de conspirar contra a liderança soviética e colocar a revolução em risco. Processados, foram presos e posteriormente executados. A repressão não se limitou aos quadros políticos: três dos cinco marechais soviéticos também foram fuzilados, assim como centenas de oficiais das Forças Armadas. 

Com o Exército acéfalo e poucos recursos tecnológicos bélicos, só restava à União Soviética realizar manobras para protelar o máximo de tempo possível sua entrada na Segunda Guerra Mundial. O conflito, no entanto, seria inevitável: derrotar o fascismo era uma condição básica para a sobrevivência soviética e sua tentativa de realizar uma transição ao socialismo. 

Afinal, os nazistas calcavam seu pensamento político em duas premissas básicas: para que a Alemanha conquistasse sua vitória final, era necessário derrotar as "raças inferiores" (personificadas na população judaica) e destruir qualquer rastro do comunismo. Não por acaso, os nazistas defendiam um Estado forte que defendesse os trabalhadores, mas que não dava brecha alguma para a consolidação de entidades sindicais ou de movimentos sociais que contestassem a estreita ligação entre os empresários e membros do partido de Adolf Hitler — em 1933, livros de Karl Marx foram queimados em praça pública como "necessidade de purificação radical da literatura alemã de elementos estranhos que possam alienar a cultura alemã".


A mãe de todas as batalhas 

No dia 22 de junho de 1941, o pacto de não-agressão finalmente seria rompido. Hitler ordenara o início da Operação Barbarossa, que deslocaria quase 4 milhões de tropas nazistas com o objetivo de varrer a União Soviética do mapa e construir uma vitória em um curto período de tempo. Com a tática conhecida como Blitzkrieg — ataques rápidos e precisos com a utilização da Força Aérea e de tanques blindados — a Alemanha avançou rapidamente sobre o território soviético. Enquanto marchavam em direção à Moscou, os fascistas também se dirigiam aos territórios localizados ao sul, em busca dos campos de petróleo do Cáucaso. 

Tropas soviéticas defendendo Stalingrado

Em novembro, as forças nazistas já estavam às portas da capital Moscou. Para levantar a moral da população, a União Soviética organizou uma parada militar para relembrar o aniversário da Revolução Bolchevique: as tropas desfilaram em frente ao complexo do Kremlin, sede da liderança soviética, e retornaram para o campo de batalha. A mobilização popular e o inverno russo foram determinantes para a contra-ofensiva: em janeiro de 1942, os alemães se afastaram de Moscou. O cenário, entretanto, ainda era crítico.

Enquanto lutava pela sobrevivência, o Exército Vermelho estabeleceu uma linha de defesa na cidade de Stalingrado para impedir que as tropas alemãs avançassem sobre os campos de petróleo ao sul do país. O Rio Volga seria utilizado para a movimentação de tropas e insumos básicos para a população, que permaneceu na cidade trabalhando na produção de armamentos e na escavação de trincheiras. No final de julho de 1942, a Alemanha iniciou um intenso bombardeio aéreo sobre a cidade — milhares de civis morreriam por conta dos incêndios resultantes dos ataques. 

Impotentes diante da superioridade tecnológica alemã, as forças soviéticas iniciaram uma tática de aproximar ao máximo suas linhas militares em relação à vanguarda nazista, atraindo os inimigos para dentro da cidade. Assim, a utilização de bombardeios e de ataques de tanques blindados ficaria reduzida. Ao mesmo tempo, Josef Stalin editaria a ordem 227: sob a consigna de "Nenhum Passo Para Trás", a determinação estabelecia que nenhuma tropa poderia recuar sem autorização — quem desobedecesse, correria o risco de ser preso e fuzilado. 

Durante o segundo semestre de 1942, Stalingrado tornou-se um matadouro: a colina de Mamayev Kurgan, que hoje ostenta o monumento da vitória, mudava constantemente de mãos. Ora ostentava a bandeira soviética, ora exibia o estandarte da Alemanha Nazista. Na fábrica de aço Outubro Vermelho, os operários mantinham a produção enquanto soldados disputavam o controle do perímetro.  Em batalhas travadas casa a casa, prevalecia a utilização de atiradores de elite: o soviético Vassili Zaitsev ganhou fama de herói ao abater 243 alemães em Stalingrado. 

Não por acaso, o conflito ficou conhecido como "A Mãe de Todas as Batalhas". Em dezembro, o Exército Vermelho iniciou a Operação Urano, que aproveitava uma brecha nas linhas inimigas para iniciar um movimento de contra-ataque. Ao centrar fogo contra as tropas romenas, que auxiliavam os nazistas e eram menos equipadas, os soviéticos iniciaram um movimento de cerco antes de desferir um golpe fatal.

Com problemas nas linhas de abastecimento, os alemães também sofriam com o inverno russo. Em janeiro de 1943, a liderança alemã informava Adolf Hitler que as tropas não tinham munição ou alimento — como resposta, o nazista afirmava que a luta seria feita até o último homem. 

Com quase 730 mil mortos, feridos ou desaparecidos, as tropas nazistas finalmente se renderiam no dia 2 de fevereiro. A vitória soviética também cobrava seu preço: durante os meses de conflito, houve mais de 1,1 milhão de baixas, com um número desconhecido de civis mortos. A partir de Stalingrado, a União Soviética iniciaria um contra-ataque que culminaria com a chegada do Exército Vermelho em Berlim, em abril de 1945. A bandeira vermelha com a foice e o martelo tremularia em pleno Reichstag, o Parlamento Alemão que presenciou a ascensão e o fim do nazismo. 

Fonte: Revista Galileu


LANÇAMENTO DO LIVRO "A GRANDE GUERRA NO ATLÂNTICO PORTUGUÊS"

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Alô, amigos de Portugal e estudiosos da Grande Guerra e da guerra no mar.

Lançamento do livro do Prof. Antônio Telo e do amigo Prof. Augusto Salgado, A Grande Guerra no Atlântico Português.  

Imperdível!


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sábado, 16 de junho de 2018

V OLIMPÍADA DE HISTÓRIA MILITAR E AERONÁUTICA DA ACADEMIA DA FORÇA AÉREA

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Na primeira semana de julho será realizada na Academia da Força Aérea, em Pirassununga-SP, a quinta edição da Olimpíada de História Militar e Aeronáutica, envolvendo os cadetes da academia e da AMAN, os aspirantes da Escola Naval e os alunos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica de da Escola Preparatória de Cadetes do Exército.

Mais uma vez fui convidado para compor a banca de avaliação da competição e, neste ano, farei a conferência de abertura, que terá como tema, a pesquisa que realizei junto com minha filha Ana Daróz, sobre As Bruxas da Noite: as aviadoras soviéticas na Segunda Guerra Mundial.



Será um privilégio compartilhar o conhecimento sobre a inédita experiência soviética de emprego de unidades aéreas femininas em combate.

Também realizaremos o pré-lançamento do nosso livo "As Bruxas da Noite: as aviadoras soviéticas na Segunda Guerra Mundial", publicado em parceria com a Somos Editora.



quinta-feira, 14 de junho de 2018

"ELIMINAR AS CALÇAS VERMELHAS?!" "JAMAIS! LE PANTALON ROUGE C'EST LA FRANCE!" (NUNCA! AS CALÇAS VERMELHAS SÃO A FRANÇA!)

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A evolução dos uniformes acompanhando a progressão das sociedades e da arte da guerra encontrou um exemplo paradigmático durante a Primeira Guerra Mundial. Ignorando ou desconsiderando a evolução tecnológica doas armamentos, as lideranças francesas resistiram a modificar os uniformes de suas tropas alegando que estariam enfraquecendo o elan combatente francês.

No texto de Barabara Tuchman, no clássico Canhões de Agosto, podemos mensurar a dificuldade enfrentada pelas lideranças que queriam introduzir uniformes camuflados, ou com baixa visibilidade, no Exército Francês, tarefa que somente pôde ser efetivada no final da guerra:

"Quando olhamos para o soldado francês de 1914, ano inicial da Primeira Guerra Mundial, a primeira coisa que te atordoa são as cores brilhantes do elegante uniforme. Os soldados de infantaria franceses usavam calças vermelhas extravagantes, casacos azuis vistosos e quepes vermelhos chamativos. Este era o uniforme de combate, não apenas uniformes de passeio.

Uniformes franceses de 1914: calças garanca vermelhas que representavam o elan militar, mas que expunham os soldados às armas modernas


Os exércitos mais profissionais do mundo daquela época já tinham notado o erro. Os britânicos por exemplo, haviam adotado o uniforme caqui após a Guerra dos Bôeres, e os alemães fizeram a mudança do azul marinho prussiano para o cinza-campo (feldgrau). Entretanto, em 1914 os soldados franceses ainda usavam os mesmos casacos azuis, quepes vermelhos e calças vermelhas que herdaram das guerras napoleônicas, quando os combates se resumiam a fuzis enfileirados lado a lado apontando para os inimigos que estavam a apenas duzentos passos de distância... Naquele tempo não precisavam de camuflagem.

Visitando o front da Guerra dos Bálcãs em 1912, Messimy, o ministro da Guerra francês viu as vantagens obtidas pelos búlgaros fardados com cor fosca e voltou para casa determinado a tornar o soldado francês menos visível. Seu projeto para vesti-lo em cinza-azul ou cinza-verde levantou um uivo de protesto. O orgulho do Alto comando do Exército era tão intransigente em desistir de suas calças vermelhas quanto em adotar armas pesadas. 

O prestígio do exército foi mais uma vez colocado em jogo. Para eles, vestir o soldado francês em alguma cor lamacenta e inglória seria realizar os mais profundos sonhos dos intelectuais e dos maçons. Era banir 'tudo o que é colorido, tudo o que dá ao soldado seu aspecto vívido', escreveu na época o jornal Echo de Paris, 'é contrariar tanto o gosto francês, quanto sua função militar'.

Messimy apontou que os dois não mais poderiam ser sinônimos, mas seus oponentes conservadores se mostraram irredutíveis. Em uma audiência parlamentar, o ex-ministro da Guerra, M. Etienne, falou pela França:

- Eliminar as calças vermelhas? - gritou com veemência. 
- Jamais! Le pantalon rouge c'est la France!  ("Nunca! As calças vermelhas são a França!")

Por que tão impressionante respeito ao que tornaria um soldado tão visível, um alvo fácil para o rifle de um sniper inimigo ou de uma metralhadora? Esse júbilo de cores vivas provinha das experiências militares das potências anteriores à Primeira Guerra Mundial - britânicos, franceses e alemães - que se limitava a lutar contra pessoas que na maioria das vezes não tinham rifles ou metralhadoras: rebeldes mal armados lutando contra o domínio colonial na África ou na Ásia. Os generais sabiam, é claro, que isso não seria mais válido para essa nova guerra em escala total na Europa, mas há sempre aquela diferença curiosa entre saber e agir, e os militares não estão imunes a isso. 

Reencenadores franceses com o uniforme bleu horizon, utilizado no final da guerra


Centenas de milhares de tropas da infantaria francesa e cavalarianos com couraças polidas e brilhantes tiveram que morrer como alvos fáceis para metralhadoras alemãs - exemplo disso é a batalha das Fronteiras, que ocorreu em poucas semanas do início da Guerra, e ficou marcada para sempre como o dia mais sangrento da história militar francesa, onde mais de 27 mil soldados franceses morreram em um únienadores franceseco dia - antes que os novos uniformes na cor Azul-horizonte (bleu horizon) fossem distribuídos às tropas no início de 1915."

Fonte: TUCHMAN, Barbara. Canhões de Agosto. Rio de Janeiro: BibliEx, 1998.

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UNIVERSIDAD SIMÓN BOLIVAR REALIZA SEMINÁRIO SOBRE ARTILHARIA E HISTÓRIA MILITAR

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quarta-feira, 13 de junho de 2018

A INTRODUÇÃO DA ARTILHARIA É PERCEBIDA PELA LITERATURA

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O sucesso da artilharia otomana levou os exércitos europeus a considerarem os canhões como uma opção real para ampliar seu poderio, o que foi potencializado pelos avanços nas técnicas de fabricação das bocas de fogo e da pólvora.  

Com efeito, já na virada do século XV para o XVI, a artilharia se afirmou no campo de batalha, revelando-se imprescindível no ataque e na defesa das praças fortes.  Os mais notáveis autores renascentistas ibéricos se aperceberam da inovação e fizeram interessantes referências à artilharia em suas obras.  Camões, em Os Lusíadas, testemunhou os efeitos da nova arma:

"As bombardas horrisomas bramavam,
Com as nuvens de fumo o sol tomando;
Amuidavam-se os brados acendidos,
Tapam com as mãos os mouros os ouvidos" 

Luís de Camões em Os Lusíadas: "As bombardas horrissomas bramavam..."

Além de começar a se tornar eficiente, o canhão foi decisivo – juntamente com seus derivados, o arcabuz e o mosquete – para eliminar o prestígio e a primazia da cavalaria medieval, conforme protestou, com boa dose de indignação, o célebre autor espanhol Miguel de Cervantes:

"Bem hajam aqueles benditos séculos que careceram da espantosa fúria destes denominados instrumentos da artilharia, a cujo inventor, tenho para mim, que o inferno está dando o prêmio da sua diabólica invenção, com a qual deu causa a que um infame e covarde braço tire a vida a um valoroso cavaleiro e, que sem saber como, ou por onde, em meio de coragem e brio, que inflama e anima os valentes peitos, chega numa desbandada bala, disparada por quem talvez fugiu ao disparar a maldita máquina e corta e acaba em um só instante os pensamentos e a vida de quem a merecia gozar longos séculos." 

Peça de artilharia do século XVI



Conheça essa e outras histórias lendo


Saiba como adquirir seu exemplar enviando um e-mail para

aguerradoacucar@yahoo.com.br


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segunda-feira, 11 de junho de 2018

IMAGEM DO DIA - 11/6/2018

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Couraçado defesa costeira Almirante Ushakov durante a Batalha de Tsushima (1905).
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quinta-feira, 7 de junho de 2018

ARMAS - REVÓLVERES DA GUERRA CIVIL AMERICANA

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Uma amostra de armas de porte da Guerra Civil Americana. Neste conflito uma ampla coleção de pistolas, de pistolas de cavalaria deram lugar a simples revólveres, de calibres variados e desenhos únicos, que se tornaram icônicos.


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terça-feira, 5 de junho de 2018

PENSAMENTO MILITAR - HISTÓRIA E HISTÓRIA MILITAR



“ A história do mundo, em larga medida,
é uma história de guerras, porque os Estados em que vivemos nasceram das conquistas, guerras civis ou lutas pela independência."

(John Keegan, historiador britânico)


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quinta-feira, 31 de maio de 2018

A MORTE CHEGA PELA MADRUGADA – DUSYA NOSAL, A PRIMEIRA HEROÍNA DAS "BRUXAS DA NOITE"

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Destacamos a trajetória de Dusya Nosal, a primeira das “Bruxas da Noite” a receber (postumamente), o título de Heroína da União Soviética, a maior honraria do país.


A tenente júnior (equivalente ao posto de 2º tenente no Brasil) Yevdokiya Ivanova Nosal serviu como subcomandante de esquadrão no 588º Regimento de Bombardeio Noturno durante a Segunda Guerra Mundial.

Nosal nasceu em 31 de março de 1918 em uma família de camponeses na aldeia de Burchak, na Ucrânia. Ela trabalhou como professora em Mykolayiv antes de se formar em 1940 no aeroclube de Kherson. Depois de receber seu brevê de piloto, trabalhou como instrutora de voo em Nikolaev, até ingressar no Exército Vermelho em 1941.

Yavdokiya Nosal, apelidada “Dusya” pelas amigas, juntou-se ao exército em 1941 depois que a maternidade onde acabara de dar à luz foi bombardeada pelos alemães e seu bebê morrer soterrado pelos escombros. Foi enviada para a Frente Sul em maio de 1942, depois de completar o treinamento na Escola de Aviação Militar de Engels.

Dusya recebeu a Ordem da Estrela Vermelha em 9 de setembro de 1942, depois de cumprir 215 missões de combate e lançar 31.276 kg de bombas sobre as tropas do Eixo. Em 31 de dezembro de 1942 recebeu a Ordem da Bandeira Vermelha, outra prestigiada condecoração soviética.

Antes de partir para uma missão a bordo de seu Po-2, Dusya Nosal (sentada no cockpit dianteiro) e sua navegadora Nina Ulyanenko recebem instruções da major Yevdokiya Bershanskaya, comandante das "Bruxas da Noite".

Depois de decolar no meio da noite em 22 de abril de 1943 e bombardear um alvo, o Po-2 de Nosal foi seguido por um alemão Messerschmitt Bf-110 e atingido por pesado fogo antiaéreo. Uma granada explodiu diretamente no cockpit e um estilhaço atingiu Nosal na têmpora, matando-a instantaneamente.

Como o corpo de Nosal caiu sobre os controles do avião, sua navegadora Glafira "Irina" Kashirina conseguiu, com muita dificuldade, assumir o comando e pousar o avião em segurança no aeródromo de destino. Com uma mão segurou o corpo da amiga, enquanto com a outra controlou a aeronave. Glafira Kashirina desceu do avião em estado de choque.

Dusya Nosal fotografada em trajes civis durante a guerra.

Dusya Nosal morreu quando cumpria sua 354ª missão de combate, na madrugada de 23 de abril de 1945. Ela tinha apenas 25 anos de idade. Por seu serviço militar, recebeu postumamente o título de Heroína da União Soviética em 24 de maio de 1943, "pelo cumprimento exemplar de missões recebidas e pela demonstração de coragem e heroísmo em batalha contra os invasores fascistas alemães".

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Lançamento em breve.



domingo, 27 de maio de 2018

AVIAÇÃO NA 1ª GUERRA MUNDIAL: IMAGENS DO COTIDIANO

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Imagens do dia a dia da aviação durante a 1ª Guerra Mundial

O emprego do avião como arma de guerra foi uma novidade e representou uma grande evolução na arte da guerra.  Após o conflito, as forças militares de todo o mundo não poderiam mais prescindir das novas máquinas aéreas, e a feição da guerra nunca mais foi a mesma.

O Blog Carlos Daroz-História Militar publica, a seguir, uma sequência de fotografias mostrando o cotidiano dos aviadores e suas máquinas de guerra durante o conflito, que se estendeu de 1914 a 1918.


Treinamento "em seco"

Pronto para a luta, o sargento-piloto Georges Brou guarnece uma metralhadora Browning, enquanto seu observador, Subtenente Jean Billon de Plan, aponta sua Hotchkiss para praticar procedimentos de tiro contra um ataque por trás, em um Maurice Farman MF.11bis, da Escadrille MF.62, no aeródromo de Breuil-le-Sec em setembro de 1915.  Em 27 de abril de 1916, Billon de Plan derrubou um caça Fokker E.III que o atavaca. Sua sorte, contudo, terminou em 10 de outubro, quando foi baleado na cabeça por um dos três Albatros D.IIs que atacaram seu avião. Ferido, o sargento-piloto Roger Thuau, foi forçado a pousar seu Nieuport 12bs em linhas alemãs. Thuau foi mais tarde visitado por três pilotos que o atacaram, e seu líder, que creditou com ele sua 14ª vitória, expressou seus arrependimentos com a morte de Billon de Plan e deixou-lhe uma fotografia assinada "para o meu inimigo corajoso", do tenente Wilhelm Frankl comandante de Jagdstaffel 4.  




Fazendo a mudança

Um caminhão reboca o Albatros D.V desmontado do tenente alemão Emuy Thuy, ao longo de uma estrada vicinal, enquanto o Jasta 21 move-se para um novo aeródromo, em julho 1917. Thuy reivindicou o abate de um Spad francês nesse mês, elevando sua contagem a 13 vitórias, antes de ser transferido para comandar o Jasta 28. Sobreviveu à guerra, com um total de 35 abates, e foi condecorado com a Ordem Pour le Mérite. Thuy foi morto em um acidente aéreo enquanto treinava clandestinamente pilotos alemães na União Soviética em 11 de junho de 1930.





Alimentando com bombas

Equipe de solo alemã instala bombas de 220 libras sob as asas de um Gotha G.V, que também possui duas bombas de 660 libras no cabide central sob a fuselagem. Entrando em serviço em agosto de 1917, o G.V teve os tanques de combustível das naceles dos motores removidos para um local menos perigoso na fuselagem, por trás do piloto. Apesar de seus refinamentos, no entanto, a G.V era muito mais pesado do que seus antecessores e, quando os alemães lançaram contra Londres sua blitz, até 19 de maio de 1918, seu desempenho não melhorou, resultando em uma velocidade média de cerca de 80 mph.



Preparando para a caçada

Dois Fokker Dr.Is marcado com os capuzes e caudas amarelos do Jasta 27 são preparados para decolagem no aeródromo de Halluin-Ost em maio de 1918, com padrões de segurança bastante questionáveis sugeridos pelo mecânico acendendo um cigarro tão perto da aeronave em primeiro plano. Ao fundo, um dos primeiros caças biplanos Fokker D.VII a chegar ao front para substituir os triplanos.



Apoio Aéreo Aproximado

Um armeiro carrega granadas de mão no rack de um Halberstadt CL.II do Schlachtstaffel 27 para uma missão de ataque ao solo em maio de 1918, durante a última grande ofensiva da Alemanha na Frente Ocidental. Sinalizadores são colocados no topo da fuselagem, atrás da posição do observador. O Halberstadt CL.II foi um dos primeiros aviões concebidos para o ataque ao solo e tarefas de apoio aéreo aproximado, e possuía uma placa ligeiramente blindada pera proteger a tripulação contra fogos vindos do solo.



Voando bem alto

Tripulante alemão de um Rumpler C.VII coloca suas luvas enquanto um integrante da equipe de solo conecta sua máscara facial aquecida eletricamente. Os aviões de reconhecimento Rumpler usavam a altitude como sua principal defesa durante suas missões no interior do território inimigo, podendo o C.VII chegar a 24.000 pés, além das capacidades da maioria dos combatentes aliados. O ar era rarefeito e a temperatura extremamente baixa em tais alturas, contudo, requerendo respiradores de oxigênio e trajes de voo aquecidos eletricamente para manter a tripulação com a máxima eficiência.



A primeira Medalha de Honra dos EUA

O segundo tenente Frank Luke do 27º Esquadrão dos EUA posa sobre os destroços de um avião de reconhecimento LVG CV que ele abateu durante uma missão em 18 de setembro de 1918, na qual ele tinha incendiado anteriormente dois balões e derrubado dois caças Fokker D.VII em apenas meia hora.  Apesar de seu triunfo, o rosto de Luke revela a ansiedade de ter perdido melhor amigo, o primeiro tenente Joseph Wehner, que fora abatido e morto pelo tenente Georg von Hantelmann do Jasta 15.  Luke foi derrubado após ter sido mortalmente ferido pelo fogo disparado do solo, depois de destruir três balões em 29 de setembro, elevando seu total para 18, e se tornaria postumamente o primeiro membro do Serviço Aéreo do Exército dos EUA a receber a Medalha de Honra do Congresso.



Fonte: Historynet


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quinta-feira, 24 de maio de 2018

O ÚLTIMO SUSPIRO DO IMPÉRIO



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Para os britânicos, a crise do canal de Suez não significou apenas a perda de um importante ponto estratégico no Oriente Médio; representou uma humilhante derrota e o fim de sua hegemonia, em declínio desde a 2ª Guerra Mundial.

Por Dominic Sandbrook

Às cinco horas de uma manhã de outono, grupos de aeronaves britânicas sobrevoavam a costa do Egito.  Depois que os caças da Marinha abriram caminho, tropas de paraquedistas saltaram, despencando 300 metros até a cidade de Port Said.  Em poucas horas, consolidavam a invasão do local.

No dia seguinte, começava a segunda fase da operação.  Enormes nuvens de fumaça negra subiam do porto egípcio, à medida que helicópteros britânicos rumavam para a praça central, onde uma estátua de Ferdinand de Lesseps, o arquiteto do Canal de Suez, permanecia intacta. À noite, a resistência local já havia sido esmagada e a estrada sul em direção ao canal liberada.

Os soldados agora se encaminhavam para o objetivo principal embarcados em blindados, bebendo uísque para se aquecerem na noite fria.  De repente, a 32 km da costa, alguém acenou.  Para completa surpresa da tropa, o comandante avisou que não poderiam mais prosseguir – os americanos impediam o avanço.

 Helicópteros britânicos a caminho de Port Said

Zona ocupada

As origens da crise de Suez, talvez a maior humilhação britânica nos tempos modernos, remontam à história do relacionamento anglo-egípcio.  O Egito ficou sob o domínio da Grã-Bretanha desde o fim do século XIX e, até o começo dos anos 1950, o país europeu mantinha guarnições na Zona do Canal de Suez, uma estreita faixa de pistas de decolagem e instalações ao lado da grande hidrovia artificial construída entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho.

Mas, em 1952, um golpe de estado derrubou o rei Farouk e o substituiu por um governo militar, chefiado pelo carismático coronel Gamal Abdel Nasser, que havia decidido se tornar a grande expressão do nacionalismo na região.  A ruptura com a Grã-Bretanha era, portanto, inevitável, uma vez que a autoafirmação egípcia estava destinada a colidir com os interesses estratégicos britânicos.

Em 1955, Nasser se recusou a participar do pacto anticomunista de Bagdá e fechou um acordo com a comunista Tchecoslováquia.  Com a Guerra Fria no auge, Grã-Bretanha e EUA decidiram que o líder egípcio era uma ameaça e, em julho de 1956, os dois países desistiriam de financiar o projeto de desenvolvimento da represa de Assuã, no rio Nilo.



Apenas uma semana depois, Nasser se vingou. No aniversário do golpe que o levou ao poder, ele fez um discurso diante de uma enorme multidão em Alexandria e anunciou a imediata nacionalização do Canal de Suez.  Seus proprietários, os acionistas franceses e britânicos, seriam compensados, mas o símbolo supremo do colonialismo europeu, a hidrovia crucial que levava petróleo do Oriente Médio ao Ocidente, ficaria em mãos egípcias.

O anúncio chocou o mundo, afetando Londres de forma mais aguda.  A Grã-Bretanha era a força dominante no Oriente Médio havia muito tempo.  Agora, ela era desafiada, e muita gente – no governo, na imprensa e na sociedade em geral – insistia para que o líder egípcio fosse impedido.

Anarquia e caos

A decisão cabia ao primeiro-ministro inglês Anthony Eden, um conservador que havia sido lugar-tenente de Winston Churchill durante a 2ª Guerra Mundial e que esperara durante anos a chance de sucedê-lo.  Eden havia, finalmente, assumido o governo em 1955 e vencido uma eleição geral, mas sua popularidade estava em queda.  Enfraquecido por uma série de doenças e cirurgias, tinha uma aparência frágil que contrastava com seu irascível vice, Rab Butler.

Muitos consideram que a maneira como Eden conduziu o caso foi equivocada.  Para começar, ele encarou o desafio de Nasser de forma pessoal.  “Eu o quero destruído, está entendendo?”, perguntou a um de seus oficiais.  “Não quero uma alternativa, nem quero saber se o Egito está em meio à anarquia e ao caos.”

 O primeiro-ministro britânico Anthony Eden falando à BBC

Convencido que aquela era a oportunidade de reforçar a posição mundial da Grã-Bretanha, em declínio desde a guerra, Eden ordenou a mobilização das forças armadas quando as negociações para resolver a disputa ainda não tinham acabado.  Mas em Washington, o governo de Dwight Eisenhower não estava propenso a embarcar na empreitada de seus antigos aliados – o presidente norte-americano iria tentar a reeleição em novembro e temia aborrecer seus eleitores.  Sem o apoio dos EUA, Eden foi bater em outra porta.

Em 22 de outubro, Eden convidou seu ministro das Relações Exteriores, Selwyn Lloyd, para um encontro secreto em Paris com seus colegas da França e de Israel. Lá, fecharam um acordo extraordinário: Israel invadiria o Egito e, logo em seguida, Grã-Bretanha e França dariam um ultimato para que os dois lados batessem em retirada e aceitassem a intervenção na Zona do Canal.  Quando Nasser recuasse – o que eles sabiam que aconteceria -, os dois aliados europeus atacariam. Parecia infalível, embora fosse eticamente questionável.

A operação pode ter entrado para a história como um fracasso por conta de seus resultados, mas do ponto de vista militar foi um triunfo.  O ataque israelense ocorreu exatamente como planejado: Grã-Bretanha e França deram o prometido ultimato e, em 5 de novembro, começou a invasão aliada do Egito.  Então, o que deu errado?  A resposta, bastante simples, é que os norte-americanos intervieram.

 O motivo da discórdia: Canal de Suez

A poucos dias da eleição presidencial, Eisenhower ficou furioso ao saber que Eden o enganara.  Mas a oportunidade para uma represália não tardou a surgir, graças ao fator econômico.  Com a libra esterlina sob forte pressão no mercado de câmbio e o bloqueio do Canal de Suez interrompendo o acesso ao petróleo do Oriente Médio, a situação da Grã-Bretanha era desesperadora.  Quando representantes do ministério da Fazenda britânico procuraram ajuda financeira em Washington, receberam uma resposta gelada.

Encarando a humilhação

E assim, o fim logo veio.  Eden teve de se submeter a Eisenhower e fazer um discurso humilhante na Câmara dos Comuns: “Seu rosto era cinza, com exceção das bordas negras que cercavam as brasas apagadas de seus olhos.  A personalidade parecia completamente ausente”, registrou um observador.  Duas semanas depois, exausto e alquebrado, o primeiro-ministro foi se recuperar na Jamaica. Ao voltar, sua saúde continuava em frangalhos e, assim, no dia 9 de janeiro de 1957, Eden renunciou ao cargo com a carreira aparentemente destruída pelo maior fiasco diplomático da história britânica.

A humilhação pessoal de Eden era comparável à vergonha de seus generai e também à de seus colegas franceses e israelenses, que gradualmente retiraram suas tropas e deram espaço às forças de paz das Nações Unidas.  Enquanto isso, Suez permanecia em mãos egípcias e Nasser saiu como o grande vitorioso.  Poucos anos depois de chegar ao poder, ele assegurava sua reputação como o paladino que ousara puxar o tapete do Império Britânico.

 Posição britânica em Port Said: o Império desmorona

Qual foi o impacto da Crise de Suez na Grã-Bretanha?  A opinião pública estava dividida: manifestantes lotaram a Trafalgar Square para protestar contra a invasão, mas boa parte da imprensa apoiou Eden.  O historiador Robert Rhodes James registrou que jovens e idosos apoiavam fervorosamente o governo e “desprezavam os antipatrióticos socialistas” que se opunham à guerra.  De fato, os números mostram que Eden era mais popular após a derrocada do que antes, enfraquecendo o mito de que ele foi destroçado pela opinião pública.

Também é mito que Suez tenha causado o declínio do Império.  A verdade é que o poder bretão estava minguando de toda forma, graças à dispendiosa participação do país nas duas guerras mundiais.  A crise no Oriente simplesmente demonstrou isso, de forma incontestável, para o mundo inteiro.

Para piorar, quaisquer pretensões de superioridade moral foram demolidas pelas revelações de que Eden conspiravam com os franceses e israelenses para atacar o Egito.  Pierson Dixon, representante britânico na ONU, raciocinou que “com nossa ação, nos rebaixamos de uma potência de primeira para uma de terceira classe.  Revelamos nossa fraqueza ao pararmos e jogamos fora a posição moral da qual nossos status mundial largamente dependia.”

Existe pouca dúvida de que o episódio deixou marcas profundas na nação.  O escritor Peter Vansittart não estava sozinho quando relembrou ter “sentido uma mudança nas ruas, bares e lares depois de Suez: uma redução das expectativas, a sensação de que os tempos bons haviam acabado.”  “Acho que o fracasso no Egito teve um efeito arrasador sobre o moral do governo britânico.  O fedor da derrota era uma coisa assombrosa”, afirmou um ministro do Partido Conservador.  Mais de uma centena de parlamentares assinou uma moção parlamentar acusando os norte-americanos de “pôr em risco de forma muito grave a Aliança Atlântica”. E muitas pessoas comuns destilavam sua amargura contra o velho aliado.  “Não atendemos norte-americanos aqui”, dizia uma placa na entrada de uma revenda de automóveis em Hertfordshire.

O fim de uma era

Mais de cinco décadas depois, Suez ainda é um divisor de águas histórico.  Depois de 1956, a Grã-Bretanha nunca mais pôde usar sua força como antigamente.  E ninguém duvidava de que o verdadeiro poder estava em Washington, não em Londres.  Mas o que se costuma esquecer é que a crise no Egito também foi o início de uma nova era de riqueza e ambição.  Sem o fardo da grandeza imperial, os britânicos estavam livres para se divertir, esbanjando com carros, aparelhos de TV, máquinas de lavar e toda a parafernália da sociedade de consumo.

Três anos depois, o fisco no Egito havia sido esquecido em grande parte e os Conservadores, liderados por Harold Macmillan – chanceler que assumiu o governo após a renúncia de Eden - , rumava à reeleição.  Depois veio o escândalo Profumo, os Beatles e todo o florescimento cultural dos anos 1960.  Suez pode ter sido o último suspiro do esplendor imperial britânico, mas foi o tiro de largada para uma nova aventura cultural.

Fonte: Guerras e conflitos do século XX, BBC

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