"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



terça-feira, 4 de junho de 2024

1917: EUA DECLARAM GUERRA À ALEMANHA

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Em 3 de fevereiro de 1917, o presidente americano Woodrow Wilson rompeu relações com a Alemanha em represália à Guerra Submarina ordenada pelo imperador alemão Guilherme II, que ameaçava navios mercantes dos EUA.


Por Gábor Halász


"Quando eclodiu a guerra, eu estava visitando meu irmão em Meissen. Vi os soldados marchando sobre a ponte do rio Elba, com flores nos capacetes", lembrou o veterano Paul Epstein, de Leipzig. Os soldados foram em clima de festa para as frentes de batalha da Primeira Guerra Mundial, acreditando que voltariam para casa em poucas semanas.

O sonho de vitória rápida das potências centro-europeias – Alemanha e Áustria-Hungria – logo se dissipou. A guerra contra a Tríplice Entente, formada pelo Reino Unido, França e Rússia, terminou num beco sem saída.

Os Estados Unidos, por longo tempo, não intervieram no conflito. Apesar de simpatizarem com a Tríplice Entente, mantiveram-se neutros do ponto de vista militar. Financeiramente, porém, já participavam da guerra, com armas, mantimentos e créditos no valor de nove bilhões de dólares. Os navios que traziam as mercadorias para a Europa eram atacados constantemente.

Em 1917, os EUA declararam guerra à Alemanha, alegando lutar contra o autoritarismo e o militarismo. O pretexto para entrar no conflito ao lado da Entente foi o anúncio feito pelo imperador Guilherme II, a 1º de fevereiro de 1917, de que iniciaria uma guerra total com submarinos, ameaçando inclusive afundar sem aviso prévio os navios neutros a caminho dos portos britânicos.


Inverno arrasador

No dia 3 de fevereiro, o presidente norte-americano Woodrow Wilson rompeu relações diplomáticas com o Império Alemão. O gelado inverno de 1917 foi arrasador para a Alemanha. A colheita de batatas caiu à metade e 750 mil pessoas morreram de fome.

Paul Epstein, inicialmente entusiasta da guerra, já não acreditava mais na vitória. "A situação era precária. Quanto mais pessoas eram recrutadas, mais diminuía o número de empregos. A economia estava arruinada", conta. O inverno de fome e as greves na indústria armamentista esmagaram os alemães em seu próprio território.

Tropas norte-americanas desembarcando na França em 1917. O poderio militar dos EUA desequilibrou o balanço de forças na guerra e apressou a derrota da Alemanha


Quando os EUA declararam guerra à Alemanha, começava a Revolução na Rússia. A aliança formada por Alemanha, Áustria-Hungria, Bulgária e Turquia tentou decidir a guerra na Europa Ocidental antes de os americanos desembarcarem na França. Centenas de milhares de soldados morreram nas trincheiras, sem conquistar um só metro de território inimigo. "Era uma guerra tática. Quem olhasse por cima da trincheira era fuzilado", lembra o veterano Epstein.

A intervenção dos EUA decidiu a Primeira Guerra Mundial. Em janeiro de 1918, o presidente Woodrow Wilson apresentou uma proposta de paz de 14 pontos, que só foi aceita pelos alemães quando a derrota já era inevitável. Em julho do mesmo ano, as forças inglesas, francesas e norte-americanas lançaram um ataque definitivo contra a Alemanha, obrigada a retroceder.

A Bulgária e a Áustria retiraram-se do conflito e a Turquia se rendeu. A Alemanha resistiu sozinha, mas a falta de alimentos causada pelo bloqueio aliado e a precária saúde da população colocaram o país à beira da revolução social. A Baviera proclamou-se república e a sublevação alastrou-se por todo o país, até ser anunciada a abdicação do kaiser, exigida pelos EUA.

O líder social-democrata Friedrich Ebert assumiu o poder e negociou a rendição, assinada a 11 de novembro de 1918. Os quatro anos de guerra (1914-1918) deixaram um saldo de 8,7 milhões de soldados mortos e cerca de 20 milhões de feridos.


Fonte: DW

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quinta-feira, 30 de maio de 2024

IMAGEM EM DESTAQUE - 30/5/2024

 

Pessoal do Esquadrão Nº 100 da Royal Air Force fotografado diante de um de seus bombardeiros Avro Lincoln. O Esquadrão atuou na campanha de bombardeio estratégico contra a Alemanha durante a 2ª Guerra Mundial. 



sábado, 11 de maio de 2024

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR - IVAN TURTCHANINOV, O OFICIAL CSARISTA QUE SE TORNOU GENERAL DO EXÉRCITO DOS EUA

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Herói na Guerra Civil Americana, Ivan Turtchaninov (John Basil Turchin) deixou a Rússia Imperial em busca de liberdade. Nos EUA, fez amizade com Abraham Lincoln e foi o único russo a ascender ao posto de general. Apesar dessas conquistas, seu o final de sua vida foi desastroso.

Por Oleg Egorov


Em 1862, durante a Guerra Civil Americana, o enviado russo a Washington, Eduard de Stoeckl, expressou descontentamento com o fato de o oficial russo Ivan Turtchaninov estar servindo no Exército da União: "As fileiras deste exército consistem de revolucionários e aventureiros de todos os cantos da Terra", escreveu Stoeckl a São Petersburgo.

Apesar de o Império Russo apoiar o Norte, Stoeckl acreditava que lutar em batalhas internas dos Estados Unidos era uma vergonha para um oficial que havia servido ao Imperador. Mas Turtchaninov não se importava com o que pensavam oficiais russos que não o apoiavam, pois havia deixado a terra natal para sempre.


Coronel teimoso

Nascido em 1822 na região do rio Don, no sul da Rússia, Turtchaninov seguiu os passos de seu pai, um cossaco. Em 1841, ele se formou na Escola Militar Imperial de São Petersburgo e, em 1848, participou da repressão à Revolução Húngara, lutando mais tarde na Guerra da Crimeia (1853-1856).

Turtchaninov  (John Basil Turchin) fotografado no posto de Brigadeiro-General


"No final da guerra [da Crimeia], Turtchaninov era coronel e tinha uma perspectiva de ter uma vida rica e uma carreira de destaque à frente. Mas ele não quis isto", escreveu o articulista David Zaslavski.

Em 1856, Turtchaninov e sua mulher, Nadejda, deixaram a Rússia e atravessaram o Atlântico, fugindo para os EUA. O motivo era ideológico: o coronel era um republicano ardente, ansiando por viver em um país livre onde uma pessoa pudesse decidir seu destino por si própria.

Na década de 1850, os EUA eram o único Estado proeminente a terem um governo republicano (todos as potências europeias eram monárquicas). Assim, após cruzar o oceano, o casal Turtchaninov comprou uma pequena fazenda próxima à cidade de Nova York.


Sentimentos contraditórios sobre os EUA

No novo continente, o russo adotou o nome John Basil Turchin. Mas o casal enfrentou muitas dificuldades. "Os Estados Unidos me ajudaram a me desfazer de meus preconceitos aristocráticos e me reduziram ao nível de um mero mortal. Eu renasci. Não temo nenhum trabalho; nenhum setor de negócios me espanta e nenhuma posição social me rebaixa”, escreveu Turtchaninov a Aleksandr Herzen, famoso dissidente político russo que morava em Londres.

E Turtchaninov teve mesmo que mudar de carreira muitas vezes: foi agricultor, operário e engenheiro. Sua fazenda em Nova York não deu tão certo, então os Turchins se restabeleceram em Chicago, onde o coronel trabalhou como engenheiro e teria conhecido até mesmo o futuro presidente norte-americano, Abraham Lincoln. Mais tarde, isso o ajudaria.

Turchin, porém, não estava completamente apaixonado pela vida nos EUA. Na mesma carta a Herzen, reclamava: "Estou totalmente desapontado; não vejo nem uma fração de liberdades de verdade aqui... Isto é um paraíso para os ricos, onde podem se safar de crimes perversos com dinheiro". O oficial idealista teve que enfrentar a dura realidade de todos os vícios do capitalismo norte-americano.


Batalhas e escândalos

Turchin criticou demais a América, mas quando a Guerra Civil estourou, em 1861, não hesitou em se juntar às fileiras do Exército da União. Graças a seu passado militar, ele recebeu o posto de coronel, e o 19º Regimento de Infantaria de Voluntários de Illinois ficou sob seu comando, lutando contra a Confederação no Tennessee e no Alabama.

Oficial ativo, Turchin confrontava frequentemente seu comandante, o general Don Carlos Buell, e, às vezes, agia até mesmo sem sua permissão. Turchin e seus homens ajudaram, por exemplo, a cercar Huntsville, no Alabama, cortando as linhas ferroviárias da Confederação. Este foi um grande sucesso tático que rendeu o respeito dos soldados. Mas novamente, ele entrou em confusão.


O saque de Atenas

Em 2 de maio de 1862, o 19º Regimento tomou a cidade de Atenas, no Alabama. Na ocasião, o exército estava frustrado com a situação em que se encontrava na guerra, já que os guerrilheiros dos Confederados frequentemente derrotavam os soldados da União com a ajuda dos residentes locais sulistas. Assim, o coronel russo decidiu ensinar aos rebeldes uma lição.

Em um episódio conhecido como “O saque de Atenas”, o coronel teria levado seus soldados da União à cidade, deixando-os saquear tudo o que podiam – quase 55 mil dólares, uma fortuna na época.

Turchin caiu em desgraça após o saque de Atenas, mas foi reabilitado por Abraham Lincoln

Após o incidente ganhar popularidade, Turchin foi demitido e levado à corte marcial. Mas muitos o apoiaram, e o jornal Chicago Tribune o classificou como uma "vítima da malícia pró-escravidão". Em seu discurso na corte, Turchin ressaltou que a União estava lutando contra os escravizadores com os quais “não se deveria lidar com luvas de pelica, mas um pouco mais duramente”.

Enquanto isto, a mulher de Turchin foi a Washington para levar o caso do marido diretamente a Lincoln, que não apenas liberou Turchin, mas também o promoveu a general de brigada. Afinal, a União precisava de oficiais ativos e inteligentes.


Esquecimento pós glória

Turchin continuou a servir ao Exército, lutando na Batalha de Chickamauga e na campanha de Chattanooga, onde deu seu melhor. Em 1864 ele teve que deixar o exército após sofrer um derrame. Depois da guerra, ele levou teve uma vida cheia de problemas, mudando de profissão o tempo todo. 

Turchin morreu em 1901, aos 79 anos e muito pobre.

Fonte: Russia Beyond

quarta-feira, 1 de maio de 2024

EXÉRCITO DE LIBERTAÇÃO DO KOSOVO (UÇK)

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Por Alexandre Del Valle


Fundado em 1996, o Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) foi uma guerrilha composta por albaneses étnicos que pretendia a independência da província do Kosovo em relação à Iugoslávia (Sérvia). Os princípios da guerrilha albano-kosovar eram uma confusa mistura de marxismo-leninismo, islamismo e nacionalismo. Sua maior fonte de financiamento provinha do tráfico de drogas e armas das famosas máfias albanesas, além da ajuda dos imigrantes instalados na Alemanha e outros países da Europa.

O UÇK era considerado um grupo terrorista pelo regime de Slobodan Milosevic (1941-2006), não sem razão: várias centenas de policiais e civis sérvios haviam sido assassinados pela guerrilha antes que as tropas iugoslavas intervissem no Kosovo, o que gerou posteriormente a intromissão da OTAN no conflito (a Sérvia foi duramente bombardeada por 78 dias e teve sua infraestrutura destruída no período). A Guerra do Kosovo foi um dos casos curiosos de uma aliança entre o ocidente e uma obscura guerrilha "narcoislamita" dos Bálcãs, região assolada pela guerra e limpezas étnicas na década de 1990.



Este é um ponto interessante. A OTAN interviu em Kosovo por “razões humanitárias”: Clinton, Blair e outros líderes alardeavam a intenção de evitar um massacre semelhante ao ocorrido na Bósnia. Os sérvios foram demonizados unilateralmente. A limpeza étnica ocorreu dos dois lados: os sérvios embruteceram no combate aos albaneses depois dos ataques da OTAN, e o UÇK procedeu de forma tão brutal quanto após a rendição de Milosevic – milhares de sérvios fugiram do Kosovo ou foram assassinados. 

A máquina de propaganda ocidental ocultou os feitos dos albaneses e inflou os massacres – condenáveis, certamente – cometidos pelos sérvios, exagerando sua proporção. O UÇK procedeu com severidade com todos os não-albaneses do Kosovo: sérvios, gorancis (sérvios islamizados), ciganos, albaneses moderados, turcos, judeus. O Kosovo obteve a independência em 2008, ainda não reconhecida por alguns países.

Fonte: Guerras contra a Europa 


segunda-feira, 29 de abril de 2024

29/4/2024 - IMAGEM DO DIA

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Nas proximidades da Linha Gótica, na Itália em 1944, artilheiros pertencentes ao VIII Exército britânico guarnecem um canhão antiaéreo Bofors 40mm, defendendo uma ponte sobre um dos inúmeros cursos d´água existentes na região.




sábado, 6 de abril de 2024

EDITOR DO BLOG TOMA POSSE COMO CONSELHEIRO DA BIBLIOTECA DO EXÉRCITO


Em reconhecimento à sua trajetória profissional e acadêmica, o editor do Blog Carlos Daróz-História Militar foi empossado como Conselheiro da Biblioteca do Exército.


Em 1982, do alto dos meus doze anos de idade, li o primeiro de muitos livros editados pela Biblioteca do Exército (BIBLIEx). Tratava-se do livro "Quebra Canela", de autoria de Raul da Cruz Lima Junior, no qual relatava sua experiência como comandante de companhia do 9º Batalhão de Engenharia da Força Expedicionária Brasileira, na Segunda Guerra Mundial.

Hoje, passados 42 anos, não por coincidência no exato momento em que a Biblioteca publica uma nova edição da obra, tomei posse como Conselheiro no Conselho Editorial da BIBLIEx. Com muita honra, passei a integrar um grupo de expoentes do conhecimento e do saber em nosso país, militares e civis, que avaliam e decidem sobre as coleções de obras a serem publicadas.






Em seguida à posse, participei da 486ª Reunião do Conselho Editorial, já contribuindo para a escolha de futuros títulos que serão editados pela BIBLIEx. Muito agradecido pelo reconhecimento dessa importante instituição, fundada em 4 de janeiro de 1882 por iniciativa do então ministro da Guerra Franklin Dória, e que contribui decisivamente para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da cultura militar brasileira.

Seguida à posse, participei da 486ª Reunião do Conselho Editorial, já contribuindo para a escolha de futuros títulos que serão editados pela BIBLIEx.

Muito agradecido pelo reconhecimento dessa importante instituição, fundada em 4 de janeiro de 1882 por iniciativa do então ministro da Guerra Franklin Dória, e que contribui decisivamente para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da cultura militar brasileira.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

ETÍOPE QUE LUTOU COM EUA LEMBRA "CAPÍTULO ESQUECIDO" DA GUERRA DA COREIA

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Esta é a história pouco conhecida de um oficial etíope condecorado pelos Estados Unidos por sua imensa bravura. Ela se passou há 70 anos, quando a Etiópia entrou em guerra. Não na África, mas do outro lado do mundo, na Coreia.


Em 1951, o imperador etíope, Hailé Selassié, decidiu enviar milhares de soldados para integrar as forças da ONU que, lideradas pelos Estados Unidos, lutavam ao lado da Coreia do Sul contra os comunistas norte-coreanos e sua aliada China.

Os chamados batalhões Kagnew pertenciam ao corpo dos Guarda-Costas Imperiais - a tropa de elite da Etiópia.  O capitão Mamo Habtewold era na época um jovem tenente do 3º Batalhão Kagnew.  Em entrevista à BBC, ele disse que se lembra com clareza do dia em que deixou a Etiópia para ir lutar no outro lado do mundo. O próprio imperador veio se despedir das tropas.

"Quando um batalhão partia para a Coreia, ele sempre vinha pessoalmente, fazia um discurso e dava a cada batalhão uma bandeira", contou. "Ele determinou que trouxéssemos a bandeira de volta".


Três mil anos de independência

Quando a Etiópia foi invadida pela Itália, em 1935, Hailé Selassié havia condenado a Liga das Nações por sua não intervenção no conflito. Anos mais tarde, como aliado fiel dos Estados Unidos, o imperador quis dar um exemplo.

"Nosso rei, Haile Selassie, era um grande defensor do princípio da segurança coletiva. E quando a ONU pediu a ele (que enviasse) tropas para a Coreia, ele aceitou sem questionar", explicou Mamo. O próprio Mamo estava 'louco para ir', especialmente após o retorno, em 1953, do primeiro batalhão etíope enviado à Coreia. "Todos voltaram da Coreia se gabando, então, todo mundo queria lutar".

Mamo Habtewold em fotografia tirada logo após a guerra

Os etíopes lutaram como parte da 7ª Divisão dos Estados Unidos. O Exército americano havia, muito recentemente, eliminado a segregação racial entre as tropas, mas, para Mamo, segregação racial não era um problema: "A Etiópia tem uma história de três mil anos como país independente. Nós etíopes éramos orgulhosos e nos gabávamos de ser etíopes. Não nos importávamos com essa questão de cor. Os americanos não nos chamavam de negros porque ficaríamos com raiva". (O uso do termo negro, tradução literal de "nigger", em referência à raça negra é considerado ofensivo em países de língua inglesa.) 

E Mamo tem orgulho da participação da Etiópia na Guerra da Coreia. "Éramos os melhores combatentes. Os três batalhões etíopes lutaram em 253 batalhas e nenhum soldado etíope foi feito prisioneiro na Guerra da Coreia", contou. "Esse era o mote etíope: Nunca seja capturado no campo de batalha".

O mote dos soldados africanos seria colocado a duras provas.


Cercados pelo Inimigo

Em 1953, enquanto as negociações de paz se arrastavam, ambas as facções tentavam fortalecer sua posição nas negociações ao brigar pelo controle de uma área árida e montanhosa situada logo após um dos trechos ocupados pela ONU.  A 7ª Divisão americana, que incluía o batalhão Kagnew, foi encarregada de defender uma dessas montanhas, apelidada de Pork Chop Hill.

Guarnição de canhão sem recuo etíope na Coreia

Uma noite, em maio de 1953, Mamo liderava uma pequena patrulha que desceu do topo da montanha para inspecionar as terras abaixo. Ele não suspeitava de que sua patrulha estava prestes a ser alvo de uma grande ofensiva chinesa.  "Éramos 14 etíopes e um americano na nossa patrulha. Mais tarde, foi escrito que lutamos contra 300 soldados chineses - um homem contra 20".  Quatro integrantes da patrulha foram mortos, incluindo o americano. Todos os outros foram feridos.  "Eles tentaram levar meu operador de rádio como prisioneiro, mas eu matei o soldado chinês e salvei aquele homem. Uma hora, vieram acabar conosco quando estávamos todos feridos, eu tinha uma granada e os matei. Foi muito duro".

A luta continuou, com interrupções, durante toda a noite. Isolado, com seus homens feridos, Mamo sabia que não conseguiriam aguentar por muito mais tempo. "Fui ferido várias vezes, estava cansado, exausto, e perdi a consciência duas vezes. A coisa mais importante era encontrar um rádio para contatar a artilharia americana. Mas meus três rádios tinham sido destruídos.  Eu dei minha pistola a um soldado para que ele me desse cobertura enquanto eu procurava por um rádio. Desmaiei de novo e tive medo de ser capturado. Queria me matar. Mas quando ordenei ao soldado que devolvesse minha pistola, ele se recusou."

"Não dê [a pistola] a ele", os outros soldados disseram.  Então, Mamo decidiu continuar a lutar.  "Procurei por uma arma de um dos homens mortos e, quando os chineses atacavam, eu atirava. Quando as coisas se aquietavam, eu procurava um rádio", contou.  Ele acabou encontrando um rádio. Chamou a artilharia americana, que pôs fim à ofensiva chinesa. Reforços foram enviados e, sob uma cobertura de fumaça, seus homens feridos foram resgatados.

De volta à base, Mamo era o único da patrulha ainda em pé. "Todos foram para o hospital. Eu fui o único a retornar para o alojamento. É como um homem que está vivendo com sua família e, de repente, a família inteira está morta e ele retorna para uma casa vazia - foi assim que me senti. Senti tanto por eles, fiquei muito deprimido".

Soldados do Batalhão Kagnew nas montanhas da Coreia


Por seus atos, Mamo recebeu a mais elevada honraria militar existente na Etiópia. E os americanos lhe deram uma Estrela de Prata, por sua bravura em combate.

Mais de três mil etíopes lutaram na Guerra da Coreia, mais de 120 foram mortos, mais de 500 foram feridos. Os sobreviventes retornaram a Addis Abeba, capital do país, como heróis. "Foi realmente um grande dia. Especialmente, quando voltamos da Coreia, trouxemos nossos soldados mortos. Addis Abeba estava lotada de gente. Metade chorava, metade celebrava", Mamo contou.

Medalha concedida aos etíopes que participaram da guerra


Depois da guerra, Mamo foi promovido a capitão. Ele foi obrigado a deixar o Exército em 1960, no período que sucedeu uma tentativa de golpe por membros do corpo dos Guarda-Costas Imperiais. Acabou fazendo carreira como homem de negócios e administrador.

Em 2012, o governo da Coreia do Sul anunciou que daria aposentadoria aos veteranos etíopes sobreviventes da Guerra na Coreia. Mamo ainda espera retornar à Coreia do Sul uma última vez e visitar o lugar onde se tornou um herói de guerra etíope.

Fonte: BBC


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

IMAGEM DO DIA - 12/2/2024 - A BARRAGEM ROLANTE

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Mapa mostrando a barragem de rolante de artilharia para o avanço em Vimy Ridge em 1917. O desenvolvimento técnico e tático da artilharia foram marcantes durante a Grande Guerra (1914-1918).


quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

TRÊS GRANDES (E DESCONHECIDOS) FEITOS DO T-34 E SUAS GUARNIÇÕES

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O T-34 foi um dos melhores tanques da Segunda Guerra Mundial, não apenas por suas características técnicas. Também foi importante a coragem demonstrada por seus tripulantes, que muitas vezes permitiam a esses tanques soviéticos fazer coisas impensáveis, como enfrentar sozinho – e vencer – uma divisão alemã inteira.


Por Boris Egorov


Incursão frenética na retaguarda do inimigo

Em 17 de outubro de 1941, a 21ª Brigada Soviética de Tanques surgiu nos arredores de Kalinin (Tver), ocupada pela Wehrmacht. Os tanques foram ordenados a fazer uma incursão na retaguarda do inimigo, cercar a cidade e alcançar suas próprias tropas.

Durante o ataque, um tanque T-34 comandado pelo sargento Stepan Gorobets foi separado do grupo principal. Devido a uma falha de rádio, a tripulação do tanque não tinha ideia de que sua brigada havia sido imobilizada por um ataque aéreo, e Gorobets seguia em direção às posições inimigas completamente sozinho.

Sargento Stepan Gorobets

Depois que o T-34 de Gorobets destruiu uma coluna de motocicletas ao longo do caminho, viu-se repentinamente na frente de um aeródromo alemão. Perplexos pela audácia do tanque soviético solitário, os alemães acompanharam o T-34 destruir dois aviões Junkers Ju 87 e suprimentos de combustível, e depois se dirigir a Kalinin.

Ali, o comandante se deu conta que estava sozinho e não receberia apoio de outros tanques. Para chegar a suas próprias linhas, Gorobets dirigiu o tanque sob fogo intenso pelo centro da cidade, cheio de alemães, esmagando uma arma de artilharia e batendo contra um tanque inimigo no caminho.

Finalmente, o T-34 em chamas, cheio de buracos feitos por projéteis inimigos, com uma arma quebrada, alcançou as posições dos soldados soviéticos, que receberam a tripulação como heróis.


Uma fuga inesperada

Durante o rigoroso inverno de 1942, um T-34 dirigido pelo capitão Gavril Polovtchenia ficou atolado em um rio perto da cidade de Andreapol. A tripulação esperava reforços quando os alemães chegaram e cercaram o tanque.

Polovtchenia ordenou que a tripulação não fizesse barulho, embora fosse difícil com tanto frio em um T-34 completamente congelado. Ainda que os alemães não tenham conseguido abrir a escotilha, decidiram que o tanque havia sido abandonado e o tiraram da água.

T-34 passando sobre um Pzkpfw II durante um combate aproximado

Em 15 de janeiro, os alemães enviaram o T-34 de Polovtchenia para Andreapol, enquanto a tripulação permanecia em silêncio. Às 5 horas da manhã seguinte, o tanque soviético tentou escapar. Saiu à toda pelas ruas da cidade, atirando e esmagando o inimigo, desorganizado e em estado de choque. Mais de 20 soldados, 30 veículos e caminhões militares, além de 10 armas de artilharia foram destruídas enquanto o tanque se dirigia para as posições soviéticas. Além disso, os alemães ficaram chocados e não conseguiram resistir ao avanço das tropas soviéticas, que facilmente libertaram Andreapol no mesmo dia. 


Lutando duas semanas em um pântano

Em dezembro de 1943, o Exército soviético estava libertando o nordeste do país. Durante uma operação, um T-34 liderado pelo tenente Stepan Tkatchenko ficou preso em um pântano semicongelado não muito longe de Pskov.

Toda a tripulação ficou gravemente ferida ou morreu, e apenas o operador de rádio Víktor Tchernichenko permaneceu ileso. Durante a noite, ele se juntou a outro motorista de tanque, Aleksêi Sokolov, que chegou ao tanque às escondidas vindo de posições das tropas soviéticas. Mas suas tentativas de libertar o tanque foram inúteis.

T-34 operando em um pântano congelado

Tchernichenko e Sokolov decidiram não deixar o T-34 e, por 13 dias, resistiram aos ferozes ataques da infantaria alemã. Contavam somente com algumas latas de carne, um pouco de açúcar, biscoitos, e água que vazava no tanque do pântano.

Completamente congelados, famintos e sem sono, os dois soldados soviéticos se defenderam da contínua avalanche de ataques alemães até que, em 30 de dezembro, as tropas soviéticas atravessaram as linhas inimigas até o solitário T-34.

Ferido, Sokolov morreu no dia seguinte ao resgate.  Tchernichenko conseguiu sobreviver à batalha, mas, infelizmente, teve ambas as pernas amputadas.

Fonte: Russia Beyond


segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

BATALHA DE HOLLABRUNN (1809)

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A Batalha de Hollabrunn foi uma ação de retaguarda travada em 9 de julho de 1809 pelo VI Corpo de Exército austríaco, sob o comando de Johann von Klenau, contra elementos do IV Corpo do Grande Armée francês, sob o comando de André Masséna.


A batalha terminou em favor dos austríacos, com Masséna forçado a interromper o combate e esperar por suas divisões restantes para reforçá-lo, mas o marechal francês foi capaz de reunir informações cruciais sobre as intenções do inimigo.

A vitória francesa na Batalha de Wagram, em 6 de julho, forçou o comandante do Kaiserlich-königliche Hauptarmee, o principal exército austríaco, o arquiduque Carlos da Áustria, a recuar. Apesar da derrota, o recuo foi ordenado e muito bem realizado. Os franceses, comandados por Napoleão, estavam inicialmente incertos sobre a direção exata, com relatos dizendo que os austríacos estavam recuando em direção à Boêmia, mas ainda não estava claro se recuariam usando a estrada para Brünn ou a estrada para Znaim. Outros relatórios indicaram que os austríacos estavam realmente se retirando para a Morávia.

Marechal Andre Masséna

Masséna enviou batedores para Krems e para o distrito de Horn e foi capaz de verificar que o inimigo não estava recuando naquela direção, mas não conseguiu concluir para onde se retirariam. Isso obrigou os franceses a uma parada por alguns dias antes que pudessem reunir inteligência suficiente para realmente entender para onde os austríacos estavam indo. No entanto, em 8 de julho, as coisas começaram a se esclarecer para Napoleão, principalmente devido a informações enviadas por Auguste de Marmont, comandante do XI Corpo de Exército e a interpretação de uma série de combates travados por elementos do Corpo de Masséna contra o VI Corpo liderado por Klenau. Estes combates, travados em Korneuburge Stocerau, permitiram que Masséna informasse a Napoleão que uma grande força austríaca estava de fato se retirando para a Boêmia.

O comandante austríaco Klenau, com uma força inicial de 18.000 homens e 64 canhões, tinha ordens para atrasar a perseguição francesa. Em 9 de julho, Klenau decidiu fazer outra parada, desta vez perto de Hollabrunn, a cerca de 55 quilômetros a noroeste de Viena . Após as escaramuças iniciais, a força de Klenau ainda era de 17.000 homens e agora ocupava uma posição forte. Diante dele, Masséna só tinha sob seu controle imediato a 1ª Divisão do IV Corpo de Exército do general Claude Legrand, a cavalaria do corpo do general Jacob François Marulaz, e os couraceiros da 2ª Divisão de Cavalaria Pesada do general Raymond-Gaspard de Bonardi de Saint-Sulpice. 

Soldados austríacos em 1809

Masséna prontamente estabeleceu contato com as forças de Klenau, ao mesmo tempo em que realizava um reconhecimento completo do campo de batalha, o que lhe permitiu escrever ao imperador e reafirmar que nenhum regimento austríaco se encaminhava para Krems. Os ataques de Masséna foram, a princípio, bem-sucedidos, mas Klenau contra-atacou e repeliu os franceses, e depois se opôs à firme resistência a quaisquer novos ataques. Devido à desvantagem numérica, Masséna foi forçado a interromper o combate e esperar por suas outras três divisões de infantaria, sabendo que as divisões de Claude Saint-Cyr seriam capazes de se juntar a ele em breve, mas que as de Gabriel Jean Joseph Molitor e Jean Boudet estavam muito longe para prestarem alguma ajuda.

As perdas na batalha são desconhecidas e, apesar de uma vitória austríaca, a batalha de Hollabrunn permitiu que Masséna escrevesse a Napoleão e informasse que ele estava no caminho certo depois dos austríacos, cujo corpo principal estava recuando ao longo do rio Thaya, perto de Laa an der Thaya. Johann von Klenau seria posteriormente condecorado com a Ordem Militar de Maria Theresa por suas ações na batalha de Wagram e ações de retaguarda por bravura em combate. 

Johan von Klenau recebeu a Ordem de Maria Theresa por suas ações em Wagram

Enquanto isso, o arquiduque Carlos da Áustria reagrupou uma grande força em Jetzelsdorf, no Pulkaurio, mas evacuou essa posição, depois de receber informações de que uma força francesa estava se aproximando de Znaim pelo leste. O próximo grande combate seria o de Znaim, onde os austríacos exigiam um armistício.

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quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

IMAGEM DO DIA - 10/1/2024

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Guarda Cívica (Garde Civique) belga. Oficial do Esquadrão Marie Henriette (1905)


IMPÉRIO VERMELHO: A REVOLUÇÃO HÚNGARA DE 1956, ESMAGADA PELA UNIÃO SOVIÉTICA

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Os húngaros tentaram depor o Partido Comunista e foram aniquilados por tanques de Moscou


Por Jardel Sebba

Em 1989, quando o mundo assistiu pela TV à derrocada do comunismo no Leste Europeu, pouca gente se deu conta de que as manifestações contra o modelo soviético na região haviam começado a ser desenhadas num pequeno país do bloco, pouco mais de três décadas antes. 

Em outubro e novembro de 1956, 200 mil pessoas se reuniram na maior demonstração de insatisfação de um país comunista diante da poderosa União Soviética. Mas o sonho de autonomia húngara iria durar apenas alguns dias. 

Na madrugada de 4 de novembro daquele ano, os manifestantes se viram impotentes diante da chegada dos tanques russos a Budapeste. Comunistas do mundo inteiro, que costumavam bradar contra o imperialismo americano, descobriram atônitos a face brutal de outro imperialismo: o soviético.


Zona de influência 

Para os húngaros, a chegada dos russos era apenas mais um capítulo da história de um país subjugado por invasores há séculos. Desde que Estêvão I estabeleceu o reino da Hungria, no ano 1000, o território fora dominado por mongóis e turcos otomanos e, mais tarde, pelos Habsburgos, da Áustria, quando integrou o chamado Império Austro-Húngaro. 
Derrotados e separados dos austríacos na Primeira Guerra, os húngaros foram obrigados, em 1920, a doar dois terços de seu território aos vizinhos. Depois de um malfadado ensaio de revolução comunista, o país terminou se aliando à Alemanha na Segunda Guerra na esperança de recuperar os territórios perdidos. 

Derrotados mais uma vez, a União Soviética logo fez questão de colocar o país em sua zona de influência, assim como fez com os outros países do Leste Europeu no pós-guerra.
No início, tudo parecia normal no país: a Hungria continuava permitindo o multipartidarismo e o Partido Comunista Húngaro mantinha apenas o controle do Ministério do Interior, o que significava, na prática, o controle do aparelho policial. 

Mas, a partir de 1947, as coisas esquentaram entre Estados Unidos e União Soviética e a Guerra Fria levou os comunistas a mudarem de postura: dali em diante, todos os países do leste teriam que rezar pela cartilha de Moscou.

Para comandar a Hungria, os soviéticos escalaram comunistas húngaros que haviam morado em Moscou. Entre eles, Imre Nagy e Mátyás Rákosi, este segundo na condição de dirigente principal do país. Culto, inteligente, duro e extremamente leal a Moscou, o líder húngaro Rákosi era tão fiel a Stalin que, na festa de 70 anos do ditador, teve lugar garantido ao lado do aniversariante. 

Mátyás Rákosi, líder húngaro fiel a Stalin

Para o povo húngaro, esse culto stalinista rendeu perseguições, exílios, violações dos direitos humanos e fechamento do país para o resto do mundo. As húngaras, acostumadas a ter Viena e Paris como referências de moda, tiveram de se voltar para as soviéticas, cuja maneira de vestir estava estagnada havia três décadas. 

A polícia política vigiava, forjava provas e torturava qualquer cidadão suspeito de ser simpático a “reformas burguesas”. No total, estima-se que 600 mil húngaros foram condenados entre 1948 e 1953. A repressão era tão forte que, em 1951, o líder Rákosi mandou dirigentes do próprio partido para a cadeia. 

A produção agrícola caiu e os preços subiram, jogando ainda mais para baixo a qualidade de vida de um país que tinha um enorme déficit habitacional (264 habitantes para cada 100 quartos disponíveis) e a proporção de um automóvel para cada 500 habitantes (enquanto na Inglaterra, por exemplo, essa taxa no período era um para dez). Até o embaixador soviético no país, J. Kiseljov, alertou seus compatriotas de que aquilo não ia acabar bem.


Enterro do stalinismo 

Em 1953, Josef Stalin morreu e, com ele, o culto ao seu poder. O enterro do stalinismo se deu definitivamente em fevereiro de 1956, durante o 20º Congresso do PC soviético, quando Nikita Kruchev fez seu histórico pronunciamento condenando os excessos do stalinismo, prometendo a recuperação dos valores da “democracia socialista”. Parecia a senha de que os países comunistas precisavam para construir um socialismo com cara própria. Em todo o bloco comunista, trabalhadores se sentiram encorajados a se manifestar, mas logo aprenderam que a tal democracia socialista não era assim tão democrática. 

Na Alemanha Oriental, por exemplo, uma manifestação de trabalhadores no dia 17 de junho de 1956 foi duramente reprimida, resultando na morte de 51 pessoas. Onze dias depois, foi a vez de os poloneses se manifestarem na cidade de Poznan, onde morreram 54 pessoas.

Em meio a esse clima de insatisfação, os soviéticos derrubaram o durão Rákosi do poder da Hungria e colocaram Ernö Gerö em seu lugar. Em 19 de outubro de 1956, encorajados por uma vitória do PC polonês frente ao comando soviético, os húngaros acreditaram que poderiam fazer o mesmo. 

Três dias depois, integrantes da juventude comunista montaram um grupo dissidente e marcaram para o dia seguinte uma manifestação em apoio aos poloneses. É o início da revolta. 


Rebelião 

Mas, enquanto escritores e intelectuais lutavam por um modelo socialista adaptado à realidade húngara, os estudantes resolveram pedir mais: eleições multipartidárias, imprensa livre e retirada das tropas do Pacto de Varsóvia, organização militar do bloco comunista. 

T-34 soviético destruído por insurgentes húngaros em Budapest


No fim do dia 23 de outubro, a rebelião já havia reunido 200 mil pessoas. Na porta da Rádio Budapeste, o protesto pacífico virou uma batalha campal que se espalhou país adentro. Às 21h30, a estátua de Stálin foi derrubada. Às 23h, os manifestantes fizeram com que o dirigente do Partido Comunista Imre Nagy, considerado mais sensível às reivindicações do povo húngaro, fosse alçado ao posto de primeiro-ministro, apesar de Gerö permanecer como primeiro secretário do partido. A situação era confusa. Em 24 de outubro, foi anunciada, junto com a nova junta de poder, a proibição de reuniões públicas e a implantação do toque de recolher.

Os rebeldes não obedeceram e tampouco a polícia reprimiu os manifestantes. Na verdade, o líder Imre Nagy ainda hesitava em apoiar os rebeldes. Em 28 de outubro, ele deu uma guinada em direção aos manifestantes: nomeou para o governo ministros não-comunistas e chamou o movimento de “do povo”, em contraponto a Moscou, que via os manifestantes como “fora da lei”. No dia 30, o multipartidarismo voltou à ordem política da Hungria. Mas o Exército Vermelho já estava alerta.

Apesar de negativas do embaixador russo, o exército de Moscou começou a ocupar o aeroporto de Budapeste alegando que precisava transportar os feridos da rebelião. Diante da ameaça soviética, Nagy enviou um pedido de apoio à Organização das Nações Unidas. 

Mas, para o azar dos húngaros, o pedido foi enviado no mesmo dia em que estourou a crise do Canal de Suez no Egito, cuja nacionalização fez com que ingleses e franceses traçassem planos de invadir o país. Se os países ocidentais podiam invadir uma nação árabe, como poderiam evitar que os soviéticos sufocassem uma rebelião na vizinhança?


Início do fim

Anos depois, documentos liberados pelo governo soviético revelaram que o Kremlin decidira pela intervenção militar no dia 31 de outubro. Enquanto Kruchev havia comunicado seus planos de invasão a outros líderes comunistas no dia 2 de novembro, Moscou continuava “negociando”, um dia depois, a retirada de suas tropas da Hungria. 

Quando o ministro da Defesa húngaro voltou a conversar com os militares russos sobre esse tema por volta das 22h do dia 3 de novembro, foi preso. Naquela madrugada, a chamada Operação Turbilhão entrou em ação e, antes do almoço, a Hungria estava dominada. 

O novo governo húngaro, apoiado pelos soviéticos, encontrou alguma resistência armada até meados de novembro, tendo que negociar com comitês e conselhos até dezembro de 1956. A partir daí, acabou a conversa e veio a repressão.

Em janeiro de 1957, os húngaros contabilizavam 2500 mortos e 20 mil feridos. Mas as cicatrizes foram expostas para todo o mundo, inclusive no Brasil. A fé no socialismo como projeto humanista estava abalada. 

Comunistas de carteirinha como o cantor francês Yves Montand e o escritor Jean-Paul Sartre condenaram a invasão. O historiador inglês Eric Hobsbawn assinou na ocasião, ao lado de outros renomados intelectuais, um manifesto de repúdio à invasão que o jornal do PC britânico se recusou a publicar. Era o início do fim.

Fonte: Aventuras na História

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