"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



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sábado, 23 de setembro de 2023

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR - VOLUNTÁRIA DA PÁTRIA MARIANA BARRETO

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A Pernambucana Mariana Amália do Rego Barreto foi enfermeira de campo dos Voluntários da Pátria durante a Guerra do Paraguai. 


* 17/1/1846 - Vitória do Santo Antão-PE

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Filha do capitão Joaquim Pedro do Rego Barreto, sobrinha do tenente-coronel Manoel Joaquim do Rego e prima do Conde da Boa Vista, Mariana Amália do Rego Barreto nasceu em Vitória do Santo Antão, Pernambuco, no dia 17 de janeiro de 1846. 

Com a criação dos Voluntários da Pátria pelo imperador Pedro II, em janeiro de 1865, a fim de mobiliar com efetivos o Exército Imperial e combater as forças paraguaias de Solano López, diversos cidadãos brasileiros se apresentaram para a guerra. Em Vitória de Santo Antão foi nomeada uma comissão para arregimentar os voluntários, composta pelo tenente-coronel Pedro Bezerro Pereira de Araújo Beltrão, major Manoel Cavalcanti de Albuquerque Sá e capitão Aristides Carneiro da Cunha Albuquerque.


Acompanhada do irmão Sidrônio Joaquim do Rego Barreto, ao anunciar na Imprensa local que iria para o campo de batalha como enfermeira, Mariana, então com 18 anos de idade, ganhou fama de heroína em sua cidade natal. Chegou a ser homenageada no teatro Santa Isabel do Recife, saudada por  grande público, além de ser recebida pelo então presidente da Província, o Marquês de Paranaguá, onde assistiu um grande espetáculo de poesias em sua homenagem. 

No dia de sua partida da cidade de Vitória, a jovem Mariana Amália, vestida com saiote amarelo bordado de verde, e tendo no braço a estrela de 1º cadete, postou-se à frente de seus conterrâneos, e pronunciou a seguinte alocução, que foi publicada no Diário de Pernambuco

“Briosa corporação da Guarda Nacional, bravos Vitorienses, vou partir para a guerra. O brado da pátria, tão ultrajada, ecoou em meu peito. As atrocidades praticadas pelo mais requintado canibalismo que o mundo já viu, transpôs-se ao natural acanhamento do meu sexo, e me apresentei Voluntária da Pátria para, no campo de batalha, debelar essas hordas de infames paraguaios que tão ousadamente profanam o solo brasileiro, manchando o brilho de suas fulgurantes estrelas do Império da Santa Cruz, nossa Cara Pátria. Adeus, Adeus vitorienses! Espero que não serei esquecida de vós, e vos peço que por essa última vez entoeis comigo: Viva a Religião Católica Romana! Viva Sua Majestade o Imperador Viva o Sr. Presidente da Província, Viva os Pernambucanos, Amantes da Pátria!”

A jovem voluntária da Pátria Mariana Barreto 

Atendeu a milhares de feridos nos campos de batalha do Paraguai entre 1865 a 1868. Mariana Sobreviveu à guerra e, após o término do conflito, foi morar em Jaboatão dos Guararapes com a família, onde fez parte do Movimento Abolicionista. Agindo com equilíbrio e moderação, Mariana Amália conseguiu convencer os senhores de engenho em Vitória de Santo Antão que dessem cartas de alforria aos seus escravos. 

O ano de sua morte é desconhecido. Em sua homenagem, a principal avenida de sua cidade natal e uma escola do município receberam o seu nome.

Fonte: História da Vitória de Santo Antão e portal Nossa Vitória


sexta-feira, 16 de setembro de 2022

EDITOR DO PORTAL PUBLICA CAPÍTULO EM LIVRO SOBRE A FAMÍLIA MILITAR

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Foi lançado no salão de honra do Comando Militar do Leste o livro "A família militar no século XXI: perfis, experiências e particularidades", organizado pelas Dras. Sabrina Celestino e Eduarda Hamann. A obra contém trabalhos de pesquisadores brasileiros e internacionais, e aborda as especificidades da família militar, um tema para lá de necessário.

O editor do portal Carlos Daróz-História Militar contribuiu com o projeto produzindo o capítulo 5, VIVANDEIRAS E CANTINEIRAS: A FAMÍLIA MILITAR FORJADA NA GUERRA, no qual trilho um percurso histórico acerca das mulheres que acompanhavam os exércitos desde o alvorecer da Idade Moderna. Muitas delas esposas de soldados, acompanhavam seus maridos provendo um informal apoio logístico para as tropas e, eventualmente, participando diretamente dos combates.

A temática é muito pouco discutida no Brasil, e o capítulo contribui para o debate historiográfico sobre o papel da mulher na guerra.



Cantineira francesa atendendo soldados na Guerra da Criméia

O livro é apresentado pelo Ministro da Defesa, general Paulo Sérgio, e pelo comandante do Exército Brasileiro, general Freire Gomes, e prefaciado pelo professor Celso Castro, do CPDOC/FGV.




quinta-feira, 8 de setembro de 2022

UMA PRINCESA NA GUERRA - HOMENAGEM DO PORTAL À RAINHA ELIZABETH II

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Durante a Segunda Guerra Mundial, a vida mudou drasticamente para o povo da Grã-Bretanha, inclusive para a Família Real e para a Princesa Elizabeth.


Faleceu hoje no Castelo de Balmoral, Escócia, a Rainha Elizabeth II, aos 96 anos de idade.  Em 70 anos de reinado, forneceu estabilidade ao Reino Unido em um momento no qual o mundo passou por profundas transformações, atuando com grande senso de dever e honrando, pelo exemplo,  a Coroa britânica.
  
Seu reinado e influência no cenário mundial são bastante conhecidos, mas, o que muitos ignoram, foi o papel desempenhado por ela, ainda uma jovem princesa, durante os difíceis anos da Segunda Guerra Mundial.

Em 13 de setembro de 1940, logo após o início da campanha de bombardeios da Alemanha contra as cidades da Grã-Bretanha, cinco bombas altamente explosivas foram lançadas sobre o Palácio de Buckingham. A Capela Real, o jardim interno e os portões do palácio foram atingidos, e vários trabalhadores ficaram feridos. Ao invés de fugir da cidade sob ataque, o Rei George VI e sua esposa, a Rainha Elizabeth, permaneceram no Palácio de Buckingham, em solidariedade aos que viviam sob os ataques da Blitz. O casal real visitou áreas de Londres que haviam sido devastadas pelos ataques aéreos, falando aos residentes e membros dos serviços de emergência locais. A Rainha se interessou muito pelo que estava sendo feito para ajudar as pessoas que haviam perdido suas casas. 

A princesa Elizabeth tinha apenas 13 anos quando a guerra eclodiu em setembro de 1939. Como muitas crianças que viviam em Londres, Elizabeth e sua irmã Princesa Margaret foram evacuadas para diminuir os riscos dos bombardeios. Elas foram enviadas ao Castelo de Windsor, aproximadamente 20 milhas fora de Londres. As jovens princesas eram duas de mais de três milhões de pessoas - principalmente crianças - que deixaram as cidades para a segurança das pequenas cidades e do campo durante a guerra. O Conselho de Acolhimento de Crianças do Governo também evacuou mais de 2.600 crianças para a Austrália, Canadá, Nova Zelândia, África do Sul e Estados Unidos. 

No dia  13 de outubro de 1940, em resposta a este movimento, a Princesa Elizabeth proferiu seu primeiro discurso da sala de visitas do Castelo de Windsor, como parte da Hora das Crianças da BBC, em uma tentativa de elevar o moral do público. Ela falou diretamente com as crianças que haviam sido separadas de suas famílias como parte do esquema de evacuação.
"Milhares de vocês neste país tiveram que deixar suas casas e ser separados de seus pais e mães. Minha irmã Margaret e eu sentimos muito por vocês, pois sabemos por experiência própria o que significa estar longe daqueles que vocês amam mais do que tudo. A vocês que vivem em novos ambientes, enviamos uma mensagem de verdadeira simpatia e, ao mesmo tempo, gostaríamos de agradecer às pessoas amáveis que os acolheram em suas casas no país".

À medida que a guerra avançava, a Princesa Elizabeth defendia mais aspectos da vida e da resiliência em tempo de guerra. Em 1943, ela foi fotografada cuidando dos jardins no Castelo de Windsor como parte da campanha do governo "Cavem pela Vitória", na qual as pessoas eram incentivadas a utilizar hortas e cada pedaço de terra para cultivar legumes para ajudar a combater a escassez de alimentos. Antes da Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha contava com a importação de alimentos de todo o mundo, mas quando a guerra começou, a navegação passou a ser ameaçada por submarinos e navios de guerra inimigos. Isto resultou na escassez de alimentos e levou ao racionamento de alimentos tais como carne, queijo manteiga, ovos e açúcar.

Na manhã de seu 16º aniversário, a Princesa Elizabeth realizou sua primeira inspeção de um regimento militar, durante um desfile no Castelo de Windsor. Ela tinha recebido o papel de coronel honorária do Regimento de Guardas Granadeiros, o que simbolizava seu envolvimento militar no esforço de guerra. Quando a Princesa Elizabeth completou 18 anos em 1944, ela insistiu em juntar-se ao Serviço Territorial Auxiliar (Auxiliary Territorial Service-ATS), o ramo feminino do Exército Britânico. Por vários anos durante a guerra, a Grã-Bretanha havia recrutado mulheres para se juntar ao esforço de guerra. Mulheres solteiras menores de 30 anos podiam se alistar nas forças armadas, trabalhar na terra ou na indústria. O Rei George se certificou de que sua filha não recebesse um posto privilegiado no Exército. Ela começou como 2ª subalterna no ATS e, mais tarde, foi promovida a Comandante Júnior (equivalente a capitão).

A princesa Elizabeth, como 2ª Subalterna do ATS, diante de uma viatura ambulância durante o treinamento.

A Princesa Elizabeth começou seu treinamento como mecânica de viaturas em março de 1945. Ela fez um curso de direção e manutenção de veículos em Aldershot, qualificando-se no dia 14 de abril. Jornais da época apelidaram-na de "Princesa Mecânica Automobilística". Havia uma grande variedade de empregos disponíveis para as mulheres soldados no ATS como cozinheiras, telefonistas, motoristas, operárias dos correios, operadores de holofotes e inspetoras de munição. Algumas mulheres serviam como parte de unidades antiaéreas guarnecendo canhões, embora não lhes fosse permitido disparar as armas. Os trabalhos eram perigosos, e durante o curso da guerra, 335 mulheres ATS foram mortas e muitas feridas. Em junho de 1945, havia cerca de 200.000 membros do ATS de todo o Império Britânico servindo na frente doméstica e nos diferentes teatros de guerra no exterior.

O Rei, a Rainha e a Princesa Margaret visitaram a Princesa Elizabeth na Seção de Treinamento de Transporte Mecânico em Camberley, Surrey, e a viram aprender sobre manutenção de motores. Ao descrever a visita à Revista LIFE, a Princesa comentou "Nunca soube que havia tanta preparação antecipada [para uma visita real] ...saberei em outra ocasião".

Inclinada sobre o veículo, a Princesa Elizabeth demonstra ao pai, o Rei George VI, e à irmã Margaret suas habilidades como mecânica do ATS

Em 8 de maio de 1945, a guerra na Europa terminou. Em Londres, milhares de pessoas saíram às ruas para comemorar, lotando a Trafalgar Square e a avenida que levava ao Palácio de Buckingham, onde o Rei e a Rainha os cumprimentaram da varanda. Quando o sol começou a se pôr e as celebrações indicavam que continuariam pela noite adentro, a Princesa Elizabeth, vestida com seu uniforme do ATS, uniu-se à multidão com sua irmã para participar das festividades. 

Celebrando o Dia da Vitória na Europa (VE Day) na varanda do Palácio de Buckingham estão (esq. para dir.), a Princesa Elizabeth, a Rainha Elizabeth, o primeiro-ministro Winston Churchill, o Rei George VI e a Princesa Margaret.

Em 1985, já Rainha, falou à BBC sobre como ela tentou evitar ser vista: "Lembro-me que estávamos aterrorizadas, com medo de sermos reconhecidas, então eu puxei meu quepe bem para baixo sobre meus olhos". Ela descreveu as "linhas de pessoas desconhecidas de braços dados e andando por Whitehall, e todos nós fomos arrastados por marés de felicidade e alívio". Há até mesmo relatos de que as princesas se juntaram a uma dança de conga através do Hotel Ritz enquanto comemoravam com as multidões. "Acho que foi uma das noites mais memoráveis da minha vida", lembrou-se ela.

A rainha Elizabeth II ocupou o posto de coronel-em-chefe de 16 regimentos e corpos do Exército Britânico e de muitas unidades da Commonwealth. Como membro do ATS, ela foi a primeira mulher da família Real a ser um membro ativo das Forças Armadas Britânicas. Elizabeth II foi também a última chefe de estado sobrevivente a ter servido durante a Segunda Guerra Mundial. 

Ao longo de sua vida, ela foi frequentemente fotografada ao volante de veículos, sendo conhecida por diagnosticar e reparar motores defeituosos, assim como foi ensinada a fazer durante seu serviço em tempo de guerra no ATS.

Com a história de seu serviço militar durante a Segunda Guerra Mundial, o Portal Carlos Daróz-História Militar presta sua homenagem a essa que foi uma das mais importantes mulheres dos séculos XX e XXI.  Seguramente o fim de uma era.

Que descanse em paz e que seu legado seja longo.



"Quando a vida parece difícil, os corajosos não se deitam e aceitam a derrota; em vez disso, eles estão ainda mais determinados a lutar por um futuro melhor."

Rainha Elizabeth II
* 21/4/1926
+ 8/9/2022

Fonte: Adaptação de texto de Vikki Hawkins, Imperial War Museum

segunda-feira, 14 de março de 2022

EDITOR DO PORTAL REALIZA PESQUISA DE CAMPO EM TOURNAI SOBRE A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

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O editor do portal História Militar-Carlos Daróz visitou Tournai, no contexto de suas pesquisas de campo de doutorado sobre a Grande Guerra (1914-1918).


Na ofensiva alemã de agosto de 1914 contra a Bélgica, em seu caminho na direção de Paris atendendo ao Plano Schlieffen, envolvendo Charleroi, Dinant, Liège e Mons como objetivos principais, os alemães também investiram contra Tournai.

Em 4 de agosto de 1914, quando a Alemanha atravessou a fronteira belga após a recusa do ultimato, a guerra foi formalmente declarada. Os alemães foram impiedosos e avançaram rapidamente. Em Tournai, a neutralidade belga da época podia explicar a ausência de um sistema defensivo efetivo. Recém-chegados por via ferroviária do norte da França, os 83º e 84º regimentos de infantaria, componentes da divisão 88ª Divisão Territorial francesa,  compostos de soldados mais velhos que os da infantaria regular, marcharam em direção a Tournai para se oporem ao avanço relâmpago alemão. 

Soldados da 88ª Divisão territorial francesa, muitos em idade superior aos regulares, enviados para defender Tournai

Os franceses estavam armados apenas com fuzis Lebel e não possuíam artilharia ou metralhadoras, ao contrário do inimigo. Uma batalha desigual e impiedosa pelo controle de Tournai foi travada na madrugada de 24 de agosto ao longo da estrada Renaix e na ponte Morelle. Os alemães não hesitaram em usar os civis como escudos humanos.

Homenagem ao 83º regimento de Infantaria francês no Monument du Vendrées

Monumento das vítimas de Tournai nas duas guerras mundiais

Ante o avanço do II Exército alemão, com poder de combate muito superior e com os devidos apoios de artilharia e metralhadoras, os franceses e belgas logo sucumbiram. Tournai permaneceu ocupada pelos alemães durante toda a guerra, sendo liberada apenas três dias antes do armistício de 11 de novembro de 1918, quando o rei-soldado Alberto I e a rainha Elisabeth entraram na cidade.

Hoje existem diversas referências à memória da guerra na cidade, como o Monumento de Vendrées, próximo à gare, e o memorial homenageando Gabrielle Petit, uma enfermeira de Tournai que foi acusada de espionagem e fuzilada pelos alemães em 1916. Diante de seu pelotão de fuzilamento, a guerreira bradou: 

“Vocês verão como uma mulher belga sabe morrer”.

Monumento em homenagem a Gabrielle Petit, cidadã de Tournai fuzilada pelos alemãs na Grande Guerra.


“Vocês verão como uma mulher belga sabe morrer”. As últimas palavras de Gabrielle Petit, uma heroína belga fuzilada durante a Primeira Guerra Mundial.





sábado, 1 de maio de 2021

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR - YEVDOKIYA BERSHANSKAYA, A COMANDANTE DO CÉLEBRE REGIMENTO "BRUXAS DA NOITE"

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Yevdokiya Bershanskaya foi a comandante do 46º Regimento de Aviação de Bombardeiros Noturnos de Guardas Taman durante a Segunda Guerra Mundial, o famoso Regimento “Bruxas da Noite”, e se tornou a única mulher da União Soviética a receber a Ordem de Suvorov. Sob seu comando, vinte e três aviadores do regimento se tornaram Heroínas da União Soviética por suas missões de bombardeio bem-sucedidas contra o Eixo.


* 6/2/1913 - Dobrovolnoye, Rússia

+ 16/9/1982 - Moscou, União Soviética


Bershanskaya nasceu em 6 de fevereiro de 1913 em Dobrovolnoye, no então Império Russo. Com a morte de seus pais na Guerra Civil Russa, ela passou a ser criada por seus tios. Depois de se formar no ensino médio em Blagodarny, matriculou-se na Escola de Pilotos de Bataysk, em 1931, onde, depois de se formar, tornou-se instrutora de voo entre 1932 e 1939. Após este período, foi nomeada comandante do 218º Esquadrão de Aviação de Operações Especiais e se tornou vereadora na Câmara Municipal de Krasnodar. Antes da invasão alemã da União Soviética, ela se casou com Petr Bershansky, com quem teve um filho, mas o casamento rapidamente se desfez. Ela continuou usando o sobrenome Bershanskaya até se casar com seu segundo marido, Konstantin Bocharov, após o fim da guerra.

A major Yevdokia Bershanskaya (à esquerda) junto com a capitão Valentina Matyukhina em 1943.


Com o início da Grande Guerra Patriótica, deflagrada pela invasão alemã de 1941, Marina Raskova obteve a aprovação de Stalin para formar três regimentos de aviação femininos: o 586º Regimento de Aviação de Caça, o 587º Regimento de Aviação de Bombardeio e o 588º Regimento de Bombardeio Noturno. Como piloto com dez anos de experiência, Bershanskaya foi escolhido para liderar o 588º, que voava os frágeis biplanos Polikarpov Po-2. Em 1943, o regimento recebeu a designação de Guardas e foi reorganizado como 46º Regimento de Aviação de Bombardeio Noturno de Guardas. Mais tarde, ela foi premiada com a Ordem da Bandeira Vermelha.

Na capa do livro BRUXAS DA NOITE, de Carlos e Ana Daróz, diante de um Po-2 a major Bershanskaya (primeira à direita) realiza um briefing com duas tripulações antes de mais uma missão de combate.

As mulheres pilotos eram tão ferozes e precisas, que os soldados alemães começaram a chamá-las de “bruxas da noite”.  Eles as chamavam assim porque, frequentemente, durante as missões, elas cortavam os motores de seus aviões e planavam sobre seus alvos, antes de lançar suas bombas, e só depois disso religavam os motores e os levavam à potência total.

Até sua dissolução, em outubro de 1945, o regimento permaneceu integralmente feminino e sob o comando de Bershankaya. Coletivamente, elas voaram mais de 23.000 missões e lançaram mais de 3.000 toneladas de bombas sobre as forças inimigas. Além de vinte e três membros do regimento receberem o título de Heroína da União Soviética, duas foram posteriormente declaradas Heroínas da Federação Russa e uma recebeu o título de Heroína do Cazaquistão .

A major Yevdokiya Bershanskaya (3ª da direita para a esquerda) junto às suas comandadas que receberam o título e medalha de Heroína da União Soviética, durante cerimônia realizada em 1945.

Após a guerra, Yevdokiya casou-se com Konstantin Bocharov, comandante do 889º Regimento de Aviação de Bombardeio Noturno Ligeiro, que havia trabalhado em estreita colaboração com o 46º Regimento durante a guerra, ocasião na qual se conheceram e começaram o namoro. O casamento contou com a presença de muitos membros de seus regimentos. Juntos, eles tiveram três filhas. Em 1975, ela recebeu o título de Cidadã Honorária de Krasnodar. Ela morava em Moscou, quando morreu de ataque cardíaco em 1982, sendo sepultada no cemitério Novodevichy com todas as honras militares.

A major Yevdokiya Bershanskaya, já na reserva, em imagem do pós-guerra com todas as suas condecorações.


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Garanta já o seu exemplar e decole nessa aventura.



quinta-feira, 5 de novembro de 2020

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR: VERA GEDROITS, A PRINCESA QUE TRANSFORMOU A MEDICINA DE GUERRA

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Vera Gedroits sabia que corria contra o tempo. E tinha de escapar. O conflito armado na frente de batalha havia recrudescido e chegava cada vez mais perto.


Por Chris Baraniuk

Só quando o relógio marcava 2h, o enfrentamento começava a dar os primeiros sinais de arrefecimento. Enquanto isso, o trem onde estava, todo apagado para evitar ser avistado pelos inimigos, cortava a paisagem na calada da noite. O veículo - um hospital móvel - não seria um alvo importante de qualquer maneira. Mas agora que estava em movimento, as bombas começavam a cair em sua direção.

Gedroits olhou em volta para alguns dos pacientes a bordo. Ao todo, havia cerca de 900 pessoas, muitas delas urrando de dor em macas fixadas nas paredes devido a seus graves ferimentos. Infecções, feridas abertas... Gedroits não tinha tempo nem para respirar. Durante as horas seguintes, ela e sua equipe realizaram cirurgias e trataram aqueles que podiam ser tratados, enquanto o trem se afastava da frente de batalha. Cerca de 12 horas depois, o veículo finalmente tomou uma distância segura.

Duas semanas depois, em 10 de março de 1905, a batalha terminou com a derrota do Exército russo.


Voluntária na Cruz Vermelha

Este seria um ponto de virada na vida de Vera Ignatievna Gedroits, descendente da realeza lituana, cirurgiã talentosa e excêntrica. Conhecida justificadamente como princesa Gedroits, era uma figura extraordinária. Apesar disso, continua em grande parte desconhecida no Ocidente.

Como pioneira da medicina no campo de batalha, Gedroits fez contribuições que, segundo especialistas, poderiam ter salvo milhares de vidas durante a 1ª Guerra Mundial se tivessem sido mais compreendidas na época.

"Quando ouvi sua história pela primeira vez, ainda me lembro do que pensei: 'Por que ainda não fizeram um filme sobre isso?'", diz Melanie Stapleton, professora-assistente de medicina da Universidade de Calgary, no Canadá.

Mas quem era exatamente Vera Gedroits e por que não é tão lembrada?

Mesmo uma das principais informações sobre Gedroits - o ano do seu nascimento - tem sido motivo de dúvida. Muitos artigos dizem que ela nasceu em 1876, mas ela parece ter corrigido isso em seus documentos pessoais. Na verdade, Gedroits nasceu seis anos antes, em 1870, em Kiev, atual Ucrânia.

Não há muitos detalhes em inglês disponíveis sobre sua infância, mas sabe-se que ela vinha de uma família rica e estudou em casa antes de terminar a escola em São Petersburgo. Quando tinha 16 anos, foi presa por participar de atividades revolucionárias organizadas por uma facção de esquerda.

Gedroits voltou, então, para casa, mas logo fugiu para Lausanne, na Suíça. Foi lá que estudou medicina. Gedroits teria sido uma das milhares de mulheres que estudaram medicina naquele país no final do século XIX e início do século XX. À época, a Suíça era uma exceção à regra: suas universidades aceitavam estudantes de medicina do sexo feminino.


Começo da carreira

Em 1901, Gedroits retornou à Rússia, onde mais tarde passaria pelos exames de admissão e oficialmente ganharia o título de médica. Sua carreira na área não começou no campo de batalha, mas em uma propriedade industrial. Foi nomeada cirurgiã na fábrica de cimentos de Maltsov, no distrito de Zhizdrinsky, no oeste da Rússia.

De acordo com um artigo em russo sobre sua carreira, seu trabalho ali foi transformador. Ela planejou montar uma estrutura hospitalar adequada e, em pouco tempo, instalara equipamentos de fisioterapia e uma máquina de raios-X - algo absolutamente inovador para a época. Para se ter uma ideia, os raios-X haviam sido descobertos em 1895, menos de uma década antes. Em seu primeiro ano, 103 pacientes de casos cirúrgicos foram tratados em seu hospital; apenas dois morreram.

Os operários recebiam tarefas fisicamente exaustivas. Havia muito trabalho pesado e, em uma seção que fazia vidro, a matéria-prima era moldada por meio do sopro. Em seus relatos, Gedroits observou que esse tipo de trabalho enfraquecia gradualmente os músculos abdominais. Foi por isso que ela acabou operando tantos pacientes com hérnias, supunha.

Ser uma especialista nessa área do corpo era incomum na época - e isso acabou beneficiando-a no futuro de maneiras que ela própria não poderia imaginar. Somente dois anos depois, a Guerra Russo-japonesa começaria. Gedroits se ofereceu como voluntária para a Cruz Vermelha.

Vera Gedroits destacou-se por sua atuação na Guerra Russo-Japonesa, conflito extremamente mortífero. Na imagem, feridos russos sendo atendidos em um posto de socorro

O conflito foi muito sangrento e degradante. É frequentemente descrito como uma espécie de prévia da 1ª Guerra Mundial, que começaria cerca de uma década depois. Ambos tinham trincheiras, muitos impasses e numerosas "vitórias" de batalha em que ambos os lados perderam milhares de homens.

Em última análise, cerca de 100 mil pessoas foram mortas na guerra russo-japonesa ao fim da qual a Rússia foi efetivamente derrotada - uma surpresa considerando que o Japão era um país muito menor e cheio de problemas econômicos.


Dificuldades no front

Existem poucas fontes em inglês que detalham as atividades de Gedroits durante a guerra. No entanto, em 1997, o médico militar britânico John Bennett escreveu um artigo em uma revista científica no qual fez resumo traduzido do próprio registro dela sobre o conflito.

O artigo de Bennett parece nunca ter sido publicado, mas um rascunho foi enviado para Yuri Kolker, um ex-produtor de filmes russos no Serviço Mundial da BBC, que gentilmente compartilhou a carta com a reportagem da BBC Future.

Em 26 de setembro, Gedroits estava montando um hospital de campanha em um pequeno vilarejo perto da cidade de Mukden, hoje conhecida como Shenyang, na China. Este seria um local estratégico para as forças russas nos meses seguintes.  O trem de Gedroits era o coração de seu destacamento no local, mas o próprio hospital não estava confinado aos vagões. Ele havia se expandido pelos arredores do trem, em fileiras de barracas. Cabanas de camponeses também foram tomadas e convertidas em um centro cirúrgico, assim como alguns armazéns.

Para a sala de operações, as paredes do interior eram cobertas de argila e depois caiadas de branco. Lençóis esterilizados também foram usados para cobrir o local e torná-lo o mais higiênico possível.

No primeiro mês ali, Gedroits e sua equipe se viram tratando uma imensa variedade de lesões graves. Muitas envolviam ferimentos de balas e fragmentos de granadas. Havia mais de 700 casos de tais lesões nos membros, 143 no peito e 61 no abdômen, por exemplo.

Gedroits relatou o caso de um homem que foi hospitalizado com fragmentos de granada alojados em sua cabeça. A lesão causou a perda de controle do lado esquerdo do seu corpo. Gedroits fez uma incisão na cabeça do paciente, abriu as feridas com uma pinça e retirou três grandes pedaços de estilhaços.

Um punhado de outros pequenos estilhaços também foi removido. Após a operação, o paciente pediu um cigarro. "Aqui - tente com a mão esquerda", disse Gedroits. Para a satisfação dela, ele foi capaz de segurá-lo.


Aprendendo com os ferimentos

A médica fez anotações extensas sobre os ferimentos que tratou. Também escreveu sobre os tipos de armas que os causaram. Por exemplo, ela descobriu que fragmentos de granadas e bombas explosivas deixavam uma marca amarela na pele.

Relatório médico contendo os ensinamentos adquiridos no conflito, publicado por Vera Gedroits

Com o passar dos meses, o clima esfriou. Um dos maiores desafios que Gedroits e seus colegas enfrentavam em seu trem hospitalar era justamente as baixas temperaturas, que afetavam gravemente os pacientes hospitalizados nas tendas e os soldados feridos que voltavam do front. Alguns chegaram a sofrer queimaduras por frio.

Mas, em janeiro daquele ano, um vagão que funcionava como centro cirúrgico foi adicionado ao trem - um importante complemento nas instalações. No mês seguinte, o hospital móvel foi enviado ao longo da estrada de ferro de Mukden para as minas perto de Fushan, onde se encontravam muitos homens feridos.

Nas primeiras quatro semanas, Gedroits realizou nada menos que 56 operações. Pacientes convalescentes foram colocados em vagões adicionais, aquecidos, onde podiam se recuperar com maior conforto do que as tendas ao ar livre.

Mas foi nessa época que o controle do Exército russo sobre a região começou a se afrouxar. Os japoneses realizaram um ataque inteligente durante a famosa Batalha de Mukden. Em 22 de fevereiro, Gedroits e seu trem foram obrigados a recuar. Foi neste dia que ocorreu a ousada fuga que abre esta reportagem.

Em suas anotações, Gedroits descreveu principalmente a dificuldade apresentada pelas lesões abdominais. Médicos militares estavam bastante familiarizados com este problema na época, diz o cirurgião aposentado e historiador britânico Michael Crumplin. Em muitos casos, os cirurgiões optavam por não intervir - em vez disso, os soldados com ferimentos abdominais seriam simplesmente monitorados na esperança de que sua condição melhorasse. Muitas vezes, o paciente morria.

Mas, contrariando o que era praxe na época, Gedroits interveio em alguns casos, realizando laparotomias - incisões exploratórias do abdômen - para ver se conseguia interromper o sangramento ou drenar o excesso de líquidos, por exemplo.

De acordo com Bennett, Gedroits descreveu as vantagens de fazer esse procedimento em suas anotações nos anos seguintes. Neles, destaca a necessidade de que os exames sobre os abdomens feridos deveriam ser concluídos o mais rápido possível.

Crumplin explica que, como os músculos da parede abdominal são muito apertados, a anestesia deve ser usada para relaxá-los durante as operações. É possível conter hemorragias e fezes que vazem do intestino, mas o risco de infecção continua alto. Há também grandes vasos sanguíneos suprindo o intestino; qualquer corte mal feito pode ser fatal. E muitos órgãos vitais - como o pâncreas - estão próximos, aumentando os riscos de morte se a operação não der certo. Além disso, não há certeza de que o intestino se recupere uma vez operado.

"Todo o intestino para de funcionar, a barriga se distende, você vomita e morre de desidratação", diz Crumplin. "As cirurgias na região abdominal trazem consigo enormes desafios".

Gedroits parecia ter conhecimento de tudo isso, mas permaneceu indiferente, aprimorando o atendimento.  Seu trabalho chegou a ser mencionado em um relatório britânico sobre o serviço médico russo durante a Guerra Russo-Japonesa, mas há poucos detalhes sobre ele. A falta de documentação sobre as atividades da Gedroits significa, nas palavras de Steven Heys, chefe da escola de medicina da Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, que "perdemos uma enorme oportunidade".

Gedroits descobriu que levar o trem-hospital o mais próximo possível do front de batalha era crucial - como analisar alguns ferimentos dentro de prazos específicos. Três horas ou menos para feridas abdominais, por exemplo. Ela fez, inclusive, anotações sobre o melhor tipo de bandagem para usar em determinado estágio do tratamento.

Se outros tivessem prestado atenção a essas percepções, as baixas durante a 1ª Guerra Mundial poderiam ter sido reduzidas, acrescenta Heys: "Afinal, seus registros se tornaram públicos em 1905, dez anos antes do início da guerra".

Findo o conflito, a vida de Gedroits não ficou menos atribulada. Ela retornou ao posto que tinha na fábrica, expandindo o hospital que administrava ali. Alguns anos depois, passou a trabalhar para a família real russa.

Como cirurgiã no hospital do palácio Tsarskoye Selo, chegou a ensinar até a imperatriz Alexandra e suas filhas Tatiana e Olga as técnicas básicas de cirurgia. Em uma foto, a própria imperatriz é vista entregando instrumentos a Gedroits enquanto ela realiza uma operação.

Gedroits, auxiliada pela Imperatriz Alexandra e pelas Grã-duquesas Olga e Tatiana, opera um paciente

Mas Gedroits não era bajuladora real. Conta-se que ela teria empurrado o confidente da imperatriz, Grigori Rasputin, quando ele se recusou a sair de seu caminho. Em 1917, a revolução ameaçava a existência da família real russa. Gedroits voltou, então, a trabalhar como cirurgiã no campo de batalha na 1ª Guerra Mundial. Acabou ferida e foi morar em Kiev, na Ucrânia. Ali, Gedroits foi contratada para ensinar cirurgia pediátrica e, posteriormente, nomeada professora.

Mas a medicina não era sua única paixão. Ela se tornou poeta, publicando vários livros. Em Kiev, sua excentricidade era notada pelos moradores locais. Gedroits era conhecida por suas roupas masculinas, sua voz profunda e seu relacionamento íntimo com mulheres. Muitos dizem que ela era lésbica.

Em 2007, um artigo na revista científica Clinical and Investigative Medicine lamentou o fato de que o mundo parece ter se esquecido de Gedroits. Ela é um exemplo clássico de como o conhecimento e a experiência em benefício dos outros podem se perder. Em parte por causa das circunstâncias, mas também, talvez, porque a sociedade prefira prestar atenção a certos tipos de pessoas em detrimento de outras.

"Estamos celebrando muita gente hoje em dia, mas nos esquecemos dessa mulher incrivelmente bem-sucedida e muito interessante", diz Wilson. As probabilidades estavam contra ela, acrescenta Stapleton. "Ela era aliada da família real, mulher, contrariava as normas sociais - publicava (seus livros) em russo. Qualquer uma dessas coisas seria usada contra ela", explica ela. "Tudo isso combinado impediu que ela ganhasse o reconhecimento que deveria".

Vera Gedroits morreu em 1932 e foi enterrada em Kiev. Segundo relatos, seu túmulo teria sido cuidado por muitos anos por um arcebispo que ela havia tratado quando jovem. Quando ele morreu, escolheu ser enterrado ao lado dela.

Parece uma pena que a fascinante história de vida de Gedroits não seja conhecida mais amplamente. O primeiro pensamento de Stapleton, ao descobrir a história extraordinária de Gedroits, ainda parece perfeitamente adequado: a vida dela não valeria um filme?

Fonte: BBC


segunda-feira, 5 de outubro de 2020

VERA BELIK – A “BRUXA DA NOITE” QUE MORREU JUNTO COM SUA AMIGA INSEPARÁVEL

 

Conheça a trajetória de Vera Belik, uma navegadora do regimento "Bruxas da Noite" que se sacrificou pela defesa de sua Pátria.


A  tenente Vera Lukianovna Belik atuou como navegadora no 46º Regimento de Aviação de Bombardeiros Noturnos de Guardas Taman, onde trabalhou com a piloto Tatyana Makarova. Morta em combate quando seu Po-2 foi abatido por um caça alemão, após completar uma missão de bombardeio, foi postumamente premiada com o título de Heroína da União Soviética, em 23 de fevereiro de 1945.

Belik nasceu em Ohrimovka, no dia 12 de junho de 1921, em uma família ucraniana. Filha de um mestre-eletricista, possuía cinco irmãos mais novos.  Durante a maior parte de sua infância, morou em Kerch, na Crimeia, onde se formou na escola secundária em 1939. Posteriormente,matriculou-se no Instituto Pedagógico Karl Liebknecht em Moscou, para estudar Matemática.

Antes de ingressar no Exército Vermelho, em outubro de 1941, Vera Belik participou da construção de defesas e fossos antitanque, com o propósito de barrar o avanço alemão. Depois de ingressar na unidade de aviação feminina fundada por Marina Raskova, ela começou o treinamento de navegação na escola de aviação militar de Engels. Antes da guerra, os cursos regulares de navegação duravam três anos, mas, devido ao estado de guerra na época, precisavam ser completados em apenas seis meses. 

Vera Belik, nascida em Ohrimovka, na Ucrânia, e educada em Kerch e Moscou. Completou 813 missões de combate antes de se sacrificar por seu país.

Em maio de 1942, Belik foi desdobrada na frente de combate com o 588º Regimento de Bombardeiros Noturnos, que seria redesignado como 46º Regimento de Guardas, em 1943. Durante o conflito, ela trabalhou em estreita colaboração com Tatyana Makarova, que pilotava o Po-2 enquanto ela realizava a navegação.  Em dezembro de 1942, o regimento foi ampliado e Belik foi promovida a navegadora do 2º Esquadrão, do qual Makarova se tornou a comandante.  No entanto, depois que o piloto de caça alemão Josef Kociok abateu quatro aviões do esquadrão, na noite de 31 de julho-1° de agosto, Makarova solicitou sua exoneração do comando do esquadrão, e Belik, por lealdade a ela, optou por também solicitar rebaixamento para continuar voando com sua amiga.  

Vera Belik voou em missões difíceis sobre a Ucrânia, na região de Kuban, no norte do Cáucaso, na Crimeia, na Bielo-Rússia e na Polônia. Em 1º de agosto de 1944, ela e Makarova voaram a primeira missão de bombardeio sobre a Prússia Oriental, tornando-se a primeira tripulação aérea do regimento a lutar sobre o solo alemão.

Vera Belik (à direita) com a inseparável amiga Tatyana Makarova. Ambas morreram em combate aos 23 anos de idade, quando seu avião foi abatido sobre a Polônia em 1944. 
As duas se tornaram, no mesmo dia e postumamente, Heroínas da União Soviética.

Na noite de 25 de agosto de 1944, no entanto, quando completava sua 813ª missão de combate,  Belik encontrou a morte, juntamente com sua amiga inseparável. O Po-2 em que ela e Makarova voavam foi interceptado e atacado por um caça alemão em Ostrołęka, na Polônia. A aeronave incendiou-se e, como as “Bruxas da Noite” voavam sem paraquedas, ambas morreram queimadas. Vera possuía apenas 23 anos de idade.

Em suas 813 missões, Belik lançou 106 toneladas de explosivos sobre o território controlado pelo inimigo, causou 156 grandes explosões e 143 incêndios, destruiu dois holofotes, dois depósitos de munição, três entroncamentos ferroviários inimigos, três baterias antiaéreas e diversas concentrações de infantaria. 

Por suas conduta nas operações de combate e por seu sacrifício, ela recebeu, postumamente, em 23 de fevereiro de 1945, o título de Heroína da União Soviética, junto com sua amiga Tatyana Makarova. Além da maior distinção do país, Belik recebeu também a Ordem de Lênin (23 de fevereiro de 1945), a Ordem da Bandeira Vermelha (25 de outubro de 1943), a Ordem da Guerra Patriótica de 1ª Classe (14 de abril de 1944) e a Ordem da Estrela Vermelha (9 de setembro de 1942).

Depois da guerra, os soviéticos souberam honrar seus heróis e suas heroínas. Na cidade de Kerch, onde Vera Belik passou boa parte de sua infância, uma estátua a homenageia.

Como foi comum com as “Bruxas da Noite”, Vera Belik recebeu muitas homenagens em seu país, dentre os quais um envelope soviético de 1981 de uma série de capas com retratos de pessoas premiadas como Heróis da União Soviética que apresentava Belik e Makarova.  Na cidade de Kerch, onde passou boa parte da infância, uma estátua homenageia Vera Belik, e o saguão do Instituto Pedagógico do Estado de Moscou, onde ela estudou, leva o seu nome e contém um memorial dedicado a ela. Duas escolas, uma em sua cidade natal Ohrimovka, na Ucrânia, e outra em Kerch, foram nomeadas em homenagem à corajosa “Bruxa da Noite” que se sacrificou por sua Pátria.

Quer conhecer mais sobre a inspiradora história dessas corajosas aviadoras? Leia

BRUXAS DA NOITE: AS AVIADORAS SOVIÉTICAS NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL,

de Carlos e Ana Daróz



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