"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



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quinta-feira, 15 de agosto de 2024

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR - CONDE FRANZ CONRAD VON HÖTZENDORF

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* 11/11/1852 - Viena, Áustria

+ 25/8/1925 - Bad Mergentheim, Alemanha



O Conde Franz Conrad von Hötzendorf foi o chefe do Estado-maior da Áustria-Hungria durante o início da Primeira Guerra Mundial.


Conrad von Hötzendorf nasceu em Penzing, um subúrbio de Viena. Seu pai era um coronel aposentado, originário do sul da Morávia. Seu avô havia ascendido à nobreza em 1816 quando adicionou ao seu nome "von Hötzendorf", o sobrenome da sua esposa. Sua mãe era a filha do famoso artista vienense Kübler. Ele tornou-se cadete quando ainda era muito jovem, e permaneceu nas forças armadas até o final da Primeira Guerra Mundial. Conrad ascendeu na hierarquia militar muito rapidamente.

Conrad casou-se com Wilhelmine le Beau em 1886, com a qual teve quatro filhos. Posteriormente, ele viria se casar com Virginia von Reininghaus, em 1915, contra a vontade de seus filhos.

Em novembro de 1906, Conrad tornou-se comandante do Exército Austro-Húngaro, e lutou pela modernização do exército e da marinha. Ele era algo como um darwinista social, e acreditava que uma batalha entre os alemães e a civilização eslava era inevitável. O poder da elite magiar na Áustria-Hungria também o desiludia, uma vez que acreditava que a Áustria deveria constituir um império essencialmente germânico. Também se preocupava com as ambições italianas na península balcânica, e uma de suas maiores ambições era uma guerra preventiva contra a Sérvia, como forma de neutralizá-la e também mudar o balanço de poderes da Áustria-Hungria contra os magiares, ao incorporar mais eslavos à população do império.

De acordo com Hew Strachan, "Hötzendorf propôs uma guerra preventiva contra a Sérvia pela primeira vez em 1906, e o fez o mesmo em 1908/09, em 1912/13, em outubro de 1913 e em maio de 1914: entre 1 de Janeiro de 1913 e 1 de Janeiro de 1914, ele propôs uma guerra contra a Sérvia por vinte e cinco vezes".


Primeira Guerra Mundial

Conrad von Hötzendorf foi um dos principais proponentes de uma guerra com a Sérvia como resposta ao assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando. Entretanto, apesar de seu desejo por guerra, o exército austro-húngaro não conseguia estava preparado para um conflito de grandes proporções.

Conrad muitas vezes propôs grandiosos planos fora da realidade, desconsiderando as realidades do terreno e do clima. Os planos feitos frequentemente subestimavam o poder dos inimigos. Por exemplo, o exército sérvio provou-se muito mais eficaz em batalha do que se esperava. Além disso, suas primeiras ofensivas contra a Itália ficaram conhecidas por sua falta de eficácia combinada com uma maciça perda de homens. Seus erros levaram ao desastroso primeiro ano da Áustria-Hungria na guerra, que acabou por minar todas as suas capacidades militares. 

A derrota mais desastrosa veio em 1916, com a Ofensiva Brusilov na Rússia. As forças austro-húngaras sob o comando de Conrad perderam aproximadamente 1,5 milhão de homens, e o exército nunca voltou a se tornar capaz de montar uma ofensiva sem ajuda alemã. A maior parte das últimas vitórias austríacas foram possíveis apenas com a ajuda de exércitos alemães, que acabaram por tornar o exército austro-húngaro extremamente dependente.

Conrad von Hötzendorf durante uma visita de inspeção

Por outro lado, o historiador britânico Cyril Falls contra-argumenta, afirmando que Conrad era provavelmente o melhor estrategista da guerra e que seus planos eram brilhantes na teoria. Os generais alemães do leste basearam muitas de sua operações nos planos de Conrad.

Conrad von Hötzendorf foi demitido do seu posto no exército pelo novo imperador, Carlos I da Áustria, e foi nomeado para o comando do Grupo de Exércitos que lutava no front italiano. Depois do fracasso na Batalha de Piave, foi demitido definitivamente das Forças Armadas.

Muitos historiadores acreditam que a razão da derrota austríaca no conflito deve-se à divisão das forças de ataque em duas: o grupo Conrad que lutou próximo ao Platô Asiago e o grupo Boroevic, que lutou nas planícies. 

No final de sua carreira, Conrad também se opôs ao imperador, que tentava chegar a um acordo de paz com a Tríplice Entente.  Em 1918, ele tornou-se Graf (conde), depois de ter sido um barão.

Após a guerra, Conrad negou qualquer culpa pessoal pela derrota e pelos resultados da guerra e culpou a corte imperial e os políticos por ela. Acometido por doença e desgostoso, morreu em 25 agosto 1925, em Bad Mergentheim, Alemanha.

Quando foi sepultado no cemitério de Hietzing, em Viena, em 2 de setembro de 1925, mais de 100 mil pessoas participaram dos funerais. Após longas discussões, seu Ehrengrab (túmulo de honra) foi transformado em túmulo histórico em 2012.


Fontes:
- FROMKIN, David. O Último Verão Europeu. Quem Começou a Grande Guerra de 1914? Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
- FALLS, Cyril. The Great War (1914-1918). Nova Iorque: Capricorn Books, 1961.


terça-feira, 6 de dezembro de 2022

OS COMANDANTES PARA ALÉM DO "GENERAL INVERNO"

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As conquistas contra o Grande Exército de Napoleão e a máquina nazista de Hitler foram muitas vezes atribuídas ao inverno extremo na Rússia. No entanto, dar tanto crédito ao clima minimiza a importância dos líderes militares do país. O lendário comandante Aleksandr Suvorov disse certa vez: “Você não conquistará não em número, mas por habilidade”. Os oficiais nesta lista, incluindo o próprio Suvorov, são prova disso.


Por Oleg Skripnik

Até o século XVIII, os comandantes militares dos exércitos russos eram geralmente membros da aristocracia. Um corpo completo de oficiais surgiu somente sob Pedro, o Grande, após uma derrota pesada em Narva que forçou o Tsar a modernizar as forças armadas. Durante o reinado de Catarina, a Grande, a reputação dos oficiais russos se espalhou por toda a Europa. No início do século XX, a Rússia perdeu um número considerável de líderes militares na Primeira Guerra Mundial e na Guerra Civil, mas uma nova geração de líderes surgiu durante a Segunda Guerra.


Dmítri Khvorostínin, século XVI

Khvorostínin era o “homem de apagar incêndio” do tsar Ivan, o Terrível. Era enviado para comandar tropas ao longo das frentes mais difíceis e quase sempre venceu suas batalhas. Assim que repeliu as tropas suecas na fronteira norte do país, Khvorostinin recebeu a missão de salvar os moradores da Rus Kievana dos tártaros. Após mais uma vitória, foi então enviado ao Báltico para lutar contra os lituanos.

Na Guerra da Livônia (contra coalizão formada por Dinamarca, Grão-Ducado da Lituânia, Reino da Polônia e Suécia), os exércitos europeus eram superiores ao russo em termos de tecnologia, mas Khvorostínin conseguiu afastá-los por meio de ataques agressivos e estratégicos.

Khvorostínin era o “homem de apagar incêndio” do tsar Ivan, o Terrível

“Ele é o seu principal homem, que é ainda mais necessário em tempo de guerra”, escreveu o embaixador inglês Giles Fletcher sobre Khvorostínin, em seu livro Sobre o governo da Rus, publicado em 1591. Talvez seja por causa dessa reputação que Khvorostínin não foi executado depois de descumprir uma das ordens de Ivan. Em vez disso, o tsar ordenou que ele se vestisse com roupas femininas e moesse farinha.


Aleksandr Suvorov (1730-1800)

Aleksandr Suvorov era considerado um excêntrico. Ficou conhecido por correr nu à noite, dançar valsa fora do ritmo nas festas imperiais, trombando deliberadamente em outros casais, e chegar para o almoço usando apenas um sapato. Quem que conhecia Suvorov, porém, não se deixava levar por sua aparência. “A Espada Russa, Flagelo dos Turcos e Tempestade dos Poloneses. Violento nas ofensivas, destemido por natureza, era a imagem de Átila”, descreveu Luís XVIII em suas memórias.

Aleksandr Suvorov em 1799

Por esses motivos, Suvorov foi, talvez, o maior comandante russo de todos os tempos. Não perdeu uma única de suas 63 batalhas, ainda que, por vezes, enfrentasse inimigos muito superiores  em quantidade. Concentrava as forças no ataque, e sua estratégia ofensiva se baseava na velocidade e na confiança em seus homens. Aliás, era bastante querido entre os militares. Hábil em logística, treinava seus soldados para que tivessem iniciativa e astúcia em vez de focar exercícios repetitivos.

A vitória mais famosa de Suvorov foi sua campanha acerca dos Alpes. Em 1799, o Exército russo na Suíça foi cercado. Estavam sem munição, sem comida, e as botas já estavam gastas. Teria sido um milagre manter-se firme sob tais circunstâncias: Suvorov assumiu o desafio, conduzindo seus exércitos por montanhas nevadas, lagos e um inimigo hostil. Ao final, os russos escaparam e perderam menos homens que os franceses.


Michael Andreas Barclay de Tolly (1761-1818)

Barclay de Tolly foi comandante do Exército russo durante a invasão da Rússia por Napoleão, em 1812. O imperador francês esperava derrotar as tropas russas na fronteira e forçar o tsar a aceitar seus termos para a paz. Em junho, o Exército francês era muito superior ao russo; Barclay de Tolly sabia que enfrentá-los seria desastroso. A decisão foi recuar, sacrificando sua reputação, queimando aldeias e plantações por onde passavam. E a estratégia funcionou. Em vez de conquistar uma rápida vitória, os franceses foram obrigados a seguir os russos até Moscou.

Os soldados franceses estavam literalmente morrendo de fome e foram atacados por trás pelos cossacos enquanto o inverno se aproximava. A aristocracia exigia, porém, uma batalha corajosa de Barclay em vez de um recuo “vergonhoso”. “Aquele velhaco do Barclay desistiu de uma posição gloriosa”, escreveu o general Piotr Bagration.

Barclay de Tolly retratado em 1829

O comando do exército passou para o general Mikhail Kutuzov, e Barclay de Tolly enfrentou a ira do povo. Foi, inclusive, atingido deliberadamente por um disparo na Batalha de Borodino – mas sobreviveu para ver sua estratégia triunfar. Novamente nomeado comandante após a morte de Kutuzov, Barclay de Tolly conduziu o exército russo ao longo do trajeto até Paris.


Konstantin Rokossôvski (1896-1968)

A crença de Rokossôvski no partido Rodina (União Patriótica Nacional), não foi rompida nem mesmo durante o tempo que esteve preso durante as purgas do final dos anos 1930. Em 1940, Stálin perdoou o futuro Marechal da União Soviética e, um ano depois, essa decisão se mostrou acertada. Após os alemães invadirem a União Soviética, as tropas de Rokossôvski lutaram em pontos cruciais no Fronte Oriental. Sua divisão reteve tanques alemães na Batalha de Moscou, em 1941; no ano seguinte, o exército de Rokossôvski cercou os alemães em Stalingrado; já em 1943, derrotou a Wehrmacht em Kursk, que representou uma reviravolta na guerra.

Rokossôvski foi um dos mais hábeis comandantes soviéticos na 2ª Guerra Mundial

A fama de Rokossôvski, entretanto, vem sobretudo da organização e execução da Operação Bagration, em 1944. Depois de enganar os alemães , fazendo-os acreditar que planejava um ataque pela Ucrânia, o Exército Vermelho atingiu posições alemãs na Bielorrússia. A frente alemã desmoronou. Em dois meses, o Exército Vermelho libertou a Bielorrússia, a Lituânia e o ocidente da Ucrânia dos nazistas.

Fonte: Gazeta Russa


segunda-feira, 7 de junho de 2021

“COM O SACRIFÍCIO DA PRÓPRIA VIDA” ... QUANDO RENDER-SE NÃO É UMA OPÇÃO

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Todas as sociedades são constituídas por diferentes corporações profissionais que, não raro, reúnem homens e mulheres extremamente dedicados a seus ofícios, trabalhando com competência e de forma destacada. Existe, no entanto, uma profissão diferenciada, na qual seus integrantes, ao nela ingressarem, comprometem-se voluntariamente a doar, se necessário for, seu bem jurídico mais valioso: a própria vida. Apenas por esse aspecto singular, a profissão militar revela-se diferente de todas as demais. Ao serem incorporados às fileiras do Exército Brasileiro (EB), todos os homens e mulheres – soldados, sargentos e oficiais – prestam o compromisso de defender a Pátria, “com o sacrifício da própria vida”.

No curso da história militar, não é difícil encontrar exemplos onde tal conceito foi provado no calor da batalha. No distante ano de 480 a.C., cerca de trezentos guerreiros espartanos, sob as ordens de Leônidas, resistiram até a morte diante de uma investida persa, no desfiladeiro das Termópilas. Em 1836, pouco mais de duzentos norte-americanos permaneceram lutando até o fim no Forte Álamo, Texas, ao serem atacados por 1.800 soldados mexicanos. Menos de dez defensores da fortificação sobreviveram. Durante a Segunda Guerra Mundial, por ocasião da blitzkrieg alemã contra a França, em 1940, a 13ª Brigada britânica decidiu “ficar para trás”, a fim de cobrir e possibilitar a retirada em Dunquerque, mesmo sabendo que o destino seria a morte ou a captura.

Tenente Antônio João, defensor da Colônia Militar de Dourados

Em nossa história militar, soldados brasileiros também foram levados até esse limite, onde a rendição não era uma opção a ser considerada. Em dezembro de 1864, nos primeiros movimentos da Guerra da Tríplice Aliança, uma coluna paraguaia com aproximadamente 300 homens sob o comando do Coronel Vicente Barrios investiu contra o Mato Grosso, tomando a direção da Colônia Militar de Dourados, um diminuto posto avançado do Exército Imperial liderado pelo Tenente de Cavalaria Antônio João Ribeiro. Ciente da notícia da aproximação de tropa inimiga de valor incontestavelmente superior, o oficial brasileiro providenciou para que a população civil da colônia fosse evacuada para um local seguro e decidiu resistir, ainda que a vitória fosse impossível. Liderando sua guarnição, não se renderia ao inimigo.

Instado à capitulação pelo major paraguaio Martin Urbieta, Antônio João comunicou-lhe sobre sua disposição em defender aquela longínqua porção do território de sua Pátria, e enviou-lhe a resposta que entraria para a história: "Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus companheiros servirá como solene protesto contra a invasão do solo de minha Pátria."

Cópia da página do Almanak do Exército Brasileiro de 1864, onde constam os dados do tenente Antônio João.


Não se renderam. O Tenente Antônio João e sua guarnição não foram poupados pelos paraguaios. Em 1870 o conflito terminaria com a vitória da Tríplice Aliança. Quase 120 anos mais tarde, em 1980, Antônio João foi escolhido pelo EB como Patrono do Quadro Auxiliar de Oficiais (QAO).

Representação do sacrifício do tenente Antônio João em escultura na Praça General Tibúrcio (Praia Vermelha), Rio de Janeiro


No entanto, extrapolando o universo dos integrantes do QAO, na verdade o Tenente de Cavalaria Antônio João representa o compromisso perene e o espírito de sacrifício do soldado do Exército de Caxias, pronto para, se necessário for, entregar seu bem maior – a vida – na defesa da Pátria. 

Não se rendeu... entrou para a história com “o sacrifício da própria vida”.

Fonte: EBlog


terça-feira, 13 de outubro de 2020

IMAGEM DO DIA - 13/10/2020

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“Ou nós encontramos um caminho, ou abrimos um.” com essas palavras Aníbal Barca, o cartaginês, iniciou a célebre travessia dos Alpes italianos, que, mesmo diante de significativas perdas, surpreendeu os exércitos romanos com seus elefantes de guerra. 


domingo, 4 de fevereiro de 2018

A DIVIDIDA ESTRUTURA DE COMANDO DA COMPANHIA DAS ÍNDIAS OCIDENTAIS

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Por se tratar de uma companhia comercial paramilitar, com objetivos de colonização e geração de lucros, a Companhia das Índias Ocidentais (WIC) possuía uma cadeia de comando bastante diferente da praticada pelos portugueses. Era dirigida pelo Conselho dos XIX, composto por dezenove diretores, representantes das Câmaras de Amsterdã, Zelândia, Mosa, Holanda do Norte, Groningen e Frísia e um designado pelos Estados Gerais.

Para administrar a Nova Holanda, a WIC estabeleceu o cargo de governador, geralmente ocupado pelo militar com maior posto, e instituiu o Colégio de Conselheiros Políticos, constituído por conselheiros civis nomeados pela Companhia para administrar a nova colônia. Durante o período das invasões holandesas no Brasil, o número de integrantes desse colegiado variou entre três e cinco membros. Apesar de dispor dessa administração colonial, o Conselho dos XIX preocupava-se com possíveis ímpetos de independência ou rebelião entre os comandantes militares da Companhia e, por essa razão, atribuía maiores poderes ao Conselho Político do que ao próprio governador, dividindo hierarquicamente suas forças no Brasil e subordinando o poder militar ao poder político. Essa disposição pode ser exemplificada pela cadeia de comando da WIC por ocasião da invasão a Pernambuco, em 1630. O almirante Lonck, autoridade militar de maior posto, foi nomeado para o governo, mas foi organizado o Conselho Político composto por Johan de Bruyne, Philips Serooskerken e Horatio Calendrini, que limitava sua autoridade do governador e tinha a prerrogativa de aprovar ou não seus atos. Mais tarde, com o retorno do almirante Lonck para a Holanda, assumiu o cargo de governador o coronel Waerdenburch, que, pouco tempo depois, foi também nomeado como membro do Conselho Político. No decurso dos meses de 1630, o Conselho Político recebeu mais dois integrantes: os comissários Johannes van Walbeeck e Servatius Carpentier. Apesar de sua condição de conselheiro, a autoridade de Waerdenburch permaneceu afeta aos assuntos militares e, na prática, os conselheiros civis é quem governavam efetivamente a colônia.


Almirante Hendrick Lonck, comandante da invasão a Pernambuco.

O Coronel Waendemburch sucedeu o Almirante Lonck no governo da Nova Holanda.
 
Com tamanha divisão entre os poderes político e militar, a relação entre os comandantes militares e os conselheiros civis da WIC não poderia ser das mais amistosas, sendo frequentes os atritos entre os dois segmentos. Uma dessas tensões ocorreu em 1633, quando o coronel Waerdenburch, já de retorno à Holanda, ficou furioso ao tomar conhecimento de uma carta escrita pelos conselheiros Mathias van Ceulen e Johann Gijsselingh para a Câmara da Zelândia, reclamando do baixo desempenho das tropas do coronel contra os portugueses na conquista de Pernambuco.


Sede da Companhia das Índias Ocidentais em Amsterdã.

 

No intuito de manter o controle civil sobre as operações militares, um dos conselheiros passou a acompanhar as tropas da WIC nas principais expedições e operações de sítio, para que os comandantes militares não tentassem realizar nenhuma ação sem o prévio consentimento do Conselho Político. Outro conselheiro ficou encarregado de providenciar o abastecimento e o suprimento das tropas. Dessa forma, o Conselho Político exercia o controle sobre as operações e sobre a logística das forças militares da WIC.

Conheça essa e outras histórias lendo
"A guerra do açúcar: as invasões holandesas no Brasil"

Saiba como adquirir o seu exemplar enviando um e-mail para:
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sábado, 2 de setembro de 2017

RONALD REAGAN RECEBEU UMA CARTA DE RECRUTAMENTO DO CORPO DE FUZILEIROS NAVAIS ENQUANTO ERA PRESIDENTE DOS EUA - SUA RESPOSTA FOI SENSACIONAL

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Mesmo tendo 73 anos e ocupando o cargo de Presidente dos Estados Unidos na época, Ronald Reagan recebeu uma carta do Corpo de Fuzileiros Navais (USMC) perguntando se ele gostaria de se alistar em 1984.

Pode ter sido um erro grosseiro ou apenas uma piada da Corporação com seu comandante-em-chefe, ou, nas palavras de Reagan em sua resposta, o resultado da "ativa imaginação de um cabo”. Em qualquer caso, a Companhia Histórica do USMC compartilhou em sua página do Facebook a carta que o Presidente enviou de volta ao então Comandante dos fuzileiros, General Paul X. Kelley, em 31 de maio de 1984.  A resposta de Reagan foi sensacional.

"Eu lamento que eu deva recusar o convite para me alistar no Corpo dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos," Reagan escreveu no papel timbrado oficial da Casa Branca. "Tão orgulhoso quanto eu sou a respeito de minha aptidão física, creio que é melhor continuar como Comandante-em-Chefe. Além disso, no momento atual seria muito difícil passar dez semanas em Parris Island”, referindo-se ao centro de treinamento de recrutas dos fuzileiros.

Com a espirituosidade que lhe era peculiar, Reagan observou que os democratas provavelmente apreciariam sua saída da Casa Branca, mas teria que recusar o convite visto que sua esposa Nancy amava sua residência atual e o próprio Reagan estava "totalmente satisfeito com seu trabalho."

"Você consideraria um adiamento até 1989?", escreveu Reagan. Vale a pena lembrar que Reagan serviu na Força Aérea do Exército dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial.

Confira a carta completa abaixo:



Fonte: We are the Mighty


quinta-feira, 22 de junho de 2017

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE CORAGEM POR TRÁS DE UMA FOTO

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35 anos atrás, dois torpedos do submarino nuclear britânico HMS Conqueror feriram fatalmente o cruzador argentino ARA General Belgrano. E levaram para o fundo do oceano 323 vidas. Esta é a história heroica dos dois últimos membros da tripulação que deixaram o navio, minutos antes de afundar para sempre em um mar revolto


Por Gaby Cociffi

Dois homens na popa do navio afundando. Eles seguram na balaustrada em cima de um mar tempestuoso. Eles são os últimos restantes do gigante ferido de morte.

— Abandono o navio ou não?, pergunta o comandante capitão Héctor Bonzo.

Uma voz o surpreende atrás dele, pois pensava que estava sozinho no navio. Ele não reconhece o estranho contido na névoa. O homem grita:

— Se não pular, eu também não vou! Eu vou ficar com você, Capitão!

São 16h35 de 2 de maio de 1982. Trinta e quatro minutos mais cedo, a partir das profundezas do mar do sul, o operador do submarino britânico HMS Conqueror lançou a pergunta que iria selar o destino do cruzador General Belgrano. — Devemos afundá-lo?

A resposta é dada em segundos a 12.489 quilômetros entre o Reino Unido e as Ilhas Falkland. O Capitão Richard Hask, da Força Tarefa, é aquele que transmite a ordem implacável de Margaret Thatcher, a primeira-ministra britânica.
— Disparem e afundem.

O cruzador ARA General Belgrano fotografado antes da guerra


Às 16h01 o primeiro torpedo Mk.8 atravessa a proa do navio, que navega a 30 milhas da zona de exclusão imposta pelos britânicos. Perfura os quatro conveses verticalmente. A água entra em todos os compartimentos. Apenas alguns segundos depois, o segundo torpedo acerta a popa.

O cruzador está inclinado para bombordo, o fogo surge das suas entranhas. Há gritos. E depois um silêncio ensurdecedor que dói. A partir da ponte, e com um megafone, o capitão Bonzo — 23 minutos após o primeiro impacto, dá a ordem: “Abandonem o navio”. Setecentos e setenta homens alcançam as balsas. Trezentos e vinte e três encontram o seu destino final no oceano.

“Como ainda não foi para uma das balsas!? O que você está fazendo aqui se não há mais ninguém!?” Bonzo repreende a figura irreconhecível, coberta da cabeça aos pés com uma capa de chuva e uma balaclava cinza, que se recusa a deixar o navio. O homem que grita “Não há tempo, capitão! Você deve abandonar o navio!” está determinado a impedir que o comandante atenda à lei marinheira de ir para o fundo com o seu navio.

Às 16h01 o submarino britânico HMS Conqueror disparou o primeiro de dois torpedos Mk.8 que acertaram a proa e a popa do Belgrano. A imagem surpreendente foi tomada pelo primeiro tenente Martín Sgut, que estava em uma das balsas


“Ali, de frente para o mar, para mim era mais difícil viver do que morrer”, confessou anos mais tarde o comandante do Belgrano.

“Eu vi o capitão com essa atitude de afundar com o navio, e não permitiria”, explica calmamente da província de Catamarca, 35 anos depois da tragédia, o suboficial Ramón Barrionuevo, como se não tivesse conhecimento do seu ato de heroísmo. “Eu sou aquela figura que você vê na imagem, lá no convés. Fui inflar o colete do Capitão”, diz ele humildemente.

— E se o capitão não pulasse, você estava disposto a ir para o fundo com o navio?

— Não sei. Nós iríamos ter uma longa discussão. Eu não deixaria meu comandante sozinho no Belgrano. Porque o que estávamos vivendo lá era o pior inferno.

Com emoção, Ramón Barrionuevo — nascido em Piedra Blanca em 17 de fevereiro de 1947, filho de Gerardo, pedreiro, e Antonia Sánchez, costureira, recorda o momento em que ele viu o mar engolir o gigante de 185,5 metros. Nomeia um por um seus companheiros mortos. Lembra do Capitão Bonzo, que morreu em 2009. E se desculpa quando surgem lágrimas incontroláveis.

Desgastada pela ação do tempo, esta é a única foto do suboficial Ramón Barrionuevo junto do capitão Héctor Bonzo (em trajes civis).


Vamos ouvi-lo.

“A mim cabia dar o serviço das 4 às 8h e de 16h às 20h. Eu guarnecia o compartimento de controle de cobertura de artilharia 03 no topo do navio, logo à frente do comando. Em 2 de maio, saí do meu camarote às 3h45 para dar tempo de receber informações do meu colega Juan Carlos Córdoba, e assumir o posto às 16h. Juan me passou os dados das armas carregadas, as pessoas que estavam prontas e a posição do navio. Cumprimentei-o como em qualquer dia. E ele foi para o nosso camarote na popa para descansar. Ali foi onde o segundo torpedo acertou. Eu não o vi mais.”

“Às 16h01 veio o primeiro torpedo. O barulho era tremendo. O navio balançou. Eu estava sentado num banco e caí. Era como se o navio tivesse afundado debaixo dos meus pés. Eu já tinha 35 anos de idade e 14 de serviço, era especialista em armas, eu sabia que tínhamos sido torpedeados.”

“Um vigia que estava com binóculos viu o rastro na água e conseguiu gritar… ‘Torpedo!’ Abri a porta da sala de controle e o segundo impacto atingiu a popa, mas eu não pude senti-lo, talvez por causa do nervoso ou por causa da fumaça da primeira explosão, que cobriu o meu convés”.

“Eu ouvi os gritos das pessoas que estavam se queimando. Desci do terceiro convés, e eu estava carregando comigo toda a tripulação que estava no caminho. Podia ver o medo dos jovens, tentando manter a ordem. Foi um inferno“.

Dos 1093 tripulantes do navio, 770 salvaram-se nas balsas, 323 pereceram no mar


“As pessoas começaram a pular direto para as balsas porque o navio começou a inclinar cada vez mais. O vento era muito forte e as balsas batiam contra o costado do navio. Alguns foram levados em direção à proa, onde as chapas abertas afiadas as partiam ao meio. Eu vi a corrente da âncora arrastando para o fundo do oceano uma balsa com toda a tripulação dela. Ninguém pode ser salvo“.

“No convés vi o comandante Bonzo com uma faca de cozinha tentando cortar uma corda para liberar uma balsa. Se ela caísse, poderia arrastá-lo e ele não teria força para suportar o peso. Perguntei. .. ‘O que está fazendo comandante?’. Ele sabia o perigo, mas queria colocar o máximo de balsas no mar.”

“Bonzo ordenou-me a deixar o navio e eu me recusei, em seguida, olhou para mim e disse … ‘Ajude-me a ver se há mais alguém, se tem alguém ferido’, com o convés do navio quase tocando o mar, entravam toneladas de água…”.

“Eu não quero nunca mais ver na minha vida o que eu vi naquela tarde no Belgrano. Houve um marinheiro com o corpo completamente queimado, gravata e punhos da camisa estavam colados à pele, carbonizada. A pele escamosa, carne viva. Nos pediu para jogá-lo na água. Se ele caísse no mar, com o corpo queimado não teria sido capaz de sobreviver. O descemos cuidadosamente com uma corda feita com as roupas de cama que foram deixadas no convés pelos marinheiros que estavam em sua hora de descanso quando começou a tragédia”.

Às 16h50, o cruzador está inclinado a 60 graus. O Belgrano levou menos de uma hora para afundar. Sem sonares para detectar submarinos, navegava na companhia dos destróieres Bouchard e Piedrabuena que tinham o equipamento


“De repente, um rapaz veio chorando … ‘Me ajude, me ajude’, tapava o rosto com as mãos. Separamos suas mãos e a pele descascando grudou às palmas e começou a sangrar muito. Eu lhe dei um lenço para estancar o sangue. Saímos para uma balsa. E eu não o vi mais. Meses depois, em julho de 1982, eu fui para o hospital Azul, na província de Buenos Aires. E vi que alguém estava me chamando. ‘Suboficial Barrionuevo! eu tenho algo para dar lhe devolver’. “Eu não o reconheci até que ele me trouxe o lenço. Você não sabe a emoção que senti! ele estava vivo!”.

“Com o capitão Bonzo percorremos o convés para ter certeza de que ninguém tinha sido deixado para trás. Eram 16h38 e o navio estava muito inclinado. As pessoas das balsas gritavam para saltarmos na água, porque o navio afundava.”

“Fomos até a proa ali eu notei o capitão em dúvida. ‘Se você não pular, eu vou ficar também’, lhe disse. Ele olhou para mim. O Belgrano se inclinava cada vez mais. Me mandou: “Pule e eu lhe sigo”.

“Antes de saltarmos, inflei o colete salva-vidas dele. Nós amarramos lençóis como um cinto para podermos deslizar para baixo. Tiramos os sapatos para nadar melhor, e guardamos as meias nas calças. Eu saltei do topo do navio, que no momento estava a cerca de 4 metros do mar, porque o vento nos impedia de descer do lado onde o convés quase tocava a água.”

“Eu pulei na água e não senti frio, era tão grave a situação que estávamos vivendo, que havia bloqueado os meus sentimentos. Eu comecei a nadar para longe do navio, porque se ele afundasse ele iria me arrastar. Não vi mais o Bonzo, eu o perdi no oceano“.

“O navio fez um movimento, re-emergiu da água e finalmente afundou verticalmente. Em baixo dágua as caldeiras explodiram e criaram um redemoinho gigante de água “, lembra Barrionuevo


“As ondas eram enormes. Eu vi as balsas subir e descer, tremendo como cascas de nozes. De repente, veio em minha direção uma a toda velocidade empurrada pelo vento. Nadei e eu agarrei como pude. O impacto me tirou um dedo do lugar: foi a primeira vez que senti dor. Quando cheguei na balsa, comecei a tremer, era como se mil agulhas fossem pregadas no meu corpo. Eu estava congelando”.

“Olhei para fora e vi o naufrágio do navio. Foi triste ver como tal massa foi engolida pelo mar. O navio fez um movimento, re-emergiu da água e finalmente afundou verticalmente. No mar as caldeiras explodiram e fizeram um vórtice gigante de água. A última coisa que vi foi o guardabote, uma vara de 6 metros que veio à tona e flutuava no oceano. O povo gritou … ‘Viva o cruzador, viva o Belgrano, viva la Patria!’. Eu não sei de onde nós tivemos forças.”

“As balsas foram amarradas umas nas outras, para formar uma grande mancha no mar para que uma aeronave de salvamento pudesse nos encontrar. Mas as ondas eram tão altas que nós tivemos que cortar as cordas, porque as balsas pareciam que iriam se rasgar. E ficamos sós, à deriva”.

“As balsas eram para 20 pessoas, algumas tinham mais gente, outras menos. Estavam bem equipadas: sachet de água, rações alimentares (muito calóricas para ter uma porção por dia), cigarros, uma pequena Bíblia, kit de curativos, pomada, calmante, equipamentos de sinalização SOS”.

“Na minha balsa tinham 20. Havia pessoas com mãos queimadas, joelhos quebrados e outro que tinha sido operado do apêndice há três dias e não aguentava mais de dor. Eu tentei dar-lhe incentivo e calma. Um tenente começou a ler parágrafos da Bíblia. A palavra de Deus trouxe a paz em meio à tempestade.”

“Passamos mais de 48 horas à deriva. Pensei que não nunca seríamos encontrados. Eu sabia que a união dos dois oceanos puxa para o sudeste e em algum momento o mar nos arrastaria e nós iríamos morrer. Olhei para os meus companheiros e eu pensei, ‘estamos todos mortos’, mas não disse nada a ninguém. Eu lembrei dos meus quatro filhos pequenos e pedi a Deus para cuidar deles e eu orava à Virgem del Valle: …‘Mãe, eu só peço para não sofrer’“.

“Quando você está à deriva, tem que comer e beber o mínimo possível até não conseguir mais, porque não sabe quanto tempo você estará bem. E não sabíamos mesmo se estavam nos procurando. Quando fomos resgatados, tínhamos acabado de comer 20 porções e tínhamos bebido um sachê de água”.

“Durante o dia, conversávamos sobre suas namoradas, sua família, sua idade. Até mesmo os fazia rir. Tinha que mantê-los acordados, com o espírito alerta. Um rapaz entrou em colapso nervoso. E eu tive que dizer: ‘Se você não se acalmar, vamos jogá-lo na água, porque o pânico é contagioso e se você continuar assim estamos todos mortos.’”

O resgate das balsas. Elas ficaram mais de 48 horas à deriva num mar agitado, com ventos de 120 km por hora

“Quando você está na balsa você não dorme … A escuridão do mar é absoluta e tremenda e o que existe é o nada. Quando amanhecia, continuávamos com a incerteza. ‘Somos uma só balsa no mar … ela não pode ser vista por ninguém … e o inimigo está lá fora’.”

“De repente, quando já não esperávamos nada, em 4 de maio ouvimos o ruído do motor de um avião. Era um A-4Q da Armada! Nós não sabíamos se tinham nos visto … Foi um tempo quase eternal — até que começamos a ver, no meio da tempestade, as luzes de um navio apontando para o céu e depois para o mar, sacudido pelas ondas enormes. ‘Estão nos procurando!’, gritei. E o ânimo mudou.”

“Esquecemos o frio, a sede, a fome e começamos a organizar o resgate. Em meio ao mar mais revolto que eu já vi, apareceu o Gurruchaga“.

“Nós fomos resgatados. O barco estava lotado porque eles tinham resgatado outras balsas do Belgrano. Tiraram nossas roupas geladas e duras de sal e nos deram um caldo quente. Éramos tantos que acabaram os alimentos. O cozinheiro fez um pouco de pão com farinha e água. Nos acomodamos no convés como pudemos, e nos envolveram com cobertores.”

A imprensa argentina noticia a tragédia do Belgrano


“Quando entramos no Canal de Beagle, o Gurruchaga parecia uma coqueteleira. No meio das pessoas, apareceu um cabo gritando meu nome …. ‘Barrionuevo, está aqui o Barrionuevo?’ Me identifiquei. Eram 6h da manhã. ‘O capitão Bonzo está no barco e está lhe procurando, quer falar com você’, me disse. Eu não sabia que ele tinha sobrevivido, e ele não sabia se eu estava vivo … mas estava procurando.”

“De repente, a porta se abriu e apareceu o capitão. Ele andou até onde eu estava firme, esperando por ele. Ele esqueceu a hierarquia, a saudação formal. Nos demos um abraço eterno. Todo mundo começou a aplaudir. ‘Já vamos falar sobre isso que aconteceu’, me disse. E choramos abraçados. Antes de sair, ele sussurrou para mim: ‘Obrigado, obrigado.’“

“Nos encontramos muitas vezes ao longo destes 35 anos. Mas nós nunca mais voltamos a falar sobre aquela noite dramática em que nós éramos os últimos homens agarrados ao navio afundando para sempre nas profundezas do mar austral”.

Fonte: Infobae


sábado, 27 de maio de 2017

O HEROÍSMO DOS ATIRADORES ARGELINOS NA BATALHA DE FROESCHWILLER

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Por Renato Coutinho

"Nós vamos todos morrer aqui, se necessário for!" 
Coronel Pierre François Jean Raphael Suzzoni 
(comandante do 2º Regimento de Atiradores Argelinos em 1870).


Guerra Franco-Prussiana, agosto de 1870, França invadida. Batalha de Froeschwiller/Wörth (6 de agosto de 1870): 37.000 soldados e oficiais franceses, apoiados por 101 canhões, enfrentam 81.000 soldados e oficiais prussianos, bávaros e de Württemberg, com 300 canhões. Os militares franceses combateram com uma tenacidade fora do comum naquele dia, lutando em grande desvantagem numérica e enfrentando o devastador fogo da artilharia prussiana, superior em quantidade e qualidade. Aliás, diga-se de passagem, a artilharia prussiana salvou o dia, pois as brigadas e divisões de infantaria germânicas foram repelidas com muitas baixas sofridas nas primeiras três horas de batalha. 

Vários regimentos de infantaria de linha franceses lutaram muito bem. Muitos batalhões de Caçadores a Pé, quase todos, combateram muito bem (alguns combateram de modo extraordinário), mas o grande destaque foi para os três regimentos de Zuavos e os três regimentos de Atiradores Argelinos. Eles simplesmente combateram como demônios, lutando com ferocidade e tenacidade raramente observadas em um campo de batalha, pagando preço altíssimo pela resistência incrivelmente tenaz.

O 2º Regimento de Atiradores Argelinos foi a unidade francesa que sofreu maior número de baixas naquele dia. Esse regimento de infantaria de elite foi praticamente destruído. Durante quase seis horas de intenso combate, defendendo parte de uma floresta logo abaixo da vila de Froeschwiller, o 2º de Atiradores Argelinos primeiro derrotou e repeliu uma brigada de Infantaria da Bavária, com três regimentos de infantaria, contra-atacando ferozmente com carga de baioneta depois de violento e demorado tiroteio, colocando os bávaros em fuga acelerada. Em seguida, derrotou e repeliu uma brigada de Infantaria da Prússia, também com três regimentos de infantaria, novamente contra-atacando ferozmente com baionetas após sangrento e demorado tiroteio. 

"Nós vamos todos morrer aqui, se necessário for!", bradou o Coronel Pierre François Jean Raphael Suzzoni, comandante do 2º Regimento de Atiradores Argelinos, antes de perder a vida na batalha


Antes que a brigada prussiana entrasse em contato com seu regimento, o Coronel Suzzoni proferiu a arrepiante frase que aparece no topo do texto:

- "Nós vamos todos morrer aqui, se necessário for!"

O devastador fogo da artilharia prussiana causou muitas baixas no regimento durante o ataque da infantaria prussiana, e não cessou com o recuo da brigada prussiana.

Às 14:30h, Suzzoni foi morto ao ser atingido por um estilhaço de projétil de artilharia prussiano. A batalha continuou. Regimentos das duas brigadas germânicas que foram repelidas, mais uma descansada brigada de infantaria prussiana, lançaram novo ataque com enorme apoio da precisa artilharia prussiana. 

O 2º Regimento de Atiradores Argelinos resistiu durante mais 55 minutos antes de praticamente deixar de existir. O regimento foi flanqueado por ambos os lados e quase completamente cercado. Os militares deste regimento não arredaram, não perderam a coesão, não entraram em pânico, não tentaram correr e combateram até o amargo fim.

Atirador argelino na Guerra Franco-Prussiana.  Durante a Batalha de Froeschwiller, os homens do 2º Regimento lutaram como leões e a unidade sofreu 93% de baixas.

"Estávamos em um círculo de ferro e fogo", disse um atirador argelino. Quase todos os oficiais do regimento tombaram mortos ou feridos. O 2º Regimento de Atiradores Argelinos iniciou a batalha com 2.900 militares, oficiais e praças, e terminou o dia com apenas 250 homens aptos para o combate (esses 250 conseguiram escapar do cerco sob o comando de um capitão do regimento). O regimento sofreu 2.650 baixas, aproximadamente 93% de seu efetivo.


O capitão Henry Arthur Viénot foi o oficial mais antigo a sobreviver à batalha, e liderou os 250 homens remanescentes do regimento

Se o feito e o oficial protagonista fossem norte-americanos, britânicos ou alemães, e o combate tivesse acontecido no século XX, principalmente durante a 2ª Guerra Mundial, (aparentemente, a história militar se resume ao século XX), seria um feito de armas muito mais conhecido, admirado e lembrado e, provavelmente, já teria virado filme. Porém, como o combate não ocorreu no século XX e teve militares franceses como protagonistas, desses que se rendem após o primeiro disparo (o estereótipo idiota que predomina na internet), quase ninguém conhece essa batalha e número ainda menor conhece esse combate em particular. 

Poucos já ouviram falar ou leram sobre os soldados franceses que combateram como leões na Batalha de Froeschwiller. Raramente são lembrados fora da França.

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