"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



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sexta-feira, 9 de setembro de 2022

"NOSSA INDEPENDÊNCIA FOI CONSOLIDADA NA GUERRA" - ENTREVISTA COM O DIPLOMATA HÉLIO FRANCHINI NETO

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O historiador e diplomata Hélio Franchini Neto diz que batalhas contra Portugal envolveram mais soldados que as de Simon Bolívar e ajudaram a criar a identidade nacional


Por Duda Teixeira 
   

O quadro “Independência ou Morte”, de Pedro Américo, eternizou o momento em que D. Pedro I declarou, em 7 de setembro de 1822, que o Brasil seria um império separado de Portugal. Para o historiador e diplomata Hélio Franchini Neto, a pintura em que o protagonista ergue a espada não traduz a realidade, por mostrar a independência como algo rápido, pacífico e sem complicações. Amparado em pesquisas recentes, ele afirma que a consolidação desse processo só se deu após batalhas encarniçadas, que envolveram mais homens que aquelas lideradas pelo venezuelano Simon Bolívar, o Libertador da América espanhola. 

Formado em direito, com mestrado em ciência política, Franchini Neto defendeu uma tese de doutorado em história sobre esse tema, em 2015. O material foi adaptado para o público geral e acaba de ser publicado no livro Redescobrindo a Independência: uma História de Batalhas e Conflitos Muito Além do Sete de Setembro (Editora Benvirá). Depois de trabalhar na embaixada brasileira em Bogotá, Franchini Neto, de 43 anos, assumiu no início do ano a vice-chefia na assessoria de relações federativas do Itamaraty com o Congresso. Ele conversou com a Crusoé.


Em seu livro, o senhor argumenta que a “Independência foi um desenrolar caótico, incerto, marcado por disputas, heterogeneidade de visões e de interesses, conflito político e guerra”. Como chegou a essa conclusão?

Uma vez, li em um livro que a guerra entre as forças de Portugal e de D. Pedro na Bahia envolveram mais soldados que a tropa do libertador venezuelano Simon Bolívar. O jovem imperador mobilizou, entre Exército e Marinha, algo em torno de 15 mil soldados no primeiro semestre de 1823. Bolívar, que liderou a independência de Venezuela, Colômbia e Equador, não ultrapassou 10 mil. Esse dado me impressionou muito. Então, continuei estudando o tema até decidir fazer um doutorado. Meu objetivo inicial era apenas o de mapear as operações militares desse período, mas aos poucos fui vendo que as batalhas eram muito maiores do que eu imaginava e que ocorreram em três frentes principais: na Bahia, no Norte e na Cisplatina, hoje Uruguai. Além dos números superlativos, elas se chocavam com as narrativas existentes. Ainda se fala muito que o conflito na Bahia foi entre baianos e tropas portuguesas ali presentes. Mas a guerra foi muito mais ampla e complexa.


Em que sentido?

Para começar, os dois militares baianos que começaram a luta eram originalmente defensores das Cortes de Lisboa. A disputa que se seguiu era local, pelo poder militar da província. Depois que um dos lados , aquele liderado por Manoel Pedro, foi derrotado, seus partidários refugiaram-se na cidade de Cachoeira e se aproximaram de D. Pedro. No fim de 1822, essa guerra civil já tinha ganhado outra dimensão. Portugal enviou sucessivamente o máximo de tropas que pôde, para apoiar o brigadeiro Ignácio Luiz Madeira. De 3 mil soldados, ele passou a contar com 10 mil no final do ano. Essa diferença, de 7 mil ou 8 mil soldados, é equivalente à expedição enviada pela Espanha para lutar contra Bolívar na Venezuela e na Colômbia. Vale ressaltar também que, entre os que defenderam o lado de D. Pedro, não havia só baianos. Pernambucanos, paraibanos e mineiros também lutaram.


A realidade nessas três frentes foi muito cruenta?

Uma estimativa é a de que entre 3 mil e 5 mil morreram no período de um ano, entre 1822 e 1823. Só na Bahia teria havido de 2 mil a 4 mil óbitos. Cerca de mil baixas foram por doenças no fronte. Considerando que 30 mil soldados foram mobilizados, isso dá uma taxa de 10% de mortos, sem contar os feridos. É uma proporção muito alta. No Piauí, o major português João José da Cunha Fidié reuniu 1,5 mil homens para lutar contra os partidários de D. Pedro, que recrutaram entre 2,5 mil e 3 mil para combater na Batalha do Jenipapo. Eles se enfrentaram ao longo de cinco horas, deixando entre 200 e 400 mortos. Foi um período de lutas encarniçadas.

Batalha do Jenipapo, no Piauí: um dos maiores enfrentamentos da Guerra de Independência


O que dizem os relatos desses conflitos?

Alguns depoimentos são incríveis. Comandantes portugueses reclamaram que, no cerco a Salvador, não se podia colocar a cabeça para fora da trincheira, porque isso seria morte na certa. Do lado oposto, um coronel que tinha mil soldados falou da dificuldade de alimentá-los e de conseguir calçados para eles. Também conta que cada ferido que ia para o cirurgião era uma morte certa. D. Pedro chamou isso de uma “crua guerra de vândalos”.


Por que o sr. não fala em brasileiros lutando contra portugueses?

Até a chegada da corte portuguesa, em 1808, o Brasil era formado por duas identidades: a local — como mineiros, paraenses, cearenses, baianos — e a portuguesa, ligada ao rei. A identidade brasileira ainda era incipiente. As longas distâncias dificultavam um laço mais forte entre as distintas populações. Quem saísse do Maranhão num barco demorava 15 dias para chegar a Lisboa. Mas a viagem até a Bahia, por causa das correntes marítimas do Atlântico, tardava quase três meses. A vinda de D. João VI alterou completamente essa ordem. Em 1808, o Rio de Janeiro se tornou a capital do Império Português, com tribunais, academias militares, corpo diplomático. Em 1815, o Brasil deixou de ser colônia, com a criação do Reino do Brasil, o que constituiu um primeiro elemento unificador. Esse movimento de coesão não se deu na América Espanhola, onde os núcleos continuaram vivendo de forma relativamente autônoma. Se a Coroa não tivesse vindo para o Brasil, poderíamos hoje estar fragmentados em vários países, como ocorreu no restante da América Latina.


As guerras que se seguiram à Independência ajudaram a moldar essa identidade brasileira?

A presença da corte, embora trouxesse essa sensação de unidade, não gerava benefícios homogêneos para todas as regiões. No Norte, havia descontentamento por causa dos impostos pagos para financiar o Estado. Quando os portugueses finalmente tomaram a decisão de acabar com o poder do Rio de Janeiro e dar primazia a Lisboa, após a Revolução do Porto, vários grupos políticos buscaram um projeto alternativo. Mas, em muitas províncias, o apoio a D. Pedro era frágil. Então, tudo ocorreu de maneira caótica, incerta. Fagulhas de guerra civil se espalharam por todos os lados. Em muitos casos, houve lutas violentas. Em outros, negociação. A guerra na Bahia foi o primeiro confronto que se poderia chamar de nacional, com forças mobilizadas por D. Pedro e por Lisboa. Quando a poeira baixou, paraibanos, cearenses, baianos e mineiros começaram a se identificar como brasileiros.


O que teria acontecido se os partidários de D. Pedro tivessem perdido essas guerras?

Depois da Declaração da Independência, Portugal tentou salvar alguma coisa do território. Naquela época, o Brasil era visto como dividido em duas regiões. O Sul já estava perdido, mas os portugueses ainda nutriam esperanças de recuperar o Norte. Um parlamentar português sugeriu que se fizesse algo parecido com o que ocorreu nos Estados Unidos, em que o Império Britânico logrou manter o Canadá entre suas possessões. No Brasil, a Bahia era o centro estratégico, pois era a transição entre o Norte e o Sul. Se os militares portugueses tivessem vencido as batalhas nessa região, eles poderiam ter permanecido com Pernambuco, Piauí, Pará e Maranhão. O Norte do Brasil se tornaria um país separado e avançar sobre o Sul, na tentativa de retomar tudo. Não foi o que aconteceu. Portanto, pode-se deduzir que nossa independência foi consolidada na guerra. Um desfecho distinto dessas batalhas mudaria radicalmente o rumo da história.

Fonte: Crusoé

domingo, 27 de janeiro de 2019

ENTREVISTA: ANTONY BEEVOR - "AS EXECUÇÕES DE PRISIONEIROS PELOS AMERICANOS É UM ASSUNTO TABU"

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O historiador militar inglês revela em seu novo livro que o exército americano praticava fuzilamentos sumários como os alemães e que a união dos Aliados não impediu que britânicos e americanos discutissem feio


Por Luiz Antônio Giron

História militar é um gênero peculiar de historiografia. O historiador que se dedica ao tema em geral vasculha um número enorme de arquivos e recolhe depoimentos que, aparentemente, não alteram muito a interpretação de fatos do passado bélico. Mas é justamente nesses detalhes que reside a distinção do historiador militar do historiador habitual. Um dado quase imperceptível por estes é capaz de mudar a visão daquele em relação ao tema que pesquisa. 

O inglês Antony Beevor, de 71 anos, é um desses vasculhadores de bancos de dados e bibliotecas capaz até mesmo de inverter a concepção de alguns episódios da Segunda Guerra Mundial. São dele os livros “Stalingrado”, “Berlim 1945: A Queda” e “A Segunda Guerra Mundial”, um dos volumes mais completos e atualizados sobre o tema. Seu novo livro, “A Batalha das Ardenas: A Cartada Final de Hitler”, de 2015, acaba de ser lançado no Brasil pela editora Planeta.

Mais uma vez, Beevor apresenta pequenos grandes detalhes inéditos. A ofensiva que envolveu Aliados e Eixo na tríplice fronteira da Bélgica, França e Luxemburgo, entre dezembro de 1944 e janeiro de 1945, passou à história como uma campanha coadjuvante da tomada de Berlim pelo Exército Vermelho. Beevor demonstra, porém, que a Batalha das Ardenas propiciou o avanço soviético, pois abalou os recursos do exército alemão e eliminou suas reservas de soldados experientes. Não apenas: o autor revela que foi a batalha mais sangrenta no front ocidental, a ponto de ter comprometido a reputação de exército ético alimentada pelos americanos. 

Conforme Beevor, o exército americano fuzilou sumariamente prisioneiros com crueldade semelhante aos inimigos nazistas – estes, sim, já conhecidos pela selvageria.  Nesta entrevista exclusiva, Beevor conta que escolheu as Ardenas como objeto de pesquisa para fazer uma revisão das ideias estabelecidas sobre o episódio. Beevor mostra que é um subversor de noções preconcebidas.


Por que o senhor escolheu a Batalha das Ardenas como o tema?
Havia muitas razões fortes para escolher a ofensiva das Ardenas, em dezembro de 1944, como assunto. Os russos sempre reivindicaram, e fizeram isso novamente no ano retrasado, que derrotaram os alemães por conta própria. Isso não é verdade. A derrota imposta aos alemães pelos americanos arruinou a retaguarda da Wehrmacht e permitiu que o Exército Vermelho logo depois atravessasse o rio Vístula e atingisse o rio Oder em duas semanas. Desnecessário dizer que Stalin tentou afirmar que ele salvou os americanos com sua ofensiva de janeiro.

A história dos combates nas condições de inverno mais severas fez com que muitas pessoas comparassem a batalha com Stalingrado, mesmo que não tenha ocorrido em uma cidade. O exército alemão desprezou os americanos, e cometeu um grande erro. Embora muitos soldados tenham fugido, um número suficiente se manteve tão bravamente que retardou os atacantes. Foi o suficiente para que o general Eisenhower trouxesse reforços em massa e invertesse a situação.

O assunto também é interessante por causa das rivalidades e do mal-estar entre os generais aliados. Por causa da surpresa e do choque do ataque, Eisenhower teve que dar o comando de dois exércitos americanos no flanco do norte ao marechal britânico Montgomery. Embora Montgomery tenha manuseado sua parte da batalha sensivelmente, ele conseguiu indignar os americanos. Seu superior em Londres, marechal Brooks disse uma vez que “nada traz o pior nas pessoas do que o alto comando”. Certamente foi aqui. Montgomery se comportou com tamanha arrogância perante os generais americanos que azedou o relacionamento da Grã-Bretanha com os Estados Unidos por um longo tempo.

Montgomery (ao centro), com seus quatro comandantes de Exército subordinados nas Ardenas: Beevor demonstra que sua arrogância prejudicou a relação entre britânicos e norte-americanos por um bom tempo.


Qual a importância da Batalha das Ardenas hoje?
A importância das Ardenas hoje se refere em parte à questão das relações anglo-americanas, mas também às relações Leste-Oeste e a compulsão do presidente Putin de criar uma lenda de que a União Soviética poderia ter derrotado a Alemanha nazista sozinha.


Que informação não publicada o senhor descobriu durante a pesquisa do livro?
Encontrei muitos dados novos, especialmente sobre as discussões furiosas entre os generais, o sofrimento dos civis e a experiência dos soldados em condições terríveis. Eu também descobri muitos detalhes sobre a execução dos prisioneiros pelos americanos. É  um assunto tabu, que os historiadores evitaram no passado. Porém, os arquivos nos EUA, Alemanha, Bélgica e Grã-Bretanha possuem uma quantidade enorme de documentos fascinantes.


Ao contrário de muitos estudos da Segunda Guerra Mundial, seu livro não se concentra em um conjunto de personagens. Na verdade, parece uma história muito impessoal, baseada em uma grande quantidade de depoimentos. Por que você escolheu essa forma de narrativa?
Meu livro tem muitos personagens e nenhum dos revisores da Grã-Bretanha, da Alemanha ou dos Estados Unidos concorda que é impessoal. O ponto do livro, como todos os meus outros trabalhos, é tentar transmitir, especialmente para uma geração mais nova, como era a realidade daquela guerra para soldados e civis.

O historiador militar Antony Beevor


As Ardenas foram o melhor momento para os soldados americanos na Europa?
Os confrontos nas Ardenas foram, junto com a luta na Floresta de Hürtgen, os piores momentos para os soldados americanos na Europa.


Quais foram os principais erros e acertos entre oponentes?
Todo o plano alemão estava condenado ao fracasso, já que parece ter sido foi inventado por Hitler quando doente de icterícia e sob a influência de drogas. Ele tinha uma visão irremediavelmente otimista daquilo que o exército alemão enfraquecido poderia alcançar. A ideia de abrir caminho até Antuérpia e tomar o principal posto de abastecimento dos Aliados era ridícula. Seus generais sabiam que a operação não tinha chances, mas eles tinham que passar por isso. O plano ocorreu após a tentativa de assassinar Hitler, em 20 de julho, e mostrava que o Partido Nazista e as SS poderiam forçar a nação alemã a lutar até que o próprio Hitler morresse. 

O erro dos Aliados foi achar que a Alemanha não poderia durar muito tempo e seria incapaz de montar um ataque com dois exércitos de tanques e um exército de infantaria, sem que eles percebessem. Seu grande erro foi ver o curso das prováveis ações alemãs pelos olhos de generais racionais, quando na verdade as decisões estavam sendo tomadas por um megalômano.


Há uma diferença sensível entre a quantidade e qualidade dos relatos de soldados americanos, britânicos, russos e alemães na Segunda Guerra Mundial?
Havia uma grande diferença entre unidades de elite e unidades comuns em todos os exércitos. Mas o que é impressionante são as semelhanças entre as unidades comuns. Um estudo britânico de 1943 mostrou que em um pelotão de cerca de 30 homens, três ou quatro enfrentariam os oponentes, um número similar evitaria o combate a todo custo, e o resto seguiria os corajosos se as coisas fossem bem ou fugiria com os outros se as coisas corressem mal.



Se fosse possível escolher apenas um livro da Segunda Guerra Mundial, qual escolheria? E por quê?
É impossível escolher apenas um livro para toda a Segunda Guerra Mundial, mas se eu escolhesse um livro da frente oriental, seria o romance de Vasili Grossman, “Vida e Destino”. É uma homenagem deliberada a Tolstoi. Esse romance é uma espécie da “Guerra e Paz” da era estalinista e daquela guerra.


O senhor já cobriu em seus livros uma boa parte das principais campanhas da frente européia na Segunda Guerra Mundial, com Stalingrado, Berlim, Dia D, Ardenas e Creta. Qual é o próximo?
O meu próximo livro é “Arnhem – A Batalha das Pontes”,  sobre a invasão aérea aliada da Holanda, em setembro de 1944. Era um plano britânico muito ruim e que falhou, fazendo os civis holandeses sofrerem até o fim da guerra com a fome infligida pelos alemães. Em algum momento também poderei abordar Kursk [a maior batalha de tanques da história, ocorrida em julho de 1943, na Rússia].


Como foi o desempenho de vendas de “Berlim 1945: A Queda” na Rússia? Lá eles não gostaram de algumas afirmações suas sobre a tomada da capital alemã, como no caso dos estupros
Eles certamente não gostaram. Sou tecnicamente sujeito a cinco anos de prisão na Rússia se voltar. Provavelmente nada aconteceria, mas não vale a pena correr o risco.

Fonte: Isto É


quinta-feira, 22 de junho de 2017

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE CORAGEM POR TRÁS DE UMA FOTO

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35 anos atrás, dois torpedos do submarino nuclear britânico HMS Conqueror feriram fatalmente o cruzador argentino ARA General Belgrano. E levaram para o fundo do oceano 323 vidas. Esta é a história heroica dos dois últimos membros da tripulação que deixaram o navio, minutos antes de afundar para sempre em um mar revolto


Por Gaby Cociffi

Dois homens na popa do navio afundando. Eles seguram na balaustrada em cima de um mar tempestuoso. Eles são os últimos restantes do gigante ferido de morte.

Abandono o navio ou não?, pergunta o comandante capitão Héctor Bonzo.

Uma voz o surpreende atrás dele, pois pensava que estava sozinho no navio. Ele não reconhece o estranho contido na névoa. O homem grita:

Se não pular, eu também não vou! Eu vou ficar com você, Capitão!

São 16h35 de 2 de maio de 1982. Trinta e quatro minutos mais cedo, a partir das profundezas do mar do sul, o operador do submarino britânico HMS Conqueror lançou a pergunta que iria selar o destino do cruzador General Belgrano. — Devemos afundá-lo?

A resposta é dada em segundos a 12.489 quilômetros entre o Reino Unido e as Ilhas Falkland. O Capitão Richard Hask, da Força Tarefa, é aquele que transmite a ordem implacável de Margaret Thatcher, a primeira-ministra britânica.
— Disparem e afundem.

O cruzador ARA General Belgrano fotografado antes da guerra


Às 16h01 o primeiro torpedo Mk.8 atravessa a proa do navio, que navega a 30 milhas da zona de exclusão imposta pelos britânicos. Perfura os quatro conveses verticalmente. A água entra em todos os compartimentos. Apenas alguns segundos depois, o segundo torpedo acerta a popa.

O cruzador está inclinado para bombordo, o fogo surge das suas entranhas. Há gritos. E depois um silêncio ensurdecedor que dói. A partir da ponte, e com um megafone, o capitão Bonzo — 23 minutos após o primeiro impacto, dá a ordem: “Abandonem o navio”. Setecentos e setenta homens alcançam as balsas. Trezentos e vinte e três encontram o seu destino final no oceano.

Como ainda não foi para uma das balsas!? O que você está fazendo aqui se não há mais ninguém!?” Bonzo repreende a figura irreconhecível, coberta da cabeça aos pés com uma capa de chuva e uma balaclava cinza, que se recusa a deixar o navio. O homem que grita “Não há tempo, capitão! Você deve abandonar o navio!” está determinado a impedir que o comandante atenda à lei marinheira de ir para o fundo com o seu navio.

Às 16h01 o submarino britânico HMS Conqueror disparou o primeiro de dois torpedos Mk.8 que acertaram a proa e a popa do Belgrano. A imagem surpreendente foi tomada pelo primeiro tenente Martín Sgut, que estava em uma das balsas


Ali, de frente para o mar, para mim era mais difícil viver do que morrer”, confessou anos mais tarde o comandante do Belgrano.

Eu vi o capitão com essa atitude de afundar com o navio, e não permitiria”, explica calmamente da província de Catamarca, 35 anos depois da tragédia, o suboficial Ramón Barrionuevo, como se não tivesse conhecimento do seu ato de heroísmo. “Eu sou aquela figura que você vê na imagem, lá no convés. Fui inflar o colete do Capitão”, diz ele humildemente.

E se o capitão não pulasse, você estava disposto a ir para o fundo com o navio?

Não sei. Nós iríamos ter uma longa discussão. Eu não deixaria meu comandante sozinho no Belgrano. Porque o que estávamos vivendo lá era o pior inferno.

Com emoção, Ramón Barrionuevo — nascido em Piedra Blanca em 17 de fevereiro de 1947, filho de Gerardo, pedreiro, e Antonia Sánchez, costureira, recorda o momento em que ele viu o mar engolir o gigante de 185,5 metros. Nomeia um por um seus companheiros mortos. Lembra do Capitão Bonzo, que morreu em 2009. E se desculpa quando surgem lágrimas incontroláveis.

Desgastada pela ação do tempo, esta é a única foto do suboficial Ramón Barrionuevo junto do capitão Héctor Bonzo (em trajes civis).


Vamos ouvi-lo.

A mim cabia dar o serviço das 4 às 8h e de 16h às 20h. Eu guarnecia o compartimento de controle de cobertura de artilharia 03 no topo do navio, logo à frente do comando. Em 2 de maio, saí do meu camarote às 3h45 para dar tempo de receber informações do meu colega Juan Carlos Córdoba, e assumir o posto às 16h. Juan me passou os dados das armas carregadas, as pessoas que estavam prontas e a posição do navio. Cumprimentei-o como em qualquer dia. E ele foi para o nosso camarote na popa para descansar. Ali foi onde o segundo torpedo acertou. Eu não o vi mais.”

Às 16h01 veio o primeiro torpedo. O barulho era tremendo. O navio balançou. Eu estava sentado num banco e caí. Era como se o navio tivesse afundado debaixo dos meus pés. Eu já tinha 35 anos de idade e 14 de serviço, era especialista em armas, eu sabia que tínhamos sido torpedeados.”

“Um vigia que estava com binóculos viu o rastro na água e conseguiu gritar… ‘Torpedo!’ Abri a porta da sala de controle e o segundo impacto atingiu a popa, mas eu não pude senti-lo, talvez por causa do nervoso ou por causa da fumaça da primeira explosão, que cobriu o meu convés”.

“Eu ouvi os gritos das pessoas que estavam se queimando. Desci do terceiro convés, e eu estava carregando comigo toda a tripulação que estava no caminho. Podia ver o medo dos jovens, tentando manter a ordem. Foi um inferno“.

Dos 1093 tripulantes do navio, 770 salvaram-se nas balsas, 323 pereceram no mar


“As pessoas começaram a pular direto para as balsas porque o navio começou a inclinar cada vez mais. O vento era muito forte e as balsas batiam contra o costado do navio. Alguns foram levados em direção à proa, onde as chapas abertas afiadas as partiam ao meio. Eu vi a corrente da âncora arrastando para o fundo do oceano uma balsa com toda a tripulação dela. Ninguém pode ser salvo“.

“No convés vi o comandante Bonzo com uma faca de cozinha tentando cortar uma corda para liberar uma balsa. Se ela caísse, poderia arrastá-lo e ele não teria força para suportar o peso. Perguntei. .. ‘O que está fazendo comandante?’. Ele sabia o perigo, mas queria colocar o máximo de balsas no mar.”

“Bonzo ordenou-me a deixar o navio e eu me recusei, em seguida, olhou para mim e disse … ‘Ajude-me a ver se há mais alguém, se tem alguém ferido’, com o convés do navio quase tocando o mar, entravam toneladas de água…”.

“Eu não quero nunca mais ver na minha vida o que eu vi naquela tarde no Belgrano. Houve um marinheiro com o corpo completamente queimado, gravata e punhos da camisa estavam colados à pele, carbonizada. A pele escamosa, carne viva. Nos pediu para jogá-lo na água. Se ele caísse no mar, com o corpo queimado não teria sido capaz de sobreviver. O descemos cuidadosamente com uma corda feita com as roupas de cama que foram deixadas no convés pelos marinheiros que estavam em sua hora de descanso quando começou a tragédia”.

Às 16h50, o cruzador está inclinado a 60 graus. O Belgrano levou menos de uma hora para afundar. Sem sonares para detectar submarinos, navegava na companhia dos destróieres Bouchard e Piedrabuena que tinham o equipamento


“De repente, um rapaz veio chorando … ‘Me ajude, me ajude’, tapava o rosto com as mãos. Separamos suas mãos e a pele descascando grudou às palmas e começou a sangrar muito. Eu lhe dei um lenço para estancar o sangue. Saímos para uma balsa. E eu não o vi mais. Meses depois, em julho de 1982, eu fui para o hospital Azul, na província de Buenos Aires. E vi que alguém estava me chamando. ‘Suboficial Barrionuevo! eu tenho algo para dar lhe devolver’. “Eu não o reconheci até que ele me trouxe o lenço. Você não sabe a emoção que senti! ele estava vivo!”.

“Com o capitão Bonzo percorremos o convés para ter certeza de que ninguém tinha sido deixado para trás. Eram 16h38 e o navio estava muito inclinado. As pessoas das balsas gritavam para saltarmos na água, porque o navio afundava.”

“Fomos até a proa ali eu notei o capitão em dúvida. ‘Se você não pular, eu vou ficar também’, lhe disse. Ele olhou para mim. O Belgrano se inclinava cada vez mais. Me mandou: “Pule e eu lhe sigo”.

“Antes de saltarmos, inflei o colete salva-vidas dele. Nós amarramos lençóis como um cinto para podermos deslizar para baixo. Tiramos os sapatos para nadar melhor, e guardamos as meias nas calças. Eu saltei do topo do navio, que no momento estava a cerca de 4 metros do mar, porque o vento nos impedia de descer do lado onde o convés quase tocava a água.”

“Eu pulei na água e não senti frio, era tão grave a situação que estávamos vivendo, que havia bloqueado os meus sentimentos. Eu comecei a nadar para longe do navio, porque se ele afundasse ele iria me arrastar. Não vi mais o Bonzo, eu o perdi no oceano“.

“O navio fez um movimento, re-emergiu da água e finalmente afundou verticalmente. Em baixo dágua as caldeiras explodiram e criaram um redemoinho gigante de água “, lembra Barrionuevo


“As ondas eram enormes. Eu vi as balsas subir e descer, tremendo como cascas de nozes. De repente, veio em minha direção uma a toda velocidade empurrada pelo vento. Nadei e eu agarrei como pude. O impacto me tirou um dedo do lugar: foi a primeira vez que senti dor. Quando cheguei na balsa, comecei a tremer, era como se mil agulhas fossem pregadas no meu corpo. Eu estava congelando”.

“Olhei para fora e vi o naufrágio do navio. Foi triste ver como tal massa foi engolida pelo mar. O navio fez um movimento, re-emergiu da água e finalmente afundou verticalmente. No mar as caldeiras explodiram e fizeram um vórtice gigante de água. A última coisa que vi foi o guardabote, uma vara de 6 metros que veio à tona e flutuava no oceano. O povo gritou … ‘Viva o cruzador, viva o Belgrano, viva la Patria!’. Eu não sei de onde nós tivemos forças.”

“As balsas foram amarradas umas nas outras, para formar uma grande mancha no mar para que uma aeronave de salvamento pudesse nos encontrar. Mas as ondas eram tão altas que nós tivemos que cortar as cordas, porque as balsas pareciam que iriam se rasgar. E ficamos sós, à deriva”.

“As balsas eram para 20 pessoas, algumas tinham mais gente, outras menos. Estavam bem equipadas: sachet de água, rações alimentares (muito calóricas para ter uma porção por dia), cigarros, uma pequena Bíblia, kit de curativos, pomada, calmante, equipamentos de sinalização SOS”.

“Na minha balsa tinham 20. Havia pessoas com mãos queimadas, joelhos quebrados e outro que tinha sido operado do apêndice há três dias e não aguentava mais de dor. Eu tentei dar-lhe incentivo e calma. Um tenente começou a ler parágrafos da Bíblia. A palavra de Deus trouxe a paz em meio à tempestade.”

“Passamos mais de 48 horas à deriva. Pensei que não nunca seríamos encontrados. Eu sabia que a união dos dois oceanos puxa para o sudeste e em algum momento o mar nos arrastaria e nós iríamos morrer. Olhei para os meus companheiros e eu pensei, ‘estamos todos mortos’, mas não disse nada a ninguém. Eu lembrei dos meus quatro filhos pequenos e pedi a Deus para cuidar deles e eu orava à Virgem del Valle: …‘Mãe, eu só peço para não sofrer’“.

“Quando você está à deriva, tem que comer e beber o mínimo possível até não conseguir mais, porque não sabe quanto tempo você estará bem. E não sabíamos mesmo se estavam nos procurando. Quando fomos resgatados, tínhamos acabado de comer 20 porções e tínhamos bebido um sachê de água”.

“Durante o dia, conversávamos sobre suas namoradas, sua família, sua idade. Até mesmo os fazia rir. Tinha que mantê-los acordados, com o espírito alerta. Um rapaz entrou em colapso nervoso. E eu tive que dizer: ‘Se você não se acalmar, vamos jogá-lo na água, porque o pânico é contagioso e se você continuar assim estamos todos mortos.’”

O resgate das balsas. Elas ficaram mais de 48 horas à deriva num mar agitado, com ventos de 120 km por hora

“Quando você está na balsa você não dorme … A escuridão do mar é absoluta e tremenda e o que existe é o nada. Quando amanhecia, continuávamos com a incerteza. ‘Somos uma só balsa no mar … ela não pode ser vista por ninguém … e o inimigo está lá fora’.”

“De repente, quando já não esperávamos nada, em 4 de maio ouvimos o ruído do motor de um avião. Era um A-4Q da Armada! Nós não sabíamos se tinham nos visto … Foi um tempo quase eternal — até que começamos a ver, no meio da tempestade, as luzes de um navio apontando para o céu e depois para o mar, sacudido pelas ondas enormes. ‘Estão nos procurando!’, gritei. E o ânimo mudou.”

“Esquecemos o frio, a sede, a fome e começamos a organizar o resgate. Em meio ao mar mais revolto que eu já vi, apareceu o Gurruchaga“.

“Nós fomos resgatados. O barco estava lotado porque eles tinham resgatado outras balsas do Belgrano. Tiraram nossas roupas geladas e duras de sal e nos deram um caldo quente. Éramos tantos que acabaram os alimentos. O cozinheiro fez um pouco de pão com farinha e água. Nos acomodamos no convés como pudemos, e nos envolveram com cobertores.”

A imprensa argentina noticia a tragédia do Belgrano


“Quando entramos no Canal de Beagle, o Gurruchaga parecia uma coqueteleira. No meio das pessoas, apareceu um cabo gritando meu nome …. ‘Barrionuevo, está aqui o Barrionuevo?’ Me identifiquei. Eram 6h da manhã. ‘O capitão Bonzo está no barco e está lhe procurando, quer falar com você’, me disse. Eu não sabia que ele tinha sobrevivido, e ele não sabia se eu estava vivo … mas estava procurando.”

“De repente, a porta se abriu e apareceu o capitão. Ele andou até onde eu estava firme, esperando por ele. Ele esqueceu a hierarquia, a saudação formal. Nos demos um abraço eterno. Todo mundo começou a aplaudir. ‘Já vamos falar sobre isso que aconteceu’, me disse. E choramos abraçados. Antes de sair, ele sussurrou para mim: ‘Obrigado, obrigado.’“

“Nos encontramos muitas vezes ao longo destes 35 anos. Mas nós nunca mais voltamos a falar sobre aquela noite dramática em que nós éramos os últimos homens agarrados ao navio afundando para sempre nas profundezas do mar austral”.

Fonte: Infobae


terça-feira, 2 de agosto de 2016

"EUA QUERIAM QUE BRASIL PARTICIPASSE DA OCUPAÇÃO"

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Historiador americano Frank McCann afirma que, após fim da Segunda Guerra, Aliados pediram presença brasileira na Áustria. Convite, porém, não teria sequer chegado a Getúlio e acabou discutido apenas a nível militar. 


Por Clarissa Neher

No fim da Segunda Guerra Mundial, o Brasil foi convidado por Estados Unidos e Reino Unido para participar da ocupação da Áustria. Essa eventual participação, afirma o historiador americano Frank McCann, poderia ter mudando a posição geopolítica brasileira no mundo.

Em entrevista ao jornal DW, McCann diz que os motivos que levaram à recusa do convite ainda são uma incógnita. Baseado em suas pesquisas, porém, ele aposta que a proposta sequer chegou a Getúlio Vargas e acabou discutida apenas a nível militar.

"Havia 10 mil homens brasileiros que não lutaram, que não estavam exaustos e poderiam ter sido colocados em caminhões e levados para a Áustria, que não é muito longe. Eu diria que eles tinham capacidade de participar da ocupação e tinham homens para isso", frisa.

O historiador Frank D. McCann


Qual foi o peso da participação da FEB na Segunda Guerra Mundial?
Frank McCann: O Brasil tinha uma divisão pequena na guerra, com 25 mil pracinhas, pouco em comparação com outros países. Mas foi muito importante, por ter sido a primeira vez que o Brasil esteve envolvido em uma guerra fora do seu território. Isso mudou sua posição no mundo e também entre os Aliados. Além disso, foi muito importante para o país em termos de orgulho.

Em sua pesquisa, você afirma que os americanos convidaram o Brasil para participar da ocupação da Áustria. Como esse convite foi feito?
Eu pesquisei em arquivos americanos e encontrei pouca coisa sobre isso, quase nada. O que temos são os testemunhos de pessoas que estavam na Itália, diplomatas brasileiros e também de militares americanos e britânicos, que em cartas falavam sobre esse convite.

Por que foi feito o convite?
Os americanos e britânicos precisavam de tropas, era uma questão de números. Na época dessa conversa, a guerra já tinha acabado na Europa, mas ela ainda não tinha acabado no Pacífico. As tropas americanas na Itália foram enviadas ao Pacífico. Os americanos e britânicos estavam preocupados em ter tropas suficientes lutando nessa região, e a ideia de enviar homens para ocupar a Áustria não parecia muito lógica. Porém, eles precisavam de outros que pudessem fazê-lo, e o Brasil estava lá e tinha tropas, fazia sentido perguntar.

E qual foi a reação dos brasileiros ao convite?
Imediatamente o Brasil, na pessoa do tenente-coronel Castelo Branco, que era o chefe da seção de operações da FEB na Itália, se opôs ao convite. E, aparentemente, Mascarenhas de Morais [comandante da FEB na Segunda Guerra] também se opôs. Eu vi uma carta que ele escreveu a Dutra na qual fala que as tropas brasileiras não estavam equipadas de maneira apropriada para participar da ação. Na verdade, isso foi muito estranho.

Por quê?
A decisão não é uma questão militar, mas sim política. Deveria ter sido uma decisão política, mas eu não sei se o convite chegou a ser debatido politicamente. Eu não encontrei nada nos arquivos de Getúlio Vargas indicando que ele foi consultado sobre o tema. Não foi uma decisão do governo, isso implicaria que os ministros e o presidente tivessem sido envolvidos. Foi uma decisão militar.

Há indicações dos motivos que levaram os militares a rejeitar a ocupação?
Parece que a decisão foi fortemente influenciada pelo que Mascarenhas estava pensando. Mas eu não posso afirmar por que isso ocorreu. No entanto, é possível que Mascarenhas e sua equipe estivessem exaustos, eles fizeram tudo que podiam fazer e talvez isso tenha sido tudo que podiam fazer.
Mas os oficiais americanos queriam que eles participassem da ocupação. E isso era uma coisa diferente do que a FEB estava fazendo. Parece que Mascarenhas acreditava que suas tropas não tinham sido apropriadamente treinadas para uma ocupação.

Tropas brasileiras na Itália, durante a 2ª Guerra Mundial


Com base nas suas pesquisas, você acredita que o Brasil tinha condições de participar da ocupação na época?
Não posso dizer com certeza, mas a FEB tinha 25 mil pracinhas na Itália em 1945, sendo que 15 mil participaram de batalhas e outros 10 mil ficaram apenas em treinamento. Havia 10 mil homens que não lutaram, que não estavam exaustos e poderiam ter sido colocados em caminhões e levados para a Áustria, que não é muito longe. Eu diria que eles tinham capacidade de participar da ocupação e tinham homens para isso.

A recusa de ocupar a Áustria foi uma decisão acertada dos militares?
Politicamente essa não foi uma decisão boa, porque isso teria mudado o status do país. O Brasil de aliado passaria a fazer parte das forças de ocupação. Em uma conversa que li, Castelo Branco diz a um oficial americano que eles não eram parte do Conselho de Controle Aliado [EUA, Reino Unido, URSS e França]e por isso não deveriam participar da ocupação. Eu não entendo essa lógica, mas eu não sei o que ele estava pensando, e se ele realmente pensava assim ou se apenas seguiu Mascarenhas.

Quais foram as consequências dessa decisão para o Brasil?
Não sabemos o que poderia ter acontecido, mas eu acho que poderia ter aumentado o prestígio brasileiro. Poderia ter mudando a discussão sobre uma cadeira permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Talvez eu esteja indo longe demais, mas certamente teria aumentado o prestígio brasileiro e poderia ter sido suficiente para o país ganhar a cadeira no Conselho. Mas isso poderia ser difícil, porque os britânicos e os soviéticos se opuseram à presença brasileira no Conselho.

Quais outras áreas teriam se desenvolvido de outra forma se o Brasil tivesse tomado uma decisão diferente?
Provavelmente teria mudando a relação brasileira com a União Soviética. Eles teriam mais contato direto com as tropas russas, pois a Áustria fazia fronteiras com regiões ocupadas pelos soviéticos. Então a natureza das relações entre soviéticos e brasileiros seria diferente, mas, de que forma, eu não sei dizer.

Fonte: DW


sábado, 25 de junho de 2016

ENTREVISTA - REPRESENTANTE DO GOVERNO PARAGUAIO FALA SOBRE 150 ANOS DA GRANDE GUERRA E DOR DE TODO UM PAÍS






Rocio Ortega esteve em Campo Grande para evento sobre os 150 anos da Guerra do Paraguai


Representando a Secretaria Nacional de Cultura do Paraguai, Rocio Ortega, é assessora da comissão do senado que criou a lei 5.529/2015, que instaurou a Comissão Nacional para a Comemoração do Sesquicentenário da Epopeia Nacional, que tem o objetivo de estabelecer ações que expressam uma política nacional de comemoração em lembrança aos 150 anos desde a Guerra do Paraguai, e contribuir para a reafirmação de uma nação heroica, livre e independente.

A comissão foca no desenvolvimento de uma agenda de trabalho que inclui, entre outras coisas, a análise da abordagem educacional da Tríplice Aliança em diferentes países, a reedição de materiais de biblioteca alusiva ao tema, a valorização dos sítios e ações históricas, além de outras ações que envolvam a população para resgatar o sentido das comemorações, respeitando a memória coletiva do povo.

Em Campo Grande, Rocio Ortega apresentou o livro ‘Más Allá de la Guerra’, em português, ‘Mais Além da Guerra’, durante o III Encontro do Grupo de Pesquisa Historiografia e Ensino de História, realizado na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), relembrando esse momento importante na história do Brasil e Paraguai. Leia a entrevista, na íntegra:

Do que se trata o projeto e como ele surgiu?

Para recordar 150 anos desta guerra e iniciativa da secretaria nacional da cultura para consagrar as políticas públicas paraguaias e pensamos no projeto além da guerra, que começou a tomar forma em 2014, que se instalou como um projeto do Mercosul cultural e que foi acertada durante uma reunião de ministros da cultura do Mercosul. E aí no ano passado saiu essa lei 5.529. Isso para incentivar uma série de ações, com vigência até 2020, que se cumprem 150 anos, cobrindo os cinco anos que correspondem as recordações.

Esse trabalho é mostrar além da guerra, como o próprio título explica. Além de uma data precisa, além de uma estratégia militar, além da quantidade de mortos, isso é a história da guerra, que pretende ir a uma memória maior. Por exemplo, qual foi o impacto social ao povo paraguaio e o que isso influi na sua relação com outros países.

Porque consideramos que a guerra resulta em uma memória que se fragmenta e se traduz em muito sentimento, que o Paraguai principalmente ainda sente muito, não terminou de compreender e, portanto, não terminou de perdoar seus agressores. Então é muito facilmente observado quando estamos em um momento político complicado, em que o Paraguai tem uma reação complicada.

Precisamos perdoar o agressor, nos integrar mais no mercado do Mercosul. Essa ferida não é curada se essa memória não for compreendida.  Consideramos que a guerra foi a última estratégia de fragmentação da colônia, porque havia muito medo que ficássemos todos juntos, porque juntos éramos uma força muito grande e, na época, muito perigosa. Então a guerra foi parte de uma estratégia para deixar fragmentada a América do Sul, e isso resultou em muita dor para o Paraguai.

No Brasil é mais esquecida a memória da guerra?

Acho que sim, porque o brasileiro recorda apenas que foi um fato na região de fronteira. Além de outras regiões que não são da fronteira, há alguma memória material em São Paulo ou Rio de Janeiro, mas não muito além. Na maior parte das outras regiões do país ninguém sabe o que aconteceu, não é difundido.

E como é revivida essa lembrança no cotidiano paraguaio? As escolas dão forte ênfase nesse capítulo do país? No Paraguai, esse é um dos principais elementos presentes nas aulas de história nas escolas, o discurso da nacionalidade é muito mais presente. Você não é paraguaio se não sabe da guerra da trípice aliança. Você não é paraguaio se não se relaciona com as histórias de quem o feriu, é sempre lembrado que o brasileiro nos ficou cerceando após a guerra, a todo tempo é incentivada essa lembrança para que se fique, de certa forma, bravo com seus vizinhos. É um sentimento muito, muito forte. Para o paraguaio médio, por exemplo, ir a uma partida de futebol contra o Brasil é quase como ir à guerra novamente.

Existe certo preconceito, talvez, um bairrismo de brasileiros com paraguaios. Você vê isso como reflexo daquela época também?

Não, acho que não precisamente da guerra, pois o Brasil tem uma extensão quase continental, é natural que ele se sinta maior, superior a países menores. Nem mesmo comercialmente, é mais uma questão cultural e relacionada mais com o funcionalismo paraguaio, que deve partir de nós. Porque senão o paraguaio vai ficar em paz para fazer os seus verdadeiros laços de amizade e colaboração, porque esse discurso de embate está muito presente nos discursos referentes às relações exteriores.

Se você fala isso que estou falando dentro de um curso de relações internacionais no Paraguai, vão lhe tratar como uma espécie de traidor da pátria. Mas não é isso, apenas é fundamental que a história seja desmontada e compreendida novamente.

Existem algumas teorias da filosofia que dizem que não se termina a dor da pessoa que carrega melancolia, e a melancolia é uma tristeza profunda que não lhe permite avançar. Isso passa dos mais velhos aos mais jovens e há uma noção geral de que paraguaios são vítimas, como ‘eu sou pobre porque fui traído pelos meus vizinhos, me levaram tudo e mataram todos, o país perdeu suas riquezas’. Esse é um discurso que comumente justifica certo retrato do país.

Como foi feito o trabalho desse projeto, especificamente do livro?

O livro não é a primeira ação do projeto, mas o primeiro objeto. Foram impressos mil exemplares primeiramente, que já acabaram e foi necessária uma segunda impressão. Ele é distribuído gratuitamente e é uma coletânea de 12 artigos que compreendem vários aspectos diferentes sobre a guerra, a partir de estudos feitos por historiadores, pesquisadores. São observados essencialmente três eixos fundamentais, o político, econômico e social daquele tempo, quando estavam nascendo os países sul-americanos como nações independentes.

Para o Paraguai, isso significou a destruição de uma incipiente configuração de estado Alguns capítulos tratam sobre o recomeço das instituições econômicas, a entrada e a proibição da entrada do capital estrangeiro no Paraguai, como foi com a França por muitas décadas. Se fala também sobre a entrada de grandes empresas estrangeiras no país, que compraram grande latifúndio, que resultou na pobreza do povo camponês, que era proprietário dessas pequenas terras e perdeu-as. Também consta a participação do povo indígena na guerra, qual foi o papel.

Há capítulos também que tratam das consequências da guerra em instituições sociais e no imaginário simbólico do povo, que é como o povo pensa sobre isso e expõe sua nacionalidade.

Foi difícil ter acesso a arquivos sobre a guerra? Muito do que foi registrado foi perdido ou houve reocupação em se conservar acervos?

Muita memória foi apagada, mas temos muitos documentos ainda, a vontade e abertos ao acesso. Porém, a vontade de trazer isso a tona. Os primeiros historiadores políticos não construíram artigos a partir dos arquivos nacionais, e não uma história rica acadêmica. Hoje, historiadores estão indo mais frequentemente a essas fontes certas.

Que outros reflexos da história deixaram o povo paraguaio com esse sentimento  de melancolia mais forte?

A cultura, logicamente, se fortalece quando a mulher sobrevive como a reprodutora dessa cultura, mas foi entregada como moeda de câmbio para outras nações. Houve uma grande imigração de estrangeiros, italianos e espanhóis, para tentar se apagar a identidade do paraguaio, de iniciativa do próprio governo paraguaio. Se proibiu o uso do guarani, nas ruas e nas escolas, porque a condição não era só terminar com as raízes e servir ‘dominadores’, países mais fortes, mas de maneira forçada. Há muitos registros que essas mulheres, abortavam muito, isso é muito forte.  Havia um preconceito enorme com o nosso sangue.

Porém, a mulher do Paraguai era obrigada a ter o filho, mas ele ficava no colo dela. Então o espanhol acabava falando guarani e entrando dentro do universo simbólico paraguaio que envolve a linguagem. Aí nasce o forte sentimento de nacionalidade, porque apesar de ter sangue mestiço, sua história é ali.

Quais as ações futuras do projeto?

Pretendemos fazer não somente mais livros, em português, guarani e castelhano, mas filmes, livros didáticos para escolas, restauração de locais históricos e monumentos, e até mesmo compra de coleções paraguaias que estão no exterior e que devem estar no Paraguai. Temos muitas coisas que queremos fazer.

Fonte: Topmídianews. Entrevista concedida a Amanda Amaral.


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