"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



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sábado, 10 de julho de 2021

A BATALHA DO LAGO REGILO (c.496 a.C)

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A Batalha do Lago Regilo foi uma lendária vitória romana sobre a Liga Latina logo depois da fundação da República Romana. 


Os latinos eram liderados pelo já idoso Tarquínio Soberbo, o sétimo e último rei de Roma, deposto e expulso em 509 a.C., e seu genro, Otávio Mamílio, o ditador de Túsculo. A batalha foi a última tentativa dos Tarquínios de voltarem ao trono de Roma. Segundo a lenda, Castor e Pólux lutaram pelos romanos nesta vitória. A ameaça de uma invasão de Roma pelos seus antigos aliados no Lácio levaram à nomeação de Aulo Postúmio Albo como ditador. Ele escolheu Tito Ebúcio Helva para ser seu mestre da cavalaria.

O ano exato no qual a batalha ocorreu é incerto e já era assim nos tempos antigos. Lívio localiza a batalha em 499 a.C., mas afirma que algumas de suas fontes também sugerem que ela pode ter acontecido no ano do consulado de Postúmio em 496 a.C. A outra principal fonte para este período, Dionísio de Halicarnasso também concorda com esta data. Autores modernos também já sugeriram 493 a.C. ou 489 d.C.

O Lago Regilo ficava no centro de uma cratera vulcânica, entre Roma e Túsculo, e foi drenado no século IV a.C.. Segundo Lívio, os volscos, uma tribo vizinha que habitava a região ao sul do Lácio, havia mobilizado um exército para ajudar na luta dos latinos contra Roma, mas a pressa do ditador romano em se engajar rapidamente no combate fez com as forças volscas chegassem atrasadas.

Condições atuais de um dos possíveis lugares onde o Lago Regilo (Cratera Prata Porci, Monte Compatri) se localizava


Choque de forças

O ditador Postúmio liderou a infantaria romana e Helva, a cavalaria. Tarquínio estava com seu último filho ainda vivo, o primogênito Tito Tarquínio. Conta-se que a presença dos dois aumentou ainda mais o fervor dos romanos no combate.

Logo no início, o rei foi ferido ao tentar atacar Postúmio. O mestre da cavalaria atacou Mamílio e os dois foram feridos, Ebúcio no braço e o ditador latino, no peito, e acabou obrigado a se afastar do combate e comandá-lo à distância. Os soldados do rei, incluindo muitos romanos exilados, começaram a levar vantagem sobre as forças republicanas e os romanos sofreram um revés quando Marco Valério Voluso, cônsul em 505 a.C., foi morto por uma lança enquanto atacava Tito Tarquínio, mas Postúmio engajou sua própria guarda pessoal na luta e progresso inimigo foi interrompido.

Reprodução de moeda que homenageia Tarquínio Soberbo

Enquanto isso, Tito Hermínio Aquilino, famoso por ter lutado ao lado de Horácio Cocles na Ponte Sublício e cônsul em 506 a.C., atacou Mamílio e o matou; porém, ele próprio foi morto por um dardo enquanto tentava retirar os espólios de seu inimigo vencido. Como o resultado da batalha ainda era duvidoso, Postúmio ordenou que os cavaleiros desmontassem para lutar a pé, forçando os latinos a se retirarem, o que lhes permitiu capturar o acampamento latino. Tarquínio e o exército latino abandonaram o campo de batalha e o resultado foi uma vitória decisiva para os republicanos. Postúmio e seu exército voltaram para Roma e o ditador celebrou seu triunfo sobre os latinos.

Uma lenda muito popular conta que os Dióscuros, Castor e Pólux, lutaram com os romanos na forma de dois jovens cavaleiros. Postúmio ordenou então a construção do Templo de Castor e Pólux no Fórum Romano, no exato local onde os dois teriam dado de beber aos seus cavalos. 


Consequências

Depois desta vitória, um tratado conhecido como "Foedus Cassianum" ("Tratado de Cássio") firmou uma aliança entre romanos e a Liga Latina. O tratado foi batizado em homenagem ao cônsul Espúrio Cássio. 

Este conflito marcou um ponto de inflexão no qual Roma tornou-se o poder dominante no Lácio, embora ainda reconhecesse a autonomia e independência de várias cidades-estado latinos. Ele estipulava que os latinos deveriam prover aliança militar aos romanos no caso de ameaças externas e que quaisquer exércitos mobilizados para este fim seriam comandados por romanos. Também legalizou o casamento entre cidadãos romanos e latinos, um antigo ponto de disputa, e recobrou o comércio da região.



sábado, 15 de maio de 2021

BATALHA DE SAMARRA (363)

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A batalha foi travada em junho de 363, após a invasão da Pérsia Sassânida pelo imperador romano Juliano. Os romanos, isolados no território persa e sofrendo com a falta de suprimentos, foram forçados a aceitar termos de paz, depois da morte de Justiniano em combate.


O imperador Juliano invadiu o Império Sassânida com uma força de 95.000 homens, na esperança de sua vitória mudar o equilíbrio de poder no leste, onde os romanos haviam sofrido recentes reveses sob Constantino II, e talvez substituir o xá Shapur II por seu irmão Ormisdas. Juliano, porém, cometeu dois erros de erro no início da invasão: dividiu sua força em duas, uma sob o comando de seu primo Procópio, com 30.000 homens, mantendo ao norte da Mesopotâmia um total de 65.000 homens sob sua própria liderança. Seu segundo erro foi não derrotar o principal exército sassânida antes de atacar a capital, o que acabou por levar ao fracasso da expedição em 363. 

Moeda romana com a efígie do imperador Juliano

Juliano obteve uma vitória tática em Ctesifão, capital do Império Sassânida, mas não conseguiu tomar a cidade. Pior ainda, Procópio falhou em se juntar a ele com seu exército, devido à traição de Arshak II, rei cristão da Armênia, que apoiou os movimentos do contingente do norte. Juliano, então, despachou a frota que ele trouxera rio abaixo até Ctesifão, deixando para trás grande parte da bagagem que não podia ser transportada. Ele então dirigiu sua marcha para o interior, no coração dos domínios de Shapur, na esperança de forçar uma batalha. Vários dos escritores cristãos que relataram os eventos, assim como o historiador Ammianus, culparam essa decisão pelos desastres subsequentes. 

O absolutista Shapur implementou uma política implacável de devastação do solo, queima de colheitas, residências e provisões onde quer que os romanos dirigissem sua marcha, para que o exército logo se estreitasse por falta de sustento. Juliano, percebendo que seu exército não poderia ser reabastecido ou reforçado, tentou forçar uma batalha com seu inimigo, mas Shapur o iludiu, e seus guias apenas desorientaram e confundiram os passos dos romanos.

Soldados do Império Sassânida

Assim, foi tomada a relutante decisão de recuar pelo distrito de Corduene, ao norte, onde havia esperança de encontrar suprimentos adequados.  Após alguns dias avançando pelo país inimigo, apesar de derrotar as escaramuças persas e infligir pesadas perdas na Batalha de Maranga, o exército desmoralizado, que pretendia derrubar a monarquia persa, estava com suas provisões quase esgotadas e extremamente desgastado pelo clima quente e pelos contínuos combates.

Depois de três dias tranquilos, o exército romano foi emboscado durante seu cauteloso avanço em formações quadradas pelo país ao sul da cidade de Samarra. A batalha começou como uma escaramuça persa, contra a retaguarda da coluna romana. Um grande corpo de cavalaria e de elefantes de guerra caiu no centro da ala esquerda romana, comandada por Anatólio. De acordo com a narrativa de Ammianus Marcellinus, Juliano se apressou a reunir suas forças contra os persas, sem usar sua armadura, que ele havia removido devido ao calor. Ele conseguiu elevar seu moral e repelir o ataque principal do inimigo à esquerda, mas sua guarda pessoal foi dispersada durante os combates e Juliano foi atingido por uma lança, que penetrou em seu fígado. O imperador mortalmente ferido caiu do cavalo e foi retirado do campo de batalha inconsciente. 

A luta continuou inconclusa até que a escuridão da noite pôs fim à luta. A ala esquerda do exército romano foi derrotada e Anatólio morto. Mas, em outros lugares, os persas foram derrotados, seus elefantes e tropas maciças de cavalaria dispersados e seus generais nobres mortos.  De acordo com a versão, os romanos podem ser considerados vitoriosos, ou derrotados pelas forças persas. 

Juliano morreu em sua tenda, à meia-noite, com seus oficiais reunidos ao seu redor, em decorrência do ferimento recebido. Libânio, em suas orações em comemoração à vida e às obras do último imperador romano pagão legítimo, declarou inicialmente que Juliano foi assassinado por um cristão que era um de seus próprios soldados, mas depois afirmou que o assassino era um sarraceno ou soldado persa. 

O imperador Juliano é mortalmente ferido na batalha

Juliano se absteve deliberadamente de nomear um sucessor, e os comandantes se reuniram ao amanhecer para a eleição. A honra foi estendida ao prefeito Salustiano, mas este recusou. A escolha então recaiu espontaneamente sobre Joviano, um comandante da guarda pessoal de Julian, cujo pai fora um general de mérito distinto no mesmo serviço. Ele imediatamente retomou o retiro ao longo da margem leste do Tigre, sob o contínuo assédio dos persas, e sofreu pesadas perdas em compromissos sucessivos em Samarra e no acampamento em Carche, no qual os persas, revigorados pelas notícias de da morte de Juliano, mal foram adiados. 

Shpaur II, o Grande, vencedor em Samarra

Depois de quatro dias de luta, o exército desmoralizado finalmente estacionou  em Dura, onde tentaram construir uma ponte para atravessar o rio, mas não conseguiram, e foram cercados por todos os lados pelo exército persa. Joviano percebeu  claramente que a situação era desesperada. Inesperadamente, os enviados de Shapur II chegaram em seu acampamento oferecendo ofertas de paz, e Joviano, que durante a parada esgotara suas provisões, agarrava-se ansiosamente a qualquer local para libertar o exército de sua terrível situação. Assim, ele foi forçado a aceitar termos humilhantes de Shapur, a fim de salvar seu exército e a si mesmo da destruição completa. 

O tratado com Shapur, revogando as condições favoráveis que Diocleciano havia conseguido do avô deste, Narseh, rendeu-lhe a Mesopotâmia Oriental, com as cinco províncias além do Tigre: Intilene, Zabdicene, Arzanena, Moxoene e Corduene/Armênia,  bem como quinze fortalezas, incluindo as cidades estratégicas de Nisibis e Singara, sem seus habitantes. 

Uma trégua de trinta anos foi estabelecida entre os impérios rivais. A perda da elaborada cadeia de fortificações fundada por Diocleciano dificultou severamente o sistema defensivo do império no leste e deu aos persas uma vantagem definitiva em seus subsequentes confrontos com os romanos. 

Investidura do rei Ardashir II pela divindade angélica Mitra (esquerda) e Shapur II (direita); o corpo de Juliano é pisado. Relevos em Taq-e Bostan.


terça-feira, 13 de outubro de 2020

IMAGEM DO DIA - 13/10/2020

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“Ou nós encontramos um caminho, ou abrimos um.” com essas palavras Aníbal Barca, o cartaginês, iniciou a célebre travessia dos Alpes italianos, que, mesmo diante de significativas perdas, surpreendeu os exércitos romanos com seus elefantes de guerra. 


quarta-feira, 29 de maio de 2019

IMAGEM DO DIA - 29/5/2019

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Cavalaria romana enfrentando guerreiros celtas durante a Batalha de Talamone (225 a.C.) 

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terça-feira, 5 de março de 2019

IMAGEM DO DIA - 5/3/2019

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Legionários romanos e soldados cartagineses se enfrentam durante a Batalha de Zama, travada no ano 202 a.C., no curso da Segunda Guerra Púnica


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

ERRO CRASSO




O termo erro crasso é muito utilizado quando alguém comete um erro tido como ingênuo. Você sabia que essa expressão tem ligação com o general romano Marco Licinius Crasso? A época de Crasso, 59 a.C, foi marcada por três importantes figuras de generais que foram Júlio César, Pompeu Magnus e Crasso.

Os dois primeiros generais citados entraram para a história por terem conseguido ampliar os domínios romanos. Porém, Crasso não era um general tão bom e era mais conhecido por sua fortuna. Enquanto César conquistou a Gália (França) e Pompeu a Hispânia (Península Ibérica), Crasso deseja dominar o povo Parto. Esse povo vivia no Oriente Médio numa região que hoje em dia é ocupada pela Armênia, Irã, Iraque e outros.

O grande erro de Crasso foi que ele acreditou que somente ter mais soldados era o suficiente. Com 50 mil soldados, ele deixou de seguir as famosas táticas militares romanas (que sempre garantiram excelentes resultados) e resolveu somente atacar por atacar. Para chegar mais rapidamente ao inimigo, ele resolveu cortar caminho por um estreito que não tinha boa visibilidade.

O que Crasso nem imaginava era que nas saídas dos vale os partos esperavam os soldados, conseguindo dizimar boa parte dos 50 mil homens, inclusive o general Crasso. Esse erro cometido pelo general se tornou em muitas línguas um sinônimo de um erro estúpido.

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sexta-feira, 13 de abril de 2018

PRETORIANOS: A FORÇA OBSCURA POR TRÁS DOS IMPERADORES ROMANOS

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Dois livros contam a história violenta da criticada guarda imperial da Roma antiga


Por Jacinto Antón

Poucas unidades militares têm uma reputação tão ruim quanto os pretorianos, a guarda dos imperadores de Roma, sua privilegiada (cobravam muito mais do que os legionários, e serviram menos tempo) e muitas vezes petulante escolta. O corpo, que também acompanhava o imperador em campanhas, entrando em combate como soldados, teve múltiplas funções, incluindo as de polícia secreta, espionagem e operações clandestinas (como assassinar inimigos do Estado). Foram precursores das unidades de elite e dos guarda-costas dos líderes modernos, influenciaram forças como a Guarda Suíça, a Guarda Imperial de Napoleão e as SS, e seu eco alcança até mesmo o universo de Star Wars, em cujo novo filme, Os Últimos Jedi, o líder supremo do mal conta com uma guarda pessoal inspirada diretamente neles (embora armada com espadas e lanças laser em vez de gladiums e pilums).

Os pretorianos originais, que podemos ver fazendo suas maldades de toga e sandália em dezenas de filmes, entre eles Quo Vadis, A Queda do Império Romano e Gladiador, já eram denunciados na antiguidade por se tornarem frequentemente o poder por trás do trono e por seu feio costume de colocar e remover (matando, é claro) césares segundo suas vontades. Estavam acostumados a receber um pagamento extra cada vez que havia uma mudança de imperador, o que fomentava seu desejo de mudança. Um dos seus emblemas era o escorpião, que lhes caía como uma luva, embora, na realidade, fosse retirado do signo do zodíaco do Imperador Tibério.

Sobre eles escreveu o grande historiador Edward Gibbon, que os acusou de serem sintoma e causa da queda de Roma: "Seu orgulho se viu alimentando pela consciência de seu peso irresistível (...) Foram ensinados a perceber os vícios de seus senhores com um desdém comum e a evitar o temor reverencial em relação a seus mestres que só a distância e o mistério podem preservar ". 

Em suas fileiras militaram alguns dos nomes mais detestáveis da história romana, verdadeiros sinônimos de traição, despotismo, crueldade e infâmia, como Cássio Queria, Sejano, Tigelino ou Plauciano, que chegou, dizem, a castrar uma centena de cidadãos nobres (de origem senatorial) para que sua filha Plaucila pudesse ser atendida por eunucos, o que já era um capricho.

Relevo antigo representando soldados pretorianos

As carreiras dos líderes dos pretorianos foram muito prósperas – o próprio Plauciano foi sogro do imperador Caracala – e alguns até alcançaram o trono, como Macrino e Filipe, o Árabe, que antes de imperadores foram prefeitos do pretório, ou seja, comandantes da guarda. A indignidade dos mais conhecidos não deve nos fazer esquecer que havia pretorianos decentes, e que vários de seus comandantes supremos morreram em campanha à frente de suas tropas (como o prefeito Cornelio Fusco, morto em combate contra os dácios enquanto servia a Domiciano).

Para rastrear a história do famoso corpo, que permaneceu ativo por 340 anos, desde a era republicana até ser dissolvido por Constantino após a batalha da ponte Milviana (312), em que apoiaram seu rival Maxentius, e para esclarecer em que medida merecia sua terrível reputação, o especialista britânico Guy de la Bédoyère dedica seu livro altamente documentado Praetorian: The Rise and Fall of Rome's Imperial Bodyguard (Pretorianos: ascensão e queda da guarda imperial de Roma), que também coincide nas livrarias com Pretorianos: La élite del ejército romano (Pretorianos: a elite do Exérito Romano), do historiador espanhol Arturo Sánchez Sanz.

O autor britânico deixa muito claro de onde vem a fama obscura dos pretorianos, e por que eles nos fascinam tanto. "Eram perigosos", responde sem rodeios. "Sempre perto do centro do poder". Sua reputação ruim é justificada? "Você poderia comprá-los, mas quando os imperadores eram bons e tinham grande prestígio, os pretorianos se comportavam. Foi sobretudo nos casos de imperadores incompetentes ou vulneráveis que os pretorianos cobriram as lacunas com sua ambição e tornaram-se fazedores de reis. O autoexílio de Tibério em Capri, o desastroso reinado de Calígula... ".

De la Bédoyère observa que grande parte do mal que fizeram os pretorianos, "uma das forças mais poderosas da história de Roma", deve ser atribuída a imperadores "que deixaram muito a desejar". Faz distinção entre os soldados da guarda, que na maioria, segundo ele, eram geralmente leais a seus imperadores, e seus oficiais e prefeitos, "dos quais não se pode dizer o mesmo". E enfatiza que, de uma maneira ou de outra, os pretorianos "eram como um vulcão adormecido que ameaçava entrar em erupção quando as circunstâncias permitiam".

Um dos episódios mais famosos em que os pretorianos intervieram foi quando, depois de matarem Calígula, fizeram imperador o relutante Cláudio, que tinha se escondido atrás de uma cortina e deu-lhes uma gorjeta generosa como suborno para comprar sua lealdade.

Sánchez Sanz mostra os pretorianos sob uma luz mais favorável que De la Bédoyère, e acredita que é preciso desmistificar sua imagem de "donos do poder" que, diz ele, corresponde estritamente a seus colegas legionários, que eram os principais motores de candidatos imperiais. Ressalta que os pretorianos provavelmente "salvaram a vida de tantos imperadores quanto os que arrebataram". A guarda pretoriana, resume com um certo tom de admiração, "eram os soldados de elite do império. Muitas vezes se aproveitavam disso, outras tantas o mostravam".

O livro de Sánchez Sanz, especialista em história antiga, é muito rico em detalhes sobre a organização, os uniformes e o equipamento dos pretorianos, uma questão complexa por causa da escassez de fontes iconográficas e variedade de funções que caracterizava o corpo.

A guarda pretoriana possuía sua própria cavalaria

Os pretorianos começaram como um destacamento de soldados, veteranos e de confiança, que protegiam como escolta pessoal os generais da era republicana, tendo o seu nome a partir da loja deles, o praetorium, ou pretório. Há referências a "coortes pretorianas", que é o tipo de unidade do Exército romano em que se agrupavam, desde o tempo de Cipião Africano, embora líderes como Júlio César tivessem outros guarda-costas (em seu caso, uma guarda de hispânicos que o malfadado ditador teve a má ideia de dissolver antes do Idos de março). Em todo caso, não encontramos os pretorianos verdadeiramente institucionalizados da maneira como os conhecemos até a época de Augusto. Foi ele quem estabeleceu uma força permanente de nove coortes, cada uma consistindo de 500 ou mil homens, de acordo com fontes (De Bédoyère aponta para mil), com acampamento em Roma, projetada para proteger o imperador e sua família, reprimir motins e desmantelar complôs.

À frente dos pretorianos estavam dois prefeitos do pretório, que foram ganhando mais poder e proeminência por sua posição tão próxima ao imperador. Os pretorianos tinham sua própria unidade de cavalaria, os equites singulares Augusti.

Para De la Bédoyére, o momento mais sórdido da história da guarda (e de Roma) foi o leilão feito pelos pretorianos da dignidade imperial no ano 193, após o assassinato de Pértinax, que havia tentado colocá-los na linha depois que na época de Cômodo tinham se acostumado a fazer o que queriam, incluindo bater em transeuntes. "Ofereceram o trono ao melhor lance, uma oferta indigna e degradante, um dos momentos em que eles e Roma foram ao fundo do poço". Quem comprou o trono, em ascensão, foi Didio Juliano, que durou apenas 66 dias porque não pôde pagar a quantia acertada com os pretorianos.

Com as necessidades do império cada vez mais pressionando as fronteiras, foi combinado o uso dos pretorianos como uma força de combate militar, e acompanhavam o imperador pessoalmente em suas campanhas cada vez mais frequentes (como no caso de Trajano em Dácia e Marco Aurelio em sua guerras), até se tornarem parte, embora sempre privilegiados e, portanto, invejados, do Exército regular.

Qual qualidade militar eles tinham? "Durante bastante tempo, surpreendentemente pouca", responde De la Bédoyére. "Uma boa parte deles passava seu tempo vagando em Roma como manequins militares e espadachins, capazes de matar, mas impróprios para a guerra real. Septímio Severo renovou a guarda com legionários experientes. Infelizmente, isso os tornou ainda mais perigosos para o imperador".

Quando perguntado sobre a semelhança perturbadora entre a guarda pretoriana e as SS, que também começaram como guarda pessoal e acabaram transformadas em poderosas unidades de elite dentro do Exército alemão, De la Bédoyére reconhece a semelhança, e ressalta que "sem dúvida, se Hitler tivesse vivido até ficar velho, seus rivais teriam se dirigido às SS prometendo-lhes mais dinheiro e privilégios em troca de seu apoio para se tornarem novos Führers, como na Roma antiga".

Os pretorianos são muito incomuns. Em parte porque eram um corpo muito versátil, além de terem mudado com o tempo. Sua iconografia, seu armamento e suas roupas não são claros, o que tem permitido fantasiar muito sobre elas. "Eles eram espiões (com um ramo especial dedicado a essa tarefa, os speculatores), soldados, guarda-costas, mas também topógrafos, mineiros, engenheiros, armadores", diz o estudioso britânico. "Faziam tudo o que o imperador precisava. Até mesmo esquadrões da morte ou parte da cenografia imperial: participando de demonstrações de poder. Cláudio colocou-os para caçar panteras diante do público e matar uma orca encalhada no porto de Ostia, e Nero transformou-os em plateia de suas performances artísticas e esportivas. Cumpriam missões em todos os lugares. Uma unidade foi até mesmo enviada para explorar o Nilo até a Etiópia, uma das aventuras mais curiosas do Exército romano".

Soldados pretorianos em batalha

Em termos de aparência, "mudavam constantemente, usavam uniformes vistosos quando estavam de guarda no palácio, armaduras especialmente projetadas para eles nas paradas, e equipamentos mais funcionais nas campanhas. Mas, muitas vezes, no cotidiano em Roma, eram muito discretos, se vestiam à paisana e não eram reconhecidos se não se observasse muito de perto".

Quando atacavam sigilosamente, usavam uma característica capa com capuz, a paenula. O autor afirma que o filme que provavelmente melhor nos mostrou os pretoriano é Gladiador, "mas também não é muito preciso". Um aspecto desconcertante é que às vezes usavam meias.

Qual é a herança dos pretorianos? "Mostraram quão instável é a corda sobre a qual um governante autoritário se sustenta no poder", resume De la Bédoyére. "Ele precisa de apoio para ficar lá, mas sua guarda tem que ser poderosa para dar-lhe esse apoio. E seu poder pode tornar-se maior que o dele a qualquer momento ... e depois, acabou. "


Pretorianos famosos

Vinio Valente, centurião pretoriano da época de Augusto, era um sansão capaz de parar um carro com uma mão. É citado por Plinio.

Sejano, conseguiu um poder onipotente com Tibério. O primeiro pretoriano que mostrou como poderiam ser perigosos. Sua inimizada significava uma pena de morte. Dião Cássio afirma que deitava com as esposas de homens relevantes para obter informação. Em sua queda arrastou toda sua família, e sua filha, Junila, ainda virgem, foi estuprada pelo executor para justificar a morte como uma mulher adulta.

Macrón, também prefeito do pretório como Sejano, foi o primeiro a participar da morte de um imperador, acelerando a de Tibério. Antes ofereceu sua mulher ao césar para que tivesse uma aventura com ela.

Cássio Quereia, assassinou Calígula após sofrer diversas humilhações e depois de o imperador o chamar continuamente em público de afeminado.

Tigelino, o algoz de Nero, cínico e dissoluto. Um verdadeiro canalha.

Gayo Vedennio Moderato. A outra cara da guarda, um pretoriano que serviu longa e fielmente durante a Dinastia Flaviana. Um bom soldado especialista em artilharia.

Fonte: El País


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

BATALHA DO LAGO REGILO (496 a.C.)

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A Batalha do Lago Regilo foi uma lendária vitória romana sobre a Liga Latina logo depois da fundação da República Romana. Os latinos eram liderados pelo já idoso Tarquínio Soberbo, o sétimo e último rei de Roma, deposto e expulso em 509 a.C., e seu genro, Otávio Mamílio, o ditador de Túsculo. A batalha foi a última tentativa dos Tarquínios de voltarem ao trono de Roma. Segundo a lenda, Castor e Pólux lutaram pelos romanos nesta vitória.

A ameaça de uma invasão de Roma pelos seus antigos aliados no Lácio levaram à nomeação de Aulo Postúmio Albo como ditador. Ele escolheu Tito Ebúcio Helva para ser seu mestre da cavalaria. 

O ano exato no qual a batalha ocorreu é incerto e já era assim nos tempos antigos. Lívio localiza a batalha em 499 a.C., mas afirma que algumas de suas fontes também sugerem que ela pode ter acontecido no ano do consulado de Postúmio em 496 a.C. A outra principal fonte para este período, Dionísio de Halicarnasso também concorda com esta data. Autores modernos também já sugeriram 493 a.C. ou 489 a.C.

O Lago Regilo ficava no centro de uma cratera vulcânica entre Roma e Túsculo e foi drenado no século IV a.C.. Segundo Lívio, os volscos, uma tribo vizinha que habitava a região ao sul do Lácio, havia mobilizado um exército para ajudar na luta dos latinos contra Roma, mas a pressa do ditador romano em se engajar rapidamente no combate fez com as forças volscas chegassem atrasadas.

O Lago Regilo nos dias atuais


O ditador Postúmio liderou a infantaria romana e Helva, a cavalaria. Tarquínio estava com seu último filho ainda vivo, o primogênito Tito Tarquínio. Conta-se que a presença dos dois aumentou ainda mais o fervor dos romanos no combate.

Logo no início, o rei foi ferido ao tentar atacar Postúmio. O mestre da cavalaria atacou Mamílio e os dois foram feridos, Ebúcio no braço e o ditador latino, no peito, e acabou obrigado a se afastar do combate e comandá-lo à distância. Os soldados do rei, incluindo muitos romanos exilados, começaram a levar vantagem sobre as forças republicanas e os romanos sofreram um revés quando Marco Valério Voluso, cônsul em 505 a.C., foi morto por uma lança enquanto atacava Tito Tarquínio, mas Postúmio engajou sua própria guarda pessoal na luta e progresso inimigo foi interrompido.

Enquanto isso, Tito Hermínio Aquilino, famoso por ter lutado ao lado de Horácio Cocles na Ponte Sublício e cônsul em 506 a.C., atacou Mamílio e o matou; porém, ele próprio foi morto por um dardo enquanto tentava retirar os espólios de seu inimigo vencido. Como o resultado da batalha ainda era duvidoso, Postúmio ordenou que os cavaleiros desmontassem para lutar a pé, forçando os latinos a se retirarem, o que lhes permitiu capturar o acampamento latino. Tarquínio e o exército latino abandonaram o campo de batalha e o resultado foi uma vitória decisiva para os republicanos. Postúmio e seu exército voltaram para Roma e o ditador celebrou seu triunfo sobre os latinos.

Uma lenda muito popular conta que os Dióscuros, Castor e Pólux, lutaram com os romanos na forma de dois jovens cavaleiros. Postúmio ordenou então a construção do Templo de Castor e Pólux no Fórum Romano, no exato local onde os dois teriam dado de beber aos seus cavalos.

Ilustração de 1880 mostrando Castor e Pólux combatendo no Lago Regilus


Depois desta vitória, um tratado conhecido como "Foedus Cassianum" ("Tratado de Cássio") firmou uma aliança entre romanos e a Liga Latina. O tratado foi batizado em homenagem ao cônsul Espúrio Cássio. Este conflito marcou um ponto de inflexão no qual Roma tornou-se o poder dominante no Lácio, embora ainda reconhecesse a autonomia e independência de várias cidades-estado latinos. Ele estipulava que os latinos deveriam prover aliança militar aos romanos no caso de ameaças externas e que quaisquer exércitos mobilizados para este fim seriam comandados por romanos. Ele também legalizou o casamento entre cidadãos romanos e latinos, um antigo ponto de disputa, e recobrou o comércio da região.

Fontes:
- Grant, Michael. The History of Rome. Faber and Faber [S.l.], 1993.
- Cornell, Tim. The Beginnings of Rome: Italy and Rome from the Bronze Age to the Punic Wars, C.1000-263 BC, Routledge, 1995.
- Wikipedia



sábado, 25 de abril de 2015

PALESTRA NO IGHMB - CÉSAR, VITRÚVIO E A ENGENHARIA MILITAR NA ROMA ANTIGA

P.  

Para quem gosta de estudar a História Militar:




Não é necessário realizar inscrição prévia.  Entrada franca.





segunda-feira, 19 de agosto de 2013

INVASÕES GERMÂNICAS NA PENÍNSULA IBÉRICA

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No inverno de 406, aproveitando a fusão do rio Reno, Vândalos, Suevos e Alanos invadiram o Império Romano. Ao cabo de três anos, cruzaram os Pirineus e chegaram à península Ibérica

A desagregação de Roma alastrou-se a todas as províncias, onde veio a abalar o poder político e a paz. Na Península Ibérica, parece desaparecer a estrutura provincial. A crise da política imperial conduziu à divisão do império. Em 395, Arcádio governava Império Oriental, enquanto Honório governava o Império Ocidental. Em 407, o general comandante das legiões romanas nas Ilhas Britânicas autoproclamou-se Imperador do Ocidente, com o nome de Constantino III.

Neste período de grande instabilidade e confusão, iniciou-se a invasão de grupos germânicos que, com o aparecimento dos Hunos, tinham sido deslocados dos seus territórios. Esta grande invasão consistiu numa movimentação continuada e demorada que, historicamente, se diz ter-se iniciado a 31 de Dezembro de 406.

Nesta fase, os povos que entraram no império eram oriundos de diferentes regiões (Vândalos, Suevos, Alanos, etc.) e não encontraram grande resistência por parte das guarnições romanas. Os Bárbaros entraram nas províncias romanas sem encontrar uma forte oposição organizada. Mas, quando chegaram à linha dos Pirenéus, debateram-se com Exércitos constituídos pelos servos ao serviço dos proprietários desses grandes latifúndios.

Invasões germânicas na Península Ibérica

Entre 407 e 408, a Hispânia manteve a sua defesa, enquanto as tribos bárbaras deambulavam pela Gália. Contudo, em 409, a pressão aumentou sobre as forças que defendiam os Pirenéus. Apesar disso, não foram os Bárbaros, mas os Romanos (partidários de Constantino III) que atacaram e aprisionaram estes homens, abrindo caminho às hordas de bárbaros que invadiram e saquearam a Península Ibérica. A região era mais pobre do que a Gália e, submetida à pilhagem, nela espalhou-se a fome, que dois anos depois atingiu também os invasores.

Entre os Bárbaros surgiu uma tribo germânica que se instalou na Península Ibérica. Os Visigodos vinham da Europa Oriental, mas representavam já uma segunda geração romanizada. Este povo, que teve em Alarico um grande líder, chegou em 415 com Ataulfo à Tarraconense como aliado dos Romanos. Os Visigodos pagaram o direito de ocupar a terra da Hispânia, com a obrigação de guerrear com outros Bárbaros que ali se tinham instalado. Mediante um tratado com os Romanos, instalaram-se numa parte da Península Ibérica e no Sul da Gália. A sua intervenção veio contribuir para agravar o clima de violência vivido no século V, ao envolverem-se com outros povos germânicos que estavam a chegar a estes territórios.

Os Vândalos disputavam com os Suevos a posse de algumas regiões montanhosas no Norte, mas voltaram-se para sul, passando por uma grande parte daquilo que veio a ser o território português, até chegarem a Mérida. Em 426 eram senhores da Bética, contudo, a fome obrigou-os a passar Gibraltar em 429.

Os Alanos e alguns Vândalos que foram derrotados pelos Visigodos e os restantes fugitivos foram juntar-se aos Suevos, que se mantinham no Noroeste da Península (entre o Douro e Mar Cantábrico).

Os Suevos terão sido marcantes na Península. Entre os invasores, apenas os suevos apresentavam uma organização política. O bispo Idácio não descreve de uma forma muito simpática os Suevos, porque foi atingido pela sua violência quando presidia à comunidade cristã de Chaves. Nos seus relatos refere que os Bárbaros protegiam os rudes camponeses que, nos castros, continuavam fiéis à memória de Prisciliano.


Cavaleiros suevos em batalha


Idácio descreve a expansão dos Suevos até Lisboa, o que significava que o Rio Douro tinha sido transposto pela primeira vez como fronteira natural entre duas regiões politicamente diferentes. A Galécia e a Lusitânia apareciam unidas num espaço que viria, mais tarde, a ser o núcleo inicial de Portugal.

Ele diz-nos que Lisboa foi entregue sem guerra aos Suevos. Certo é que o Rei suevo Réquila (438-448) saiu da Galiza e conquistou Mérida, cercou Mértola e ocupou Sevilha. Requiário (448-456), seu sucessor, continuou a expansão e casou-se com a filha de Teodorico; invadiu a Tarraconense, vindo depois a assinar um tratado de paz com os Romanos e com os visitados, o que não o impediu de voltar a guerrear. Entrou na Gália e ameaçou Tolosa, a capital dos Visigodos. Perante esta ameaça sueva, Visigodos e Romanos uniram-se para derrotar Requiário, que se refugiou em Braga, cidade que não escapou ao saque. Em 457, o líder suevo era definitivamente derrotado pelos seus inimigos.


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domingo, 20 de janeiro de 2013

A ANARQUIA MILITAR ROMANA (235 d.C. - 284 d.C.)

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Após a morte de Alexandre Severo, o Império Romano submergiu numa profunda crise caracterizada pelo ataque dos bárbaros e pela sucessão anárquica de imperadores. Perante a crise generalizada, o povo fez ouvir o seu grito de resistência à situação difícil, lutando com grande determinação e abrindo caminho para uma lenta recuperação. Mas os alicerces do Império ficariam irremediavelmente abalados e, durante meio século, inúmeros imperadores foram proclamados pelas legiões e depostos pelas mesmas ou pelos seus opositores, após um período variável.

Como imperadores da anarquia militar encontramos:

- Maximino I Trácio (235 d. C.-238 d. C.),
- Gordiano I e II, Balbino e Pupieno (238 d. C.),
- Gordiano III (238 d. C-244 d. C.),
- Filipe I, o Árabe (244 d. C.-249 d. C.), 
- Décio (249 d. C.-251 d. C.),
- Treboniano Galo (251 d. C.-253 d. C.),
- Emiliano (253 d. C.),
- Valeriano (253 d. C.-260 d. C.),
- Galieno (253 d. C.-268 d. C.),
- Macrino, os usurpadores Quieto (260 d. C.-261 d. C.) e Auréolo (268 d. C.),
- Cláudio II o Gótico (268 d. C.-270 d. C.),
- Aureliano (270 d. C.-275 d. C.),
- Tácito (275 d. C.-276 d. C.),
- Probo (276 d.C.- 282 d.C.),
- Caro (283 d. C.),
- Numeriano (283 d. C.-284 d. C.) e
- Carino (283 d. C.-285 d. C.).


Todos morrem assassinados, com a exceção de Décio, que morreu em combate, Valeriano, que morreu em cativeiro com os Persas, e Cláudio II, que morreu de peste.   São várias as motivações dos pretendentes ao trono imperial: uns foram forçados ou pressionados pelas tropas, outros procuraram o lucro e o sentimento de ser todo-poderoso, outros ainda foram motivados por um sentimento de patriotismo.

Verificou-se, no período, um recuo das fronteiras: Valeriano evacuou os Campos Decumates, Aureliano renunciou à Dácia e, no Norte da África, houve um recuo em direção à costa. Ao mesmo tempo os soldados imperiais trataram com violência os cidadãos romanos e instalou-se uma profunda crise econômica, que foi, simultaneamente, causa e consequência de toda a situação.


Imperador Aureliano, restaurador da unidade imperial romana


O Senado perdeu poder e correu o risco de separação do poder imperial. Paradoxalmente, surgiu lentamente nas povoações, que viam no poder imperial e na generosidade de quem o exercia o único recurso, um sentimento de patriotismo romano. Mas o Império não se deixou abandonar à tragédia, resistindo com grande determinação.

Assim, aos poucos, sobretudo durante o reinado de Aureliano, abriu-se um caminho para a recuperação. Aureliano foi o restaurador da unidade imperial e autor de diversas reformas mas foi com Diocleciano (284 d. C.-305 d. C.) que se deu o restabelecimento do poder do Império, depois dos esforços empreendidos pelos seus antecessores e conterrâneos Ilírios (desde Cláudio II Gótico, em 268-270).


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quinta-feira, 28 de junho de 2012

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR – AMÍLCAR BARCA

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* c. 270 a.C.

+ 228 a.C.



Amílcar Barca foi um estadista e general cartaginês, responsável pela conquista da Hispânia por Cartago. Foi pai de Aníbal, Asdrúbal, Adonibal e Magão, bem como o construtor dos famosos jardins de Amílcar, que se encontravam em Mégara, na periferia de Cartago.

Comandou as forças de Cartago na última parte da Primeira Guerra Púnica e foi o negociador da paz no ano de 241 a.C.

Quando os mercenários a serviço de Cartago se rebelaram, na Guerra dos Mercenários, Amílcar e seu rival Ano os derrotaram. Em 237 a.C. foi à Hispânia, levando consigo seu filho Aníbal, de nove anos, que quis ver a batalha. Amílcar permitiu com uma condição: sempre odiar os romanos acontecendo o que acontecesse.

A perda da Sicília, da Sardenha e da Córsega conduziram o general cartaginês a apoderar-se rapidamente do sul da península Ibérica, após vencer os Turdetanos, e também do leste, até o promontório de Tenebrio, onde mandou construir a fortaleza de Akraleuke, junto a Alicante. Mas foi derrotado na campanha contra os Lusitanos, vindo a falecer em 228 a.C..

Distinguiu-se durante a Primeira Guerra Púnica em 247 a.C., quando assegurou o domínio da Sicília, até então nas mãos de Roma. Desembarcou por surpresa a noroeste da ilha, com uma pequena tropa de mercenários e tomou posição no monte Heirktê (Monte Pellegrino, perto de Palermo). Não somente manteve a posição perante todos os ataques, mas estendeu as suas incursões até a costa do sul da Itália.

Em 244 a.C. deslocou o seu exército para uma posição similar nas ladeiras do monte Eryx (Monte San Giuliano), desde onde podia apoiar as guarnições assediadas na vizinha cidade de Drépano (Trapani). Após a derrota cartaginesa nas ilhas Égadi em 241 a.C., a força invicta de Amílcar saiu da Sicília sem se submeter.

Esta derrota, imputada aos generais aristocratas cartagineses, provocou um grande descontentamento, em especial entre os mercenários, que desejavam cobrar o seu pagamento, embora também entre os camponeses líbios e entre aqueles cidadãos afetados pela crise. Isso ocasionou a rebelião dos mercenários.

Os mercenários, escravos fugitivos e camponeses empobrecidos, dirigidos pelo líder líbio Matho, o gaulês Autarito e o escravo campano Espêndio, assediaram Cartago e tomaram outras cidades como Útica e Bizerta. Amílcar conseguiu tirar os seus barcos do porto e, com uma campanha de fustigamento, conduziu os rebeldes até um vale deserto (o desfiladeiro de Scia), em onde os exterminou com a ajuda do príncipe númida Naravas levado ali pelo seu amigo Antígono em 237 a.C.

Depois deste triunfo, Amílcar conseguiu uma enorme popularidade, e os seus adversários não puderam negar-lhe o posto de comandante-em-chefe do exército nem impedir que se tornasse o autêntico dono de Cartago. Recrutou e treinou um novo exército e, após algumas incursões na Numídia, decidiu lançar uma expedição sobre Ibéria (236 a.C.). Ali visava iniciar um novo império que compensasse Cartago da perda da Sicília, Sardenha e Córsega às mãos dos romanos, e estabelecer uma base na sua campanha de retaliação contra estes desde o próprio território europeu, ao não poder dispor já de frota própria, desmantelada após a assinatura da paz.

Em oito anos de lutas e diplomacia, chegou a dominar um amplo território em Ibéria, rico em recursos mineiros, e a dirigir um exército composto nomeadamente por belicosos e bem preparados iberos.

A sua prematura morte ocorreu no inverno de 229-228 a.C., durante o assédio de Héliké, cidade cujo local é desconhecido, tendo sido especulado quer com Elche de la Sierra, quer a atual Elche, ou algum ponto da atual Oretania, entre outros. Foi sucedido no comando do exército cartaginês pelo seu genro Asdrúbal.

Amílcar superou a todos os cartagineses da sua época, tanto em capacidade militar e diplomacia como em patriotismo. Apenas chegaria a ser superado em todas estas virtudes pelo seu filho Aníbal, o qual educou no ódio para Roma e formou para que chegasse a ser o seu sucessor.

 
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sexta-feira, 16 de março de 2012

JÚLIO CÉSAR CONQUISTA A GÁLIA

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Travando uma dura campanha militar que se estendeu por sete anos, Julio César, pró-consul romano da Gália Narbonense, entre 58 e 51 a.C., conseguiu submeter as 60 tribos celtas que habitavam as três partes da Gália original.

Desde então, cessada a resistência nativa ao redor do ano 50 a.C., teve início o lento processo de absorção dos derrotados pelos vencedores. Política que continuou se prolongando com sucesso pelo império de Otávio Augusto e de Tibério Cláudio.


O começo da conquista

Independentemente de César ser um homem ambicioso. Desejoso de fazer fama nos combates e nas aquisições territoriais fazia tempo que os romanos olhavam cobiçosamente para a Gália. Ainda que ela se apresentasse extremamente dividida (Bélgica, Aquitânia e Gália propriamente dita), com suas 60 tribos se desentendendo e sendo rivais, ela era uma ameaça permanente a fronteira norte da Itália. Além de possuir enorme riqueza agrícola e mineral, bem como prodigiosa criação de gado, tinha uma notável rede de rios navegáveis, tais como o Ródano, o Garona, o Loire, Mosele, Reno, Oise, Saône, Somme, Sena, etc., apresentava-se, pois, como uma questão de segurança.

Tanto assim que foi daquelas terras de onde partiu a maior ameaça que Roma sofreu em todos os tempos: a impressionante campanha de Aníbal Barca, o general cartaginês que por pouco não pôs fim à própria Roma, quando invadiu a Itália em 218 a.C.. Portanto, os estadistas romanos estavam sempre à espreita de uma oportunidade de rumarem com suas armas para o norte e colocar a Gália inteira sob sua tutela. César narrou no De Bello gallico (‘Comentários sobre a Guerra Gálica’, Livro I,) que foi atendendo ao chamado dos celtas que terminou por envolver-se na guerra.


Batalhas travadas durante a conquista da Gália


Entrou em ação a pedido dos galos-sequanos para neutralizar o chefe germano Ariovisto, que assolava a região, e, a partir de então, suas legiões não pararam mais de marchar e lutar até que todo o território celta ficasse submetido. Sua força núcleo compunha-se das legiões Claudia (VII legião), Augusta (VIII legião), Hispana (IX legião) e a Gemina (X Legião), num total de 24 mil combatentes, fora os 12 mil das tropas auxiliares. Seu objetivo era impedir por meio militar que o líder suevo implantasse, como era seu intento, uma Gália Germânica na parte setentrional da França de hoje, pois ela poderia servir como trampolim para futuras incursões dos bárbaros sobre a área controlada pelos romanos.

A guerra que os dois deram começo, em setembro do ano de 58 a.C., com a vitória espetacular de César nos Vosges (batalha de Ochsenfeld, para os alemães), nas proximidades de Mulhouse (hoje na Alsácia), foi a primeira de uma série travada entre romanos e germanos que se estendeu por séculos e que tinha como alvo o domínio da Gália, até quando os francos sálicos (vindos da Francônia alemã) a ocuparam definitivamente no século V, fundando a França moderna.

Nesta impressionante operação, agindo numa área imensa, quase duas vezes superior a da Itália, suas coortes combateram os helvécios, os germanos e, também, ao atravessar o canal da Mancha para invadir a Bretanha, no ano de 54 a.C., as tribos bretãs.  Depois de ter batido os germanos, teve a seu favor o fato dos celtas não possuírem um governo central. A Gália subdivida-se entre as tribos marítimas, as da Gália central e da Bélgica, mostrou-se incapaz de fazer uma frente comum contra o romano invasor.

A maior resistência à ocupação partiu do chefe Vercingetórix, bravo filho de Celtilo Arverno, que, conclamando as demais tribos gaulesas (senones, parísios, pictones, cadurcos, turonos, aulercos, lemovices, andes, etc.), lutou heroicamente contra o cerco romano em Alésia, até que viu-se constrangido à rendição no ano de 52 a.C., não suportando o sitio e a fome que as legiões lhe impuseram.


O chefe gaulês Vercingetórix depõe suas armas diante de um vitorioso Júlio César


A Gália Narbonense

César na sua conquista não partira da Itália e sim da Gália Narbonense, também conhecida como Gália Transalpina, região que desde 120-118 a.C. fazia parte do Império.

Aquela margem do Mar Mediterrâneo que ligava a Ligúria à Espanha, dos Alpes aos Pirineus, que os franceses hoje denominam genericamente como Languedoc - Roussinon - Provence, durante muito tempo foi hegemonizada pela cidade-estado de Marselha (fundada pelos gregos fócios em 600 a.C., sendo assim a cidade mais antiga da França), que matinha relações de amizade e dependência para com Roma. Todavia, razões geopolíticas fizeram com que os romanos, na esteira da última guerra púnica, a de 146 a.C., se decidissem por implantar uma colônia na região. Foi assim que nasceu a vila de Narbo Martius fundada pelo cônsul Aenobarbo Cneu Domitio que logo se lançou na construção de uma obra histórica.

O intento deles era não só fixar-se no sul da Gália – que passou a ser designada como Província Nostra, ou simplesmente Provence - como também abrir uma estrada da Itália alpina à Espanha pirenaica, rota que passou a se chamar de Via Domitia, cujos começos datam de 118 a.C.. Dali mesmo, de Narbone, outro longo caminho foi planejado, visando à ligação dos dois mares, o Mediterrâneo com o Atlântico, denominada de Via Aquitânia.


Guerreiros gauleses


Para proteger sua aliada Marselha das incursões bárbaras que a ameaçavam, o general Sextus Calvinus fundou Aquae Sextiae, no ano de 120 a.C., a 30 quilômetros de distancia ao norte dela, oppidum que veio a se tornar mais tarde na famosa Aix-en-Provence, agradável local de repouso e veraneio, prodigiosamente provido de águas quentes salutares.

Ali é que, em 102 a.C., poucos anos depois da sua fundação, se travou a lendária batalha de Aquae Sextiae entre o cônsul romano Caio Mario e os Kimber, teutões-cimbrios, que foram derrotados. Desastre que culminou no suicídio em massas de 300 mulheres germanas e seus filhos que não aceitaram ser escravizadas pelos vitoriosos. Esta batalha garantiu em definitivo a posse do espaço Narbonense pelos romanos, província que serviu como base e ponto de partida para o grande assalto ao país dos celtas ensejado por César meio século depois.


A política da ocupação

Octávio Augusto, tornado princep et imperator pelo Senado, no ano de 27 a.C., deu seguimento a política de César em integrar os gauleses ao projeto de domínio romano. Para os nobres celtas ele ofereceu posições de mando na administração e na magistratura, fazendo deles novos cidadãos do império com direito a pertencer ao cursus honorum, e para os jovens guerreiros gauleses, cheios de energia e vigor, abriu-lhes as portas do serviço militar, particularmente na arma da cavalaria.

Transformou a cidade de Ludgunun (Lyon) no centro da Gália federada, fazendo com que anualmente delegações de representantes tribais, presentes na Dieta, viessem prestar homenagens à pessoa do imperador, tornado culto sagrado. Estas reuniões podem ser consideradas como o embrião histórico da assembléia nacional francesa. Lentamente notou-se a alteração dos costumes, os ‘gauleses cabeludos’ deram lugar a uma população galo-romana que gradativamente foi sendo introduzida nos hábitos e costumes trazidos pelo invasor. Uma nova língua começou também a ser falada.

Ainda que rude e impreciso, foi na Provence que, desprendendo-se do latim vulgar, o provençal (ou occitano), pai do idioma francês, derivado da Língua Romana Rústica, conheceu seus primeiros avanços.  Administrativamente, a Gália foi divida em quatro partes: Aquitânia (com capital em Bordeaux), Belga (capital em Tréveris), Ludgunense (capital em Lyon) e Narbonense (com capital em Narbone), chamada mais tarde de Septimania. O antigo sistema cantonal dos celtas foi definitivamente substituído pelo municipia romano.

Todavia, coube ao imperador Tibério Cláudio, que nascera em Lyon, em 10 a.C., adotar uma política mais afirmativa no sentido de distribuir a cidadania romana ao número mais amplo possível de gauleses. Nada lhe parecia melhor para a proteção das fronteiras – talvez por sugestão do seu preceptor, o historiador Tito Lívio - do que a participação dos nativos, agora cada vez mais integrados e comprometidos na estabilidade do império.



Neste aspecto, foi importante a campanha romana contra a ilha da Bretanha, comandada pelo general Aulo Plaucio, em 43, visto que Claudio estimulou-a como um elemento fundamental para estreitar a confraternização militar entre romanos e gauleses, escolhendo os bretões como inimigo comum. Ao atrair a nobreza nativa (que adotou o tria nomina do cidadão romano) e interferir o mínimo possível nos usos e costumes locais (proibiu-se, todavia, os sacrifícios humanos), dando a maior autonomia possível aos municípios gauleses - só lhes extraindo impostos extraordinários em caso de emergência - Roma não conheceu mais atos de rebeldia na região.

Os governadores provinciais e seus agentes foram instruídos em servirem mais como árbitros dos conflitos entre as cidades federadas ou entre as tribos rivais e não como representantes de uma máquina repressora. E, claro, manterem os privilégios e regalias dos comerciantes romanos na área.

A romanização da Gália foi um dos mais bem sucedidos projetos de colonização almejados pelos Césares na ocupação da Europa Ocidental.



Fonte: Educaterra
 
 
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