"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



terça-feira, 9 de novembro de 2021

A PRIMEIRA E ÚLTIMA MISSÃO DO GIGANTE SOVIÉTICO

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Cinco torres, três canhões e seis metralhadoras. A bordo, uma dúzia de homens. Não se trata da encarnação flutuante do poder soviético em alto-mar, mas de um tanque do Exército Vermelho, o T-35, que, na década de 1930, por ironia do destino, acabou sendo destruído logo nos primeiros dias da Segunda Guerra Mundial.

Por Alexandr Korolkov


Desde que apareceram durante a Primeira Guerra Mundial, os tanques rapidamente cresceram em tamanho, poder e armamento – até que a agilidade imposta pela Segunda Guerra Mundial os trouxeram de volta a uma dimensão razoável.

O primeiro tanque multitorre pesado foi o francês Char 2C, seguido, no final dos anos 1920, pelo britânico A1E1 Independent, uma imponente máquina de 33 toneladas. Apesar de este modelo de cinco torres jamais ter sido fabricado em massa, tudo leva a crer que ele pode ter inspirado os projetistas soviéticos.

A base industrial herdada pelos bolcheviques, prejudicada pela perda de muitos engenheiros experientes na Revolução Russa, era incapaz de produzir tecnologia moderna para produção em massa e teve de ser erguida a partir do zero. Na época, o planejamento experimental soviética surgiu com todo vapor.

Construir tanques leves era mais fácil e bastava copiar modelos estrangeiros. Mas não havia nenhuma receita pronta para os tanques pesados. Era necessário, portanto, usar o conhecimento adquirido em projetos conjuntos com engenheiro alemão Edward Grotte.

O tanque médio TG, do grupo de design soviético-alemão, não foi produzido em larga escala, mas deu à jovem equipe soviética uma experiência prática de valor inestimável. Com o tempo, os russos evoluíram para projetos maiores – e logo o T-35 saiu do papel.


O monstro de aço T-35: demasiadamente pesado e desajeitado para ser eficiente


Excesso de peso

O tanque deveria pesar cerca de 35 toneladas, mas o protótipo de 1932 ultrapassou em 10 mil toneladas as expectativas iniciais. O monstro resultante tinha mais de três metros de altura, torres com canhões de 76 milímetros acoplados e metralhadoras que podiam girar 360 graus.

Duas torres menores, com canhões de 45 milímetros e outras metralhadoras que podiam dar meia volta, foram implantadas nas partes fronteira e traseira do veículo. Outras duas torres de metralhadora e uma porta de disparo sob a arma traseira completavam o arsenal do tanque.

A máquina era alimentada por um motor de 500 cavalos de potência e atingia velocidade máxima de apenas 28 quilômetros por hora na estrada aberta. Os militares aceitaram o tanque, mas estavam insatisfeitos com o design de chassi complexo e a capacidade reduzida do motor.

No início dos anos 1930, os estrategistas soviéticos planejavam os próximos estágios da guerra entre tanques. Os modelos médios T-28 romperiam as defesas inimigas, os T-35s iriam invadir e aniquilar tudo à volta com seu enorme poder de fogo, seguido por uma terceira onda de T-26s e modelos ainda mais leves.

No entanto, a experiência da Guerra Civil Espanhola, a batalha soviética contra os japoneses e a Guerra de Inverno com a Finlândia demonstraram a ameaça da artilharia antitanque e a necessidade de montar ofensivas.

Em condições severas, a blindagem de 10 a 50 mm era insuficiente. Porém, as tentativas de aumentar a espessura fizeram com que a massa do tanque chegasse a 55 toneladas, e nenhum motor soviético era capaz de fornecer energia para um veículo dessa dimensão.

Outra desvantagem era a incapacidade do comandante de liderar simultaneamente os disparos a partir de cinco torres. Os projetistas tentaram, sem sucesso, equipa-lo com sistemas de armas navais para sincronizar o disparo múltiplo, mas, no início dos anos 1940, o tanque já estava obsoleto em termos de design e táticas de uso.


Garoto-propaganda

O T-35 não entrou em ação até a invasão alemã da União Soviética, em junho de 1941. Ele servia mais na frente ideológica, ocupando praças de cidades como um símbolo do poderio militar soviético e atraindo multidões e observadores estrangeiros.

Um raro T-35 que sobreviveu à guerra preservado em museu


O veículo era representado em cartazes e na medalha “Para coragem”, onde durou muito mais do que na vida real. Em 1943, quando o T-35 já havia entrado para a história, ele ainda lutava pela pátria na propaganda soviética.

No campo de batalha, contudo, a história era menos impressionante. Dos 59 T-35s fabricados entre 1934 e 1939, 48 deles entraram em guerra, enquanto o resto passava por reparos ou era apenas usado em escolas de formação.

O tanque não sobreviveu aos primeiros dias de combate, já que as máquinas criadas para um ataque repentino não eram capazes de realizar um recuo longo. Apenas sete T-35 foram eliminados na batalha; o restante simplesmente quebrou ou foi abandonado por suas tripulações.

A 34ª Divisão de Tanque da URSS, que tinha as unidades a seu dispor, foi alertada no início da manhã de 22 de junho, quando a invasão começou. Três dos tanques quebraram antes mesmo de entrarem em combate. Depois de percorrer o oeste da Ucrânia, dois dias depois restavam apenas 10 tanques prontos para combate.


Hora de partir

Na confusão do recuo e da luta de fronteira, só existe um registro do seu desempenho em combate. Em 30 de junho de 1941, um grupo de tanques, que incluía quatro T-35s, foi enviado para reforçar outras unidades, mas foi atacado quando estava a caminho.

Artilheiro de uma torre frontal, V. Sazonov escreveu mais tarde: “Nossa última luta foi desastrosa. Em primeiro lugar, disparamos a partir da outra margem o rio, de um povoado chamado Sitna, e depois atacamos com o resto de nossa infantaria. Eles titubearam assim que as balas alemãs começaram a soar, então avançamos e ficamos sob fogo de canhão alemão pela esquerda.

Virei a torre para observar melhor, olhei, olhei, mas não vi nada, e então, surpresa: a torre foi atingida. Mas não era possível enfiar a cabeça para fora pois choviam balas sobre nós. As bombas alemãs nos atingiam em intervalos de cinco segundos e não mais apenas no lado da porta. Foi então que eu vi um clarão, quando ainda estávamos a 50 metros da aldeia, e uma das nossas faixas se rompeu.

Os ataques fizeram o motor parar, e a arma ficou obstruída. Em seguida, vimos soldados alemães e sabíamos que era hora de sair dali. Saltamos da torre para a estrada. Das tripulações de T-35, apenas quatro homens sobreviveram, todos de diferentes tanques.


Eterna fama

Como os soldados alemães gostavam de posar ao lado dos monstros stalinistas abandonados, há muitas fotografias de batalha do T-35, apesar de sua breve experiência de combate.

Os soldados alemães gostavam de posar para fotografias ao lado dos T-35 avariados

O gigante desatualizado nunca provou a sua coragem e terminou dias como um mero artifício de engenharia, um símbolo do poderio militar, assim como o Canhão do Tsar, no Kremlin de Moscou, que nunca foi disparado em um momento de raiva.

O último exemplar restante é mantido no museu de tanques de Kubinka, nos arredores de Moscou, onde é a estrela da exposição. Ali, o modelo ajuda os visitantes a lembrar dos projetos de design decisivos do século passado, quando os tanques ainda estavam aprendendo a ser tanques.

Fonte: Gazeta Russa



terça-feira, 2 de novembro de 2021

PESQUISA REVELA TROCA DE CARTAS EM TUPI ENTRE INDÍGENAS DO SÉCULO XVII

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Traduzidos pelo professor Eduardo Navarro, da Universidade de São Paulo (USP), documentos dão informações sobre a Insurreição Pernambucana


Por Juliana Alves

A história é escrita pelos vencedores. No caso brasileiro, primeiro foram os portugueses e, depois, os holandeses. Documentos que contam a história brasileira pela perspectiva dos que foram vencidos – os povos originários – são raros. O professor Eduardo Navarro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, especialista em tupi antigo e em literatura do Brasil colonial, mostra uma dessas exceções. Navarro pesquisou seis cartas trocadas entre indígenas em 1645, os únicos textos conhecidos que os próprios indígenas escreveram em tupi nos tempos coloniais. Essas cartas estão guardadas nos arquivos da Real Biblioteca de Haia, na Holanda, e detalham uma guerra religiosa travada entre portugueses e holandeses, com a presença de indígenas em cada lado, conhecida como Insurreição Pernambucana (1645-1654).

O professor explica que essas seis cartas pertenciam ao arquivo da Companhia das Índias Ocidentais, uma empresa de comércio com capitais privados e também capitais do Estado holandês. Essa companhia organizou uma invasão do Nordeste brasileiro em 1625, que não foi bem-sucedida. Os integrantes da companhia voltaram para o país europeu com alguns indígenas a bordo, entre eles os caciques Pedro Poti e Antônio Paraopeba. Na Holanda, os caciques foram convertidos ao protestantismo calvinista. Cinco anos depois, houve outra tentativa de invadir a costa do Nordeste. E dessa vez deu certo, principalmente, em Pernambuco, onde os holandeses permaneceram por 24 anos, desde 1630 até 1654. 

“E por que Portugal deixou a Holanda invadir o seu território?”, provoca Navarro. Ele relata que, em 1645, fazia cinco anos que Portugal tinha saído do domínio espanhol e, para firmar sua independência, era necessário obter apoio dos holandeses. Essa aliança foi consolidada pelo padre Antônio Vieira, que também era diplomata. Ele escreveu o plano Papel Forte, que consistia em entregar o Nordeste brasileiro em troca de apoio político. Já os senhores de engenho não queriam a presença dos holandeses, pois muitos estavam endividados com a Companhia das Índias Ocidentais. Queriam que os holandeses fossem embora, para não pagar suas dívidas. Nesse período, o conde Maurício de Nassau foi quem administrou Pernambuco e conseguiu apaziguar os conflitos religiosos e dos senhores de engenho. Ele criou um ambiente de tolerância religiosa, numa época em que em território português era obrigatório o catolicismo e as outras religiões eram consideradas heresia. 

Carta de Diogo Pinheiro Camarão a Pedro Poti, de 21 de outubro de 1645

Quando Nassau voltou para a Europa, em 1644, começaram a acontecer conflitos religiosos. Jacob Rabbi, um alemão a serviço do governo holandês, provocou um massacre em Cunhaú, no Rio Grande do Norte. As portas da Igreja de Nossa Senhora das Candeias foram trancadas e dezenas de fiéis foram mortos. Esse foi o estopim para a Insurreição Pernambucana.

Navarro descreve que, do lado holandês, ficaram Pedro Poti e Antônio Paraopeba, indígenas protestantes, e, do lado português, Felipe Camarão, indígena católico, que pedia a seus parentes Poti e Paraopeba que voltassem para o lado português. “Esses pedidos estão nas cartas, todas de 1645: a primeira é de agosto e as últimas são de outubro. Foram preservadas seis cartas, mas imagino que deve haver mais”, destaca o professor. Ele conta que a primeira carta de que há registro é de Felipe Camarão, pedindo para que Pedro Poti deixasse os holandeses, sob a alegação de que eram hereges e “estão no fogo do diabo”. Camarão escrevia que os indígenas precisavam se unir, pois eram do mesmo sangue e não podiam se matar daquela maneira. A resposta do Poti é conhecida através de um resumo em holandês feito por um pastor holandês. “Poti respondeu que não havia motivo para apoiar os portugueses, já que eles só fizeram mal para seu povo: escravizaram e praticaram violência contra os potiguaras. Uma crítica bem contundente”, ressalta Navarro. Diferentes dos holandeses, os portugueses não preservaram as cartas dos indígenas, entre elas a resposta de Poti. “Por isso só é possível ver as cartas que os holandeses receberam”, lamenta o professor.

O conteúdo das cartas é constituído por textos sobre indígenas que desejam que seus parentes se unam, que abandonem as suas posições na guerra e parem de matar os seus parentes. Há comentários em que eles pedem que suas antigas tradições sejam revigoradas. Por meio das cartas, obtêm-se também informações mais específicas, como os nomes dos caciques que morreram na guerra e os lugares em que eles lutaram.

Pelo fato de as cartas serem escritas pelos próprios indígenas, pode-se observar como era a língua efetivamente falada e usada por eles, de acordo com Navarro. Assim, as cartas também são consideradas provas de que os missionários descreveram a língua corretamente. Como conta o professor, há estudiosos que dizem que os missionários jesuítas teriam adaptado a língua aos seus interesses. Entretanto, não foi isso o que aconteceu. “As cartas comprovam que missionários escreveram exatamente aquilo que os indígenas falavam.”

Antes de Navarro, houve algumas tentativas de traduções das cartas. Uma delas foi feita pelo engenheiro Teodoro Sampaio, que recebeu as cartas pelo historiador José Hygino Duarte Pereira, que foi quem as descobriu, em 1885. O engenheiro confessa, em seu artigo Cartas tupis dos Camarões (1908), que até conseguia reconhecer o assunto das cartas, mas não conseguia traduzi-las efetivamente. Eram “verdadeiros mistérios”. Ninguém mais tentou traduzi-las até a década de 1990, quando o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Aryon Rodrigues foi à Holanda buscar essas cartas. Não conseguiu traduzi-las e mostrou-as a Navarro. “Eu pedi para a biblioteca na Holanda e elas chegaram em microfilmes. E percebi que ninguém conseguia traduzi-las porque não havia dicionário em tupi antigo. Eu tive que elaborar um dicionário para depois traduzir as cartas”, explica Navarro. Após publicar Dicionário de Tupi Antigo: a Língua Indígena Clássica do Brasil (2013), Navarro começou a analisar as seis cartas de forma mais intensa.

“São os primeiros e os únicos documentos escritos pelos próprios indígenas até a Independência do Brasil. É muito raro ter algo escrito pelos indígenas que tenha sido preservado. Esse é o verdadeiro valor dessas cartas”, destaca Navarro. Com esses “documentos preciosos”, de acordo com Navarro, observa-se também os rumos da guerra. As cartas mostram o movimento dos exércitos, aspectos da cultura dos indígenas potiguaras e certa tristeza por terem perdido sua cultura tradicional.

“Esse trabalho me alegra muito”, comenta Navarro. Ele afirma que há duas razões para essa alegria. A primeira é que a pesquisa é uma contribuição para a cultura brasileira. A segunda é que as cartas auxiliam no ensino. O professor conta que desde 2001 ensina tupi para um grupo de indígenas potiguaras, na Paraíba, que tinham deixado de falar sua língua e hoje buscam uma afirmação da sua identidade e querem aprender a língua. 

Fonte: Jornal da USP


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

DIÁRIO DE GUERRA NARRA O SOFRIMENTO DE PRISIONEIROS AMERICANOS

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Os escritos revelam a vida de prisioneiro de guerra, a angústia das famílias e a determinação de dois homens de preservar a história que viveram


Uma iniciativa chamada Projeto de História dos Veteranos publicou os escritos e a história de dois soldados norte-americanos na Segunda Guerra Mundial. George Washington Pearcy e Robert F. Augur se conheceram num campo de prisioneiros de guerra nas Filipinas.

Pearcy mantinha um diário, escrito atrás de rótulos de latas ou qualquer outro pedaço de papel. Em setembro de 1944, depois de dois anos neste campo, ele ia ser transferido para o Japão. No entanto, a travessia de navio nunca chegou ao destino final. Antes de Pearcy ser obrigado a embarcar, ele confiou seu diário a Augur, que continuaria no campo. Pearcy, na época com 29 anos, foi morto semanas depois quando o navio japonês Arisan Maru foi atingido por um torpedo de um submarino americano. Augur, que na época tinha 34 anos, sobreviveu à guerra, voltou para casa e levou o diário de Pearcy. Quase 75 anos depois, a Biblioteca do Congresso americano adquiriu os escritos dos dois companheiros de guerra e publicou na internet, junto com a correspondência da família.

Os escritos revelam a vida de prisioneiro de guerra, a angústia das famílias e a determinação de dois homens de preservar a história que viveram. Pearcy descreveu seus companheiros de campo. Eles estavam magros como esqueletos, comiam sapos e caramujos e se vestiam com trapos. Pearcy também documentou suas doenças: malária, diarreia crônica e beribéri. Além disso, fazia listas das pessoas que conheceu, do que comeu e do que faria quando voltasse para casa.

Augur e Pearcy haviam sido capturados em 1941, quando o Japão atacou as forças norte-americanas nas Filipinas. O Projeto de História dos Veteranos recebeu os escritos de Pearcy em dezembro de 2015, de familiares. Era o único diário original de prisioneiro de guerra no Pacífico. Quando o projeto divulgou online o diário, em fevereiro, e mencionou o papel de Augur, a família dele reconheceu a história e ofereceu seus escritos também.

George Washington Pearcy nas Filipinas em 1941

Antes de ser capturado, Augur já tinha sido condecorado por heroísmo na luta que lhe custou uma perna, a Batalha de Corregidor em 1942. Augur escreveu num pequeno caderno preto o nome de seus companheiros, seus endereços e, em alguns casos, seus destinos. Ao lado do nome de Pearcy, estava a data que ele havia embarcado para o Japão: setembro de 1944.

Quando Augur foi solto, ele enviou o diário de Pearcy para os pais dele: Frances e Claude Pearcy. “Eu espero e rezo que tenham recebido notícias dele… ou que em breve recebam uma mensagem sobre sua chegada em segurança”. Nem Augur nem os pais de Pearcy sabiam que Pearcy já tinha morrido havia cinco meses.

A tripulação do submarino norte-americano não sabia que a embarcação japonesa levava 1.775 prisioneiros de guerra, incluindo Pearcy. O navio naufragou em 24 de outubro de 1944, no Mar do Sul da China. Os pais de Pearcy só saberiam do destino de seu filho sete meses depois. Eles continuaram a escrever para o filho e, em 25 maio de 1945, a mãe escreveu que tinha recebido notícias de Augur. Quatro semanas depois, o Departamento de Guerra escreveu aos pais de Pearcy, informando que ele havia morrido.

O corpo de Pearcy nunca foi encontrado. Mas em outubro de 1945, dois meses depois que a Segunda Guerra Mundial terminou e um ano depois que Pearcy morreu, seus pais receberam uma correspondência atrasada do filho, dizendo que ele amava os dois e desejando parabéns pelo aniversário do pai.

Fontes: 
- The Washinton Post-2 POWs, 2 World War II diaries tell a story of friendship, suffering and death
- Library of Congress-George Washington Pearcy collection 1915-1949



quinta-feira, 21 de outubro de 2021

BATALHA DAS ILHAS PARACEL (1974)

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Em 1974, no apagar das luzes da Guerra do Vietnã, a República Popular da China conquistou as Ilhas Paracel, assegurando uma posição geopolítica no Mar do Sul da China e antecipando o conflito Sino-Vietnamita.


Embora a China não tivesse participado diretamente da Guerra do Vietnã nos anos 1960 e 1970, o apoio econômico e material de Beijing para o Vietnã do Norte desempenhou um papel crucial. A China enviou tropas para ajudar a manter as linhas de abastecimento e, de acordo com estimativas, seu apoio a Hanói entre 1950 e 1978 ultrapassou a cifra de US$ 20 bilhões. Portanto, Beijing ficou compreensivelmente incomodada com a melhoria das relações entre Moscou e Hanói. Em uma ação que acompanhava de perto a grilagem de terras da União Soviética (URSS) perto do fim da Guerra Civil Chinesa, a República Popular da China decidiu tomar posse das Ilhas Paracel do Vietnã do Sul, imediatamente antes da reunificação norte-vietnamita do país.

Em 19 de janeiro de 1974, a Marinha do Exército Popular Chinês ganhou nova visibilidade quando conquistou do Vietnã do Sul as Ilhas Paracel. De acordo com a versão chinesa desses eventos, o conflito se originou quando os vietnamitas ilegalmente prenderam pescadores chineses em novembro de 1973. Isso levou o Ministério das Relações Exteriores a anunciar, em 11 de janeiro de 1974, que o Vietnã havia invadido seu território soberano, razão pela qual a operação foi classificada como um "contra-ataque".

As Ilhas Paracel, posição estratégica na geopolítica do Mar do Sul da China

A batalha principal ocorreu durante a manhã de 19 de janeiro, quando quatro embarcações vietnamitas encontraram um número igual de navios chineses. A batalha durou menos de uma hora, mas resultou no afundamento de um navio vietnamita e danos a outros três. Os navios chineses também sofreram danos, mas nenhum deles afundou. O Vietnã perdeu 53 mortos e 16 feridos, enquanto a República Popular da China admitiu apenas 18 mortos. Além das ações navais, as aeronaves chinesas da ilha de Hainan apoiaram os desembarques anfíbios.

Deng Xiaoping era chefe do Estado-Maior do Exército chinês na época e supervisionou a operação. Considerando as distâncias envolvidas e o tempo que levou para deslocar os navios da Marinha do Exército Popular Chinês para a área, a data da batalha de 19 de janeiro, exatamente o vigésimo quarto aniversário do reconhecimento do governo norte-vietnamita pela República Popular da China, não era claramente uma coincidência, mas o objetivo era enviar um sinal político ao Vietnã do Norte, mostrando o descontentamento de Beijing com as estreitas relações de Hanói com Moscou. Em 20 de janeiro, essas ilhas foram oficialmente anexadas pela China e fizeram parte integrante da província de Guangdong.

Destroier sul-vietnamita Ly Thuong Kiet (HQ-16)

No final de janeiro de 1974, portanto, o plano assegurava o controle sobre as Ilhas Paracel. No mês de fevereiro, Mao Zedong tentou usar esse sucesso para pressionar o Vietnã do Norte a se voltar contra a URSS, pedindo publicamente uma coalizão de “terceiro mundo” contra o chamado “primeiro mundo”, neste caso significando a URSS. Em vez disso, o governo vietnamita criticou a presença da China nessas ilhas e procurou relações ainda mais próximas com Moscou. A URSS também aumentou dramaticamente sua força ao longo da fronteira sino-soviética para mais de um milhão de homens, e armou essas tropas com armas convencionais, incluindo tanques T-72, e armas nucleares. Enquanto isso, mais de 70 navios soviéticos e cerca de 75 submarinos estavam agora estacionados no Pacífico. Conforme observou uma autoridade vietnamita: "Há um forte interesse soviético coincidente com os interesses vietnamitas - reduzir a influência chinesa nesta parte do mundo".

Após a reunificação formal do Vietnã, o governo comunista de Hanoi se posicionou abertamente contra Beijing. Em 1º de julho de 1976, o Vietnã declarou que as Ilhas Paracel eram território vietnamita. Em resposta, a China repetiu essencialmente os maus tratos da União Soviética em relação à China em 1960, tentando minar o desenvolvimento econômico do Vietnã.

Navio chinês avariado após combate pelas Ilhas Paracel

A República Popular da China também apontou para o reconhecimento, em setembro de 1958, pelo primeiro-ministro Pham Van Dong, das fronteiras marítimas da China, como prova de que o governo da República Democrática do Vietnã havia reconhecido a soberania da China sobre as Ilhas Paracel e Spratly. Apesar de não negar a existência da carta, o governo vietnamita emitiu um comunicado em agosto de 1979, esclarecendo que “o espírito e a letra da nota estavam estritamente limitados ao reconhecimento das águas territoriais da China de 12 milhas”. Sob o direito internacional, entretanto, país reconheceu a soberania de outro país sobre o território, não pode rescindir esse reconhecimento.

Desde a expedição naval chinesa de 1974 para assumir o controle das Ilhas Paracel, as tensões sino-vietnamitas sobre as ilhas persistiram. Como esclareceu um estudioso vietnamita, as Paracel permanecem “estrategicamente importantes” para o Vietnã, já que estão “localizados em uma das vias marítimas mais importantes do mundo”.

Em 15 de fevereiro de 1979, Deng declarou que a China planejava realizar um ataque limitado ao Vietnã. Para evitar a intervenção soviética, a China colocou suas tropas ao longo da fronteira sino-soviética - estimadas em um milhão e meio - em um alerta de emergência. Organizou um novo comando militar em Xinjiang e evacuou cerca de 300.000 civis de suas casas, imediatamente ao longo da fronteira sino-soviética.

Cartaz de propaganda chinês

Enquanto isso, a Frota do Mar do Sul empregou dois destróieres lançadores de mísseis, quatro destróieres de escolta, 27 navios-patrulha, 20 submarinos e 604 outros navios. Além de posicionar embarcações de patrulha em torno das Paracel, a guarnição de mil homens possuía armas antiaéreas. 

As Paracel serviram tanto como uma área intermediária entre a China e o Vietnã, e também potencialmente como uma área estratégica para realizar ataques navais punitivos contra os vietnamitas. Além disso, as forças terrestres e navais chinesas nas Paracel forneceram um importante posto avançado para observar a Marinha Soviética.

Mapa mostrando as ações navais nas Ilhas Paracel

Mas a Marinha do Exército Popular Chinês claramente não era páreo para a Marinha Soviética. Em 22 de fevereiro de 1979, o coronel N.A. Trarkov, adido militar soviético em Hanói, ameaçou que a URSS se sentia obrigada a “cumprir suas obrigações sob o tratado soviético-vietnamita”. Em outros lugares, diplomatas soviéticos deixaram claro que a URSS não interviria enquanto o conflito permanecesse limitado. Os navios soviéticos estavam navegando ativamente no Mar do Sul da China, sob a vigilância constante dos porta-aviões americanos USS Midway e USS Constellation. Por decisão mútua, no entanto, nem a China nem a União Soviética autorizaram suas forças navais a atacar.

A maioria dos estudos da expedição naval chinesa às Ilhas Paracel minimiza ou ignora completamente que, na verdade, foi uma campanha periférica no maior conflito da China contra o Vietnã do Norte e, por extensão, com a principal aliada de Hanói, a URSS.  Essa campanha periférica incluiu uma tentativa da China de afirmar uma medida de controle do mar, ou pelo menos de "negação do mar", mantendo o controle sobre as Ilhas Paracel. Embora a ameaça naval chinesa das Paracel permanecesse passiva, seu impacto estratégico era enorme. O resultado dessa ameaça naval foi convencer a Marinha Soviética a não prestar apoio ao Vietnã durante a guerra sino-vietnamita.

Navios participantes da batalha pelas Ilhas Paracel


Quando as negociações de paz foram abertas em abril de 1979, a China imediatamente exigiu que o Vietnã reconhecesse a soberania da República Popular da China no Mar do Sul da China e, em particular, nas Ilhas Paracel, mas Hanói rejeitou essa proposta. As tensões continuaram intensas e, em 1988, um segundo conflito estourou nas Ilhas Spratly, quando forças navais chinesas expulsaram tropas vietnamitas do recife Johnson.


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quinta-feira, 14 de outubro de 2021

GUARDA VARANGIANA: OS VIKINGS EM CONSTANTINOPLA

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Do século X até o século XIV, mercenários escandinavos se tornaram parte central na defesa do Império Romano do Oriente


Por Letícia Yazbek e Thiago Lincolins

Durante o verão de 987, os homens do general bizantino Bardas Focas se preparavam para invadir Constantinopla. Antes aliado do imperador Basílio II, Focas havia se rebelado para lhe tomar o poder e controlar o Império. Mas o imperador, que já esperava o ataque inimigo, contava com uma arma secreta. Em um acordo com o príncipe Vladimir I, dos Rus de Kiev, 6 mil guerreiros foram enviados para lutar pelo exército bizantino — em troca, Vladimir se casou com Ana, irmã do imperador.

Antes que Focas pudesse atacar, um grupo atravessou o Estreito de Bósforo em direção a Crisópolis, atual Üsküdar, onde os rebeldes festejavam. Armados com machados e espadas, os nórdicos trucidaram grande parte dos inimigos e colocaram em fuga os poucos que restaram.

No ano seguinte, os guerreiros enfrentaram Bardas Focas e seus homens na sangrenta Batalha de Abido, que terminou com a morte do general e na consolidação do poder de Basílio II — e de seu exército estrangeiro.

Era a instituição permanente da guarda varangiana, unidade de elite do exército bizantino que atuou como tropa de choque e defesa pessoal dos imperadores até o século 14. Conhecida pela fidelidade e violência extremas, seria a tropa mercenária mais famosa da História.


Vikings russos

O que vikings faziam na Ucrânia? No século IX, parte dos nórdicos que viviam na região de Uppland, hoje pertencente à Suécia, iniciou um movimento de migração em direção ao leste, em busca de prata e produtos como peles e âmbar. Liderados pelo rei Rurik, tomaram a cidade eslava de Novgorod.

Esses invasores eram chamados de rus. Segundo os pesquisadores Hunt Janin e Ursula Carl, autores de Mercenaries in Medieval and Renaissance Europe (Mercenários na Europa Medieval e Renascentista), “a palavra rus provavelmente tem origem no idioma nórdico antigo, e significa os homens que remam”, referência à forma como os vikings chegavam, de barco.

Navio Viking: "homens que remam".
 
Excelentes navegadores, os rus passaram a comercializar com os árabes e os gregos, controlando importantes rotas comerciais, como a do Rio Volga, que ligava o Mar Báltico ao Mar Cáspio, e a do Rio Dniepre, que os levava ao Mar Negro e a Constantinopla — o mais poderoso e organizado Estado da Europa, que seria alvo de ataques rus.

“Em 860, os varangianos [nome pelo qual os bizantinos os chamavam] atacaram e pilharam os arredores da capital imperial e, mesmo sem conseguir atacar Constantinopla devido à sua fortificação, eles se mostraram, conforme fontes bizantinas, como forças devastadoras”, afirma o historiador Johnni Langer, da Universidade Federal da Paraíba.

Escudo e armas Vikings
 
Em 882, sob o comando de Oleg, sucessor do rei Rurik, os rus migraram para o sul, em direção ao Rio Dniepre e à cidade de Kiev, expandindo seu território e influência na região. A partir de então, até por volta de 970, realizaram mais uma série de ataques ao Império Romano do Oriente (eles nunca se chamaram de bizantinos), que, diante do poder ofensivo inimigo, acabaram cedendo vantagens comerciais e oferecendo acordos de paz.


A serviço do imperador

No fim do século 10, enquanto muitos rus se aventuravam pelas rotas comerciais, outros optaram por atuar como uma guarda mercenária. Segundo Langer, há evidências de que a presença de vikings em uma elite militar bizantina teve início ainda no século 9, durante o governo do imperador Teófilo (829-842), quando estrangeiros eram contratados para lutar em batalhas específicas.

Autor de The Varangian Guard — 988-1453 (A Guarda Varangiana — 988-1453), o historiador Raffaele D’Amato cita uma operação realizada contra os muçulmanos de Creta, em 902, quando cerca de 700 varangianos estavam a serviço dos bizantinos.

O termo varangiano surgiu no século IX, quando os primeiros rus começaram a servir o Império Bizantino. Foi usado inicialmente pelos bizantinos e depois apropriado pelos rus. Segundo Janin e Carl, a palavra tem origem no termo nórdico antigo vaering, que significa algo como aliado, confiança ou voto de fidelidade.

Mercenários da Guarda Varangiana a serviço do Imperador bizantino
 
Ela se refere a um grupo de guerreiros ou comerciantes que jurou lealdade ao seu líder e fraternidade entre si.” Foi só em 988, após o acordo entre Basílio II e Vladimir I de Kiev, quando a tropa de 6 mil homens foi enviada em auxílio ao imperador, que a aliança política entre norte e sul foi consolidada.

Impressionado com a rapidez, a ferocidade, o empenho e as técnicas de ataque com que ao varangianos derrotaram os homens de Bardas Focas, Basílio II decidiu contratá-los como sua guarda pessoal. A vantagem, para ele, era enorme: além da fama de brutalidade, que fazia com que fossem respeitados por onde passassem, o povo era conhecido por sua lealdade comprovada.

Os estrangeiros logo se mostraram muito mais habilidosos e confiáveis do que os próprios guardas bizantinos. “Sendo mercenários, podiam ser controlados com dinheiro, sempre uma vantagem em vez de recrutar bizantinos — que poderiam se rebelar por questões políticas ou sociais”, conta Langer.

Utilizada principalmente como defesa do palácio e do imperador, a guarda varangiana era a unidade mais bem paga de todas as tropas do Império. Focados no objetivo de enriquecer, os soldados nórdicos se entregavam à tarefa em troca de dinheiro, terras e cidadania.

Diante da lealdade e do terror provocado pelos varangianos, os sucessores de Basílio II continuaram a utilizá-los como guardas pessoais e tropa especial. Ao longo dos séculos que se seguiram, a guarda ganhou importância e se tornou uma das forças mais respeitadas do Império.


Ajuda decisiva 

Inicialmente, a guarda era composta de descendentes de escandinavos. À medida que crescia, passou a incluir diferentes homens, entre eles: anglo-saxões, irlandeses e escoceses. Na época, era uma honra servir aos imperadores bizantinos.

Assim, uma taxa de 7 a 16 libras (328 g, na libra romana) de ouro passou a ser cobrada para que os homens pudessem entrar na guarda. Muitas vezes o próprio imperador emprestava a quantia. Em troca, os soldados pagariam a dívida com o salário que recebiam por suas atuações. A confiança que os imperadores investiram nos guerreiros só foi possível devido aos esforços nos campos de batalha.

Guardas Varangianos escoltando o corpo do Imperador leão V, em 820, em uma iluminura bizantina

Durante a Batalha de Beroia, em 1122, no local que é hoje a Bulgária, a guarda varangiana demonstrou todo o seu poder. Inicialmente, o conflito foi travado entre o exército regular com pechenegues, um povo seminômade da Ásia Central que havia invadido o Império. Essas tropas bizantinas não foram capazes de conter a invasão.

A luz no fim do túnel veio com os varangianos. Com machados dinamarqueses que mediam em torno de 1 metro, e com uma enorme fúria, os vikings fizeram com que os pechenegues fugissem. Os que sobreviveram foram aprisionados e se juntaram às fileiras da guarda varangiana.


Soldado-celebridade

Um nome notório que atuou na guarda foi Harald Hadrada. O futuro rei da Noruega chegou a Constantinopla em 1034. Como membro da guarda, se diferiu dos vikings que protegiam os imperadores. Hadrada e os seus 500 homens participaram de batalhas nas fronteiras do Império.

Inicialmente, ele e os seus homens participaram de campanhas contra piratas árabes no Mediterrâneo. Depois foram para as cidades do interior da Ásia Menor. Por volta de 1035, Harald também prestou serviços no leste do Eufrates.

Harald Hadrada, rei da Noruega, atuou como membro da Guarda Varangiana.

De acordo com os relatos de Thiodholf Arnorsson, poeta da corte dos reis, ele participou da captura de 80 fortalezas árabes. O prestígio veio quando Harald, e os outros guerreiros varangianos, foram enviados para lutar na Bulgária, em 1041, ao lado do exército liderado por Miguel IV, contra a revolta búlgara.

Após o conflito, Harald recebeu o título de honra bizantino Spatharokandidatos (Espatarocandidato) e o apelido Bolgara brennir (Búlgaro incendiário), devido à sua participação intimidadora.

“No serviço da Guarda, Hardrada viu ação extensiva, tendo participado de campanhas na Itália, Sicília, Bulgária e no Oriente, tendo ainda viajado até Jerusalém, possivelmente em escolta de peregrinos de alta importância no Império Bizantino. Sua vida no leste lhe garantiu fama, reputação e uma boa fortuna, que usou para financiar sua reivindicação ao trono da Noruega”, diz Langer.

Harald teria sido preso após a realização de um saque indevido da fortuna do imperador Miguel V. Ele foi libertado quando o imperador perdeu o trono após um reinado curto de quatro meses. Só deixaria a guarda de fato em 1043, quando voltou para a sua terra e iniciou o processo para assumir o trono da Noruega.


Desastre 

O declínio dos vikings bizantinos se relaciona, em grande parte, à queda de Constantinopla, devido às consequências da Quarta Cruzada, de 1204. Foi feito um acordo com a República de Veneza para prover o transporte deles até o Egito, no caminho para a reconquista de Jerusalém. Mas, antes mesmo de saírem, receberam uma proposta do príncipe Alexios Angelos para realizarem um desvio para Constantinopla.

Angelos queria que eles o ajudassem a se instalar no trono de seu pai, Alexios III, deposto por uma revolta. Em troca, receberiam suprimentos e financiamento para o resto da missão. Com a ajuda dos cruzados e seus aliados venezianos, Alexios, o filho, seria feito imperador em 1203.

No ano seguinte, outra revolta o levou do trono para o precipício. Quando os cruzados souberam que Alexios havia sido executado, decidiram tomar Constantinopla — o notório saque seria a forma de receberem o pagamento prometido pelo imperador.

O cerco começou em 8 de abril de 1204, e no dia 12 os cruzados conseguiram atravessar os muros, iniciando um saque que iria até o dia seguinte. E foi nesse momento que os vikings bizantinos entraram em ação. A guarda travou uma sangrenta luta com os venezianos que escalaram as muralhas pelo mar. Mas foi em vão, diante dos números dos cruzados.

O cerco de Constantinopla em 1204
 
Com a capital do Império queimada, saqueada e vandalizada, a guarda varangiana perdera o seu impacto. Passou a desempenhar funções secundárias ou cerimoniais. Alguns dos guerreiros ainda serviram ao Império de Niceia ou ao Principado do Epiro, fragmentos do Império Romano do Oriente.

Outros varangianos lutaram contra os búlgaros em 1265. Em 1351, foram mencionados como guardas do imperador João V. “Diversos elementos da identidade dos vikings bizantinos eram providos pela cultura e religião nórdica pagã, que desapareceram aos poucos com a cristianização dos guerreiros”, afirma Langer.

Constantinopla voltaria às mãos dos bizantinos, pela Dinastia Paleóloga, em 1261 . A essa altura, os nórdicos já estavam totalmente integrados na vida cristã europeia. Não havia mais vikings. A guarda não foi reconstruída.

O novo Império Romano — eles continuaram a se chamar assim, nunca bizantinos ou gregos — não duraria dois séculos, caindo diante dos canhões de 5 metros do Império Otomano em 1453. Provavelmente, a essa altura, uma força viking não teria muito a fazer. Mas nunca vamos saber.

Fonte: Aventuras na História

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

EDITOR DO BLOG MINISTRA AULA NA ACADEMIA DA FORÇA AÉREA DOS EUA

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Na condição de professor visitante, o editor do Blog Carlos Daróz-História Militar ministrou duas aulas para os cadetes da Academia da Força Aérea dos EUA (USAFA). O tema abordado foi a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial, assunto pouco conhecido até mesmo no Brasil. 

A USAFA fica em Colorado Springs, nas montanhas do Colorado, e forma anualmente cerca de 1.000 oficiais para a United States Air Force e para a United States Space Force.




Excelente oportunidade para divulgar a História Militar brasileira em tão importante instituição.




quinta-feira, 16 de setembro de 2021

A RÚSSIA ENTRE OS ALIADOS NA 1ª GUERRA MUNDIAL

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Antes de assinar um tratado de paz em 1917, país fez importantes contribuições com o seu Exército Imperial Russo no reforço à guerra dos aliados.

Por Dmitri Kochko


Ao pensar sobre a Rússia e a Primeira Guerra Mundial, os historiadores geralmente se concentram no Tratado de Brest-Litovsk, que pôs fim à guerra para a Rússia, o mau desempenho do Exército russo e o papel que a guerra desempenhou no desencadeamento da Revolução de Outubro.

Mas, em vez disso, as pesquisas do historiador Sergue Andolenko analisam o papel desempenhado pela Rússia no esforço de guerra dos aliados. Nascido na Rússia, Andolenko foi general e historiador militar. Ele emigrou para a França após a Revolução de Outubro, onde estudou na Escola Militar Especial de Saint-Cyr.

Pável Andolenko, filho de Sergue e ex-oficial da Marinha Francesa, falou à Gazeta Russa sobre os estudos conduzidos pelo pai.


1914: O Marne

O Exército russo foi um dos melhores de seu tempo, segundo Adolenko, mas tinha dois grandes problemas: as dimensões do território da Rússia e sua economia subdesenvolvida. O império era tão grande que, logisticamente, era difícil manter o fornecimento de armas para o fronte. A economia da Rússia, que estava apenas começando a ser impactada pela modernização, não era forte o suficiente para resistir a um conflito global prolongado.

No entanto, apesar dessas desvantagens, o Exército russo ainda conseguiu causar impacto nos dois primeiros anos da guerra. Em 17 de agosto de 1914, lançou uma ofensiva contra a Prússia Oriental, região da província alemã na costa sul-oriental do Báltico. A Rússia concordou em realizar a ofensiva a pedido dos franceses, para que o Exército francês pudesse se concentrar em defender o ataque alemão no Marne, no nordeste da França.

Infantaria russa em ação na Prússia Oriental


Essa ofensiva, que, segundo o historiador de São Petersburgo Víktor Pravdiuk, foi realizada “em prol dos aliados”, custou ao país nada menos que 100 mil homens e terminou com uma derrota na Batalha de Tannenberg.

Porém, as primeiras vitórias russas provocaram pânico no Alto Comando alemão – e tanto, que a Alemanha tirou dois corpos do exército e uma divisão de cavalaria do Front Ocidental para lutar contra a Rússia. Esta foi uma das razões para o “milagre” no Marne.


1915: Verdun

Andolenko descreve 1915 como “Verdun antes de Verdun”. E foi em 1915 que o Exército russo teve que enfrentar tudo o que a indústria alemã era capaz de produzir.

Em 1915, o número de perdas humanas superou até mesmo o de 1914, e a indústria russa se mostrou incapaz de acompanhar as exigências da guerra. Soldados russos foram forçados a pegar as armas de seus companheiros mortos no campo de batalha apenas para ter algo com o que lutar.

No entanto, a guerra continuou, com soldados russos usando baionetas, facas e até mesmo os próprios punhos. Mais de 1,4 milhão de soldados russos foram mortos ou ficaram feridos naquele ano.

Percebendo, porém, que não poderiam ganhar em ambas as frentes, os alemães ofereceram um acordo de paz com um bônus: os estreitos turcos e Constantinopla.

Do ponto de vista militar, os próprios russos deveriam ter pedido uma trégua, já que sua inferioridade em termos de armas e equipamentos estava resultando em enormes perdas. Mesmo assim, o tsar Nikolai II decidiu rejeitar a oferta alemã.


1916: Recuperação russa

Em 1916, a Alemanha voltou sua atenção para a Frente Ocidental. Os russos usaram o breve período de alívio para abastecer e reequipar suas forças, lançando mais tarde pelo menos duas grandes campanhas, que se revelariam decisivas para o resultado final da guerra.

A primeira delas foi uma ofensiva em junho, liderada pelo general Aleksêi Brusilov, na Bessarábia – região que atualmente faz parte da Moldávia e da Ucrânia. A iniciativa incapacitou dois milhões de combatentes inimigos.

A segunda foi liderada pelo general Nikolai Iudenitch, que derrotou os turcos nas montanhas do Cáucaso, na fronteira sul da Rússia, e conseguiu chegar ao rio Eufrates, na Turquia.

Soldados russos entrincheirados no Front Oriental


A recuperação do Exército russo trouxe novo otimismo aos aliados. Winston Churchill, ministro das Armas da Grã-Bretanha, observou que “alguns episódios da Grande Guerra são mais surpreendentes do que a restauração, a reconstituição e o esforço gigantesco da Rússia em 1916”.

No início de 1917, muitos participantes e observadores do conflito de ambos os lados estavam convencidos de que o Exército russo já havia vencido a guerra, pelo menos de acordo com o general Adolenko.“O Exército russo não foi derrotado; muito pelo contrário”, diz seu filho, Pável Andolenko.


1917: Abdicação do czar

Em janeiro de 1917, os austríacos começaram a negociar com os franceses, ingleses e italianos para dar um fim à guerra – fato que o czar Nikolai II desconhecia. Se o imperador soubesse, ele provavelmente não teria abdicado em março – uma ação que teve um profundo efeito sobre o moral dos soldados do Exército russo.

Sem imperador, eles não sabiam por quem estavam lutando. Afinal, o lema do Exército Imperial era “Fé, czar e pátria”.

Estima-se que 2 milhões de soldados russos tenham morrido na Primeira Guerra Mundial. As perdas russas superaram até as francesas, que totalizaram cerca de 1,4 milhão. “Os exércitos francês e russo foram os que mais se sacrificaram pela vitória, e devemos ter em mente que ambos lutaram em estreita cooperação durante a guerra, cada um se esforçando para aliviar o outro e suportando os principais ataques do inimigo”, afirma Pável Andolenko.

No final da guerra, apesar do Tratado de Brest-Litovsk, o marechal francês Ferdinand Foch escreveu: “A França não foi apagada do mapa da Europa sobretudo devido à coragem dos soldados russos”.

Fonte: Gazeta Russa