"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



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sábado, 11 de maio de 2024

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR - IVAN TURTCHANINOV, O OFICIAL CSARISTA QUE SE TORNOU GENERAL DO EXÉRCITO DOS EUA

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Herói na Guerra Civil Americana, Ivan Turtchaninov (John Basil Turchin) deixou a Rússia Imperial em busca de liberdade. Nos EUA, fez amizade com Abraham Lincoln e foi o único russo a ascender ao posto de general. Apesar dessas conquistas, seu o final de sua vida foi desastroso.

Por Oleg Egorov


Em 1862, durante a Guerra Civil Americana, o enviado russo a Washington, Eduard de Stoeckl, expressou descontentamento com o fato de o oficial russo Ivan Turtchaninov estar servindo no Exército da União: "As fileiras deste exército consistem de revolucionários e aventureiros de todos os cantos da Terra", escreveu Stoeckl a São Petersburgo.

Apesar de o Império Russo apoiar o Norte, Stoeckl acreditava que lutar em batalhas internas dos Estados Unidos era uma vergonha para um oficial que havia servido ao Imperador. Mas Turtchaninov não se importava com o que pensavam oficiais russos que não o apoiavam, pois havia deixado a terra natal para sempre.


Coronel teimoso

Nascido em 1822 na região do rio Don, no sul da Rússia, Turtchaninov seguiu os passos de seu pai, um cossaco. Em 1841, ele se formou na Escola Militar Imperial de São Petersburgo e, em 1848, participou da repressão à Revolução Húngara, lutando mais tarde na Guerra da Crimeia (1853-1856).

Turtchaninov  (John Basil Turchin) fotografado no posto de Brigadeiro-General


"No final da guerra [da Crimeia], Turtchaninov era coronel e tinha uma perspectiva de ter uma vida rica e uma carreira de destaque à frente. Mas ele não quis isto", escreveu o articulista David Zaslavski.

Em 1856, Turtchaninov e sua mulher, Nadejda, deixaram a Rússia e atravessaram o Atlântico, fugindo para os EUA. O motivo era ideológico: o coronel era um republicano ardente, ansiando por viver em um país livre onde uma pessoa pudesse decidir seu destino por si própria.

Na década de 1850, os EUA eram o único Estado proeminente a terem um governo republicano (todos as potências europeias eram monárquicas). Assim, após cruzar o oceano, o casal Turtchaninov comprou uma pequena fazenda próxima à cidade de Nova York.


Sentimentos contraditórios sobre os EUA

No novo continente, o russo adotou o nome John Basil Turchin. Mas o casal enfrentou muitas dificuldades. "Os Estados Unidos me ajudaram a me desfazer de meus preconceitos aristocráticos e me reduziram ao nível de um mero mortal. Eu renasci. Não temo nenhum trabalho; nenhum setor de negócios me espanta e nenhuma posição social me rebaixa”, escreveu Turtchaninov a Aleksandr Herzen, famoso dissidente político russo que morava em Londres.

E Turtchaninov teve mesmo que mudar de carreira muitas vezes: foi agricultor, operário e engenheiro. Sua fazenda em Nova York não deu tão certo, então os Turchins se restabeleceram em Chicago, onde o coronel trabalhou como engenheiro e teria conhecido até mesmo o futuro presidente norte-americano, Abraham Lincoln. Mais tarde, isso o ajudaria.

Turchin, porém, não estava completamente apaixonado pela vida nos EUA. Na mesma carta a Herzen, reclamava: "Estou totalmente desapontado; não vejo nem uma fração de liberdades de verdade aqui... Isto é um paraíso para os ricos, onde podem se safar de crimes perversos com dinheiro". O oficial idealista teve que enfrentar a dura realidade de todos os vícios do capitalismo norte-americano.


Batalhas e escândalos

Turchin criticou demais a América, mas quando a Guerra Civil estourou, em 1861, não hesitou em se juntar às fileiras do Exército da União. Graças a seu passado militar, ele recebeu o posto de coronel, e o 19º Regimento de Infantaria de Voluntários de Illinois ficou sob seu comando, lutando contra a Confederação no Tennessee e no Alabama.

Oficial ativo, Turchin confrontava frequentemente seu comandante, o general Don Carlos Buell, e, às vezes, agia até mesmo sem sua permissão. Turchin e seus homens ajudaram, por exemplo, a cercar Huntsville, no Alabama, cortando as linhas ferroviárias da Confederação. Este foi um grande sucesso tático que rendeu o respeito dos soldados. Mas novamente, ele entrou em confusão.


O saque de Atenas

Em 2 de maio de 1862, o 19º Regimento tomou a cidade de Atenas, no Alabama. Na ocasião, o exército estava frustrado com a situação em que se encontrava na guerra, já que os guerrilheiros dos Confederados frequentemente derrotavam os soldados da União com a ajuda dos residentes locais sulistas. Assim, o coronel russo decidiu ensinar aos rebeldes uma lição.

Em um episódio conhecido como “O saque de Atenas”, o coronel teria levado seus soldados da União à cidade, deixando-os saquear tudo o que podiam – quase 55 mil dólares, uma fortuna na época.

Turchin caiu em desgraça após o saque de Atenas, mas foi reabilitado por Abraham Lincoln

Após o incidente ganhar popularidade, Turchin foi demitido e levado à corte marcial. Mas muitos o apoiaram, e o jornal Chicago Tribune o classificou como uma "vítima da malícia pró-escravidão". Em seu discurso na corte, Turchin ressaltou que a União estava lutando contra os escravizadores com os quais “não se deveria lidar com luvas de pelica, mas um pouco mais duramente”.

Enquanto isto, a mulher de Turchin foi a Washington para levar o caso do marido diretamente a Lincoln, que não apenas liberou Turchin, mas também o promoveu a general de brigada. Afinal, a União precisava de oficiais ativos e inteligentes.


Esquecimento pós glória

Turchin continuou a servir ao Exército, lutando na Batalha de Chickamauga e na campanha de Chattanooga, onde deu seu melhor. Em 1864 ele teve que deixar o exército após sofrer um derrame. Depois da guerra, ele levou teve uma vida cheia de problemas, mudando de profissão o tempo todo. 

Turchin morreu em 1901, aos 79 anos e muito pobre.

Fonte: Russia Beyond

quarta-feira, 20 de julho de 2022

OS COSSACOS NAS GRANDES GUERRAS DO SÉCULO XX

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No século XX, o destino dos cossacos foi trágico: eles estiveram tanto entre as vítimas como entre os algozes. Divididos por guerras e revoluções, realizaram muitas proezas e cometeram muitas das atrocidades. 

Por Gueorgi Manaev


Em um dia quente de verão no ano de 1914, foi dado o alarme nas aldeias de cossacos da Rússia. Eles saíram cavalgando levando na mão uma pequena bandeira vermelha, o sinal de que a mobilização começara. Ao vê-los, as pessoas deixavam o seu trabalho no campo e se apressavam em voltar para casa a fim de equipar-se para a campanha da Primeira Guerra Mundial que mudaria o destino da Rússia.


“Não queremos defender os grandes senhores de terras”

Os cossacos, que no início do século XX somavam aproximadamente 4 milhões de pessoas, desde tempos imemoriais mantiveram uma tradição militar em suas famílias: eram excelentes cavaleiros e guerreiros ágeis e destemidos. Sua lealdade ao governo era assegurada pela isenção de quase todos os impostos e taxas, além de educação e saúde gratuitas. No entanto, a maioria dos cossacos comuns vivia na pobreza. A única fonte de renda era a terra que eles cultivavam ou arrendavam.

Os cossacos, que consideravam ser o herdeiro do trono o seu líder supremo (ataman), eram um dos principais pilares do poder na Rússia. Eles foram usados ativamente para dispersar manifestações e reprimir os camponeses e trabalhadores durante a revolução de 1905. Mas parte deles se recusou a ir contra o povo e defender os grandes proprietários de terras. Em algumas aldeias, oprimidos pela pobreza, os cossacos até se atreveram a se manifestar contra o governo. E, então, veio a Primeira Guerra Mundial.


Proeza desperdiçada

A notícia sobre o cossaco Kozma Kriutchkov, que juntamente com três companheiros derrotou um pelotão de 27 soldados da cavalaria alemã, se espalhou por toda a Europa. Na Primeira Guerra Mundial, Kriutchkov se tornou a primeira pessoa a ser condecorada por bravura com a Cruz de São Jorge. Ao todo, mais de 120 mil cossacos receberam essa condecoração ao longo da guerra.

Cossacos russos saindo para patrulha em 1916


Enquanto isso, as aldeias que ficaram sem os pais de família estavam entrando em decadência. O governo perdeu totalmente o apoio dos cossacos – quando aconteceu a revolução de fevereiro de 1917, algumas unidades de cossacos, direcionadas para a dispersão de manifestantes, não só se recusaram a cumprir ordens, como também passaram para o lado dos rebeldes. Em outubro de 1917, o Governo Provisório, liderado por Kerensky, foi derrubado pelos bolcheviques, sendo que muitas unidades de cossacos de São Petersburgo passaram para o lado deles.

A revolução dividiu os cossacos. Os primeiros decretos dos "vermelhos" foram recebidos com aprovação pela massa de cossacos pobres – os bolcheviques anunciaram que a Rússia havia saído da guerra e prometeram dar terra aos cossacos e não interferir nos seus assuntos, caso eles não se manifestassem contra o poder soviético. No entanto, o principal foco de resistência aos Sovietes surgiu precisamente no coração da Rússia dos cossacos, às margens do Rio Don.

Sargento Cossacos do Don, 1914.


Em 1918, o General Piotr Krasnov, que vinha de uma antiga estirpe de cossacos, liderou a resistência do exército do Don, o exército cossaco mais temível e independente. Krasnov anulou os decretos dos bolcheviques e declarou que as terras em que estava o exército constituíam um Estado independente e que ele era o seu ditador. Foram fuzilados de 25 mil a 40 mil cossacos “vermelhos” e outros 30 mil foram deportados.

Cossacos em ação por ocasião da Guerra Civil


Krasnov enviou um telegrama ao imperador alemão com a proposta de cooperação em troca do reconhecimento de seu "Estado". Berlim enviou muitos vagões de armas para Krasnov, mas após a derrota da Alemanha na guerra mundial, o “reino” de Krasnov se desintegrou e ele foi forçado a fugir. Em 1920, a resistência dos cossacos já havia sido eliminada.

Os bolcheviques começaram a eliminação dos cossacos como uma classe hostil ao poder soviético. Cossacos foram fuzilados, e famílias inteiras foram transferidas para outros territórios, a fim de "diluir" sua comunidade social. Em 1922, as terras que haviam pertencido às tropas cossacas passaram a integrar as repúblicas soviéticas. Mas isso estava longe de ser o fim dos cossacos.


O inimigo interno

No final dos anos 1930, a União Soviética começou a se preparar para a guerra. Foram revogadas as restrições que impediam os cossacos de servir no Exército Vermelho e eles foram autorizados a usar o uniforme de cossaco. Empobrecidos, iam para a guerra com armas brancas e com os cavalos exaustos dos kolkhozes (fazendas coletivas). Mas isso não os tornava desprovidos de coragem: eles saltavam das selas sobre os tanques blindados, tapavam as fendas para a visão com as fardas e, usando uma solução inflamável, ateavam fogo aos tanques.

Antes da Segunda Guerra Mundial, algumas divisões da cavalaria receberam o status de “dos cossacos”, apesar do  fato de os cossacos serem uma minoria em sua composição. Até mesmo a palavra "cossaco" fazia com que o inimigo ficasse aterrorizado.

No entanto, eles não lutaram somente do lado da União Soviética. A propaganda alemã seduzia os cossacos com a ideia de uma revanche pela guerra civil perdida e a promessa de criação de um Estado cossaco independente, a Kazakia. Os cossacos que haviam emigrado e a população de cossacos das áreas capturadas entraram para as fileiras das tropas do Reich. A eles se juntou o General Krasnov.

Em maio de 1945, a Alemanha se rendeu. O corpo independente de cossacos recebeu a ordem de atravessar os Alpes e ir para a Áustria para render-se aos britânicos. Churchill, Stalin e Roosevelt combinaram que os ex-cidadãos da URSS capturados pelos  aliados e que haviam lutado ao lado do inimigo deveriam ser entregues às tropas soviéticas.

Cossacos soviéticos participando da Parada da Vitória em 1945

Após a travessia dos Alpes sob a liderança de Krasnov, os cossacos entregaram as armas e foram alocados em campos de prisioneiros de guerra, perto da cidade de Lienz. A "extradição" começou no dia 28 de maio. Durante um serviço religioso oferecido para a massa de prisioneiros, as tropas britânicas lançaram-se sobre os cossacos e, espancando-os cruelmente, começaram a colocá-los em caminhões que transportavam os prisioneiros para o território ocupado pelos soviéticos. Isso durou duas semanas. De acordo com diferentes dados, foram entregues entre 40 mil e 60 mil pessoas, sendo que mais de 1.000 foram mortas por oferecerem resistência.

Os líderes dos cossacos que lutaram do lado dos alemães, Krasnov, Andrêi Shkuro, Von Pannwitz e outros, foram enforcados em Moscou, em 1947. Os prisioneiros que foram entregues, incluindo as mulheres, foram enviados para os campos soviéticos e submetidos a pesados trabalhos correcionais. Em 1955, os sobreviventes receberam anistia. Eles viveram e trabalharam na URSS, escondendo cuidadosamente o seu passado.

Fonte: Gazeta Russa


quinta-feira, 14 de outubro de 2021

GUARDA VARANGIANA: OS VIKINGS EM CONSTANTINOPLA

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Do século X até o século XIV, mercenários escandinavos se tornaram parte central na defesa do Império Romano do Oriente


Por Letícia Yazbek e Thiago Lincolins

Durante o verão de 987, os homens do general bizantino Bardas Focas se preparavam para invadir Constantinopla. Antes aliado do imperador Basílio II, Focas havia se rebelado para lhe tomar o poder e controlar o Império. Mas o imperador, que já esperava o ataque inimigo, contava com uma arma secreta. Em um acordo com o príncipe Vladimir I, dos Rus de Kiev, 6 mil guerreiros foram enviados para lutar pelo exército bizantino — em troca, Vladimir se casou com Ana, irmã do imperador.

Antes que Focas pudesse atacar, um grupo atravessou o Estreito de Bósforo em direção a Crisópolis, atual Üsküdar, onde os rebeldes festejavam. Armados com machados e espadas, os nórdicos trucidaram grande parte dos inimigos e colocaram em fuga os poucos que restaram.

No ano seguinte, os guerreiros enfrentaram Bardas Focas e seus homens na sangrenta Batalha de Abido, que terminou com a morte do general e na consolidação do poder de Basílio II — e de seu exército estrangeiro.

Era a instituição permanente da guarda varangiana, unidade de elite do exército bizantino que atuou como tropa de choque e defesa pessoal dos imperadores até o século 14. Conhecida pela fidelidade e violência extremas, seria a tropa mercenária mais famosa da História.


Vikings russos

O que vikings faziam na Ucrânia? No século IX, parte dos nórdicos que viviam na região de Uppland, hoje pertencente à Suécia, iniciou um movimento de migração em direção ao leste, em busca de prata e produtos como peles e âmbar. Liderados pelo rei Rurik, tomaram a cidade eslava de Novgorod.

Esses invasores eram chamados de rus. Segundo os pesquisadores Hunt Janin e Ursula Carl, autores de Mercenaries in Medieval and Renaissance Europe (Mercenários na Europa Medieval e Renascentista), “a palavra rus provavelmente tem origem no idioma nórdico antigo, e significa os homens que remam”, referência à forma como os vikings chegavam, de barco.

Navio Viking: "homens que remam".
 
Excelentes navegadores, os rus passaram a comercializar com os árabes e os gregos, controlando importantes rotas comerciais, como a do Rio Volga, que ligava o Mar Báltico ao Mar Cáspio, e a do Rio Dniepre, que os levava ao Mar Negro e a Constantinopla — o mais poderoso e organizado Estado da Europa, que seria alvo de ataques rus.

“Em 860, os varangianos [nome pelo qual os bizantinos os chamavam] atacaram e pilharam os arredores da capital imperial e, mesmo sem conseguir atacar Constantinopla devido à sua fortificação, eles se mostraram, conforme fontes bizantinas, como forças devastadoras”, afirma o historiador Johnni Langer, da Universidade Federal da Paraíba.

Escudo e armas Vikings
 
Em 882, sob o comando de Oleg, sucessor do rei Rurik, os rus migraram para o sul, em direção ao Rio Dniepre e à cidade de Kiev, expandindo seu território e influência na região. A partir de então, até por volta de 970, realizaram mais uma série de ataques ao Império Romano do Oriente (eles nunca se chamaram de bizantinos), que, diante do poder ofensivo inimigo, acabaram cedendo vantagens comerciais e oferecendo acordos de paz.


A serviço do imperador

No fim do século 10, enquanto muitos rus se aventuravam pelas rotas comerciais, outros optaram por atuar como uma guarda mercenária. Segundo Langer, há evidências de que a presença de vikings em uma elite militar bizantina teve início ainda no século 9, durante o governo do imperador Teófilo (829-842), quando estrangeiros eram contratados para lutar em batalhas específicas.

Autor de The Varangian Guard — 988-1453 (A Guarda Varangiana — 988-1453), o historiador Raffaele D’Amato cita uma operação realizada contra os muçulmanos de Creta, em 902, quando cerca de 700 varangianos estavam a serviço dos bizantinos.

O termo varangiano surgiu no século IX, quando os primeiros rus começaram a servir o Império Bizantino. Foi usado inicialmente pelos bizantinos e depois apropriado pelos rus. Segundo Janin e Carl, a palavra tem origem no termo nórdico antigo vaering, que significa algo como aliado, confiança ou voto de fidelidade.

Mercenários da Guarda Varangiana a serviço do Imperador bizantino
 
Ela se refere a um grupo de guerreiros ou comerciantes que jurou lealdade ao seu líder e fraternidade entre si.” Foi só em 988, após o acordo entre Basílio II e Vladimir I de Kiev, quando a tropa de 6 mil homens foi enviada em auxílio ao imperador, que a aliança política entre norte e sul foi consolidada.

Impressionado com a rapidez, a ferocidade, o empenho e as técnicas de ataque com que ao varangianos derrotaram os homens de Bardas Focas, Basílio II decidiu contratá-los como sua guarda pessoal. A vantagem, para ele, era enorme: além da fama de brutalidade, que fazia com que fossem respeitados por onde passassem, o povo era conhecido por sua lealdade comprovada.

Os estrangeiros logo se mostraram muito mais habilidosos e confiáveis do que os próprios guardas bizantinos. “Sendo mercenários, podiam ser controlados com dinheiro, sempre uma vantagem em vez de recrutar bizantinos — que poderiam se rebelar por questões políticas ou sociais”, conta Langer.

Utilizada principalmente como defesa do palácio e do imperador, a guarda varangiana era a unidade mais bem paga de todas as tropas do Império. Focados no objetivo de enriquecer, os soldados nórdicos se entregavam à tarefa em troca de dinheiro, terras e cidadania.

Diante da lealdade e do terror provocado pelos varangianos, os sucessores de Basílio II continuaram a utilizá-los como guardas pessoais e tropa especial. Ao longo dos séculos que se seguiram, a guarda ganhou importância e se tornou uma das forças mais respeitadas do Império.


Ajuda decisiva 

Inicialmente, a guarda era composta de descendentes de escandinavos. À medida que crescia, passou a incluir diferentes homens, entre eles: anglo-saxões, irlandeses e escoceses. Na época, era uma honra servir aos imperadores bizantinos.

Assim, uma taxa de 7 a 16 libras (328 g, na libra romana) de ouro passou a ser cobrada para que os homens pudessem entrar na guarda. Muitas vezes o próprio imperador emprestava a quantia. Em troca, os soldados pagariam a dívida com o salário que recebiam por suas atuações. A confiança que os imperadores investiram nos guerreiros só foi possível devido aos esforços nos campos de batalha.

Guardas Varangianos escoltando o corpo do Imperador leão V, em 820, em uma iluminura bizantina

Durante a Batalha de Beroia, em 1122, no local que é hoje a Bulgária, a guarda varangiana demonstrou todo o seu poder. Inicialmente, o conflito foi travado entre o exército regular com pechenegues, um povo seminômade da Ásia Central que havia invadido o Império. Essas tropas bizantinas não foram capazes de conter a invasão.

A luz no fim do túnel veio com os varangianos. Com machados dinamarqueses que mediam em torno de 1 metro, e com uma enorme fúria, os vikings fizeram com que os pechenegues fugissem. Os que sobreviveram foram aprisionados e se juntaram às fileiras da guarda varangiana.


Soldado-celebridade

Um nome notório que atuou na guarda foi Harald Hadrada. O futuro rei da Noruega chegou a Constantinopla em 1034. Como membro da guarda, se diferiu dos vikings que protegiam os imperadores. Hadrada e os seus 500 homens participaram de batalhas nas fronteiras do Império.

Inicialmente, ele e os seus homens participaram de campanhas contra piratas árabes no Mediterrâneo. Depois foram para as cidades do interior da Ásia Menor. Por volta de 1035, Harald também prestou serviços no leste do Eufrates.

Harald Hadrada, rei da Noruega, atuou como membro da Guarda Varangiana.

De acordo com os relatos de Thiodholf Arnorsson, poeta da corte dos reis, ele participou da captura de 80 fortalezas árabes. O prestígio veio quando Harald, e os outros guerreiros varangianos, foram enviados para lutar na Bulgária, em 1041, ao lado do exército liderado por Miguel IV, contra a revolta búlgara.

Após o conflito, Harald recebeu o título de honra bizantino Spatharokandidatos (Espatarocandidato) e o apelido Bolgara brennir (Búlgaro incendiário), devido à sua participação intimidadora.

“No serviço da Guarda, Hardrada viu ação extensiva, tendo participado de campanhas na Itália, Sicília, Bulgária e no Oriente, tendo ainda viajado até Jerusalém, possivelmente em escolta de peregrinos de alta importância no Império Bizantino. Sua vida no leste lhe garantiu fama, reputação e uma boa fortuna, que usou para financiar sua reivindicação ao trono da Noruega”, diz Langer.

Harald teria sido preso após a realização de um saque indevido da fortuna do imperador Miguel V. Ele foi libertado quando o imperador perdeu o trono após um reinado curto de quatro meses. Só deixaria a guarda de fato em 1043, quando voltou para a sua terra e iniciou o processo para assumir o trono da Noruega.


Desastre 

O declínio dos vikings bizantinos se relaciona, em grande parte, à queda de Constantinopla, devido às consequências da Quarta Cruzada, de 1204. Foi feito um acordo com a República de Veneza para prover o transporte deles até o Egito, no caminho para a reconquista de Jerusalém. Mas, antes mesmo de saírem, receberam uma proposta do príncipe Alexios Angelos para realizarem um desvio para Constantinopla.

Angelos queria que eles o ajudassem a se instalar no trono de seu pai, Alexios III, deposto por uma revolta. Em troca, receberiam suprimentos e financiamento para o resto da missão. Com a ajuda dos cruzados e seus aliados venezianos, Alexios, o filho, seria feito imperador em 1203.

No ano seguinte, outra revolta o levou do trono para o precipício. Quando os cruzados souberam que Alexios havia sido executado, decidiram tomar Constantinopla — o notório saque seria a forma de receberem o pagamento prometido pelo imperador.

O cerco começou em 8 de abril de 1204, e no dia 12 os cruzados conseguiram atravessar os muros, iniciando um saque que iria até o dia seguinte. E foi nesse momento que os vikings bizantinos entraram em ação. A guarda travou uma sangrenta luta com os venezianos que escalaram as muralhas pelo mar. Mas foi em vão, diante dos números dos cruzados.

O cerco de Constantinopla em 1204
 
Com a capital do Império queimada, saqueada e vandalizada, a guarda varangiana perdera o seu impacto. Passou a desempenhar funções secundárias ou cerimoniais. Alguns dos guerreiros ainda serviram ao Império de Niceia ou ao Principado do Epiro, fragmentos do Império Romano do Oriente.

Outros varangianos lutaram contra os búlgaros em 1265. Em 1351, foram mencionados como guardas do imperador João V. “Diversos elementos da identidade dos vikings bizantinos eram providos pela cultura e religião nórdica pagã, que desapareceram aos poucos com a cristianização dos guerreiros”, afirma Langer.

Constantinopla voltaria às mãos dos bizantinos, pela Dinastia Paleóloga, em 1261 . A essa altura, os nórdicos já estavam totalmente integrados na vida cristã europeia. Não havia mais vikings. A guarda não foi reconstruída.

O novo Império Romano — eles continuaram a se chamar assim, nunca bizantinos ou gregos — não duraria dois séculos, caindo diante dos canhões de 5 metros do Império Otomano em 1453. Provavelmente, a essa altura, uma força viking não teria muito a fazer. Mas nunca vamos saber.

Fonte: Aventuras na História

domingo, 4 de abril de 2021

HUSSARDOS, TROPA DE ELITE DA RÚSSIA IMPERIAL

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Como no resto da Europa, na Rússia os hussardos tinham a reputação de serem os homens mais ousados de todo o exército


Por Gueórgui Manáev


Os hábitos diários dos hussardos, de beber a lutar, devem muito a suas funções profissionais. Comte de Lassale, o famoso "general hussardo" do exército francês, disse: "Qualquer hussardo que não esteja morto aos 30 anos de idade é um salafrário".

A descrição faz sentido quanto aos hussardos russos. Corajosos ao ponto da insanidade, foram elas, muitas vezes, que iniciaram as batalhas. Eles eram os primeiros também em contra-ataques e ataques rápidos.

Armados e usando proteções leves, eles sofriam graves baixas. É por isso que, durante os tempos de paz, os hussardos se esforçavam muito, defendiam a honra e estavam sempre prontos a lutar até a morte. Como diziam os comandantes militares russos, os hussardos e os guardas reais eram o tipo de militares que precisavam do estilo de vida de fanfarrão para elevar o espírito.


Entornar para ser hussardo

Os primeiros regimentos de hussardos russos surgiram durante os tempos de Pedro, o Grande, e não duraram muito tempo. O desenvolvimento genuíno dos hussardos no exército russo ocorreu na segunda metade do século XVIII. Então, o exército cossaco ucraniano tinha sido reformado por Catarina a Grande, transformando-se em cinco novos regimentos de hussardos, assim como um regimento de hussardos da guarda real. Eles eram, em grande parte, cossacos, usavam seu sistema de comando e tomavam por inspiração suas arrojadas tradições.

Um homem podia se tornar hussardo totalmente por acaso, sendo devidamente recrutado pelo exército, mas qualquer jovem saudável podia se juntar aos regimentos. Para tanto, era preciso ir a cidades como Minsk ou Moguilev (atualmente, na Bielorrússia), onde, em certos momentos, aconteciam recrutamentos improvisados.


Esses recrutamentos pareciam rixas de bêbados - soldados hussardos ébrios comandados por suboficiais corriam pelas ruas servindo vinho aos rapazes que por acaso estivessem por perto. O vinho era pago pelos fundos do regimento - cerca de oito rublos por pessoa, uma quantia imponente naqueles dias em que 16 quilos de pão custavam um rublo.

Os rapazes apinhavam-se para beber de graça, e quase todos os dias os hussardos levavam com eles um monte de moradores locais totalmente espremidos de volta para os quartéis do regimento.

Os hussardos eram cavaleiros rápidos armados com sabres, carabinas e pistolas. Eles usavam uniformes cheios de detalhes, um conjunto diferente para cada regimento, e que eram inspirados nos uniformes dos primeiros hussardos húngaros.

A principal característica dos hussardos era sua velocidade e a brusquidão de seus ataques, que exigiam coragem e até imprudência. Obviamente, um hussardo tinha que estar fisicamente em forma, o que era obtido com treinos impiedosos.


Encher a cara de manhã até de noite

Carregar uma pistola é uma tarefa meticulosa, mas é ainda mais difícil quando feita ao entardecer, durante uma chuva torrencial, montado em um cavalo em movimento. Os hussardos eram ensinados a fazer isso, e eles eram duramente punidos (com 200 batidas nas costas com uma barra de ferro, por exemplo) se fossem lentos no carregamento ou se a arma disparasse um tiro no nada. Este é apenas um dos exemplo da severidade do serviço de hussardos.

Eles se levantavam às 5 da manhã para limpar e alimentar seus cavalos - e só depois a si próprios. O dia era dedicado a exercícios e treinamento em equitação - esta terminava às 18h. O tempo era contado pelos trompetistas, que eram obrigatórios em todo regimento de hussardos. Eles eram apelidados de "aristocracia dos hussardos". Durante o combate, ficavam no calor da batalha emitindo sinais para que se alterassem as formações, atacassem ou recuassem. No total, havia mais de 50 sinais de trombeta diferentes, e eles eram ainda mais difíceis de se executar durante o galope, mas os trompetistas hussardos conseguiam fazê-lo.


Viver intensamente e morrer jovem

Em primeiro lugar, a bebida: "Parecia tudo muito militar: o chão coberto de tapetes, no centro, uma panela, o açúcar queima embebido em rum; ao redor, em fila, os vendedores estão sentados segurando pistolas nas mãos... Quando o açúcar derrete, o champanhe é adicionado e o zzhenka pronto [uma bebida feita de rum, champanhe e açúcar derretido] é despejado nas pistolas - é assim que a farra começa... ”, escreveu o conde Osten-Sacken.
Beber sozinho era considerado um “comportamento totalmente obsceno”, mesmo pelos hussardos. Entre suas bebidas favoritas estavam champanhe, o rum, o ponche e a vodca mentolada. Era obrigatório ingerir uma bebida de escolha própria por um ou mês ou dois e depois trocar por outra coisa.

Então, vinham as escapadas: "Bêbados, fomos para a Ilha Krestovski, em São Petersburgo. Era um feriado de inverno e muitos alemães estavam lá descendo as colinas. Nós nos dividimos em dois grupos e estávamos assistindo à multidão. Assim que um cara ou uma moça alemã sentava-se em um trenó, nós o chutamos debaixo deles, o que os fazia descer o morro de bunda... Balashov, o governador geral de São Petersburgo, me chamou mais tarde e transmitiu uma reprimenda do próprio czar...”, escreveu Serguêi Volkonski, um dos futuros dezembristas, mas se tais reprimendas pudessem pelo menos deter os hussardos!

Serguêi Volskônski

“Nós detestávamos o embaixador francês de Caulaincourt [isto ocorreu durante as guerras napoleônicas] ... Muitos de nós pararam de visitar as casas que ele frequentava. Entre nossas explosões de raiva, uma se passou assim. Sabíamos que na sala de estar de Caulaincourt, havia um busto de Napoleão em cima de uma espécie de cadeira em forma de trono, e que não tinha nenhuma outra mobília lá - e considerávamos isso um insulto à Rússia. Em uma noite de inverno, alguns de nós passamos de trenó passando por sua casa e jogamos pedras pesadas na sala, quebrando as janelas. No dia seguinte houve reclamações e investigações, mas, até hoje, ninguém sabe quem estava no trenó”, relembrou Volkonski.

Oficiais hussardos frequentavam bailes e, às vezes, os realizavam - mas só os que eram mais nobres e ricos. Durante um baile, centenas de velas de cera eram acesas. Os bailes eram caros - isso sem contar as quantias consideráveis gastas em comida e bebida.

"Recebemos uma ordem jocosa... de torturar as garotas alemãs com danças. Com fervor, cumprimos a ordem - dançamos até começarmos a cair. As lindas garotas alemãs se deliciaram! Depois do generoso jantar, às três da manhã, após uma poderosa bebedeira em nome dos antigos deuses Baco e Afrodite, começou a mazurca, que terminou apenas às 7 da manhã... Ordenamos nossos soldados que tomassem as roupas quentes dos convidados de seus servos e mandassem suas carruagens para casa - então quase todos tiveram que ficar até o amanhecer...”, relembrou Faddey Bulgarin.

O grande número de alemães na Rússia pode ser explicado pelo fato de que durante as guerras napoleônicas muitos deles fugiram para a Rússia, onde buscavam refúgio. Em uma nação governada por pessoas etnicamente alemãs, eles se sentiam seguros.

Para dizer a verdade, os hussardos adoravam se deixar levar. Jovens cheios de energia, eles aproveitavam todas as oportunidades para gastar seu tempo de maneira útil. O hussardo Serguêi Marin escreveu a um amigo dizendo que seu batalhão trocava de hobbies como de luvas: no inverno todo mundo jogava xadrez; na primavera, bilhar; depois, no verão, faziam fontes e cascatas; e, no outono, todo mundo ia caçar.


(Não) brincar com a morte

A ética militar no século XIX exigia que se tratasse da morte como parte normal da vida e, se necessário, aceitá-la placidamente. “Quando uma bala assobiar, não pisque. Quando na batalha, lutar corajosamente. Ao atacar, não segure o cavalo, confie sua alma a Deus e, se preciso, morra” - assim ia uma alegre canção de hussardos explicando a atitude desses em relação à morte.

Hussardos em ação durante as Guerras Napoleônicas

Em tempos de paz, os hussardos não hesitavam em mostrar sua coragem - a qualidade era considerada primordial para um soldado, especialmente um hussardo. Houve duelos. E muitos. Duelos por tudo.

Um cornette hussardo tinha o apelido de “Buianov” (“Desordeiro”), e isso tinha um motivo. Seu primeiro duelo aconteceu em Moscou, quando um oficial da guarda real disse que o regimento de Buianov era defeituoso. Buianov feriu o oficial de guarda levemente, foi rebaixado e enviado ao Cáucaso.

Três anos depois, ele adquiriu o posto de cornette novamente e retornou a seu regimento. Em um ano, ele desafiou um governador da província a um duelo por insultar a esposa de um oficial colega de Buianov.

Ele foi rebaixado novamente para soldado regular e retornou ao regimento após quatro anos - só para entrar em duelo com um colega oficial. Após o terceiro rebaixamento, o destino de Buianov se perdeu.

A atitude dos oficiais hussardos em relação à morte era bastante extrema. Eles estavam prontos a defender a honra mesmo sem pistolas. Em 1807, o regimento Grodno de hussardos estava na Prússia lutando contra Napoleão ao lado do exército prussiano. Durante um jogo de cartas em uma pousada, um oficial prussiano ofendeu o hussardo russo tenente-general Conde Podgoritchani.

O prussiano era bom de tiro e escolheu as pistolas como arma. O conde respondeu que não tinha pistolas, mas que apostaria sua vida num lance de cartas: quem ganhasse o lance mataria o oponente.

Eles começaram a jogar e o conde ganhou. Todos os oficiais seguiram os duelistas até o jardim; o oficial prussiano achou que a decisão do conde era uma piada, mas Podgorichani pegou um rifle do estalajadeiro e matou sem rodeios o prussiano, dizendo: “Não brinco com a morte. Se eu tivesse perdido o lance, ficaria em seu lugar e o faria me matar".

Fonte: Russia Beyond


domingo, 23 de agosto de 2020

MOSCOU INVADIDA E INCENDIADA

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Ocupação mais pacífica da capital russa foi realizada por polaco-lituanos no século XVII. Mongóis, por outro lado, destruíram e queimaram toda a cidade. Por ocasião das invasões napoleônicas, no começo do século XIX, a cidade foi novamente invadida e incendiada pelos próprios russos.

Por Boris Egorov

Moscou foi saqueada e queimada pela primeira vez durante a invasão da Rússia por mongóis. Então, em 1238, os invasores eram um vasto exército de nômades e a cidade ainda não era a capital do país.

Durante o cerco de cinco dias, os moscovitas realizaram um ataque bem-sucedido contra o inimigo. Indignados, os mongóis capturaram e incendiaram a cidade e cortaram, literalmente, o comandante da guarnição local em pedaços.


Cerco do khan Toctamix

Embora a vitória do grão-príncipe de Moscou Demétrio Donskoi sobre os mongóis na Batalha de Kulikovo, em 1380, tenha sido um passo significativo na libertação do domínio mongol, a vitória final ainda era um objetivo difícil de se alcançar.

Em 1382, o guerreiro mongol Toctamix (também referido como Toqtamish, Tokhtamish ou Tokhtamysh) invadiu os principados russos e, inesperadamente, chegou às muralhas de Moscou. As principais forças russas lideradas pelo príncipe Demétrio estavam fora de Moscou e a cidade entrou em pânico.

Em 1382, o guerreiro mongol Toctamix invadiu os principados russos e, inesperadamente, chegou às muralhas de Moscou

Os mongóis enganaram os moscovitas oferecendo negociações, mas quando os primeiros mongóis entraram na cidade, o exército seguiu, invadiu a cidade e começou um massacre. Os mongóis levaram tudo que havia de valor e queimaram a cidade. Quando Demétrio Donskoi retornou a Moscou, deparou-se com as ruas cobertas de cadáveres.


Ataques de Devlet Giray

No século XVI, o poderoso Estado mongol conhecido como Horda de Ouro, caiu no esquecimento, enquanto o Estado russo crescia rapidamente e tinha que lidar com seus “fragmentos”: numerosos canatos e hordas.

Em 1571, a Rússia entrou na Guerra da Livônia (1558-1583) e a maioria das tropas russas lutava contra as forças suecas e polonesas-lituanas no Báltico. O khan do khanato da Crimeia, Devlet Giray, decidiu que esta era a oportunidade perfeita para saquear as terras russas.

Forças do khan Devlet Giray assaltam Moscou na década de 1570

Ele chegou sem empecilhos a Moscou e incendiou as aldeias nos arredores da cidade. O fogo imediatamente se espalhou por Moscou. Mas Devlet decidiu não invadir o Kremlin e, depois de capturar dezenas de milhares de prisioneiros, voltou à Crimeia.

Inspirado por este sucesso, o khan chegou a propor que o sultão otomano Selim II conquistasse o Estado russo. No entanto, após a derrota colossal na Batalha de Molodi, não muito longe de Moscou, em 1572, o sultão decidiu cancelar a ofensiva.


Intervenção polaco-lituana

A crise política e a fome no início do século XVII levou ao chamado “Tempo de Dificuldades” da Rússia. O país foi divido por diferentes grupos políticos e movimentos e sofreu com muitas intervenções estrangeiras.

A campanha militar estrangeira mais bem sucedida na Rússia foi realizada pela Comunidade Polaco-Lituana, também conhecida como a República das Duas Nações.  As tropas polonesas participaram ativamente de todos os conflitos civis, apoiando diferentes candidatos ao trono russo.

Em 1610, os poloneses derrotaram as tropas do tsar russo Basílio IV e a nobreza russa ofereceu o trono ao príncipe polonês Vladislav Vasa. Sem enfrentar qualquer resistência, as tropas polaco-lituanas lideradas por Stanislaw Zolkiewski entraram na cidade e ocuparam o Kremlin.

Forças russas sitiam a guarnição polonesa no Kremlin em 1612

Apesar da promessa dos poloneses de não incluir a Rússia na Comunidade Polaco-Lituana e não prejudicar a religião ortodoxa, eles começaram a agir como conquistadores e logo causaram grande descontentamento público.

Um movimento anti-polonês ganhava popularidade em todo o país. A guarnição polonesa foi sitiada no Kremlin e, após tentativas de desbloqueio, rendeu-se em 1612. Mas a libertação de Moscou não significou o fim da guerra, que durou por mais seis anos. Já Vladislav Vasa deixou de reivindicar o trono russo apenas em 1634.


La Grande Armée em Moscou

Os poloneses voltaram a Moscou 200 anos mais tarde.  Soldados polacos compuseram o exército francês, no 5º Corpo do Grande Armée de Napoleão, e estiveram entre os primeiros a entrar em Moscou em 1812.

Os comandantes russos decidiram abandonar Moscou após grandes perdas do exército na Batalha de Borodino. Quando, em 14 de setembro, Napoleão entrou em Moscou, a capital russa já estava quase completamente abandonada.

O imperador francês aguardava iniciativas para iniciar as negociações com a Rússia, mas os soldados russos incendiaram a maior parte de Moscou, destruindo grande parte da cidade. Os franceses responderam com execuções em massa.

Moscou em chamas por ocasião da invasão Napoleônica, em 1812

Um mês mais tarde, devido ao inverno que chegava, Napoleão decidiu abandonar a cidade, retirando-se. Não conseguindo obter nada, La Grand Armée começou uma longa e tortuosa jornada para casa, que levou ao seu fim.

Fonte: Russia Beyond