"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



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quinta-feira, 5 de novembro de 2020

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR: VERA GEDROITS, A PRINCESA QUE TRANSFORMOU A MEDICINA DE GUERRA

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Vera Gedroits sabia que corria contra o tempo. E tinha de escapar. O conflito armado na frente de batalha havia recrudescido e chegava cada vez mais perto.


Por Chris Baraniuk

Só quando o relógio marcava 2h, o enfrentamento começava a dar os primeiros sinais de arrefecimento. Enquanto isso, o trem onde estava, todo apagado para evitar ser avistado pelos inimigos, cortava a paisagem na calada da noite. O veículo - um hospital móvel - não seria um alvo importante de qualquer maneira. Mas agora que estava em movimento, as bombas começavam a cair em sua direção.

Gedroits olhou em volta para alguns dos pacientes a bordo. Ao todo, havia cerca de 900 pessoas, muitas delas urrando de dor em macas fixadas nas paredes devido a seus graves ferimentos. Infecções, feridas abertas... Gedroits não tinha tempo nem para respirar. Durante as horas seguintes, ela e sua equipe realizaram cirurgias e trataram aqueles que podiam ser tratados, enquanto o trem se afastava da frente de batalha. Cerca de 12 horas depois, o veículo finalmente tomou uma distância segura.

Duas semanas depois, em 10 de março de 1905, a batalha terminou com a derrota do Exército russo.


Voluntária na Cruz Vermelha

Este seria um ponto de virada na vida de Vera Ignatievna Gedroits, descendente da realeza lituana, cirurgiã talentosa e excêntrica. Conhecida justificadamente como princesa Gedroits, era uma figura extraordinária. Apesar disso, continua em grande parte desconhecida no Ocidente.

Como pioneira da medicina no campo de batalha, Gedroits fez contribuições que, segundo especialistas, poderiam ter salvo milhares de vidas durante a 1ª Guerra Mundial se tivessem sido mais compreendidas na época.

"Quando ouvi sua história pela primeira vez, ainda me lembro do que pensei: 'Por que ainda não fizeram um filme sobre isso?'", diz Melanie Stapleton, professora-assistente de medicina da Universidade de Calgary, no Canadá.

Mas quem era exatamente Vera Gedroits e por que não é tão lembrada?

Mesmo uma das principais informações sobre Gedroits - o ano do seu nascimento - tem sido motivo de dúvida. Muitos artigos dizem que ela nasceu em 1876, mas ela parece ter corrigido isso em seus documentos pessoais. Na verdade, Gedroits nasceu seis anos antes, em 1870, em Kiev, atual Ucrânia.

Não há muitos detalhes em inglês disponíveis sobre sua infância, mas sabe-se que ela vinha de uma família rica e estudou em casa antes de terminar a escola em São Petersburgo. Quando tinha 16 anos, foi presa por participar de atividades revolucionárias organizadas por uma facção de esquerda.

Gedroits voltou, então, para casa, mas logo fugiu para Lausanne, na Suíça. Foi lá que estudou medicina. Gedroits teria sido uma das milhares de mulheres que estudaram medicina naquele país no final do século XIX e início do século XX. À época, a Suíça era uma exceção à regra: suas universidades aceitavam estudantes de medicina do sexo feminino.


Começo da carreira

Em 1901, Gedroits retornou à Rússia, onde mais tarde passaria pelos exames de admissão e oficialmente ganharia o título de médica. Sua carreira na área não começou no campo de batalha, mas em uma propriedade industrial. Foi nomeada cirurgiã na fábrica de cimentos de Maltsov, no distrito de Zhizdrinsky, no oeste da Rússia.

De acordo com um artigo em russo sobre sua carreira, seu trabalho ali foi transformador. Ela planejou montar uma estrutura hospitalar adequada e, em pouco tempo, instalara equipamentos de fisioterapia e uma máquina de raios-X - algo absolutamente inovador para a época. Para se ter uma ideia, os raios-X haviam sido descobertos em 1895, menos de uma década antes. Em seu primeiro ano, 103 pacientes de casos cirúrgicos foram tratados em seu hospital; apenas dois morreram.

Os operários recebiam tarefas fisicamente exaustivas. Havia muito trabalho pesado e, em uma seção que fazia vidro, a matéria-prima era moldada por meio do sopro. Em seus relatos, Gedroits observou que esse tipo de trabalho enfraquecia gradualmente os músculos abdominais. Foi por isso que ela acabou operando tantos pacientes com hérnias, supunha.

Ser uma especialista nessa área do corpo era incomum na época - e isso acabou beneficiando-a no futuro de maneiras que ela própria não poderia imaginar. Somente dois anos depois, a Guerra Russo-japonesa começaria. Gedroits se ofereceu como voluntária para a Cruz Vermelha.

Vera Gedroits destacou-se por sua atuação na Guerra Russo-Japonesa, conflito extremamente mortífero. Na imagem, feridos russos sendo atendidos em um posto de socorro

O conflito foi muito sangrento e degradante. É frequentemente descrito como uma espécie de prévia da 1ª Guerra Mundial, que começaria cerca de uma década depois. Ambos tinham trincheiras, muitos impasses e numerosas "vitórias" de batalha em que ambos os lados perderam milhares de homens.

Em última análise, cerca de 100 mil pessoas foram mortas na guerra russo-japonesa ao fim da qual a Rússia foi efetivamente derrotada - uma surpresa considerando que o Japão era um país muito menor e cheio de problemas econômicos.


Dificuldades no front

Existem poucas fontes em inglês que detalham as atividades de Gedroits durante a guerra. No entanto, em 1997, o médico militar britânico John Bennett escreveu um artigo em uma revista científica no qual fez resumo traduzido do próprio registro dela sobre o conflito.

O artigo de Bennett parece nunca ter sido publicado, mas um rascunho foi enviado para Yuri Kolker, um ex-produtor de filmes russos no Serviço Mundial da BBC, que gentilmente compartilhou a carta com a reportagem da BBC Future.

Em 26 de setembro, Gedroits estava montando um hospital de campanha em um pequeno vilarejo perto da cidade de Mukden, hoje conhecida como Shenyang, na China. Este seria um local estratégico para as forças russas nos meses seguintes.  O trem de Gedroits era o coração de seu destacamento no local, mas o próprio hospital não estava confinado aos vagões. Ele havia se expandido pelos arredores do trem, em fileiras de barracas. Cabanas de camponeses também foram tomadas e convertidas em um centro cirúrgico, assim como alguns armazéns.

Para a sala de operações, as paredes do interior eram cobertas de argila e depois caiadas de branco. Lençóis esterilizados também foram usados para cobrir o local e torná-lo o mais higiênico possível.

No primeiro mês ali, Gedroits e sua equipe se viram tratando uma imensa variedade de lesões graves. Muitas envolviam ferimentos de balas e fragmentos de granadas. Havia mais de 700 casos de tais lesões nos membros, 143 no peito e 61 no abdômen, por exemplo.

Gedroits relatou o caso de um homem que foi hospitalizado com fragmentos de granada alojados em sua cabeça. A lesão causou a perda de controle do lado esquerdo do seu corpo. Gedroits fez uma incisão na cabeça do paciente, abriu as feridas com uma pinça e retirou três grandes pedaços de estilhaços.

Um punhado de outros pequenos estilhaços também foi removido. Após a operação, o paciente pediu um cigarro. "Aqui - tente com a mão esquerda", disse Gedroits. Para a satisfação dela, ele foi capaz de segurá-lo.


Aprendendo com os ferimentos

A médica fez anotações extensas sobre os ferimentos que tratou. Também escreveu sobre os tipos de armas que os causaram. Por exemplo, ela descobriu que fragmentos de granadas e bombas explosivas deixavam uma marca amarela na pele.

Relatório médico contendo os ensinamentos adquiridos no conflito, publicado por Vera Gedroits

Com o passar dos meses, o clima esfriou. Um dos maiores desafios que Gedroits e seus colegas enfrentavam em seu trem hospitalar era justamente as baixas temperaturas, que afetavam gravemente os pacientes hospitalizados nas tendas e os soldados feridos que voltavam do front. Alguns chegaram a sofrer queimaduras por frio.

Mas, em janeiro daquele ano, um vagão que funcionava como centro cirúrgico foi adicionado ao trem - um importante complemento nas instalações. No mês seguinte, o hospital móvel foi enviado ao longo da estrada de ferro de Mukden para as minas perto de Fushan, onde se encontravam muitos homens feridos.

Nas primeiras quatro semanas, Gedroits realizou nada menos que 56 operações. Pacientes convalescentes foram colocados em vagões adicionais, aquecidos, onde podiam se recuperar com maior conforto do que as tendas ao ar livre.

Mas foi nessa época que o controle do Exército russo sobre a região começou a se afrouxar. Os japoneses realizaram um ataque inteligente durante a famosa Batalha de Mukden. Em 22 de fevereiro, Gedroits e seu trem foram obrigados a recuar. Foi neste dia que ocorreu a ousada fuga que abre esta reportagem.

Em suas anotações, Gedroits descreveu principalmente a dificuldade apresentada pelas lesões abdominais. Médicos militares estavam bastante familiarizados com este problema na época, diz o cirurgião aposentado e historiador britânico Michael Crumplin. Em muitos casos, os cirurgiões optavam por não intervir - em vez disso, os soldados com ferimentos abdominais seriam simplesmente monitorados na esperança de que sua condição melhorasse. Muitas vezes, o paciente morria.

Mas, contrariando o que era praxe na época, Gedroits interveio em alguns casos, realizando laparotomias - incisões exploratórias do abdômen - para ver se conseguia interromper o sangramento ou drenar o excesso de líquidos, por exemplo.

De acordo com Bennett, Gedroits descreveu as vantagens de fazer esse procedimento em suas anotações nos anos seguintes. Neles, destaca a necessidade de que os exames sobre os abdomens feridos deveriam ser concluídos o mais rápido possível.

Crumplin explica que, como os músculos da parede abdominal são muito apertados, a anestesia deve ser usada para relaxá-los durante as operações. É possível conter hemorragias e fezes que vazem do intestino, mas o risco de infecção continua alto. Há também grandes vasos sanguíneos suprindo o intestino; qualquer corte mal feito pode ser fatal. E muitos órgãos vitais - como o pâncreas - estão próximos, aumentando os riscos de morte se a operação não der certo. Além disso, não há certeza de que o intestino se recupere uma vez operado.

"Todo o intestino para de funcionar, a barriga se distende, você vomita e morre de desidratação", diz Crumplin. "As cirurgias na região abdominal trazem consigo enormes desafios".

Gedroits parecia ter conhecimento de tudo isso, mas permaneceu indiferente, aprimorando o atendimento.  Seu trabalho chegou a ser mencionado em um relatório britânico sobre o serviço médico russo durante a Guerra Russo-Japonesa, mas há poucos detalhes sobre ele. A falta de documentação sobre as atividades da Gedroits significa, nas palavras de Steven Heys, chefe da escola de medicina da Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, que "perdemos uma enorme oportunidade".

Gedroits descobriu que levar o trem-hospital o mais próximo possível do front de batalha era crucial - como analisar alguns ferimentos dentro de prazos específicos. Três horas ou menos para feridas abdominais, por exemplo. Ela fez, inclusive, anotações sobre o melhor tipo de bandagem para usar em determinado estágio do tratamento.

Se outros tivessem prestado atenção a essas percepções, as baixas durante a 1ª Guerra Mundial poderiam ter sido reduzidas, acrescenta Heys: "Afinal, seus registros se tornaram públicos em 1905, dez anos antes do início da guerra".

Findo o conflito, a vida de Gedroits não ficou menos atribulada. Ela retornou ao posto que tinha na fábrica, expandindo o hospital que administrava ali. Alguns anos depois, passou a trabalhar para a família real russa.

Como cirurgiã no hospital do palácio Tsarskoye Selo, chegou a ensinar até a imperatriz Alexandra e suas filhas Tatiana e Olga as técnicas básicas de cirurgia. Em uma foto, a própria imperatriz é vista entregando instrumentos a Gedroits enquanto ela realiza uma operação.

Gedroits, auxiliada pela Imperatriz Alexandra e pelas Grã-duquesas Olga e Tatiana, opera um paciente

Mas Gedroits não era bajuladora real. Conta-se que ela teria empurrado o confidente da imperatriz, Grigori Rasputin, quando ele se recusou a sair de seu caminho. Em 1917, a revolução ameaçava a existência da família real russa. Gedroits voltou, então, a trabalhar como cirurgiã no campo de batalha na 1ª Guerra Mundial. Acabou ferida e foi morar em Kiev, na Ucrânia. Ali, Gedroits foi contratada para ensinar cirurgia pediátrica e, posteriormente, nomeada professora.

Mas a medicina não era sua única paixão. Ela se tornou poeta, publicando vários livros. Em Kiev, sua excentricidade era notada pelos moradores locais. Gedroits era conhecida por suas roupas masculinas, sua voz profunda e seu relacionamento íntimo com mulheres. Muitos dizem que ela era lésbica.

Em 2007, um artigo na revista científica Clinical and Investigative Medicine lamentou o fato de que o mundo parece ter se esquecido de Gedroits. Ela é um exemplo clássico de como o conhecimento e a experiência em benefício dos outros podem se perder. Em parte por causa das circunstâncias, mas também, talvez, porque a sociedade prefira prestar atenção a certos tipos de pessoas em detrimento de outras.

"Estamos celebrando muita gente hoje em dia, mas nos esquecemos dessa mulher incrivelmente bem-sucedida e muito interessante", diz Wilson. As probabilidades estavam contra ela, acrescenta Stapleton. "Ela era aliada da família real, mulher, contrariava as normas sociais - publicava (seus livros) em russo. Qualquer uma dessas coisas seria usada contra ela", explica ela. "Tudo isso combinado impediu que ela ganhasse o reconhecimento que deveria".

Vera Gedroits morreu em 1932 e foi enterrada em Kiev. Segundo relatos, seu túmulo teria sido cuidado por muitos anos por um arcebispo que ela havia tratado quando jovem. Quando ele morreu, escolheu ser enterrado ao lado dela.

Parece uma pena que a fascinante história de vida de Gedroits não seja conhecida mais amplamente. O primeiro pensamento de Stapleton, ao descobrir a história extraordinária de Gedroits, ainda parece perfeitamente adequado: a vida dela não valeria um filme?

Fonte: BBC


quinta-feira, 28 de maio de 2020

MORRE, AOS 105 ANOS, A ENFERMEIRA DA FEB CARLOTA MELLO

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Faleceu hoje em Belo Horizonte, aos 105 anos de idade, uma heroína do Brasil, a enfermeira da FEB Carlota Mello.

 
Carlota Mello era natural de Salinas, Norte de Minas, e foi uma das 73 mulheres que  serviram  na Europa durante a Segunda Guerra Mundial integrando a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Como enfermeira, foi um exemplo para todos os profissionais de enfermagem. Única mulher entre oito filhos, Carlota desde cedo queria um destino diferente de suas primas. Segundo ela, “não  desejava, de jeito nenhum, me casar e  ter uma penca de filhos.  Por isso,  decidi vir para Belo Horizonte, morar com meu irmão mais velho e fazer o curso de normalista, uma das únicas funções que uma mulher poderia assumir naquela época”. 

Quando se formou, não satisfeita com a vida de professora, resolveu fazer o curso de Enfermagem de Emergência, em 1942, na Cruz Vermelha. Inquieta, viu uma propaganda do Exército Brasileiro convocando interessados em fazer curso de socorrista para atuar na Europa. “Não pensei duas vezes e resolvi me inscrever. Confesso que fiquei apavorada com o módulo prático. Tínhamos que correr comum tronco nos ombros, rastejar na lama, fazer tudo que  um  soldado  faz.  Das 16 moças que foram para esse curso no Rio de Janeiro, apenas quatro foram aprovadas para ir à guerra”, disse.  

Em 1944, Carlota Mello fez o curso de Enfermagem de Emergência do Exército, ministrado  pela  Diretoria  de Saúde na 4ª Região Militar, sendo nomeada Enfermeira de 3ª Classe e, no mesmo ano, foi convocada para atuar no Teatro  de  Operações da Itália, incorporando-se  à  equipe  brasileira no 45º Hospital Geral norte-americano, em Nápoles, na Itália. Diante das colegas norte-americanas, todas oficiais, acharam por bem dar o posto de 2ª tenente às Enfermeiras brasileiras. 

A tenente Carlota na 2ª Guerra Mundial

Lá, a Enfermeira permaneceu por 11 meses, em condições bem diferentes das encontradas no Brasil. “Cheguei à Europa numa época em que a neve cobria os joelhos e o frio fazia doerem os ossos. Morei em uma barraca de lona, sem colchões, e comia apenas derivados de trigo e  frutas.  A  carne era de cavalo.  No início achei estranho, mas depois me acostumei”, contou em entrevista. 

O hospital em que  trabalhava era totalmente de barracas de tábuas e cobertura  de  lona  no  centro,  uma  verdadeira estufa, conforme lembrou Carlota Mello. "E tudo era norte-americano: nossos uniformes de trabalho, chefes, alimentação e nossa convivência. Eu trabalhava em uma enfermaria com doentes brasileiros que contavam com o atendimento  de  mais duas Enfermeiras norte-americanas, dois técnicos, além de doutores norte-americanos  e brasileiros. Os 64 leitos lá instalados ficavam permanentemente ocupados", lembrou.

No 45º,  o  serviço  era  contínuo:  cuidava-se  de  soldados  sem  perna,  braço, olho  e,  muitas  vezes,  sem  memória, segundo  a  enfermeira. Aplicava-se penicilina, fazia-se curativos, tirava-se gesso, dava-se comida na boca, aferia-se a pressão arterial,  media-se  temperatura, dava-se  comprimido para dor, entre outros  cuidados,  que até superavam as atribuições  específicas  da  Enfermagem. "Escrevíamos cartas para mães, esposas, namoradas e, assim, esquecíamos  as apreensões  de  um  possível  bombardeio, de  uma  mina  implantada  em  qualquer lugar - uma chegou a explodir bem próximo ao alojamento onde estava -, das saudades, angústias, tristezas e incertezas do amanhã." 

Carlota Mello sendo homenageada em seu 105º aniversário

Em um  dos  constantes  bombardeios que presenciou, Carlota Mello arriscou a própria  vida  para  salvar  a  dos  soldados hospitalizados. Quando todos saíram correndo para se  proteger,  ela correu para carregar um caixote contendo ampolas de penicilina,  usadas  nos  64  pacientes  sob os cuidados  das  brasileiras.  “Consegui chegar rápido, juntei todas as minhas forças e o levei até o local seguro. Ao chegar lá, para  minha  surpresa,  fui  aplaudida  e  os soldados  me  levantaram  no  ar.  Me  senti como  se  fosse  um  jogador  de  futebol  em fim de campeonato”, brincou.

Com  o  fim  da  Segunda Guerra,  em  maio  de  1945,  a  tenente Carlota  demorou  mais  dois  meses  para retornar  ao  Brasil.  “Algumas  regiões  da Europa  foram  rapidamente  evacuadas,mas não foi o caso de Nápoles. A batalha tinha acabado no campo, mas os hospitais continuavam a receber feridos”, contou.

Mesmo com tantas batalhas, ao chegar ao Brasil, a sensação da enfermeira foi de dever cumprido.  "Sinto-me gratificada pelos serviços que prestei ao meu país, pelos quais me foram outorgados o Diploma da Medalha de Campanha, o Diploma da Medalha de Guerra, o Diploma da Cruz Vermelha, o Diploma da Inconfidência e Diploma  de  Honra  ao Mérito."

Que nossa heroína descanse em paz. A cobra continuará fumando.

Fonte: adaptado da Revista do COREN-MG

 

quarta-feira, 18 de março de 2020

GRIPE ESPANHOLA DE 1918 FOI UM ASSASSINO MAIS EFICAZ QUE A GRANDE GUERRA

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A epidemia da gripe espanhola, que deixou 50 milhões de mortos entre 1918 e 1920, foi um assassino mais eficaz que a Primeira Guerra Mundial, com seus dez milhões de soldados mortos.


Era espanhola?
 
As origens da epidemia provavelmente não têm nada a ver com a Espanha. Mas então, por que persiste esta denominação?

Sem dúvida se deve ao segredo militar em torno à saúde dos soldados durante a Primeira Guerra Mundial, e por isso os jornais dos países beligerantes não podiam falar que havia uma epidemia que dizimava suas tropas. Por outro lado, a imprensa podia escrever sem filtro sobre a gripe que afetava a Espanha, um país neutro onde não havia censura.


Origens
 
A origem exata da epidemia não pôde ser estabelecida com total certeza. Sabe-se que os primeiros casos detectados foram de soldados americanos no Kansas, no centro dos Estados Unidos, em março de 1918. Desde lá, a doença teria migrado para a Europa, propagando-se junto com as tropas.

A pandemia se expandiu por todo o mundo em três ondas, a primeira na primavera boreal de 1918, que não foi tão mortífera como as duas posteriores, muito mais virulentas provavelmente porque o vírus tinha sofrido mutações, tornando-se mais agressivo.


Vírus

O vírus da gripe que deu origem a esta pandemia é do tipo A(H1N1), assim como o agente responsável da macroepidemia de gripe de 2009 (que deixou 18.500 mortos segundo balanço oficial da OMS e cerca de 200.000 mortos segundo duas estimações posteriores).
Estima-se que todos os vírus da gripe tipo A que circulam hoje entre os humanos são descendentes diretos ou indiretos da cepa do vírus de 1918, mas em uma versão menos virulenta.


 
Jovens

Atualmente as epidemias de gripe sazonal são especialmente perigosas para os idosos e para as crianças pequenas, enquanto a gripe espanhola afetava principalmente os jovens. Suas vítimas preferidas eram pessoas de entre 20 e 40 anos.


Virulência

Este vírus era perigoso sobretudo para os pulmões, já que provocava uma congestão muito grave das vias respiratórias que fazia com que os doentes se asfixiassem.

A gravidade da epidemia também se explica pelo fato de que havia uma guerra. Os movimentos de tropas ajudaram a propagação do vírus e as feridas e as privações afetaram as defesas da população.

Grande Guera: mais mortes pela gripe espanhola do que pelos combates
 

Impacto mundial

Não há um balanço preciso da epidemia. Segundo cálculos antigos, esta praga causou cerca de 21 milhões de mortos. Mas estimações mais recentes situam o número em 50 milhões, depois do vírus infectar um terço da população mundial.

Os pesquisadores Niall Johnson e Juergen Mueller estimaram em 2002 que o "verdadeiro balanço" da epidemia poderia ser em torno de 100 milhões de vítimas. Poucas regiões do mundo escaparam da pandemia. A Austrália foi um dos países menos afetados graças a uma política estrita de quarentena.

A criação, em 1922, do Comitê de Saúde e da Organização de Higiene, antepassadas da Organização Mundial da Saúde (OMS), respondeu em parte a uma vontade de combater melhor este tipo de pragas.


Vítimas famosas

Entre as vítimas conhecidas da gripe espanhola estão o pintor austríaco Egon Schiele, morto em 31 de outubro de 1918, o poeta francês Guillaume Apollinaire (9 de novembro de 1918) e seu compatriota e dramaturgo Edmond Rostand (2 de dezembro de 1918).

Fonte: O Estado de Minas


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A INSPIRADORA HISTÓRIA DE KYLIE WATSON


A história da jovem paramédica de combate Kylie Watson,  condecorada com a Military Cross por atos de bravura durante a Guerra do Afeganistão.


Quando a cabo Kylie Watson foi chamada ao escritório de seu oficial comandante sem nenhuma razão aparente, temia o pior. "Você sabe por que está aqui?", perguntou o chefe à paramédica de combate. “Estou com problemas, senhor?", ela perguntou. "Não", ele disse a ela. “Você foi condecorada com a Military Cross”.

A militar de 23 anos de idade, cujo turno de combate na província de Helmand, no Afeganistão, foi o seu primeiro como paramédica de combate qualificada, estava atordoada. “Tem certeza que está falando com o soldado certo?", perguntou ela. Mas não havia erro. O extraordinário heroísmo que ela demonstrou, por duas vezes, correndo em direção ao fogo das armas dos Talibans para tratar camaradas feridos tinha sido reconhecido com uma das mais altas honrarias do Reino Unido.

E agora, a cabo Watson do Real Corpo Médico do Exército – do alto de seus 1,55 cm - é uma das apenas quatro mulheres na história a terem o direito de ostentar as cobiçados iniciais MC (Military Cross) após seu nome.

"Ainda parece extraordinário para mim", diz ela, falando do quartel de Invicta Park, em Maidstone, Kent. "Eu acredito que qualquer pessoa com um coração humana batendo dentro do peito iria tentar ajudar o outro que tinha sido ferido. Soldado da coalizão, guerreiro do exército afegão, civil - não faz diferença. Quando você ouve alguém gritar, ‘Médico, Médico, Médico,’ isso só significa uma coisa: problemas. Então, você vai."

A citação para a medalha registra sua "imensa coragem, disposição para colocar sua própria vida em risco e coragem absoluta".  Revela que ela salvou a vida de um guerreiro e agiu como uma inspiração para seu pelotão e para seus parceiros do Exército Nacional Afegão.

"Ah, mas não menciona o local onde eu caí", ela sorri, parecendo mais uma recruta Benjamin do que uma heroína de guerra moderno. E então, ela reconta sua história que, como muitas notas de rodapé da história militar, contém tanto caos como comédia, coragem e compaixão.

"Estávamos patrulhando um complexo nos arredores de uma aldeia, quando o tiroteio começou. Um homem caiu, cerca de 70 metros na minha frente. Ele estava com os soldados britânicos e afegãos em uma vala no fundo de uma colina. Eu podia apenas vê-los, mas não podia falar, pois havíamos perdido as comunicações.”

A Military Cross, instituída para premiar os integrantes do Exército Britânico que se destacam por atos de heroísmo e bravura


"Eu tinha meu colete balístico e meu capacete, e estava carregando meu fuzil SA80, bem como o meu kit de trauma de campo de batalha. É pesado,  pois contém fluidos intravenosos e água, rações, medicamentos, torniquetes e equipamentos para vias aéreas, para não mencionar a maca dobrável amarrada de um lado e o detector de minas, amarrado do outro.”

"Eu tinha corrido não mais do que um par de metros, a partir do local em que eu tinha me abrigado, quando eu caí sobre algo - terreno irregular, meus próprios pés, eu não sei. Eu simplesmente fui para o chão.”

"Eu fiquei muito, muito envergonhada, mas constatei que, no calor da batalha com balas voando por todos os lados, meu pelotão estava muito ocupado para notar. Então eu me levantei e continuou correndo”.

"O homem ferido era um soldado do Exército Nacional Afegão (ANA), cuja pélvis tinha sido quebrada por balas.  Ele estava profundamente em choque, perdendo e recobrando a consciência."

"O soldado que o atendia estava fazendo um trabalho brilhante, mas ele era um franco-atirador e era necessário para a luta. Eu não podia deixá-lo fazer o meu trabalho
", disse Kylie.

Sob uma intensa troca de tiros entre seu pelotão e os combatentes do Taleban, ela estancou o sangramento da vítima com pacotes de medicação e aplicou uma tala em sua pélvis, antes que um helicóptero Chinook chegasse para levá-lo ao hospital em Camp Bastion, QG e base  do Exército Britânico.

Todo o "contato" durou, ela estima, não mais do que 40 minutos, após o que ela e o resto da patrulha voltaram para sua base em Checkpoint Azadie na 'Zona Verde' de Helmand, uma área de vegetação exuberante irrigada pelas vias navegáveis do Rio Helmand. "Eu não me preocupei com ele. Foi apenas mais um dia no Afeganistão ", ela reflete.

Foi no Checkpoint Azadie que a cabo Watson passou a maior parte de seus seis meses, em meados de 2010. Como os colegas que serviram com ela no 9º Pelotão da Companhia 'C' do 1º Batalhão do Regimento do Duque de Lancaster, ela vivenciou um período de dificuldades.

Ela dormia enrolada em um poncho, lavado a cada dois dias em um chuveiro de campanha (um saco plástico preto com uma de mini-mangueira adaptada) e completava suas rações do Exército com pacotes de alimentos enviados de casa.

A cabo Kylie Watson, de 23 anos, é um das apenas quatro mulheres na história a ser condecorada com a Military Cross


No acampamento ela realizava atendimentos em geral dos soldados de infantaria, que lutavam contra os horrores gêmeos de meados do verão no Afeganistão: calor escaldante e poeira. Como a única paramédica, ela saiu em todas as patrulhas de rotina.

Foi em uma patrulha que ocorreu o segundo ato de bravura que contribuiu para MC de Kylie. "Saímos em uma patrulha ao nascer do sol", diz ela. "Tratava-se de atravessar o rio a pé, que era sempre bom para uma risada, pois eu tenho apenas 1,55m de altura e o rio vem até em algum lugar entre minha cintura e meu pescoço, dependendo da profundidade."

“Eu subi para fora pingando lama verde e lodo. Então chegamos a uma enorme vala. Os caras de infantaria podiam saltá-la, mas eu não. Um deles deitou-se para fazer uma ponte humana para eu atravessar. O que posso dizer? Eu caí para o lado e fui de cabeça no fosso. Fiquei completamente debaixo d'água e tive de ser rebocada para fora.  Com os caras rindo, pensei: obviamente, vai ser outro dia bom ...”

"Nós patrulhamos um pouquinho mais e tínhamos apenas parado para uma pausa quando os tiros iniciaram. O comandante dos soldados do ANA adidos à nossa patrulha  veio correndo por uma trilha em nossa direção - ele correu cerca de 25 metros com as balas voando ao redor dele, gritando por um médico. O sargento de pelotão e eu corremos de volta atrás dele."

"Vimos um de seus homens em terreno aberto e eu corri para a frente a fim de atendê-lo. Havia disparos em ambas as direções, mas ... bem, nada disso parecia estar destinado a mim.”

"A vítima não tinha pulso e não estava respirando. Tinha um pequeno orifício de entrada em seu peito, mas não havia ferida de saída. Comecei a ressuscitação cardiopulmonar [RCP]. Então, o sargento do pelotão disse: 'Kylie, você viu onde estamos?' E eu olhei à minha frente e para o lado e percebi que estávamos em terreno completamente aberto. 'Certo', eu disse. "Eu acho que devemos voltar."

"Três caras vieram para ajudar e nós evacuamos o soldado sob fogo. Eu continuei com a RCP e um de seus companheiros lhe deu um beijo da vida.”

"Nós lutamos e lutamos, até que o helicóptero veio. Eu não iria desistir, mas não podia trazê-lo de volta. Às vezes você não pode mudar o resultado. Você não pode salvar todo mundo, você apenas tem que saber que você fez o seu melhor.”

Kylie prestou seus respeitos ao soldado morto em um memorial retido na Azadie, mas suas emoções são as de uma profissional controlada. "O que acontece no Afeganistão permanece lá", diz ela com firmeza, sem vontade de deixar horrores operacionais infiltrarem-se em sua vida em casa, feliz de volta no Reino Unido.

Kylie nasceu em Ballymena, Antrim, onde foi criada em uma família grande e feliz, de cinco filhos, pelos pais Glenn e Lorna. E enquanto sua MC encheu de orgulho seu regimento, lhe rendeu uma dura de sua mãe: "Kylie! O que você fez? Da próxima vez, por favor, não.”

Sua família não tem histórico de serviço militar, mas uma infância contra o cenário dos problemas da Irlanda do Norte levou seu interesse no Exército. Ela se alistou em 2006. "Eu poderia me imaginar sendo um soldado, fazendo algo para ajudar", ela lembra.

Após o treinamento básico e estudar por oito meses medicina de campo de batalha, ela se juntou ao Corpo Médico em setembro de 2007.  No ano seguinte, foi em seu primeiro turno operacional, servindo seis meses em Basra, no Iraque, onde ela participou de patrulhas, cuidando da saúde em campanha, e treinava médicos do exército iraquianos. Retornou ao Reino Unido para estudar e se qualificar como um paramédico Classe 1, capaz de atuar sozinha.

Como a única mulher em uma equipe operacional de cerca de 20 homens,  ela está acostumado a ser tratada com respeito afetuoso no acampamento e igualdade.  Não se surpreendeu ao encontrar dificuldades no trato com cidadãos. "Quando cheguei ao soldado afegão que tinha sido atingido na pelve, o intérprete começou a dizer: ‘Mas você é uma mulher.’  Eu o parei ali e disse: 'Ele vai ser tratado goste ou não.'"

“Não foi um grande feito para mim. Eles podem pensar o que quiserem, mas quando você tem a vida de alguém em suas mãos, você deve fazer o que puder.”

No entanto, ela ficou um pouco irritada com alguns dos comentários on-line que se seguiram ao anúncio da concessão de sua MC, afirmando ser um ato de tokenismo ou um ato politicamente correto, ao invés da justa recompensa para atos de heroísmo para premiar qualquer soldado. "Aqueles que dizem isso são bem-vindos para pegarem o meu kit e ir ao Afeganistão por seis meses. São bem-vindos para usar minhas botas e ser eu", diz ela, acrescentando que não pode esperar para retornar às operações porque "Acho que fiz tudo certo até agora".

Modestas palavras de uma soldado cuja humanidade e coração bravo levaram-na para o calor da batalha para ajudar os outros.

O lema do Real Corpo Médico do Exército é In Arduis Fidelis (fidelidade na adversidade), que a cabo Kylie Watson MC honrou e comprovou.

Fonte: Daily Mail

domingo, 3 de julho de 2011

SERVIÇOS DE SAÚDE NA 1ª GUERRA MUNDIAL

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Para a profissão médica, a 1ª Guerra Mundial foi uma experiência de aprendizado intensiva – um enorme laboratório e desafio clínico – que envolveu diretamente milhares de profissionais a mais do que qualquer guerra anterior. Muito menos soldados caíram diante de “inimigos invisíveis”, como a febre tifóide, do que no passado. No entanto, apesar dos avanços da medicina, uma em cada três baixas acabou em morte no conflito, em comparação com uma entre cada sete na 2ª Guerra Mundial.

Kit cirúrgico de campanha britânico


Em sua batalha contra bactérias e infecções, os “médicos de cáqui” do Exército Britânico fizeram uso da experiência recente na Guerra dos Bôeres (1899-1902), travada na África do Sul, e mostraram-se à altura dos desafios da guerra de trincheiras. O “pé-de-trincheira” era tratado purificando a água com cloro, fumigando roupas e assegurando banhos regulares durante os rodízios fora da linha de frente. Vacinas evitavam o tétano e, para a gangrena gasosa, havia o “líquido de Dakin”, um antisséptico desenvolvido por um químico britânico e por um cirurgião franco-americano.

Ferimentos por projéteis costumavam ser fatais, se não tradados imediatamente, mas, quando os soldados da Frente Ocidental chegavam a um hospital de campanha, havia uma boa chance de sobrevivência. As baixas eram evacuadas para postos de socorro regimentais e, depois, para postos de atendimento avançado atrás da linha de frente. De lá, seguiam por estrada para estações de triagem de baixas, depois por ferrovia para os hospitais de base estacionários. Soldados britânicos com ferimentos seriamente incapacitantes eram enviados para o Reino Unido, embora menos soldados tenham sido enviados depois de 1916. Em 1917, as estações de triagem de baixas haviam evoluído para hospitais de campanha, onde equipes de cirurgiões norte-americanos desempenharam um papel fundamental.

Hospital de campanha australiano instalado no Egito com dezenas de baixas da Campanha de Gallipoli em 1915

A enorme quantidade de baixas e a duração das hostilidades forçaram os governos e organizações de auxílio humanitário a coordenar uma ampla gama de serviços médicos. Para isso, milhares de prédios foram requisitados. Os médicos do exército trabalhavam com administradores, cirurgiões e especialistas e a enfermagem tornou-se um grande campo de trabalho de guerra.


Fonte: Adaptado do livro Primeira Guerra Mundial, de H.P. Willmott.

 
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