"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR - GENERAL PAUL VON LETTOW-VORBECK

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* 20/3/1870 - Saarlouis, Prússia

+ 9/3/1964 - Hamburgo, Alemanha



Paul Emil von Lettow-Vorbeck, conhecido como "O leão da África", foi um general alemão, comandante da campanha da África Oriental Alemã na Primeira Guerra Mundial, a única campanha colonial dessa guerra onde a Alemanha não foi derrotada. Também foi o único comandante a invadir solo britânico na Primeira Guerra Mundial.

A sua primeira missão de relevo aconteceu em 1900 quando, ainda tenente, foi encarregue de comandar um destacamento alemão que colaborou com forças militares de outras potências europeias na contenção da Rebelião Boxer, na China.

Em 1904 partiu para o Sudoeste Africano Alemão (atual Namíbia) como ajudante-de-campo do general Martin Chales de Beaulieu, comandante das forças enviadas para apoiar as Schutztruppe (as “tropas de proteção”) da colônia na denominada Guerra dos Hotentotes, a insurreição dos povos nama e herero que ocorreu entre 1904 e 1908 e que conduziu ao genocídio dos hereros e namas, a primeira grande catástrofe humanitária do século XX. Nessa campanha foi ferido no olho esquerdo e forçado a retirar-se para a África do Sul, onde, durante essa estadia forçada, conviveu com o general Jan Smuts, de quem se tornaria amigo para toda a vida, apesar de depois ter de o enfrentar durante a Primeira Guerra Mundial.

No princípio de 1914, von Lettow-Vorbeck foi escolhido para comandante da pequena guarnição alemã de 300 soldados e doze companhias de askari que guarneciam a África Oriental Alemã, atual Tanzânia. Com o início da guerra na Europa, em agosto daquele ano, sabendo da vantagem do poder iniciativa num contexto periférico ao palco do conflito principal, como era no caso a África Oriental, ignorou as ordens recebidas do governo de Berlim e do governador da colônia, o Dr. Heinrich Schnee, que insistiam na necessidade de manter a neutralidade da África Oriental Alemã.

Oficiais alemães instruindo tropas askari na África Oriental


Von Lettow-Vorbeck de imediato ignorou as ordens do governador, nominalmente seu superior, e preparou-se para a guerra, a qual se iniciou por um ataque anfíbio à cidade de Tanga, que teve lugar entre 2 e 5 de novembro de 1914, repelindo os britânicos e os seus aliadas na ação que ficou conhecida pela Batalha de Tanga, uma das mais violentas de toda a campanha.

Reuniu então os escassos homens e suprimentos disponíveis e preparou-se para ganhar a iniciativa e atacar as ferrovias britânicas na África Oriental. No processo conseguiu uma segunda vitória sobre os britânicos, vencendo a Batalha de Jassin, travada a 18 de janeiro de 1915.

As vitórias que foi conseguindo permitiram-lhe capturar armamento moderno e outros abastecimentos urgentemente necessários, dado o isolamento das forças alemães em relação à metrópole, consequência do bloqueio naval aliado ao Império Alemão.

Para além das vantagens logísticas, as vitórias deram grande impulso ao moral de seus homens, embora von Lettow-Vorbeck também nelas perdesse muitos dos seus soldados mais experientes, entre eles o "esplêndido” capitão Tom von Prince, que não poderiam facilmente ser substituídos no isolamento em que se encontrava.

O plano de von Lettow-Vorbeck para era simples: sabendo que no contexto da guerra a África Oriental não passaria de um palco periférico, decidiu capturar o máximo de tropas britânicas possível e manter o máximo de pressão sobre as forças remanescentes, pois as removeria da Frente Ocidental, contribuindo dessa forma para a vitória alemã na Europa.

Von Lettow-Vorbeck sabia que podia contar com os seus oficiais, altamente motivados e competentes (sua taxa de vítimas era certamente prova disso). Como consequência das perdas custosas de pessoal, passou a evitar confrontos diretos com soldados britânicos, em vez disso levou seus homens a engajar invasões de guerrilha nas províncias britânicas do Quênia e da Rodésia, atacando os fortes britânicos, ferrovias e comunicações - tudo com o objetivo de forçar a Entente a desviar o efetivo do teatro de guerra na Europa. 

Von Lettow-Vorbeck utilizou os canhões do cruzador Königsberg (afundado em 1915) como artilharia de campanha para apoiar suas tropas africanas


Convocou 12.000 soldados, a maioria deles askari, mas todos bem treinados e bem disciplinados. Os askari ganharam uma especial reputação pela sua capacidade de luta e lealdade. Von Lettow-Vorbeck também servia como comandante-modelo, ganhando pelo exemplo o respeito e lealdade dos seus homens. Percebeu as necessidades críticas da guerra de guerrilha em que ele usou tudo o que lhe era disponível se tratando de suprimento, inclusive o grupo e artilharia do cruzador alemão SMS Königsberg (afundado no delta do Rio Rufiji em 1915), que possuía uma tropa capacitada sob o comando de Max Looff, bem como suas numerosas armas, que foram convertidas em peças de artilharia para a luta em terra, representando o mais alto padrão de peças de artilharia de terra usadas na guerra.

Em março de 1916, os britânicos, sob o comando do seu amigo general Jan Smuts, lançaram uma formidável ofensiva com 45.000 homens. Von Lettow-Vorbeck pacientemente usou o clima e o terreno como seus aliados enquanto suas tropas lutavam contra os britânicos em condições vantajosas. Os britânicos, entretanto, continuaram enviando mais tropas forçando von Lettow-Vorbeck a ceder território. Não obstante, ele conseguiu impor por diversas vezes pesadas derrotas aos britânicos, incluindo uma em Mahiwa, em outubro de 1917, onde perdeu 100 homens enquanto os britânicos perderam 1.600 homens.

Companhia de soldados askari com seus oficiais e sargentos alemães na África Oriental


Apesar dos seus esforços, os britânicos mantinham uma decisiva vantagem em efetivo, e não tinha ilusões de que qualquer território que ele capturasse poderia ser guarnecido por muito tempo. Decidiu então fazer uma incursão na direção sul, penetrando na então colônia portuguesa de Moçambique, onde ganhou homens e abastecimentos ao atacar guarnições portuguesas. Reingressou no território da África Oriental Alemã em agosto de 1918, apenas para rumar para oeste e atacar a Rodésia do Norte, evitando a armadilha que os britânicos lhe haviam preparado na África Oriental Alemã.

A 13 de novembro de 1918, dois dias após a assinatura do Armistício de Compiègne, tomou a cidade de Kasama, que os britânicos haviam evacuado, naquela que foi a última vitória alemã no conflito. Daí continuou rumando para sudoeste, internando-se no coração de África em direção ao Katanga. Quando alcançou o rio Chambeshi, na manhã de 14 de novembro, o magistrado britânico Hector Croad apareceu sob uma bandeira branca e entregou uma mensagem do tenente-general Sir Jacob van Deventer, informando-o do armistício. Von Lettow-Vorbeck imediatamente concordou com um cessar-fogo. O local onde o encontro ocorreu, hoje território da Zâmbia, está assinalado pelo Memorial von Lettow-Vorbeck.

Aceitou então as instruções dos britânicos para se dirigir com as suas forças para norte, até Abercorn (atual Mbala) para aí formalmente render o seu exército invicto, o que ocorreu a 23 de novembro. As suas forças consistiam então de 30 oficiais alemães, 125 sargentos e outros postos graduados e 1.168 askaris.

Rendição das tropas de Von Lettow-Vorbeck em Abercon, na visão de um desenhista africano


Em 1964, ano em que von Lettow-Vorbeck faleceu e meio século após sua chegada a Dar es Salaam, o Bundestag da Alemanha Ocidental votou uma dotação destinada a financiar o pagamento dos salários devidos aos askari ainda vivos. Foi instalada uma pagadoria temporária em Mwanza, nas margens do Lago Vitória, à qual os interessados se deveriam dirigir. Contudo, dos cerca de 350 sobreviventes, apenas um grupo limitado dispunha dos certificados que von Lettow-Vorbeck lhes havia entregue em 1918. Outros apresentaram como prova pedaços de seus velhos uniformes, mas muitos não dispunham de qualquer meio de prova da sua condição de veterano. O funcionário alemão encarregado do pagamento teve então a seguinte ideia: a cada requerente que se apresentasse sem documentos seria dado uma vassoura e ordenado, em alemão, que simulasse um manejo de arma. Nenhum dos homens que se apresentaram falhou no teste.


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sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

UNIFORMES - SOLDADO DE INFANTARIA SOMALI

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Exército Somali
Soldado de infantaria
Guerra do Ogaden (1977-1978)
 
A breve Guerra do Ogaden começou com a invasão somali da Etiópia. A União Soviética desaprovou a invasão e cessou seu apoio à Somália, passando a apoiar a Etiópia. A Etiópia foi salva de uma grande derrota e da perda permanente de território por meio de um transporte aéreo massivo de suprimentos militares no valor de US $ 1 bilhão, a chegada de entre 12.000 e 24.000 soldados cubanos enviados por Fidel Castro para obter uma segunda vitória africana (após seu primeiro sucesso em Angola em 1975-1976).

O Soldado de infantaria acima utiliza uniforme com peças de camuflagem de diferentes origens, bastante flexível e adequado ao combate em área de savana e de selva. Seu armamento é um fuzil de assalto AK-47, de fabricação soviética.


quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

AVENTURA, MULHERES, VOAR E MATAR - A LEGIÃO CONDOR NA ESPANHA




A historiadora alemã Stefanie Schüler-Springorum analisa em um livro com novas fontes a vida dos pilotos da Legião Condor na Guerra Civil espanhola

Por Jacinto Antón


"Para a charmosa Espanha, para lá é que vamos; as meninas esperam por isso (...). Sob a luz da lua, em becos escuros, conhecerás o amor”. A estrofe, de uma cantiga publicada em uma das revistas para a tropa da Legião Condor, revela a medida da incrível aura de aventura exótica em torno da missão do contingente que Hitler enviou para ajudar Franco na Guerra Civil.

Há muitos escritos sobre essa missão, especialmente aérea, e, sobretudo, em relação à palavra sangrenta que ficou na memória coletiva: Guernica. Agora, em um livro fascinante, cheio de novidades, revelações e sugestões, La guerra como aventura. La Legión Cóndor en la Guerra Civil española 1936-1939 (Alianza, 2014), a historiadora alemã Stefanie Schüler-Springorum investiga os meandros da unidade e as mentes de seus integrantes para oferecer um retrato tão fascinante e altamente documentado de dentro deste instrumento brutal e essencial de nossa guerra.

Os testemunhos mostram que para muitos membros da Condor, a viagem à Espanha era uma forma de turismo bélico em uma terra exótica e ensolarada, incluindo câmera de fotos e compra de souvenires”, diz a historiadora em um bar em Barcelona.

Os aviadores “eram jovens nazistas legítimos, a elite da nova Alemanha, com uma sensação muito profunda de serem superiores”. Estritamente falando, não eram voluntários, mas eram escolhidos para uma missão secreta e perguntados se queriam participar ou não. Eram as vontades de aventura, as perspectivas de avanço e um bom salário que faziam esses jovens se alistarem na Condor. Schüler-Springorum explica como a maioria deles, ao regressar à Alemanha, bronzeados e orgulhosos, comprava um carro e se casava.

No terreno, viviam como privilegiados de uma certa dolce vita em um país devastado e faminto. Embora muitos tenham expressado suas queixas sobre o “maldito azeite de oliva”, não faltava comida (nem bebida), e buscavam ninhos acolhedores, de bons hotéis ao trem-moradia do terceiro esquadrão de caças cujas comodidades foram exaltadas pelo célebre Adolf Galland. Tudo isso não impediu que o chefe da Legião Condor, o arrogante Wolfram Von Richthofen, apesar de comer lagosta e tomar espumante no café da manhã, reclamasse: “A vida, o ambiente, a comida, as pessoas, o país: tudo repugnante”.

Suboficial da Luftwaffe veterano da Legião Condor

Os pilotos iam caçar no campo, faziam festas, aborreciam e surpreendiam com suas maneiras e vestuário. Uma vez, ao passear por Cáceres, um aviador contou que “as meninas desviavam o olhar, envergonhadas, pensando que nossas calças curtas brancas eram cuecas”.

No geral, quando não metralhavam ou bombardeavam, tentavam impressionar, embora se mostrassem distantes. Tampouco ajudava quando muitas vezes marchavam pelas cidades ao passo de ganso. Sua arrogância, diz a historiadora, revoltava não só os republicanos, mas muitos de seus próprios aliados. Eles tinham uma curiosa – apesar de suas atividades – sensibilidade ao abuso dos animais e consideravam as touradas um espetáculo cruel. Sentiam grande aversão à influência da igreja católica e às “muitas missas”. O atraso, os latifúndios e a miséria que viram levaram alguns, por razões de modernidade nacional-socialista e sem pensar, a considerar que lutavam no lado errado.

Schüler-Springorum dedica um espaço para abordar os relacionamentos românticos e as histórias sexuais dos membros da Condor. Chegavam com muitas expectativas de encontrar meninas de olhares ardentes “endiabradamente charmosas”, mas enfrentavam a “inacessibilidade das espanholas”. Tinham que apelar a profissionais e foram abertos, inclusive, “bordéis alemães” à disposição exclusiva dos pássaros da Condor.

Piloto da Legião Condor diante de seu Messerscmitt Bf-109

A relação com os aliados era complexa. Viam a todos por cima dos ombros. Criticavam o atraso dos espanhóis, que, se desesperavam, “sempre chegam tarde para a batalha”, sua “ineficácia” e “desordem”. Com os italianos havia uma completa falta de camaradagem. Admiravam o valor das tropas mouras, ficavam encantados com seu aspecto extravagante, e indicavam, inclusive, a leitura dos romances de Karl May.

Os pilotos alemães se consideravam extraordinários, já que sofriam menos estresse que seus rivais graças ao rodízio e aos longos descansos e à sua vantagem tecnológica que lhes deu a superioridade aérea a partir de 1937 (nas fases em que não desfrutavam disso, por exemplo, antes de dispor dos Messerschmitts Bf 109, tiveram um verdadeiro choque: já não era uma aventura tão boa se o inimigo também estava à sua caça). Tiveram uns 300 mortos (um número alto, sugere a estudiosa, em acidentes de carro ou motocicletas ao dirigirem alcoolizados). Entre eles, a tripulação de um bombardeiro que caiu na Serra de Gredos e que foi comida pelos lobos.

Schüler-Springorum é muito desmistificadora. A Legião Condor tinha uma razão de ser muito prática: devia servir não só para experimentar e aperfeiçoar a Luftwaffe (e mobilizar 20.000 soldados com experiência de combate), mas garantir aos nazistas os minerais estratégicos espanhóis. Além disso, após a guerra, Hitler mandou para Franco uma fatura desagradável pela Condor.

Werner Mölders, que se tornaria um dos maiores ases da 2ª Guerra Mundial, fotografado quando servia na Legião Condor


Os membros da Condor voltaram para casa muito felizes; foi a única guerra que os alemães ganharam em todo o século. Mas em 1939, o país estava mais em clima pré-guerra do que pós-guerra. A maior parte dos aviadores da unidade que voltou morreu na Segunda Guerra Mundial (80%) e os que sobreviveram foram surpreendidos que, depois da guerra, estavam mal vistos por terem voado na Espanha e a Condor tinha uma “má fama”, como se não ocorresse o mesmo com a Luftwaffe. 

Guernica contribuía para a infâmia. Eles tinham dificuldade para entender, pois, para os membros da Condor, não tinham feito algo especial naquela localidade. É verdade que lançar bombas sobre as casas do País Basco, salienta a historiadora, era interessante para eles, porque os edifícios se pareciam mais aos da Polônia...

Na República Democrática Alemã (RDA) houve uma perseguição especial aos ex-membros da Condor, em parte, porque alguns integrantes da Stasi eram ex-comunistas da guerra da Espanha. Na República Federal da Alemanha (RFA), vários aviadores viram suas carreiras prejudicadas na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) porque estar associado ao episódio de Guernica parecia pouco europeísta.

Fonte: El País


sexta-feira, 22 de novembro de 2024

1916: O BLOQUEIO MARÍTIMO ALEMÃO SE INTENSIFICA

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Depois de um arrefecimento na estratégia alemã, em 1916 o bloqueio submarino, desencadeado pelos U-boats, tornou-se mais intenso


Em março de 1916, o almirante Von Tirpitz foi substituído no comando da Marinha Imperial por defender a guerra submarina irrestrita a fim de romper o impasse na frente ocidental. Por ordem do kaiser, a campanha havia sido suspensa temporariamente desde o afundamento do RMS Lusitania, que chocou a opinião pública mundial e provocou a ira dos norte-americanos. O chanceler Theobald von Bethmann-Hollweg, temendo a entrada dos EUA na guerra, manobrou para que Tirpitz fosse destituído da Secretaria de Estado para Marinha. No entanto, o experiente almirante conseguiu articular para que fosse nomeado como seu sucessor o almirante Eduard von Capelle, também favorável à guerra submarina irrestrita. Capelle, então, trabalhou para convencer o kaiser sobre a importância de ampliar a campanha submarina, e finalmente, em 1º de fevereiro de 1917, Guilherme II a autorizou sem restrições geográficas.

O almirante Von Tirpitz (ao centro) defendia a guerra submarina irrestrita. Sua postura custou-lhe o comando da Marinha Imperial alemã.

Defendendo seu posicionamento em favor do bloqueio e criticando as dissensões internas no Governo alemão sobre a questão, Tirpitz registrou em suas memórias seus argumentos:

“Longo e triste capítulo o da guerra submarina! Nosso regime político, nos últimos anos, era tão desorganizado que só trazia confusão e incoerência. A declaração de bloqueio pela qual começou a guerra submarina foi prematura e mal concebida. [...] Nossas hesitações reforçaram as assertivas inglesas sobre a imoralidade da guerra submarina. Ninguém falava dos atos desumanos que a Inglaterra cometia. É que ela os fazia com resolução, crueza e tinha habilidade em divulgá-los. O povo alemão, crédulo, suportou pacientemente o bloqueio da fome que a Inglaterra lhe infligiu. E que teve como consequência a bancarrota do país, a doença, a miséria e a morte.”

O almirante Eduard von Capelle sucedeu Tirpitz no comando da Marinha Imperial.  Influenciado pelo velho chefe naval, convenceu o kaiser a empreender a guerra submarina irrestrita contra os Aliados


O conde Johann von Bernstorff, embaixador alemão em Washington, alertou ao Secretário de Estado dos EUA Robert Lansing, em um comunicado diplomático, sobre os perigos que corriam os navios de países neutros:

"[...] Os navios neutros que navegam nestas zonas de bloqueio o fazem por sua própria conta e risco. Embora cuidados tenham sido tomados para que navios neutros que estão a caminho de portos das zonas de bloqueio em 1º de fevereiro de 1917, [...] é altamente recomendável avisá-los com todos os meios disponíveis, a fim de fazer com que regressem. Os navios neutros que, em 1º de fevereiro, estiverem nos portos das zonas de bloqueio poderão, com a mesma segurança deixá-los. As instruções dadas aos comandantes de submarinos alemães prevêem um período suficientemente longo, durante o qual é garantida a segurança dos passageiros em navios de passageiros inimigo desarmado. [...]"

U-boat alemão observa sua presa afundando ao largo de Liverpool: o mercante britânico Linda Blanche

Ao tomar conhecimento do anúncio do bloqueio, o Brasil não poderia aceitar passivamente os seus termos, pois sua economia dependia essencialmente das exportações de café para a França e para a Grã-Bretanha. Embora o país não considerasse o café como produto de guerra, e, com isso os navios brasileiros que o transportavam estariam, em tese, livres de ataques, a Alemanha julgava o transporte de café para seus inimigos como contrabando, o que tornaria qualquer ataque justificável.

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sábado, 16 de novembro de 2024

O MOTIM DE MOROTAI (1945)

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O "Motim de Morotai" foi um incidente ocorrido em Abril de 1945, que envolveu membros da 1ª Força Aerotática da Real Força Aérea Australiana (RAAF) na ilha de Morotai, nas Índias Orientais Holandesas. 

Oito pilotos, incluindo o maior ás australiano Clive Caldwell, apresentaram a sua demissão como meio de protesto ao que eles entendiam ser uma desvalorização dos esquadrões de caça da RAAF, aos quais eram atribuídas missões contra as forças japonesas que haviam sido contornadas pelos Aliados. 

A investigação governamental que se seguiu inocentou os "amotinados", tendo sido dispensados do serviço três militares de alta patente, incluindo o Comandante Harry Cobby.

Harry Cobby (à esquerda) e Caldwell em Morotai, em Janeiro de 1945


George Odgers resumiu a causa do incidente na história oficial da RAAF na Segunda Guerra Mundial como sendo "a convicção de um grupo de jovens líderes que viam as suas forças serem envolvidas em operações que não eram militarmente justificáveis - uma convicção partilhada amplamente por muitos militares e políticos australianos."


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quarta-feira, 30 de outubro de 2024

CONVENÇÃO DE GENEBRA: 75 ANOS COMBATENDO CRIMES DE GUERRA

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Apesar de desafios impostos por conflitos como os da Síria e do Iêmen, conjunto de tratados que visam condenar crimes de guerra e proteger civis são amplamente respeitados mundo afora.

Por Martin Kübler

Em 2024, quase sete décadas e meia após a adoção da Convenção de Genebra, os tratados que "contêm as principais regulamentações que limitam a barbárie da guerra", segundo afirma o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), não parecem conseguir impor grandes limitações.

Nos oito anos da brutal guerra civil na Síria, as forças militares do regime, apoiadas pela Rússia, "vêm propositalmente atingindo populações e instituições civis nas áreas controladas pela oposição armada", afirma Kenneth Roth, diretor-executivo da ONG Human Rights Watch, constituindo o que ele classifica como uma "flagrante afronta à Convenção de Genebra"

No Iêmen, a coalizão liderada pela Arábia Saudita "bombardeia repetidamente alvos civis [...] atingindo funerais, mercados, mesquitas e até um ônibus escolar".  Além disso, o tratamento do exército de Myanmar à minoria rohingya – descrito pela Anistia Internacional em maio como "execuções extrajudiciais, prisões arbitrárias, tortura e outros maus tratos e desaparições forçadas" – seria, em essência, uma "limpeza étnica", segundo Roth.

Esses acontecimentos, todos eles sérias violações das leis humanitárias internacionais sob as normas estabelecidas pela Convenção de Genebra, estão longe de serem os únicos exemplos que dominam as manchetes na imprensa.


Helen Durham, ex-advogada dos direitos humanos e diretora de leis e políticas humanitárias do CICV afirma que sua organização observa com regularidade violações à Convenção nos lugares mais perigosos do mundo, e as reconhece como "algo inaceitável".
"O fato de a lei ser violada não a torna menos relevante", diz Durham. "Há muitos, muitos casos onde as leis de guerra fazem, na verdade, uma grande diferença, e conseguem prover dignidade e humanidade na guerra."


Proteção de civis dos horrores da guerra

A Convenção de Genebra, composta por quatro tratados internacionais que visam proteger indivíduos não envolvidos nos conflitos – civis, médicos, prisioneiros de guerra e soldados fora de combate – foi adotada em 12 de agosto de 1949, após prolongadas discussões.

A Convenção original, que abarcava a "melhora das condições dos feridos nos exércitos nos campos de batalha", foi inicialmente adotada em 1864, acatando uma proposta de Henry Durant, o fundador do CICV.

Nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, o CICV elaborou tratados adicionais que visavam expandir essas proteções também aos civis que se viam em meio aos combates, mas os governos se recusaram a aceitar esse comprometimento. Como resultado, não havia nenhum tratado específico para sua proteger os civis dos horrores da guerra que acabaria por sacrificar milhões de vidas.

Assinatura da ampliação e revisão da Convenção de Genebra em 12 de agosto de 1949

Em resposta, os potências mundiais, com a memória ainda fresca das atrocidades da guerra, concordaram em revisar e atualizar as convenções, acrescentando um quarto tratado para proteger os civis em tempos de conflito. Outra revisão importante ocorreu em 1977, com o acréscimo de dois protocolos que reforçam a proteção às vítimas de conflitos armados internacionais e domésticos, incluindo guerras civis.

Até hoje as convenções foram ratificadas por 196 países, incluindo todos os Estados-membros da ONU e observadores como a Autoridade Palestina, última a aderir à Convenção, em 2014.

Durham lembra que, durante as sete décadas, foi acrescentada à Convenção uma "vasta expansão e atualização" de tratados específicos no que se refere a armas, com acordos internacionais que proíbem as minas terrestres, armas químicas e bombas de fragmentação, entre outras.

Segundo ela, terão papel cada vez maior nos desdobramentos futuros os "novos desafios", como guerras cibernéticas, armas autônomas e inteligência artificial, além de apleos para que sejam considerados os danos ambientais das guerras.


Falta de aplicação dos tratados

Embora casos graves como os da Síria e Myanmar pareçam indicar o contrário, hoje em dia há apenas um punhado de lugares no mundo onde a Convenção de Genebra não é observada.

"Não estamos falando de um desrespeito global ou de um padrão de desrespeito", disse o presidente do CICV, Peter Maurer, em discurso no Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos de Washington. Ele destacou "centenas e milhares de situações onde a lei é respeitada".

"Quando um ferido tem a passagem permitida num ponto de controle, quando uma criança nas frentes de batalha recebe alimento e outras ajudas humanitárias, e quando as condições dos presos são melhoradas ou quando eles podem ter contato com suas famílias, sabemos que a lei humanitária internacional está sendo respeitada", frisou Maurer. "Ninguém realmente coloca em dúvida a essência da Convenção de Genebra", disse Roth à DW. "Ninguém afirma que seja certo mirar civis ou atirar indiscriminadamente. Essas são normas básicas, proibições básicas cuja infração é entendida universalmente com constituindo crimes de guerra."

"A lei, por si só, não precisa ser atualizada, ela é muito clara", afirma Durham, reconhecendo a necessidade de uma maior "pressão política, globalmente, sobre todas as partes nos conflitos", para assegurar que a aplicação das normas.

O problema nos dias de hoje, reforça Roth, não é a ambiguidade ou falta de especificações nas regras. Ao contrário, está nos governos que ignoram as regulamentações, assim como na falta de aplicação e de supervisão internacional.


Brechas legais

Roth destaca que, com frequência, os governos relutam em levar seus próprios criminosos de guerra à Justiça. No entanto a comunidade internacional vem encontrando caminhos, contornando essas brechas legais, para responsabilizar judicialmente os que violam os tratados.

"O surgimento de cortes internacionais como o Tribunal Penal Internacional [TPI, em 2002] é uma resposta a esse problema", diz o diretor da HRW. "A Síria representa um verdadeiro desafio; devido à dimensão das atrocidades, seria natural levar o país ao TPI. Mas esse processo foi bloqueado por vetos da Rússia e, por vezes, da China, no Conselho de Segurança da ONU [...] e se tornou necessário encontrar outros caminhos para a responsabilização."

Uma dessas alternativas, diz Roth, vem sendo a Assembleia Geral da ONU – organismo no qual não há possibilidade de veto –, que em 2016 votou amplamente a favor da criação de uma unidade imparcial internacional para investigar as violações na Síria, "basicamente, um promotor para crimes de guerra sírios sem um tribunal".

Mais ainda, alguns países europeus também decidiram fazer uso de um princípio da lei internacional chamado de jurisdição universal para começar a processar judicialmente criminosos de guerra em terras estrangeiras, ao contrário das relutantes autoridades nacionais. "A Alemanha e a França estão na vanguarda da busca de condenações a criminosos de guerra sírios", lembra Roth. "Francamente, não há alternativa no momento."

Fonte: Adaptado a partir de DW

domingo, 27 de outubro de 2024

IMAGEM DO DIA - 27/10/2024

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Oficial espanhol e e soldado nativo filipino pertencentes ao 74º Regimento. Manila, ano 1897.
Autor: Francisco Perterra. Coleção William K. Combs.



sexta-feira, 25 de outubro de 2024

PENSAMENTO MILITAR

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“Os militares levam vidas turbulentas, mas são pessoas como todo mundo.”

(General William Westmoreland)



sexta-feira, 11 de outubro de 2024

A 1ª GUERRA MUNDIAL NAS CARTAS DOS COMBATENTES RUSSOS

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Quando a Rússia entrou na guerra, passou a vigorar o “Regulamento Provisório sobre a Censura Militar”, que permitia a leitura e o confisco de quaisquer cartas das frentes que contivessem informação secretas. Graças ao regulamento, muitas dessas cartas chegaram até nós, se encontrando hoje nos arquivos. O Arquivo Estatal da História Militar preserva vários volumes de cartas redigidas nos próprios locais de combate.

Por Nikolai Postnikov


No início da guerra, os russos se alimentavam de ilusões. “É verdade que o inimigo é poderoso, mas não tanto que não o possamos vencer, todos nós estamos convictos de que a vitória final será nossa”, escrevia o coronel Samsonov a sua mulher. “Todo o povo entende a necessidade desta guerra, os soldados combatem com entusiasmo os alemães.” Em muitas das cartas, a confiança na vitória é repetida como um refrão.

Entretanto, em pouco tempo, os campos de batalha se cobriram de corpos dos tombados, e os familiares começaram a receber notificações de mortes. Foi então que as pessoas tomaram consciência da guerra como uma catástrofe pessoal, e a percepção da irreversibilidade dos acontecimentos, realmente terríveis, abalou as almas. Um oficial russo escreveu:
“Grandes batalhas se desenrolam dia após dia em todas as frentes. Muitos pereceram já nos campos de batalha, muitos vão tombar ainda. Voltará alguém inteiro? Todos os terrenos em que ocorreram combates estão cobertos de corpos, tanto de nossos guerreiros como de alemães, mortos por balas ou por ferimentos. Quantos morrerão ainda? A guerra (…) É uma calamidade! A morte e a destruição estão por todo o lado.”

Soldados russos em foto de estúdio tomada durante a 1ª Guerra Mundial

As palavras de outro oficial russo soam já como um apelo antiguerra, como um chamamento desesperado: “Quem esteve na guerra, quem participou dela, percebe que é um mal enorme. As pessoas devem fazer tudo para lhe por fim.”


Exacerbação

Os combates se transformam numa carnificina. “Estamos defendendo uma ponte”,  relatou um soldado. “Ontem, os alemães procuraram passar para o nosso lado; deixamos que fossem até o meio da ponte, depois abrimos um fogo tão infernal que o inimigo teve de recuar em debandada. A ponte ficou coberta de cadáveres. Hoje, ou tentaram passar de novo, ou queriam recolher os mortos. Então, se esforçaram por atravessar o rio mais à direita. Se atiraram para a corrente, ficando com a água pelos queixos, mas os nossos apontadores de metralhadora e atiradores nem ao meio do rio os deixaram chegar. Terminado o combate, ouvi dizer que as águas ficaram cor de rosa. Não admira, pois houve pelo menos 5.000 ou 6.000 mortos, e todos ficaram no rio.”

Outro soldado descreveu, com grande ansiedade, confrontos semelhantes, de crueza assustadora. Eis um fragmento:
“Estávamos entrincheirados, rechaçando os ataques alemães; o inimigo se aproximava a uns 400 passos, depois voltava para trás, desaparecia. Quatro vezes se aproximaram tanto das nossas trincheiras que lhes vimos as caras, mas não aguentaram o nosso fogo e retrocederam. Eu e Sazonov, deitados na trincheira lado a lado, apontávamos aos oficiais deles, escolhendo também dos soldados os maiores de corpo. Matamos muitos daqueles malditos! Eles avançavam calados, sem disparar, em formação. Só quando estavam à distância de tiro certeiro, abríamos fogo cerrado. A primeira fila caía, como que ceifada, e os de trás davam uma volta e sumiam. Ficamos arrepiados, o cabelo em pé. Penso que, dessa vez, eu, Sazonov e o nosso sargento mandamos muitos inimigos para o outro mundo. A expressão que faziam quando se aproximavam! Estavam pálidos enquanto avançavam. Um horror! Deus me livre de passar por coisa igual outra vez!”


Varredura total

Talvez o mais temível de tudo fossem ataques da artilharia inimiga. Nada dependia dos que eram atacados; a estes restava ir para baixo da terra, esperando que o fogo acabasse. Mas o fogo parecia interminável. A intensidade era tanta que, como escreveu um oficial de artilharia, “o canhoneio soltava um uivo aterrador, o sol escureceu, a fumaça não deixava ver nada para lá dos cinco passos”.

Quem estava debaixo do fogo, ficava com os nervos à flor da pele. “Apetecia chorar”, confessou um oficial. A partir de então, muitos não aguentavam o silvo dos projéteis e rompiam em pranto: “O imparável estrondo indizível dos canhões, as explosões das granadas, que não nos deixam recuperar, tudo isso dá cabo dos nervos para sempre. Jelenin, o nosso coronel, se pôs soluçando como uma criança, se foi abaixo dos nervos. Rossoliúk também berra como um touro.”

Oficial russo aproveita pausa nas operações para escrever para casa

Mas mesmo no meio deste inferno, a maioria dos combatentes mantinha a lucidez e o autodomínio. Abandonava a trincheira e se lançava ao ataque, sob uma saraivada de balas. Um oficial russo descreve assim os últimos instantes antes de um ataque:

“Por fim, começaram passando a palavra ao longo da linha de defesa: ‘Preparar para o ataque!’ Foi como uma descarga elétrica para nós; uns deram um jeito no equipamento; outros se benzeram com fé, tirando os gorros. Todo mundo sentiu a aproximação do grande momento. Ao longo da fila perpassa nova ordem: ‘Avante!’ Depois de mais um sinal da cruz, saltam da trincheira, gritando: ‘Irmãos! Ao ataque, avançar!’ Como de um formigueiro, a onda humana escorreu das trincheiras, alinhando pela direita, avançou, baionetas em riste, enfrentando a morte.”

Privações, sangue, lama das trincheiras, morte de companheiros de armas. Foi a Primeira Guerra Mundial, de uma envergadura e número de vítimas que a humanidade da segunda década do século 20 nunca vira até então.

Fonte: Expert.ru



PENSAMENTO MILITAR - SOLDADOS E CAMPONESES

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“Os homens mais valentes e os soldados mais esforçados nascem dos camponeses.”

(Plínio, "o jovem")

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

1968: COMEÇAM AS NEGOCIAÇÕES DE PAZ NO VIETNÃ

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Em 13 de maio de 1968, negociações de paz começaram em Paris. Cerca de 25 mil participaram da primeira grande manifestação em 1965 em Washington. Dois anos depois, 400 mil foram às ruas de New York pelo fim do conflito.

Por Michael Kleff

Cerca de 25 mil pessoas participaram da primeira grande manifestação contra a Guerra do Vietnã, realizada em 1965 em Washington. Dois anos depois, 400 mil pacifistas saíram às ruas de New York, pedindo o fim do conflito em que os Estados Unidos haviam se envolvido até o pescoço desde a derrota francesa de Dien Bien Phu, em maio de 1954.

O presidente norte-americano Lyndon Johnson (1908-1973) começava a enfrentar sérios conflitos internos. Em abril de 1968, após o assassinato de Martin Luther King, ocorreram os maiores tumultos raciais da história dos EUA. Em agosto do mesmo ano, centenas de policiais espancaram manifestantes durante um congresso do Partido Democrata em Chicago.


Conflito diplomático

Entre os soldados norte-americanos no Vietnã, crescia a insatisfação com a falta de perspectiva de um acordo entre Ho Chi Minh e Johnson. Foi nesse clima que começaram, a 13 de maio de 1968, as negociações de paz em Paris. Nenhum dos dois lados tinha realmente interesse em uma solução negociada. Isso ficou evidente já na absurda discussão sobre a disposição das mesas da conferência.

O conflito diplomático revelou uma profunda divergência em relação à forma de participação do governo do Vietnã do Sul e dos representantes da Frente de Libertação Nacional (FLN) nas conversações. Como tanto os EUA quanto o Vietnã do Norte apostavam em uma decisão militar, os negociadores em Paris não tinham pressa.


Negociações paralelas à guerra

Começou, assim, um longo jogo de empurra-empurra, com negociações de paz ocorrendo paralelamente à guerra. Somente em 1972, Henry Kissinger, assessor de segurança do presidente Richard Nixon (1913-1994), e o negociador norte-vietnamita Le Duc Tho chegaram a um acordo aceitável para os dois países.

Tho aprovou a continuidade do regime de Nguyen Van Thieu no Vietnã do Sul. Um Conselho Nacional para Reconciliação e Unidade, formado em Saigon, pelo "governo popular revolucionário", proclamado pela FLN, e por grupos neutros, deveria preparar eleições gerais para o Vietnã do Sul.

Kissinger e Le Duc Tho durante as negociações


Em contrapartida ao cessar-fogo imediato oferecido por Tho, os EUA deveriam encerrar todas as operações militares contra o Vietnã do Norte e retirar suas tropas do Vietnã do Sul num prazo de 60 dias.


Indignação entre a comunidade internacional

Kissinger dizia acreditar que a paz estava próxima. Mas suas esperanças foram esmagadas pela rejeição do acordo tanto pelo Vietnã do Sul, quanto pelo próprio presidente Nixon. Após sua reeleição, no final de 1972, Nixon quis dar uma nova demonstração de força, com ataques aéreos a Hanói e Haiphong.

A opinião pública internacional reagiu indignada aos chamados "bombardeios de Natal" dos norte-americanos. A ofensiva aérea, porém, forçou Hanói a voltar à mesa de negociações. Finalmente, a 27 de janeiro de 1973, Nixon anunciou o fim da guerra do Vietnã.


Milhões de vítimas

O "acordo para o fim da guerra e o restabelecimento da paz", assinado em janeiro de 1973 em Paris pelos Vietnãs do Norte e do Sul, pelo "governo provisório" da FLN e pelos EUA, não chegou a ser implementado.

Mesmo assim, os EUA começaram a retirar as suas tropas. Hanói deu continuidade à guerra, enquanto os generais sul-vietnamitas tentavam, de qualquer forma, ampliar seu controle sobre o país. A guerra de trinta anos pelo poder no Vietnã só terminou em maio de 1975, com a capitulação do Vietnã do Sul.

O conflito deixou um saldo de 58 mil soldados mortos e 153 mil feridos do lado norte-americano, e de um milhão de mortos e 900 mil crianças órfãs do lado vietnamita. Os EUA, que gastaram cerca de 200 bilhões de dólares com o conflito, sofreram no Vietnã a maior derrota militar da sua história.

Fonte: DW

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