"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



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segunda-feira, 30 de setembro de 2024

1968: COMEÇAM AS NEGOCIAÇÕES DE PAZ NO VIETNÃ

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Em 13 de maio de 1968, negociações de paz começaram em Paris. Cerca de 25 mil participaram da primeira grande manifestação em 1965 em Washington. Dois anos depois, 400 mil foram às ruas de New York pelo fim do conflito.

Por Michael Kleff

Cerca de 25 mil pessoas participaram da primeira grande manifestação contra a Guerra do Vietnã, realizada em 1965 em Washington. Dois anos depois, 400 mil pacifistas saíram às ruas de New York, pedindo o fim do conflito em que os Estados Unidos haviam se envolvido até o pescoço desde a derrota francesa de Dien Bien Phu, em maio de 1954.

O presidente norte-americano Lyndon Johnson (1908-1973) começava a enfrentar sérios conflitos internos. Em abril de 1968, após o assassinato de Martin Luther King, ocorreram os maiores tumultos raciais da história dos EUA. Em agosto do mesmo ano, centenas de policiais espancaram manifestantes durante um congresso do Partido Democrata em Chicago.


Conflito diplomático

Entre os soldados norte-americanos no Vietnã, crescia a insatisfação com a falta de perspectiva de um acordo entre Ho Chi Minh e Johnson. Foi nesse clima que começaram, a 13 de maio de 1968, as negociações de paz em Paris. Nenhum dos dois lados tinha realmente interesse em uma solução negociada. Isso ficou evidente já na absurda discussão sobre a disposição das mesas da conferência.

O conflito diplomático revelou uma profunda divergência em relação à forma de participação do governo do Vietnã do Sul e dos representantes da Frente de Libertação Nacional (FLN) nas conversações. Como tanto os EUA quanto o Vietnã do Norte apostavam em uma decisão militar, os negociadores em Paris não tinham pressa.


Negociações paralelas à guerra

Começou, assim, um longo jogo de empurra-empurra, com negociações de paz ocorrendo paralelamente à guerra. Somente em 1972, Henry Kissinger, assessor de segurança do presidente Richard Nixon (1913-1994), e o negociador norte-vietnamita Le Duc Tho chegaram a um acordo aceitável para os dois países.

Tho aprovou a continuidade do regime de Nguyen Van Thieu no Vietnã do Sul. Um Conselho Nacional para Reconciliação e Unidade, formado em Saigon, pelo "governo popular revolucionário", proclamado pela FLN, e por grupos neutros, deveria preparar eleições gerais para o Vietnã do Sul.

Kissinger e Le Duc Tho durante as negociações


Em contrapartida ao cessar-fogo imediato oferecido por Tho, os EUA deveriam encerrar todas as operações militares contra o Vietnã do Norte e retirar suas tropas do Vietnã do Sul num prazo de 60 dias.


Indignação entre a comunidade internacional

Kissinger dizia acreditar que a paz estava próxima. Mas suas esperanças foram esmagadas pela rejeição do acordo tanto pelo Vietnã do Sul, quanto pelo próprio presidente Nixon. Após sua reeleição, no final de 1972, Nixon quis dar uma nova demonstração de força, com ataques aéreos a Hanói e Haiphong.

A opinião pública internacional reagiu indignada aos chamados "bombardeios de Natal" dos norte-americanos. A ofensiva aérea, porém, forçou Hanói a voltar à mesa de negociações. Finalmente, a 27 de janeiro de 1973, Nixon anunciou o fim da guerra do Vietnã.


Milhões de vítimas

O "acordo para o fim da guerra e o restabelecimento da paz", assinado em janeiro de 1973 em Paris pelos Vietnãs do Norte e do Sul, pelo "governo provisório" da FLN e pelos EUA, não chegou a ser implementado.

Mesmo assim, os EUA começaram a retirar as suas tropas. Hanói deu continuidade à guerra, enquanto os generais sul-vietnamitas tentavam, de qualquer forma, ampliar seu controle sobre o país. A guerra de trinta anos pelo poder no Vietnã só terminou em maio de 1975, com a capitulação do Vietnã do Sul.

O conflito deixou um saldo de 58 mil soldados mortos e 153 mil feridos do lado norte-americano, e de um milhão de mortos e 900 mil crianças órfãs do lado vietnamita. Os EUA, que gastaram cerca de 200 bilhões de dólares com o conflito, sofreram no Vietnã a maior derrota militar da sua história.

Fonte: DW

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sexta-feira, 2 de setembro de 2022

A GUERRA DO VIETNÃ CHEGA AO FIM (1973)

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Em 27 de janeiro de 1973, representantes do Vietnã do Norte e do Sul, bem como dos Estados Unidos, assinaram em Paris um difícil acordo que pôs fim à guerra do Vietnã.


Por Michael Marek

Nenhum outro acontecimento mobilizou tanto a opinião pública internacional nos anos 1960 e 1970 quanto a Guerra do Vietnã. Pela primeira vez na história, as atrocidades dos campos de batalha foram exibidas no "horário nobre" das tevês: vietnamitas queimados por bombas de napalm, o fuzilamento de um rebelde pelo chefe da polícia de Saigon com um tiro na cabeça, o massacre de My Lai por soldados norte-americanos.

Mais de um milhão de vietnamitas e 55 mil combatentes dos EUA morreram no conflito. A assinatura do acordo de paz, em 27 de janeiro de 1973, alimentou grandes esperanças. O cessar-fogo firmado em Paris deveria significar o fim da Guerra do Vietnã.

Com isso, o presidente norte-americano Richard Nixon queria terminar a intervenção militar dos EUA na Indochina: "Falo hoje à noite no rádio e na televisão para anunciar que fechamos um acordo que põe fim à guerra e deve trazer a paz para o Vietnã e o Sudeste Asiático.

Durante os próximos 60 dias, as tropas norte-americanas serão retiradas do Vietnã do Sul. Temos de reconhecer que o fim da guerra só pode ser um passo em direção à paz. Todas as partes envolvidas no conflito precisam compreender agora que esta é uma paz duradoura e benéfica".


Acordo previa um fim ordenado do conflito

O acordo de paz previa a retirada completa das tropas dos Estados Unidos. Em contrapartida, o Vietnã do Norte se comprometeu a soltar todos os prisioneiros de guerra norte-americanos. Além disso, Hanói reconheceu o direito à autodeterminação do Vietnã do Sul.

Foi criado também um conselho de reconciliação nacional, presidido pelo chefe de Estado Nguyen Van Thieu, encarregado de convocar eleições livres no Vietnã do Sul, com a participação dos comunistas do Vietcong e outros grupos de oposição.

Os principais arquitetos do acordo de Paris foram os chefes das delegações do Vietnã do Norte e dos EUA, respectivamente Le Duc Tho e Henry Kissinger, encarregado especial de Nixon. Pelos seus esforços, os dois diplomatas foram agraciados com o Prêmio Nobel da Paz de 1973.

Le Duc Tho e Henry Kissinger durante os acordos de Paris


Foi principalmente Kissinger quem forçou uma mudança de rumo na política externa dos Estados Unidos, depois que os protestos dos pacifistas criaram uma situação insustentável para Washington. "Não é o Vietnã comunista que põe em risco os interesses norte-americanos e, sim, o envolvimento dos EUA num conflito insolúvel", argumentava.

O então chanceler federal alemão Willy Brandt elogiou o acordo de Paris num pronunciamento oficial: "As condições para a paz mundial melhoraram. Sentimos o efeito libertador do acordo para milhões de atingidos. Infelizmente, as pessoas no Vietnã tiveram de sofrer duramente sob a guerra civil ao longo de uma geração".


A última ofensiva americana

Pouco antes do fim das negociações, Nixon ainda mandou bombardear o Vietnã do Norte. A chamada Campanha de Natal, iniciada no final de dezembro de 1972, foi um dos ataques aéreos mais pesados de toda a guerra. Com indiferença, o piloto de um dos bombardeiros B-52 descreveu assim a sua missão: "É apenas uma tarefa. Outras pessoas entregam leite, eu entrego bombas".

O acordo de cessar-fogo, no entanto, não foi implementado. Após a retirada das tropas dos EUA, as partes conflitantes tentaram ampliar pelas armas os territórios sob seu controle. O Exército do Vietnã do Sul desintegrou-se rapidamente, depois que os EUA suspenderam a sua ajuda financeira.

Pouco antes do fim das negociações, Nixon mandou bombardear o Vietnã do Norte


Em 21 de abril de 1975, o presidente Nguyen Van Thieu renunciou. Nove dias depois, Saigon foi tomada pelas tropas do Vietnã do Norte e do Vietcong. A pseudotrégua de janeiro de 1973 era letra morta.


O papel dos meios de comunicação

Existe a lenda de que os meios de comunicação decidiram a Guerra do Vietnã. Na prática, porém, não existiam imagens dos crimes cometidos pelas tropas norte-americanas nem das ondas de execuções dos comunistas nos territórios por eles conquistados.

Diversos estudos científicos demonstraram que as imagens das batalhas militares, dos feridos e dos mortos mutilados representaram apenas 5 a 7% do noticiário de TV sobre o Vietnã. Além disso, a maioria das cenas de guerra foram fictícias, porque as equipes de TV não chegavam com seus equipamentos até os últimos rincões das florestas vietnamitas.

É certo que os correspondentes tiveram mais liberdade do que em outras guerras para escrever críticas ao governo. Mas, nas tevês, a maioria das reportagens de três a quatro minutos mostravam um conflito sem nexo, de forma distanciada.

Fonte: DW

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domingo, 27 de fevereiro de 2022

O FAZENDEIRO VIETNAMITA QUE ABATEU SETE AVIÕES AMERICANOS

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O coronel Nguyen Van Bay, piloto vietnamita que abateu 7 aviões americanos durante a guerra do Vietnã, terminou seus dias de forma simples no interior do seu pais, na divisa administrativa entre a cidade de Lai Vung e a comuna de Tan Duong.

 
Nascido em 1936, se voluntariou para o treinamento de voo como um dos primeiros pilotos vietnamitas treinados na República Popular da China. Voando inicialmente os Yakovlev Yak-18 e depois os Mikoyan-Gurevich MiG-15, finalmente se formando como piloto de caças Mikoyan-Gurevich MiG-17 em janeiro de 1966.

Logo após seu treinamento ser concluído em janeiro de 1966, ele teria seu primeiro contato com aeronaves americanas em combate no final de abril daquele mesmo ano. Bay foi acionado para interceptar uma esquadrilha de caças americanos, e em desvantagem numérica numa formação de quatro Migs-17, entrou em combate contra oito McDonnell Douglas F-4 Phantom, abatendo um deles.

MiG-17, aeronave pilotada por Van Bay


Essa vitória somou-se a mais seis aeronaves e uma outra provável até o fim de sua carreira. Foram elas; dois Vought F-8 Crusader entre junho e setembro de 1966, um Republic F-105 Thunderchief no final de junho de 1966, três McDonnell Douglas A-4 Skyhawk em 1967.

Nguyen Van Bay na época da guerra 


O veterano aviador vietnamita fotografado em uma cermônia

As vitórias de Bay foram manchetes no Vietnã do Norte e seu status de ás lhe rendeu prestigio em seu pais natal. Frequentemente jantava com Ho Chi Minh e, após um período vitorioso de combate, foi tirado da linha de frente para inspirar gerações futuras de aviadores em visita a bases aéreas.

Após viver um período ilustre como aviador militar, o senhor Bay aposentou-se em 1972, e escolheu o anonimato da vida simples do campo, plantando seu próprio alimento em seu sítio no Vietnã.

O coronel Bay faleceu em 2019, de causas naturais, aos 83 anos de idade.

Van Bay trabalhando em sua fazenda

 Fonte: Histórias do Ar

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sábado, 27 de novembro de 2021

O CESSAR-FOGO NA INDOCHINA (1954)

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Em 21 de julho de 1954, a França e a então República Democrática do Vietnã assinam um acordo de cessar-fogo, dividindo o país asiático em dois: o norte comunista e um frágil Estado pró-ocidente ao sul.


Por Michael Kleff

"O bom senso e a paz venceram." Com essas palavras, o então primeiro-ministro da França, Pierre Mendès-France, anunciou, em 21 de julho de 1954, o cessar-fogo na Guerra da Indochina. A derrota da "Grande Nação" na batalha de Dien Bien Phu, em maio do mesmo ano, fora o começo do fim do domínio colonial francês no Vietnã.

As negociações de paz em Genebra duraram quase dois meses. Além de representantes da União Soviética, da França, do Reino Unido e dos Estados Unidos, pela primeira vez desde a vitória do comunismo na China em 1949 diplomatas daquele país subiram ao palco da política internacional.

O Vietnã foi representado por duas delegações: uma defendendo os interesses da monarquia Bao Dai (sul) e outra com representantes da Liga pela Independência (Vietminh), liderados pelo primeiro-ministro Pham Van Dong, da República Democrática do Vietnã (norte).

Para ressaltar sua rejeição ao comunismo, o secretário de Estado norte-americano, John Foster Dulles, negou-se a estender a mão para seu colega chinês. "Somente um acidente de automóvel poderia me colocar em contato com Chou-En-lai", declarou à imprensa.


Garantia de soberania e unidade

Dulles permaneceu apenas quatro dias na conferência, da qual os norte-americanos participaram meramente como observadores. "Apenas tivemos a possibilidade de presenciar a tomada de decisões com as quais não concordávamos", disse mais tarde o diplomata Alexis Johnson, um dos observadores dos EUA.

Na declaração final do encontro, foram garantidas independência, soberania e unidade ao Camboja, ao Laos e ao Vietnã. A fronteira provisória entre o Vietnã do Norte (sob o regime comunista de Ho Chi Minh) e o Vietnã do Sul (monarquia independente encabeçada por Bao Dai) foi fixada aos 17 graus de latitude. Além disso, os signatários do documento comprometeram-se a realizar eleições gerais no Vietnã.

Tropas franceses capturadas pelo Vietminh na Indochina
 
Numa declaração complementar, os EUA prometeram renunciar a qualquer intervenção militar no Vietnã. Era evidente, porém, que o Vietnã do Sul e os Estados Unidos jamais cumpririam os acordos, como explicou Johnson: "A delegação sul-vietnamita deixou claro que não aceitaria a realização de eleições em dois anos. Exatamente essa era também a nossa posição. Todas as acusações de que transgredimos os tratados negociados em Genebra são falsas. Nós não os assinamos; portanto, não tínhamos como transgredi-los."


Decisão só no campo político

A recusa dos EUA em assinar o cessar-fogo e a divisão do Vietnã foram para o então primeiro-ministro norte-vietnamita, Pham Van Dong, a prova de que os norte-americanos, desde o início, eram contra a conferência e sempre tentaram impedir que ela chegasse a uma conclusão positiva.

Mas também o Vietminh só aprovou os resultados da Conferência de Genebra devido à forte pressão da União Soviética e da China. A Liga pela Independência obteve unicamente a garantia de que a luta pelo poder no Vietnã não mais seria decidida pela via militar e, sim, no campo político. O Vietminh estava confiante de que venceria as eleições previstas para todo o país.

A partilha da Indochina francesa lançou as bases para a Guerra do Vietnã

Todos os participantes da conferência para a paz na Indochina sabiam que as decisões de Genebra apenas representavam um armistício e não o fim do conflito. O presidente Dwight Eisenhower e seu secretário de Estado, John Foster Dulles, ligaram os Estados Unidos, em 1954, indissociavelmente ao destino do Vietnã do Sul.

Depois da derrota francesa em Dien Bien Phu, os EUA passaram a ocupar o lugar da França, no afã de garantir a segurança do Vietnã do Sul, do Laos e do Camboja. Com isso, os norte-americanos estabeleceram as bases para a intervenção posterior no mais longo confronto militar do século 20: a Guerra do Vietnã (1959-1975).

Fonte: DW

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quarta-feira, 22 de julho de 2020

HOJE, LIVE SOBRE O PODER AÉREO NA GUERRA DO VIETNÃ

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Nos canais Arte da Guerra e Velho General, com a participação do Cel FAB Cláudio Calaza, professor de história militar da Academia da Força Aérea.

Imperdível!

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segunda-feira, 13 de julho de 2020

O MASSACRE DE MY LAI, UM CRIME DE GUERRA NO VIETNÃ

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Há 52 anos, no episódio mais infame da Guerra do Vietnã, um ataque de fúria irracional levou ao extermínio de até 504 aldeões


Por Isabelle Somma

O massacre de My Lay foi abafado pelos oficiais da companhia por quase um ano, estima-se que as tropas americanas mataram entre 347 e 504 vietnamitas, sendo homens, mulheres, crianças, idosos e até bebês, um verdadeiro extermínio de toda a aldeia. Apenas 26 soldados foram acusados e houve uma retratação pública, depois de 52 anos.

Tudo isso aconteceu no dia 16 março do agitado ano de 1968. Logo nas primeiras horas daquela manhã, os 120 soldados da Companhia Charlie receberam uma missão: “limpar” a aldeia de My Lai. Suspeitava-se que ali, no humilde vilarejo, estivessem escondidos alguns gooks – ou lodos, como os americanos chamavam os soldados inimigos. Pouco depois das 8 horas, dois pelotões invadiram o povoado, enquanto um terceiro ficou na retaguarda.


Tragédia

Em quatro horas, estava consumada uma enorme tragédia. Os combatentes dos Estados Unidos vasculharam as choupanas, onde se encontravam apenas mulheres, crianças e idosos. Centenas de tiros foram disparados sem alvo certo. As mulheres eram estupradas e mortas. Os homens, torturados e mutilados antes de serem assassinados a sangue-frio. A soldadesca ainda usou baionetas para inscrever “Companhia C” no peito das vítimas. No fim do espetáculo sangrento, o saldo: 504 aldeões abatidos de uma só vez sob a liderança do tenente William Calley.

O tenente William Calley, que liderou as tropas americanas no massacre de My Lai, fotografado durante seu julgamento nos EUA: somente ele foi condenado pelo crime de guerra
 
O genocídio só veio a público em 1969, provocando reações de repúdio mundo afora. Durante as horas de atrocidades, não houve sequer um tiro que não tivesse saído das armas dos soldados americanos. Ou seja, a suspeita de que My Lai era esconderijo de combatentes do Vietnã do Norte era falsa.

“Pressões psicológicas, medo, raiva e fraca liderança são elementos chave para explicar tal comportamento brutal”, afirma, David L. Anderson, autor de Facing My Lai (“Encarando My Lai”) e ex-combatente da Guerra do Vietnã. “Quando o massacre foi divulgado, mostrou o que o conflito estava causando a americanos e vietnamitas. Revelou também os rumos que a guerra tinha tomado em termos de objetivos e custos, e como era urgente um desfecho.” Segundo o professor, o pelotão responsável pelo massacre estava há apenas três meses no Vietnã.


Farsa

Jovens e sem experiência de guerra, muitos soldados da Companhia Charlie entraram em pânico durante a carnificina. O único americano ferido foi um soldado que deu um tiro no pé para não ser obrigado a participar do show de horror que se descortinava à sua frente. Um piloto de um helicóptero que dava cobertura à operação, Hugh Thompson, pousou na frente de um dos pelotões pedindo para que parassem de atirar. Mesmo tendo causado asco em muitos dos combatentes da própria companhia, a verdade sobre o massacre demorou a aparecer.

Ao reportar-se a seus superiores, o capitão Ernest Medina disse que haviam morrido apenas 20 civis na ação. De acordo com Anderson, os oficiais também deram ordem de silêncio à tropa. Mas, um ano depois, o recém-chegado Ronald Ridenhour ouviu o relato contado pelos colegas da Companhia Charlie. E, chocado, escreveu às autoridades revelando os bastidores de My Lai. A imprensa publicou a história. Chegava ao fim a terrível farsa.

O massacre de Mi Lay somente foi descoberto após a denúncia de Ronald Ridenhour, aqui fotografado em Saigon
 
De todos os oficiais que foram à corte marcial, apenas Calley saiu condenado. Ele teria de cumprir prisão perpétua. Mas não chegou sequer a ficar em uma cela. Durante três anos permaneceu em prisão domiciliar em um forte do exército, no Estado da Geórgia. Em 1974, sua pena acabou comutada para dez anos. E, no mesmo ano, foi perdoado pelo presidente Richard Nixon e libertado. “Era impossível para um tribunal determinar se houve ordens superiores para matar os aldeões. Mas é verdade que os comandantes responsáveis pelo planejamento e a liderança da operação deveriam ter evitado o massacre”, diz Anderson.

O piloto Hugh Thompson, por outro lado, foi considerado um traidor durante anos, recebendo até ameaças de morte. O reconhecimento pelo ato de heroísmo só aconteceu quando seu nome entrou para o Hall da Fama da Aeronáutica norte-americana.


Para saber mais

- Four Hours in My Lai, de Michael Bilton e Kevin Sim,1993
- My Lai: A Brief History With Documents, de James Stuart Olson e Randy Roberts,1998
- Facing My Lai, de David L. Andrerson, 2000

Fonte: Aventuras na História

quinta-feira, 30 de abril de 2020

HÁ EXATOS 45 ANOS, ACABAVA A LONGA E BRUTAL GUERRA DO VIETNÃ

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Neste dia, em 1975, as tropas comunistas comandadas pelo general Van Tien Dung transformaram Saigon num gigantesco campo de batalha, tomando o Vietnã do Sul e vencendo o conflito que durou 20 anos

Por André Nogueira

Até hoje, os EUA só sofreram uma grande derrota militar: a invasão do Vietnã. Na tentativa de fazer prevalecer o Vietnã do Sul contra os comunistas, o imperial país do norte foi duramente massacrado. Levando a mais de 58 mil mortes em 20 anos de batalha e fazendo com que gerações fossem traumatizadas e levadas ao outro lado do mundo para a morte quase certa, até que o país fosse expulso da Indochina. Porém, a retirada das tropas dos Estados Unidos não significou o fim da guerra civil, que durou mais três anos.

O que pareceu o início do fim daquela guerra atroz, já nos anos 1960, foi adiado por conta da Ofensiva Tet, que fez com que Henry Kissinger protelasse os Acordos de Paz, que iam contra os interesses dos EUA, elaborados em Paris junto a Le Duc Tho, o premier sucessor de Ho Chi Minh. As negociações só voltaram a acontecer nos anos 1970.

Os Acordos de Paz de Paris, que se encerraram em 1973, foram ilustrados pela atitude de Duc Tho logo após: recebendo o Prêmio Nobel da Paz ao lado de Kissinger, recusou a medalha, alegando que nenhuma paz ocorreu no seu país, afetado pela disputa de interesses da Guerra Fria que impediu a soberania popular. Passando a sofrer apenas intervenções indiretas das potências, a Guerra do Vietnã continuou, até a vitória dos comunistas em 30 de abril de 1975, que construiu, finalmente, a reunificação do país.
 

Rumo a Saigon
 
Comandados por Hanói, os soldados vietnamitas (que vinham tanto do Vietnã do Norte quanto os dissidentes do sul, chamados vietcongues) continuaram a marchar rumo a Saigon. Em 1975, as tropas dos generais Tien Dung, Tran Van Tra, Bui Tin e Le Duan chegaram à capital do sul, instalando um gigantesco cerco militar que causou desabastecimento e caos entre civis e militares.

Isso obrigou que o Vietnã do Sul declarasse Lei Marcial, com comando claro de evacuação da cidade. O esforço foi de liberação geral: civis, soldados, estrangeiros e diplomatas eram levados a helicópteros para que fugissem para as fronteiras. Houve até uma operação especial para o translado de órfãos para a Tailândia e o Laos, a Operação Babylift.

Mapa mostrando a ofensiva final contra Saigon

A embaixada dos EUA comandava um projeto de evacuação conhecido como Operação Vento Constante, mas adiou o programa para tentar uma negociação de não-invasão da capital. Porém, a fuga se tornou inevitável, e os comunistas deixaram claro sua vontade de tomada de Saigon. Em 29 de abril de 1975, deu-se início àquela que seria a maior operação de resgate por helicóptero da história.

Pessoas começaram a se digladiar nas ruas em busca de lugares nos veículos de fuga, enquanto o caos já era visível nos arredores da cidade. Repleto de tanques blindados, o Exército Vietnamita forçava a entrada pelos muros e barricadas montadas nas áreas periféricas de Saigon, enquanto a operação se mantinha em correria. A fuga atravessou a madrugada.

Os EUA se esforçaram para a evacuação de todos os seus funcionários e aliados, mas deixaram para trás muitos civis vietnamitas que trabalharam para eles, mas que estavam estigmatizados pela cumplicidade com os invasores. Muitos deles tomaram o prédio da embaixada, no desespero.

Cidadãos sul-vietnamitas em fuga


Vitória final

Então, na manhã do dia 30, o Exército do Vietnã do Norte acabou de ocupar Saigon, declarando a Queda da capital, que foi renomeada de Ho Chi Minh em homenagem ao fundador do país comunista. Ainda nas primeiras horas de sol, os comunistas haviam tomado os pontos estratégicos da região e, às 11:30, os portões do Palácio Presidencial foram derrubados por um tanque e foi hasteada uma bandeira da Frente Nacional de Libertação, movimento comunista que prontificou as forças do norte.

Tran van Tra, um dos generais norte-vietnamitas que cercou Saigon

O Vietnã do Sul, sob comando do general Duong Van Minh, declarou finalmente a rendição incondicional, considerando que não havia mais nada pra negociar diante da tragédia da derrota. Estava encerrada a guerra. No espírito da vitória, os comunistas ainda empreenderam uma ocupação do Camboja, destituindo o regime genocida do Khmer Vermelho, e apoiaram a ascensão do Pathet Lao, unidade socialista no vizinho Laos.

A vitória dos comunistas pode ser explicada por conta de uma tradição de guerra herdada pelo líder revolucionário Ho Chi Minh, que por sua vez foi inspirado pela Guerra Moderna de Clausewitz e Napoleão, estudada em seu tempo na Europa.

Basicamente, seu esforço bélico se resumiu a uma guerra total, formatada para que toda a nação, como corpo, se dedicasse ao combate às forças inimigas, tendo participação patriótica dos civis em nome de uma causa conjunta. Com isso, os EUA e os sul-vietnamitas não tinham que se preocupar apenas com o Exército de Hanói, mas com todo o ambiente e a população do norte.

Fonte: Aventuras na História

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

A QUEDA DE SAIGON (1975)

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A 30 de abril de 1975, helicópteros dos EUA viajavam ininterruptamente entre um porta-aviões e Saigon, para evacuar os cidadãos americanos e simpatizantes do governo sul-vietnamita. O pânico reinava na embaixada norte-americana. O conflito representou a maior derrota militar da história dos EUA.

Por Michael Marek

Enquanto tropas do Vietnã do Norte invadiam Saigon, o pânico reinava na embaixada dos EUA na cidade. Milhares de pessoas desesperadas forçavam a entrada no edifício, sob a mira das armas de marinheiros americanos. Além dos cidadãos dos Estados Unidos, foram poucos os que tiveram acesso ao heliporto sobre o prédio da embaixada, última chance para fugir de Saigon naquele dia 30 de abril.

Segundo o jornalista Dietrich Mummendey, milhares de franceses e vários correspondentes permaneceram no país, e a Cruz Vermelha declarou vários edifícios como "zonas internacionais". Nenhum outro acontecimento mobilizou tanto a opinião pública internacional na década de 70 como a Guerra do Vietnã (1964-1975). O conflito representou a maior derrota militar da história dos EUA.

Blindado norte-vietnamita invade o palácio presidencial em Saigon

Pela primeira vez, as crueldades de uma guerra – fuzilamentos ao vivo e cadáveres de crianças nuas, mortas queimadas por bombas de napalm – foram exibidas no horário nobre da programação de TV.


Crônica de uma guerra anunciada

As hostilidades que antecederam o conflito começaram em 1956, quando o Vietnã do Norte decidiu não convocar eleições, em desacordo com o que havia sido decidido pelo Pacto de Genebra, após a derrota militar da França (potência colonial na região na primeira metade do século).

O Vietnã do Norte era dominado pela guerrilha comunista, cuja política pretendia anexar também o Vietnã do Sul. Os EUA passaram a fortificar suas posições no sul, a fim de garantir "a liberdade do país". A política norte-vietnamita tinha o apoio da União Soviética e da China. Já os EUA lutavam contra a expansão do sistema comunista em outros países.

Em 1964, o suposto bombardeio norte-vietnamita a barcos americanos, no golfo de Tonquin, serviu de pretexto ao presidente Lyndon Johnson para iniciar as ações militares contra o Vietnã do Norte.


Descontentamento nos EUA

Em 1969, no auge dos combates, 543 mil soldados dos EUA estavam nas frentes de batalha. Os norte-vietnamitas, vindos de uma guerra com a França, usaram melhor estratégias de guerrilha e aproveitaram a vantagem geográfica (selva fechada e calor de mais de 40ºC) para derrotar os americanos.

Fuga desesperada: depois de desembarcar fugitivos de Saigon em um porta-aviões norte-americano e sem condições práticas de ser reabastecido, um helicóptero da Força A´rea do Vietnã do Sul (material bélico fornecido pelos EUA) é lançado ao mar para permitir o pouso de novas aeronaves

O descontentamento da opinião pública dos EUA com a Guerra no Vietnã forçou a abertura de negociações de paz, em 1971. Dois anos antes da tomada de Saigon, em 1973, os ministros do Exterior do Vietnã do Norte e dos EUA haviam assinado um cessar-fogo, em Paris.

O acordo não foi implementado, mas os Estados Unidos começaram a retirar suas tropas. Em 1975, completada a retirada norte-americana (que incluiu também o corte de ajuda financeira), o regime sul-vietnamita entrou em colapso.


Vitória dos pequenos

A ofensiva norte-vietnamita começara um mês antes da capitulação de Saigon. Os militares norte-americanos foram surpreendidos pelo rápido sucesso dos vietcongues e a fraca resistência do exército sul-vietnamita.

Uma nova intervenção dos EUA foi descartada pelo presidente Gerald Ford, por falta de apoio no congresso. Resultado: os norte-vietnamitas conquistaram o sul, a 30 de abril de 1975, no que ficou conhecido como a "queda de Saigon".

A evacuação de nove mil norte-americanos foi feita às pressas, na última hora. Mesmo assim, ainda foram resgatados cerca de 150 mil vietnamitas. A guerra deixou um saldo de 58 mil americanos mortos e 153 mil feridos; do lado vietnamita, um milhão de mortos e 900 mil crianças órfãs.

Milhões de hectares de terra, minados ou envenenados, se tornaram incultiváveis. Os EUA gastaram cerca de US$ 200 bilhões com o movimento bélico e lançaram um milhão de toneladas de bombas por ano. Em agosto de 1995, vinte anos após o fim da guerra, os EUA reataram relações comerciais com o Vietnã, ainda hoje um dos países mais pobres do mundo.

Fonte: DW


domingo, 15 de abril de 2018

MORRE O ATOR E EX-MILITAR RONALD LEE ERMEY, AOS 74 ANOS

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Ele foi indicado ao Globo de Ouro pelo papel do sargento fuzileiro de "Nascido para matar"

É famosa a história de Ronald Lee Ermey, morto na manhã deste domingo, nos Estados Unidos, aos 74 anos, em consequência de complicações com uma pneumonia.

É com grande tristeza que me cumpre a tarefa de informá-los que R. Lee Ermey morreu esta manha de complicações com pneumonia. Nós sentiremos muito a sua falta", diz o tuíte publicado na conta do ator pelo seu agente, Bill Rogin.

Foi Stanley Kubrick, para quem Lee Ermey trabalhava como consultor militar em "Nascido para matar" (1979), que lhe deu a oportunidade de fazer o sargento Hartman no filme. O personagem, responsável na primeira parte da trama pelo treinamento dos soldados que iam para a Guerra do Vietnã, lhe valeu uma indicação ao Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante na época.

Lee Ermey interpretando o sargento Hartaman em "Nascido para matar"


O sargento reformado do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA tornou-se, assim, um ator ligado ao arquétipo do homem autoritário. Ele foi o prefeito Tilman em "Mississippi em chamas", o xerife Hoyt na refilmagem de "O massacre da serra elétrica", o capitão de polícia em "Seven - Sete pecados capitais", entre muitos outros.

O jovem Lee Ermey, no tempo em que serviu no Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA na década de 1970


Fonte: O Globo


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A GUERRA PERDIDA EM CASA - VERDADES E MITOS





Há cinquenta anos, os EUA se enfiavam no lamaçal que seria conhecido como Guerra do Vietnã, conflito entre “corações e mentes” que mudou o mundo e inventou o pacifismo.


Por Tatiana Gianini, Duda Teixeira e Júlia Carvalho

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Não tinha mais volta. No dia 14 de dezembro de 1961, John Kennedy mandou uma carta a seu colega do Vietnã do Sul, Ngo Dihn Diem, comprometendo-se a impedir que o país fosse unificado sob o regime comunista da metade norte da ex-colônia francesa. A presença de unidades de combate americanas na região só foi oficializada em 1965. Muitos historiadores, porém, consideram que a Guerra do Vietnã começou mesmo em 1961, quando os americanos se enfiaram de vez no lamaçal militar e político do primeiro grande conflito entre tropas regulares e guerrilheiros, embate que provocou uma divisão interna violenta nos EUA descrita por historiadores como uma incruenta guerra civil.

Antes do Vietnã, chamar alguém de pacifista era ofensivo. Afinal, as guerras eram “justas”. A democracia ocidental contra o fascismo de Hitler e Mussolini. Nós contra eles. No Vietnã, embaralharam-se o “nós” e o “eles”, o certo e o errado. O triunfo do mal não dependia mais apenas da indiferença dos homens de bem. A guerra era o mal e, na cabeça de muitos americanos, lutar pela paz era a única opção moral. Nasceu, assim, o pacifismo como categoria política.

A seguir, verdades, mentiras e mitos sobre o conflito que abalou a opinião pública americana.


Kennedy era contra a guerra

MITO - Entre as mais desvairadas teorias sobre as razões do assassinato de John Kennedy, em 1963, estava a de que ele pretendia retirar as tropas americanas do Vietnã, despertando assim a ira mortal dos militares mais radicais. Coisa de cabeças de vento como o diretor Oliver Stone. Kennedy era pragmático e, no discurso de posse, alertara "amigos e inimigos" de que os Estados Unidos iriam às últimas consequências para garantir o "sucesso da liberdade" no mundo. A guerra servia a seu propósito político imediato: demonstrar aos EUA e ao mundo que, mesmo jovem e sem experiência executiva, ele seria um rival a altura da velha raposa soviética, Nikita Kruschev. A malograda invasão da Baía dos Porcos, tentativa rocambolesca de derrubar Fidel Castro pelas armas, e o fracasso em impedir a construção do Muro de Berlim fizeram do Sudeste Asiático uma questão de honra para a administração Kennedy. "Demonstrar fraqueza no Vietnã significaria mais uma derrota para o comunismo e seria insuportável para Kennedy", diz o historiador americano Andrew Wiest. Sob Kennedy, a presença militar americana subiu de 600 consultores para 16.700 combatentes das três armas.


Os EUA temiam o "efeito dominó" em que à queda do Vietnã do Sul se seguiriam outras derrotas até o domínio completo do comunismo no Sudeste Asiático

VERDADE - Dois graduados assessores militares de Kennedy, o general Maxwell Taylor, famoso por saltar ao lado de seus comandados paraquedistas na invasão da Normandia em 1944, e o economista com nome de poeta Walt Whitman Rostow, foram os maiores proponentes da "teoria do dominó". O diplomata George Kennan,o pai da Guerra Fria, achava que o Sudeste Asiático deveria ser entregue ao domínio soviético sem que isso acarretasse maiores danos aos interesses globais dos Estados Unidos. Kennan foi voto vencido.


Os vietcongues eram combatentes nacionalistas sem laços ideológicos com os comunistas

MITO - Os vietcongues eram guerrilheiros sul-vietnamitas da Frente Nacional de Libertação, organismo comunista armado por Moscou e comandado pelos militares do Vietnã do Norte. Os propagandistas soviéticos venderam aos pacifistas do Ocidente a ideia de que os vietcongues lutavam apenas para expulsar os americanos e unificar seu país. Mas a abertura dos arquivos do Kremlin depois da derrocada do regime soviético mostrou que os vietcongues eram visceralmente ligados aos comunistas.


O presidente do Vietnã do Sul, Ngo Dinh Diem, era um democrata

EM TERMOS - Quando se tornou independente da França, em 1954, o pais foi dividido em dois: O Norte, sob o controle do comunista Ho Chi Minh, e o Sul, uma monarquia sob o comando do imperador Bao Dai. Seguindo os termos da convenção que pôs fim ao domínio colonial da França na região, eleições gerais deveriam ser convocadas com o objetivo de reunificar o país em 1956. Diem aproveitou-se do fato de que o Vietnã do Sul ignorou os termos da convenção, livrou-se do imperador e se declarou o primeiro presidente da República do Vietnã. Católico fervoroso, anticomunista e modernizador, Diem tornou-se aliado natural dos Estados Unidos. Suas políticas alienaram a maioria budista, e os monges deixaram o mundo estupefato ao se imolarem com fogo nos protestos contra o cató1ico Diem. Em 1963, abandonado pela Casa Branca, Diem foi deposto e morto por militares.


Os americanos não sabiam lutar na selva

EM TERMOS - As tropas americanas contavam com poucos oficiais experimentados em operações de selva, mas se adaptaram logo à floresta de clima vietnamita. Com o uso maciço de helicópteros e bombardeios de grande altitude, as forças americanas venceram quase todas as batalhas no Vietnã. Mas perderam a guerra por não terem o mandado político de manter os territórios ocupados. A guerra de "fricção" com os vietcongues e com as forças regulares do Vietnã do Norte exauriu o moral e os recursos militares americanos.
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Soldados americanos evacuando ferido através da selva


Kennedy foi levado à guerra por assessores incompetentes

EM TERMOS - os presidentes John Kennedy e Lyndon Johnson foram assessorados por homens com credenciais, egressos das grandes universidades americanas e imortalizados no livro The Best and Brightest (as Melhores e Mais Brilhantes), de David Halberstam. Suas ideias e estratégias faziam todo o sentido, mas se mostraram limitadas àquele contexto histórico. Ate os anos 60, os Estados Unidos só conheciam um método de combate, o "estilo americano de guerra". Por esse conceito, deveria ser usado todo o poder de fogo disponível para arrasar diretamente o Inimigo. Mas aniquilar o Vietnã do Norte não fazia sentido em um momento em que a União Soviética e a China já possuíam bombas nucleares, que poderiam ser usadas para defender o aliado comunista.

Os americanos então usaram a estratégia de uma guerra gradual, na qual iriam lentamente elevando o número de soldados e armas. Eles acreditavam que os inimigos perceberiam a situação de inferioridade e desistiriam da guerra. Já os comunistas empregaram a estratégia da guerra prolongada, confiando em que os americanos estavam impacientes para acabar com o conflito. "o nível de dor que Hanói estava preparada para enfrentar era maior do que o que Washington podia infligir", diz o historiador George Herring, da Universidade do Kentucky.


A população era contra a guerra desde o princípio

MITO - No início dos anos 60, o governo americano desfrutava uma de suas melhores fases em todo o século XX. O país havia vencido a 2ª Guerra Mundial e seus cidadãos aceitavam o papel dos EUA, no contexto da Guerra Fria, de conter o comunismo no mundo. O avanço vermelho era uma legítima preocupação nacional. Por isso, no começo, a maioria dos americanos apoiava a Guerra do Vietnã. O crescente custo do conflito em termos de vidas perdidas e impostos pagos, somado a uma cobertura de imprensa que apresentava com liberdade fatos cada vez mais escabrosos e que colocou as cenas da guerra dentro dos lares, fez com que os americanos passassem a rejeitar a intervenção no país Asiático.
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Protesto contra a guerra nos EUA


Os americanos guerrearam contra crianças

VERDADE - Os vietcongues não tinham escrúpulos em obrigar crianças a se submeter a treinamento militar e entrar em combate efetivo. Em sua autobiografia, a vietnamita Le Ly Hayslip afirmou que ela e outras crianças participavam de encontros noturnos, cantavam músicas revolucionárias e recebiam treinamentos de guerra como se fossem adultos. Elas eram divididas em comitês e serviam de mensageiras entre os moradores das vilas e os vietcongues. Le Ly conta como ajudou a montar armadilhas contra as tropas americanas. Segundo ela, as crianças, por serem "menores e mais ágeis", eram as preferidas para desempenhar funções de guerrilha como enterrar minas terrestres, lançar granadas a distância contra tropas americanas e cavar trincheiras.


Novas doenças mentais foram descritas

VERDADE - O stress pós-traumático, antes considerado fraqueza pessoal, foi identificado como síndrome, passível de tratamento medico. Nas guerras seguintes, os veteranos passaram a receber acompanhamento psicológico contínuo.


Pela primeira vez, os Estados Unidos enviaram mulheres para o front

EM TERMOS - As enfermeiras, que representavam 85% do efetivo feminino, receberam pela primeira vez treinamento de combate e aprenderam a atirar com os fuzis M16. Elas só tinham permissão para usá-los para se defender em ataques aos hospitais ou postos médicos. A Marinha enviou algumas aviadoras, mas nenhuma chegou perto das linhas de combate. As mulheres só puderam lutar em navios de guerra e no Exército na primeira Guerra do Golfo (1990-1991).


Pela primeira vez, negros e brancos americanos lutaram lado a lado

MITO - Na Guerra da Coreia (1950-1953), pela primeira vez os negros serviram em unidades mistas. Até a 2ª Guerra, os negros marchavam em unidades segregadas, as black divisions. Como não podiam exercer cargos de comando, eram liderados por oficiais brancos. Em 1948, o presidente Harry Truman ordenou o fim da segregação nas Forças Armadas. A Marinha e a Força Aérea já haviam abolido completamente a segregação em 1950. No Exército, o processo começou em 1951 e terminou quando os soldados já haviam voltado para casa vindos da Coreia. No Vietnã, o número de oficiais negros dobrou e, pela primeira vez, alguns deles chegaram ao posto de general.
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Soldados negros e brancos lutaram lado a lado no Vietnã


A insubordinação dos soldados americanos era comum

VERDADE - A partir de 1968, quando a rejeição à guerra se tornou generalizada, os casos de quebra de hierarquia nas Forças Armadas se multiplicaram. Em 1969, registraram-se 96 casos de frag, gíria para o assassinato com granadas de fragmentação de oficiais considerados intoleráveis pela tropa. No ano seguinte, o número de frags subiu para 209. Segundo um estudo do Congresso americano, cerca de 3% das mortes de oficiais entre 1961 e 1972 foram resultado desses atentados. Em jornais feitos por soldados no Vietnã, eram oferecidas recompensas de 50 a 1.000 dólares pela morte dos superiores.


Os americanos foram derrotados na Ofensiva Tet

MITO - Os americanos foram bem-sucedidos ao rechaçar a maior ofensiva lançada pelos norte-vietnamitas contra as grandes cidades do Vietnã do Sul, em janeiro de 1968. Apesar dos ganhos iniciais dos comunistas, que mataram um americano a cada 23 minutos, o ataque foi um fracasso militar. A reação sul-vietnamita foi rápida e poderosa. Dos 84.000 soldados do norte e vietcongues envolvidos, 58.000 foram aniquilados, o que quase deu fim à guerrilha.


O Vietnã inaugurou a era das celebridades engajadas

VERDADE - Em 1972, a atriz Jane Fonda esteve em Hanói, no Vietnã do Norte. Visitou hospitais, assistiu a espetáculos de dança e discursou na rádio local, onde comentou as "maravilhas" do regime comunista: "Apesar das bombas, este povo tem a própria terra, constrói a própria escola, as crianças aprendem. O analfabetismo esta sendo erradicado. Em outras palavras, o povo tem o poder em suas mãos". Ela disse que os prisioneiros americanos eram bem tratados pelo inimigo e, de capacete, posou para a foto sentada em um canhão de bateria antiaérea. Era uma americana sentada em uma arma que havia sido usada para matar americanos. A ousadia fez com que Jane ganhasse popularidade e, ao mesmo tempo, passasse a ser considerada por muitos como uma traidora. Seus críticos a chamaram de "Hanói Jane". Apesar de ter pedido desculpas pelo que fez, em 1988, Jane Fonda foi precursora dos desmiolados do mundo pop que adotam causas apenas para se promover.
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Jane Fonda durante sua visita a Hanói


Os artistas e intelectuais americanos foram contra a guerra

EM TERMOS - Os intelectuais, sim. Os artistas se dividiram. Muitos se empenharam em levantar o moral das tropas e em entretê-las. Jogadores da Liga Nacional de Futebol Americano (NFL), os galãs de filmes de faroeste John Wayne e Clint Eastwood e a cantora Nancy Sinatra, filha de Frank Sinatra, entre outros, fizeram visitas e shows para os soldados no Vietnã. As apresentações do comediante Bob Hope eram especialmente populares, pois contavam com a participação de lindas assistentes de palco. Em um desses shows, a atração principal foi a atriz e modelo Raquel Welch, ícone dos anos 60.


Milhares de jovens fugiram para não ser recrutados

VERDADE - A alternativa mais viável para os jovens que não queriam ir para a guerra era fugir. Calcula-se que 600.000 homens tenham saído dos EUA. Boa parte dos desertores foi para o México e para o Canadá. Eles eram conhecidos como draft dodgers (fugitivos do alistamento) e, numa inversão de papéis, tratados como heróis no país. "Garotas dizem sim para garotos que dizem não", lia-se em cartazes antiguerra. Mais de 200.000 foram processados pela Justiça por deserção. O número aumentou após 1968, quando se passou a acreditar que a guerra no Sudeste Asiático não seria ganha. A situação só foi regularizada em 1977, dois anos depois do fim do conflito, quando Jimmy Carter assumiu a Presidência e decretou anistia a todos os que fugiram à obrigação.


As Forças Armadas americanas foram obrigadas a se profissionalizar

VERDADE - Para o esforço de guerra no Vietnã, os conscritos - soldados alistados compulsoriamente - eram essenciais. Representavam um em cada três soldados. Conforme a oposição à guerra crescia, contudo, a prática do recrutamento obrigatório se tornava insustentável. Em 1973, por iniciativa do presidente Nixon, todos os integrantes das Forças Armadas americanas passaram a ser profissionais. Essa regra vale até hoje.


Os protestos contra a guerra foram sempre pacíficos

MITO - Nem só de "paz e amor" se alimentaram as manifestações antiguerra. Em 1968, depois da Ofensiva Tet, quando a indignação pública contra a morte sem sentido de jovens americanos aumentou, postos de alistamento foram invadidos em Baltimore, Milwaukee e Chicago. Cerca de 10.000 pessoas tentaram entrar na Embaixada dos Estados Unidos em Londres. A polícia reagiu com bombas de gás, enquanto os manifestantes jogavam pedras, com um saldo de 86 pessoas feridas. Nos Estados Unidos, em 4 de maio de 1970, quatro estudantes foram mortos pela Guarda Nacional de Ohio, durante um protesto na Universidade de Kent; que começou após o anúncio de que o presidente Nixon enviaria mais tropas ao Camboja, para conter a influência vietcongue no país.


A reação à guerra levou ao surgimento do movimento hippie

EM TERMOS - O movimento hippie expandiu-se nas universidades da Califórnia na década de 60 junto com a crescente insatisfação com o envolvimento americano na guerra. Mas a semente do movimento também havia sido plantada em outras searas, e provavelmente teria brotado com ou sem a guerra distante. Os hippies eram contra o sisterna (o clássico "tudo isso que esta aí, o capitalismo, a bomba nuclear, as regras de conduta, o terno, o banho e o cabelo curto). Praticavam o amor livre, divertiam-se com LSD e maconha, sempre ao som de muito rock lisérgico e declarações de "faça amor, não faca guerra".


Os Estados Unidos perderam a guerra na frente de batalha

MITO - A guerra foi perdida em casa.  Os americanos demonstraram ampla supremacia militar e venceram quase todas as batalhas, mas lutaram na defensiva, temendo atrair a União Soviética e a China para o conflito. O inimigo resistiu até o momento em que a opinião pública americana, chocada com as imagens transmitidas diariamente e em cores pela televisão, se voltou contra a guerra.


Woodstock foi o primeiro festival de música com engajamento político

EM TERMOS - Os quatro jovens que criaram o festival de rock mais famoso do mundo tinham como único objetivo ganhar dinheiro. O público queria apenas se divertir, como em todo bom evento de música. Os organizadores esperavam 50.000 pessoas, mas logo nos primeiros dias as cercas foram derrubadas e decidiu-se que o festival seria gratuito. Meio milhão de pessoas compareceram. No palco, alguns artistas cantaram músicas contra a Guerra do Vietnã. "Country" Joe McDonald entoou, vestindo uma roupa militar esfarrapada, uma canção de protesto que ironizava um recrutador: "Por que estamos lutando? / Não me pergunte, não dou a mínima / A próxima parada é o Vietnã". Jimi Hendrix tocou o hino nacional americano na guitarra, simulando o barulho de bombas. Mas a multidão era tão grande que os organizadores foram obrigados a chamar helicópteros do Exercito para levar os artistas embora.
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O Festival de Woodstock reuniu opositores à guerra


O conceito do que é ser americano mudou

VERDADE - Francisco Mendoza-Martinez, que tinha dupla cidadania, americana e mexicana, mudou-se para o México em 1942 e só retornou aos Estados Unidos em 1946, para escapar do alistamento para a 2ª Guerra. A justiça decidiu tirar seu passaporte e extraditá-lo. Martinez apelou para a Suprema Corte. Apenas em 1963, justamente quando o. atoleiro no Vietnã se tornava mais profundo e o ritmo de recrutamento crescia, a Suprema Corte julgou o caso e decidiu, por cinco votos contra quatro, que, apesar de o serviço militar ser um dever do cidadão, o governo não poderia retirar a cidadania apenas por esse motivo. Isso é inconstitucional porque nega a pessoa o direito de uma pena justa, nos moldes americanos. 


Nunca houve tantos amputados

VERDADE - A 1ª Guerra Mundial (1914-1918) inaugurou a era dos combates ininterruptos. Até então, havia pausas para que se retirassem os mortos e feridos do campo. Foi a primeira vez que médicos tiveram algum tipo de treinamento militar e entraram no meio das batalhas, localizando os feridos e realizando os primeiros socorros ali mesmo. Desde então, avanços na medicina e nos meios de resgate rápido (como jipes e helicópteros) possibilitaram a diminuição das mortes. Uma das técnicas que mais evoluíram foi a da amputação, que evitava que as feridas provocadas por balas ou estilhaços de bomba infeccionassem e afetassem outras partes do corpo, causando a morte. A proporção de amputados entre os feridos, que na 1ª Guerra foi de 2%, na 2ª Guerra passou para 5% e no Vietnã chegou a 19%.

Fonte: Veja


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