"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



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sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

HOLLYWOOD NA GUERRA QUENTE

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Antes da Segunda Guerra, Holywood namorou nazistas, comunistas e fascistas. O mercado alemão era forte e o time da propaganda liderado por Joseph Goebbels conseguia editar ou barrar produções antinazistas.


Por Lucas Mendes


Muitos editores e roteiristas não escondiam suas simpatias pelo comunismo russo, que parecia próspero e resistente à depressão que devastava a Europa e os Estados Unidos na década de 1930.

As relações entre Hollywood e os militares americanos eram frias e desconfiadas, mas mudaram da noite para o dia com o bombardeio de Pearl Harbour, em 1941.

O novo livro de Mark Harris chega às livrarias no começo de uma possível nova Guerra Fria, que coloca o capitalismo ocidental contra o putinismo russo, mas o foco do livro está nos diretores de Hollywood que se alistaram para documentar a Segunda Guerra. Five Who Came Back : A Story of Hollywood And The Second World War ("Cinco que Voltaram: Uma História de Hollywood e a Segunda Guerra Mundial") é o título, e os protagonistas são John Ford, George Stevens, John Huston, William Wyler e Frank Capra, cinco dos mais bem sucedidos diretores de Hollywood da época.

Soviéticos e nazistas sabiam usar filme para promover seus regimes. Os americanos achavam a fórmula agressiva e sem credibilidade. Quando a guerra começou, o Departamento do Tesouro americano apreendeu centenas de filmes de propaganda que eram exibidos nas comunidades alemãs de Nova York e outros Estados.

Conta Mark Harris: "Capra, convocado pelos militares, veio a Nova York assistir a um dos mais famosos destes filmes, Triumph of the Will (Triunfo da Vontade), da genial documentarista alemã Leni Riefenstahl, no Musem of Modern Art (o Moma)".

"Capra saiu estarrecido: 'Nós vamos perder esta guerra'". Ele nunca tinha visto propaganda política com aquela dimensão e eficiência.

O cineasta Frank Capra

A verba que os militares deram para Capra era curta. US$ 450 mil para fazer 50 filmes. Sem dinheiro, ele decidiu usar os filmes de propaganda nazista contra o nazismo. Com a série "Porque Lutamos", cujo primeiro filme, Prelúdio da Guerra, ganhou Oscar de melhor documentário em 1942, "Capra mostrou os perigos da ambição, poder e domínio de Hitler".

Harris conta que muita gente até hoje acha que Capra simpatizava com a esquerda, mas era um republicano da ala conservadora, que tinha orgulho de dizer que nunca votou em Roosevelt em nenhuma das quatro eleições e só não dirigiu um filme sobre a vida de Mussolini porque o chefe do estúdio da Columbia percebeu a idiotice do projeto. Capra e Mussolini se admiravam.

Sem receber nenhuma instrução de militares, a série que ele concebeu e dirigiu se tornou o instrumento de educação/propaganda de todos os soldados que entravam no Exército americano. Mas, diferente da propaganda nazista, foi Capra, e não o governo, quem explicou aos americanos porque era preciso lutar na guerra.

Do grupo dos cinco diretores, além de Capra, John Ford se alinhava com a direita; George Stevens, John Huston e William Wyler tinham visões esquerdistas.

Depois da guerra, os cinco não tiveram outros projetos juntos, mas se uniram e derrubaram o projeto do produtor Cecil B. DeMille quando este tentou exigir um juramento anticomunista dos membros dos sindicatos dos diretores.

William Wyler, imigrante judeu da Alsácia, concentrou o foco dele na Força Aérea. Seu extraordinário documentário sobre o avião "The Memphis Belle" mostrou pela primeira vez as imagens de uma tripulação bombardeando a Alemanha e sendo atacada pelos jatos alemães.

Em outro ataque, na Itália, Wyler quase ficou surdo. Quando desceu do avião, não ouvia nada. Foi imediatamente despachado de volta, certo de que a carreira militar e de diretor estavam terminadas. Recuperou parte da audição num ouvido, o suficiente para ouvir atores por alto falantes ao lado da cadeira.

Um dos seus maiores filmes, Os Melhores Anos das Nossa Vidas, é sobre a dificuldade de um veterano de se reajustar à rotina quando volta da guerra. Depois fez Ben-Hur, Chaga de Fogo, Rosa da Esperança, Garota Genial, dezenas de outros, mas continuou recebendo um cheque do governo pela surdez em combate.

Antes da guerra, George Stevens, fez Ritmo Louco com Fred Astaire e Ginger Rogers, e A Primeira Dama, com Katherine Hepburn, entre outros. Depois da guerra fez Assim Caminha a Humanidade, com James Dean, Um Lugar ao Sol, Shane, O Diário de Anne Frank.

Durante a guerra, fez as imagens do campo de concentração de Dachau. Ficou anos traumatizado sem, falar sobre o assunto. Seu filme ajudou a condenar nazistas nos julgamentos de Nuremberg.

John Ford já tinha feito No Tempo das Diligências, As Vinhas da Ira e Como era Verde meu Vale, antes de dirigir o primeiro filme americano que documentou um combate na Segunda Guerra. Estava no Havaí, filmando a reconstrução depois do ataque de Pearl Harbour, quando foi despachado para filmar a batalha de Midway. Sem o privilégio de comandar "Ação!", filmou os aviões japoneses passando por cima dele para bombardear uma ilha próxima, mas "uma bomba", conta Harris, "caiu tão perto que o filme saiu da câmera".

"Um defeito que seria cortado num filme normal, mas Ford deixou o preto na tela e transmitiu o realismo da batalha. A guerra ia mal para os americanos e a vitória de Midway, apesar das perdas, trouxe esperanças".

Harris: "John Huston contribuiu com a batalha de San Pietro. Ele chegou atrasado e o Exército reconstruiu a batalha seis semanas depois. O truque de Huston foi tremer as câmeras nos bombardeios. Cinema verité falso e bem sucedido".

Era imprevisível planejar como cobrir batalhas como a de Midway, mas a invasão da Normandia, o D-Day, dia decisivo, estava nos planos. George Stevens, com o Exército, e John Ford, com a marinha, tinham centenas de câmeras fixas e cinegrafistas nos barcos anfíbios. Ninguém morreu, mas grande parte dos filmes foi destruída e a maior parte era tão brutal, que nunca foi vista nos cinemas, como era a intenção do projeto. As imagens mais próximas do documentário estão nos 25 minutos iniciais de Saving Private Ryan, de Steven Spielberg.

Fonte: BBC


sexta-feira, 9 de abril de 2021

QUANDO HOLLYWOOD FOI À GUERRA



O papel de diretores como Ford ou Capra condicionou o envolvimento dos Estados Unidos no conflito de 1939-1945


Por Toni García

Em 1945 George Stevens, diretor de filmes como Shane, Um lugar ao sol e O Gigante, e considerado um dos grandes cineastas norte-americanos da história, se encontrava na Europa, documentando os esforços bélicos dos aliados ao longo do continente para desarmar o Terceiro Reinado. No início de abril daquele ano o realizador acompanhava os soldados que libertaram o que parecia ser uma série de prisões em Dachau, a poucos quilômetros de Munique. Stevens não sabia que aquele campo de concentração mudaria para sempre sua vida e a dos voluntários que o acompanhavam.

Ele nunca mais foi o mesmo. Se você for ao Arquivo Nacional de Washington e assistir a esse filme, várias horas onde aparecem montanhas de cadáveres, prisioneiros esqueléticos, fumaça que sai das entranhas da terra… Todas as câmeras da equipe de Stevens deixaram de filmar: alguns se puseram a ajudar, outros simplesmente foram embora. Ele foi o único que seguiu gravando até quase não se aguentar em pé”. Conta Mark Harris, de Los Angeles. Este jornalista veterano acaba de publicar nos Estados Unidos o livro Five Came Back (Penguin Press/Canongate), um impressionante relato que conta, através da história de cinco legendários diretores, o impacto que a Segunda Guerra Mundial teve em Hollywood.

Teresa Wright e Dana Andrews, em 'Os melhores anos das nossas vidas'


John Ford, Frank Capra, John Houston, William Wyler e o próprio Stevens são fundamentais para entender como a postura de Hollywood para o conflito virou desde a suposta neutralidade até um envolvimento total”, conta Harris. O mais ativo de todos estes cineastas foi Ford. O mítico diretor de Depois do Vendaval, As Vinhas da Ira e Centauros do Deserto, foi o primeiro nas colinas de Los Angeles a pedir o apoio do mundo do espetáculo para os republicanos que lutavam na Espanha em inumeráveis atos, públicos e privados, para depois converter na voz da razão quando alguns nos grandes estúdios de Hollywood faziam questão de dizer que a II Guerra Mundial era apenas um conflito interno europeu. “Ford era um convencido e de fato deixou tudo para se alistar na Marinha e ajudar, à sua maneira, a documentar o que estava passando. Também foi o primeiro a introduzir cenas reais de combate em um filme (A Batalha de Midway, em 1942) e o que mais e melhor entendeu a importância de seu trabalho para conscientizar o público norte-americano do que estava passando”, diz Harris, cujo exaustivo trabalho recebeu os louvores da crítica anglo-saxã.

De todos os que dedicaram seu tempo (e, muitas vezes, seu dinheiro) para levar a guerra aos palcos dos teatros e convencer os norte-americanos de que aquilo era uma causa nobre, o caso mais curioso é o de Frank Capra. O diretor de Como é Belo Viver e Este Mundo é um Hospício era conhecido em Hollywood por suas veleidades ideológicas. Em 1935, em uma viagem a Roma, elogiou Mussolini (diziam que o realizador tinha uma foto do caudilho italiano em seu criado-mudo) e era muito conhecida a sua aversão aos sindicatos e a qualquer coisa que cheirasse a esquerda.

Cartaz do filme A batalha de Midway

De fato, Mussolini, grande admirador de Capra, ofereceu a ele um milhão de dólares se rodasse a sua biografia. Felizmente, Harry Cohn, o presidente de Columbia tirou a ideia da cabeça do realizador: “Sou judeu, esse cara está aliado com Hitler”, disse Cohn para acabar com o assunto. No entanto, Capra mudou quando conheceu Franklin D. Roosevelt, o presidente dos Estados Unidos a quem detestava. A cercania e a clareza de ideias deste, junto ao fato de que os desmandos dos alemães na Europa começavam a ser preocupantes, convenceram o diretor de que tinha que fazer algo e rápido. “Não teve coisa mais confusa na história do cinema do que a ideologia de Frank Capra. Um anarquista? É possível, eu acho que era um homem que funcionava por impulsos. Mas se algo está claro é que Why we fight (a série de documentários propagandísticos impulsionada por Capra) foi um instrumento imprescindível para acabar com qualquer reticência que a sociedade do país pudesse ter contra a entrada dos EUA na guerra".

Wyler, diretor de clássicos como Ben-Hur, entrou no conflito de uma forma bem mais humana, seguramente por causa da quantidade de amigos que ele tinha no Reino Unido ou a própria Alemanha. Seu retrato dos tripulantes do bombardeio Memphis Belle ou seu filme da invasão da Itália são algumas das peças mais conhecidas do gênero bélico. “Ele levava seu trabalho muito a sério e a prova disso é que ele renunciou a rodar um documentário sobre os soldados negros porque o Alto Mando quereria adoçá-lo e isso não entrava em seus planos”. O efeito que a guerra teve em Wyler se solidificou em sua preciosa Os melhores anos das nossas vidas, drama sobre a volta para a casa dos soldados que viviam das lembranças do próprio diretor.

Para Harris, “Houston foi —provavelmente— o mais arrojado de todos eles, porque para ele a câmera era como um escudo, achava que de algum modo lhe protegia”, mas o mais relevante foi Stevens: “Voltou para a casa, montou e editou o que rodava em Dachau e o envio aos promotores de Nuremberg: esse filme foi decisivo para que naqueles julgamentos os criminosos fossem condenados e uma das poucas vezes em que os nazistas tiraram os olhos da tela. Acho que isso o diz tudo”.

Fonte: El País


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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

OSCAR 2020: A HISTÓRIA QUE INSPIROU ‘1917’, O ACLAMADO FILME DE GUERRA INDICADO A DEZ ESTATUETAS

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1917, filme dirigido pelo britânico Sam Mendes sobre a Primeira Guerra Mundial, transcorre em apenas dois planos-sequência (como se fossem duas grandes cenas, com apenas uma interrupção).

E essa destreza técnica contribuiu para que a obra fosse indicada a dez categorias do Oscar, entre elas a de melhor filme e de melhor diretor. O longa de Mendes, premiado no Oscar em 2000 por Beleza Americana, trata de dois soldados britânicos que são enviados, através de um campo de batalha, para levar uma mensagem que pode salvar a vida de 1,6 mil integrantes de um regimento de Devonshire durante a batalha de Passchendaele.

Mas quão reais são os eventos históricos em que o novo filme se baseia? E por que a grande parte dos críticos já o colocou como favorito ao Oscar?


Baseado "vagamente" em fatos reais

O longa se passa em um cenário verdadeiro: a Primeira Guerra Mundial, que transcorreu de 1914 a 1918 e teve como cenário central o continente europeu, principalmente o norte da França. Mais de 17 milhões de pessoas morreram no conflito.

Segundo o diretor relatou em um podcast da revista especializada Variety, a história de 1917 se baseia no relato que seu avô, Alfred Mendes, lhe fez na infância. "Havia uma história que era um fragmento do relato de meu avô, que lutou na Primeira Guerra. Era a história de um mensageiro que tinha um recado para levar. E isso era tudo que podia contar", relembra o diretor. 

"Essa história, ou esse fragmento, permaneceu comigo e obviamente eu a ampliei e fiz mudanças enormes, mas a essência é a mesma.Alfred Mendes, que nasceu na ilha caribenha de Trinidad e Tobago, se mudou para o Reino Unido e se juntou ao Exército britânico que lutou no norte da França.

Cena real da Batalha do Passchendaele: morte e sofrimento em meio ao lamaçal

No longa, os personagens principais são o soldado Blake (Dean-Charles Chapman, de Game of Thrones), seu companheiro Schofield (George MacKay, de Capitão Fantástico), o general Erinmore (Colin Firth, de O Discurso do Rei) e o coronel MacKenzie (Benedict Cumberbatch, de Sherlock).

Mas nenhum deles existiu na realidade. Alguns apontam que Blake se inspira no avô de Sam Mendes, que escreveu um livro de memórias sobre sua participação da Primeira Guerra Mundial.

E como aponta o portal History and Hollywood, o maior combate retratado no longa pode ser a batalha de Passchendaele ou a terceira batalha de Ypres, que durou de 31 de julho a 10 de novembro de 1917.


A técnica

Como o próprio diretor afirmou ao receber um prêmio por 1917, esta é uma obra para ser vista no cinema. Isso porque uma de suas principais características é ser narrado em dois planos-sequência.

"A estratégia audaciosa de Mendes por trás das câmeras tem chamado bastante atenção. Filmando em longas tomadas com a menor quantidade de cortes possíveis na edição, o diretor cria a ilusão de um movimento contínuo em meio a soldados que avançam por batalhas e campos enlamaçados", escreve a crítica Caryn James na BBC. E acrescenta: "A técnica é deslumbrante, mas é mais do que um truque: aumenta a tensão e o imediatismo da imagem, o que permite nos conectarmos com os dois heróis".

Longa foi filmado no Reino Unido e contou com cerca de 500 figurantes

Estima-se que o filme custou mais de US$ 90 milhões (R$ 372 milhões) e conte com mais de 500 figurantes. 

"A história de meu avô não era nada romântica. Não era sobre heroísmo ou valentia, mas sim sobre um soldado que teve ou não a sorte de sobreviver à guerra", afirmou Mendes à revista especializada The Hollywood Reporter.

"E foi por isso que minha ideia sempre foi: por que não grudamos o público nessa experiência de uma maneira que parece não se romper nunca, em um filme que se parece com o tique-taque de um relógio, no qual experimentamos o que acontece em tempo real a cada segundo?"

Fonte: BBC


quarta-feira, 28 de agosto de 2019

III FESTIVAL DE CINEMA DE HISTÓRIA MILITAR - MILITUM 2019

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As sessões do Festival ocorrerão no Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do Exército (CEPHiMEx), de 18 a 20 de setembro, e a cerimônia de premiação acontecerá no Salão Histórico do 1º Distrito Naval, em 23 de setembro.

Em sua terceira edição, no ano de 2019, o MILITUM - Festival de Cinema de História Militar recebeu a inscrição de 27 filmes, sendo 13 documentários, 10 ficções e 04 animações, provenientes de 9 estados do Brasil (DF, GO, MA, PA, PE, PR, RJ, RN e SP), abrangendo as cinco regiões nacionais e mais uma parceria internacional com Uganda, totalizando mais de 15 horas de material audiovisual. Destacamos que duas obras declararam terem sido produzidas especificamente para participarem do Festival Militum, reforçando nossa proposta de fazer produzir a memória nacional na cinematografia.

Os filmes, produzidos entre 2006 e 2019, trouxeram como tema a Segunda Guerra Mundial e a Força Expedicionária Brasileira, a atuação da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, o Colégio Militar do Rio de Janeiro, a história do Tucano T-27 construído pela Embraer e os faróis de navegação históricos operados pela Marinha do Brasil.

Desse valioso material, a Comissão Organizadora selecionou 10 obras para serem exibidas ao público durante os três dias do Festival, concorrendo às premiações concedidas pelo Júri Popular e pelo Júri Oficial, que entregará aos melhores filmes das diversas categorias o troféu Apollo.

O Festival Militum foi idealizado e é dirigido pelo cineasta Daniel Mata Roque. O evento é organizado pela Pátria Filmes, em parceria com a Academia de História Militar Terrestre do Brasil - Seção Rio de Janeiro e a Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira - Direção Central. O Festival conta ainda com o apoio da Sociedade Amigos da Marinha - Rio de Janeiro, do Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do Exército/Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército, do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, do Portal FEB e do CH Grupo.




 
Confira o programa detalhado e outras informações no site


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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

O INTERCÂMBIO CULTURAL ENTRE OS SOLDADOS NA GUERRA DA CRIMEIA

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Inimigos no campo de batalha, oficiais russos e seus adversários não perdiam oportunidade de se comunicar durante os momentos de trégua.

Por Yuri Ossokin


A guerra da Crimeia, que ocorreu há 160 anos, no início de setembro de 1854, foi o primeiro conflito em que a Rússia foi confrontada pela Inglaterra, que lutou em uma coligação com a França e a Turquia. No nível político, os países eram inimigos, mas para os indivíduos que lutaram no conflito a guerra não era razão para esquecer as boas maneiras e a cortesia. Os oficiais russos falavam inglês e francês, o que permitia a comunicação civilizada fora de combate entre aqueles que no dia seguinte voltavam a ser inimigos irreconciliáveis.

O cerco de Sebastopol foi, além de um combate do Exército russo contra a coligação franco-inglesa, um encontro de culturas diferentes. Sendo inimigos no campo de batalha, os russos e seus adversários não perdiam oportunidade de se comunicar nos acampamentos militares, durante os momentos de trégua. O jornalismo de guerra, o gorro balaclava, o sobretudo raglan e o casaco cardigan surgiram durante o cerco de Sebastopol.


“É a vontade de Deus” 

Após o bombardeamento de Odessa pela esquadra franco-inglesa, a fragata britânica Tigre, cuja missão era bloquear a cidade, encalhou em um nevoeiro espesso na entrada do porto. A tripulação de 225 oficiais e marujos foi aprisionada e alojada em Odessa. Mais tarde, por ordem do imperador russo Nicolai I, a tripulação foi mandada para casa. Em Odessa, os prisioneiros viviam em excelentes condições,  sob a constante atenção da população local. Tudo isto foi descrito em suas cartas para familiares e amigos. Um marinheiro relatou: “Um dia, sob a bandeira de trégua, veio ter conosco um oficial russo de idade. Fez uma saudação para um grupo de soldados ingleses e partilhou com eles o rapé. Depois de beber rum com os nossos, disse a um oficial britânico: ‘Os russos gostam muito de ingleses e, se pudessem, nunca entrariam em guerra convosco. Pelo visto, é a vontade de Deus’”. 

Soldados russos na Crimeia


Enquanto os oficiais se comportavam como cavalheiros, sobre os soldados não se podia dizer o mesmo. Para os simples soldados russos, ao contrário dos oficiais de educação europeia, os ingleses e franceses eram intrusos, encarados como ocupantes que deviam ser expulsos a todo custo. “Testemunhei um caso repugnante: um jovem oficial inglês deu a um ferido russo um gole de brandy de seu cantil; mal lhe virou as costas para ir embora, levou um tiro fatal do soldado impassível”, recordou em uma carta Timothi Gowing, atirador real.

Mas os soldados dos aliados tampouco eram exemplos de civilização. Chacotas e torturas eram bastante frequentes, e nisso se empenhavam sobretudo os franceses, endurecidos pela guerra contra os selvagens na  Argélia. Caffir, criado do capitão Clifford, contava com uma sinceridade aterrorizante que para ele o  maior prazer era passear pelo campo depois da batalha, contemplando corpos mutilados de soldados inimigos, que lhe lembravam “maçãs no quintal”. Uma vez, voltou carregado de sabres e capacetes russos, murmurando: “Ai que bom! Tantos mortos! Braços e pernas por todo lado. São inimigos de meu senhor”.


Heranças da guerra 

A guerra da Crimeia deixou influências nas línguas dos países beligerantes e na área de vestuário. Em inglês, até hoje existe o termo “balaclava”, que designa um gorro de malha com orifícios para olhos e nariz. Reza a lenda que este termo foi introduzido pelos soldados britânicos que não tinham vestimentas adequadas no inverno de 1854–1855 e passavam muito frio nos arredores da cidade de Balaclava, na Crimeia. Outro exemplo conhecido é um sobretudo com mangas de corte especial chamado de raglan, que costumava ser usado por Fitzroy Somerset, primeiro barão Raglan, comandante das forças britânicas, que tentava ocultar deste modo a falta do braço direito, perdido ainda na juventude durante a batalha de Waterloo. Mais uma peça de roupa – uma blusa de malha com botões e sem gola – foi batizada de cardigan, em memória de James Brudenell, sétimo conde de Cardigan, que gostava de vestir a blusa por baixo da farda durante o inverno. Os habitantes da Europa tinham bastante frio na Crimeia.

Soldados britânicos em um acampamento na Crimeia


Segundo uma lenda popular, foi durante a guerra da Crimeia que surgiram os “papirossi”: tanto os aliados como os russos adotaram um hábito turco de fazer uma espécie de cigarro enchendo de tabaco cartuchos de papel para pólvora.


Tratado de paz

No final de 1855, os participantes do conflito começaram a perceber que não valia a pena continuar lutando. Perdas enormes (apenas nos arredores de Sebastopol, os aliados perderam cerca de 90 mil soldados, sem contar com os que morreram de doenças) viravam as sociedades francesa e inglesa contra a guerra, e a Rússia também estava em uma situação difícil. Na sequência de conversações, foi assinado o Tratado de Paz de Paris, em 18 de março de 1856. Todos os grandes Estados tiveram que chegar a um compromisso, porque o balanço de forças na Europa não mudou após a guerra, nem foram resolvidas as questões que provocaram o conflito. Lamentavelmente, passados 60 anos, em 1914 os mesmos problemas voltaram a provocar um conflito armado, que ficou conhecido como Primeira Guerra Mundial. 

Fonte: Gazeta Russa


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

NOS CAMPOS DE FLANDRES - O POEMA QUE LEMBRA O ARMISTÍCIO

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O poema "In Flanders Fields" (nos campos de Flandres) foi escrito pelo tenente-coronel  canadense John Mcrae, em 3 de maio de 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, após ele ter visto a morte de seu amigo no dia anterior, o tenente Alexis Helmer.

O poema foi publicado em 8 de dezembro daquele ano pela revista inglesa semanal Punch, e se tornou o mais famoso do conflito.

Flandres é uma região da atual Bélgica, onde eles se encontravam combatendo, comum pelos extensos campos de papoulas. Devido à notoriedade alcançada pelo poema, as papoulas viraram símbolo do Dia da Lembrança, também chamado de Dia do Armistício ou Dia da Papoula (Poppy Day).

O poema ainda é recitado nas cerimônias do Dia da Lembrança no Canadá, Estados Unidos e Reino Unido.


Nos Campos de Flandres


Nos campos de Flandres

as papoulas estão florescendo entre as cruzes
que em fileiras e mais fileiras assinalam
nosso lugar; no céu as cotovias voam
e continuam a cantar heroicamente,
e mal se ouve o seu canto entre os tiros cá embaixo.


Somos os mortos... Ainda há poucos dias, vivos,

ah! nós amávamos, nós éramos amados;
sentíamos a aurora e víamos o poente
a rebrilhar, e agora eis-nos todos deitados
nos campos de Flandres.


Continuai a lutar contra o nosso inimigo;

nossa mão vacilante atira-vos o archote:
mantende-o no alto. Que, se a nossa fé trairdes,
nós, que morremos, não poderemos dormir,
ainda mesmo que floresçam as papoulas
nos campos de Flandres.



Versão original em inglês

In Flanders fields


In Flanders fields the poppies blow

Between the crosses, row on row,
That mark our place; and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.


We are the Dead. Short days ago

We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie,
In Flanders fields.


Take up our quarrel with the foe:

To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high.
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

MUNDO RELEMBRA FIM DA 1ª GUERRA MUNDIAL, TRAGÉDIA QUE MOLDOU O SÉCULO XX

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No fim do conflito, os povos europeus estavam exaustos e a tentação revolucionária, inspirada pelo exemplo russo, espalhou-se em 1919, especialmente na Alemanha e na Hungria


"A Alemanha pagará". O leitmotiv francês que se refletiu no Tratado de Versalhes resume as ilusões dos vencedores sobre o estado da Europa após a 1ª Guerra, ignorando o colapso político, econômico e moral de um continente que dominou o mundo durante séculos.

No fim do conflito, os povos europeus estavam exaustos e a tentação revolucionária, inspirada pelo exemplo russo, espalhou-se em 1919, especialmente na Alemanha e na Hungria. Essas tentativas duraram muito tempo e foram reprimidas duramente, assim como as greves que eclodiram na França e na Itália.

Ainda no front, soldados britânicos comemoram o armistício e o fim da guerra

A Rússia bolchevique conseguiu estabelecer seu poder depois de uma implacável guerra civil, antes de cair em um totalitarismo implacável sob o comando de Stalin e formar um bloco confrontando os Estados Unidos durante meio século da Guerra Fria, após a 2ª Guerra.


Totalitarismos

Mas, em curto prazo, foi sobretudo o Tratado de Versalhes, assinado em 28 de junho de 1919, que teve graves consequências ao atingir a Alemanha moral e economicamente. A conferência de Londres de 1921 impôs à Alemanha o pagamento de 132 bilhões de marcos de ouro aos Aliados, principalmente a França, como indenizações de guerra. Os alemães ficaram indignados com as exigências dos vencedores e não puderam cumprir suas obrigações.

Para obrigá-los a pagar, as tropas francesas ocuparam em 1923 a região de Ruhr, no oeste, e o país se afundou ainda mais no caos econômico, a hiperinflação e principlamente o rancor.

Um agitador chamado Adolf Hitler encontrou naquele contexto um terreno fértil para alcançar o poder dez anos depois, antes de voltar a levar a Europa para uma guerra devastadora.

O fascista Benito Mussolini alimentou na Itália as mesmas ânsisas de revanche e de grandeza, enquanto, ao contrário, na França e no Reino Unido, a guerra gerou um pacifismo que explica a paralisia das democracias europeias ante Hitler. 

Os tratados de paz não só afetaram a Alemanha, mas também desenharam um novo mapa da Europa e do Oriente Médio, dividindo os impérios vencidos e lançando as bases para futuros conflitos entre novas nações, desde os países bálticos até a Turquia, passando pela Iugoslávia e Checoslováquia.  

O Império Otomano, que estava morrendo desde o século 19, foi dissolvido em benefício dos vencedores, e as contraditórias promessas britânicas feitas aos árabes e judeus foram as sementes do futuro conflito entre Israel e os palestinos.

Em Paris, uma das muitas cerimônias rememorando o centenário do fim da 1ª Guerra Mundial


Domínio americano

Embora o prestígio político dos principais vencedores, França e Reino Unido, parecesse atingir seu auge em 1919, não impediu a ascensão internacional dos Estados Unidos, que se afirmou como a principal potência econômica, militar e política do mundo ocidental nas décadas seguintes.

O conflito também deixou a Europa exaurida demograficamente. Quase 10 milhões de soldados morreram, 20 milhões ficaram feridos e dezenas de milhões de civis morreram vítimas de massacres, fome e doenças, sem contar as conseqüências da gripe espanhola em 1918 e 1919. A guerra também causou milhões de inválidos, viúvas e órfãos.


Emancipação feminina

As mulheres em todos os lugares desempenharam um papel fundamental no esforço de guerra, substituindo nas fábricas e campos os homens que estavam no front. Muitos delas descobriram naquele momento o prazer da emancipação. 

Mulheres trabalhando em uma fábrica de munição. Para elas, a Grande Guerra representou o início de um processo de  emancipação feminina


Embora a maioria retornasse às tarefas domésticas após a desmobilização dos homens, elas obtiveram o direito de votar em vários países como Alemanha, Áustria ou Reino Unido. As francesas estavam entre as poucas que tiveram de esperar até o final do próximo conflito, em 1944, para poder votar.

Os massacres da guerra também deixaram uma marca inesquecível em artistas e intelectuais, atormentados pelas atrocidades que presenciaram. O dadaísmo, nascido durante o conflito, e o surrealismo se espalharam pela poesia, pintura e literatura, em países como França, Bélgica e Alemanha, como um exorcismo contra o horror.

Nas cidades, a juventude expressou sua enorme fome de viver, de rir, de protestar. Foi a época dos "anos loucos" em Paris, enquanto que, em Berlim, os pintores tentavam esquecer seu triste dia a dia em festas noturnas que duravam até o amanhecer. 

Fonte: France Press


domingo, 15 de abril de 2018

MORRE O ATOR E EX-MILITAR RONALD LEE ERMEY, AOS 74 ANOS

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Ele foi indicado ao Globo de Ouro pelo papel do sargento fuzileiro de "Nascido para matar"

É famosa a história de Ronald Lee Ermey, morto na manhã deste domingo, nos Estados Unidos, aos 74 anos, em consequência de complicações com uma pneumonia.

É com grande tristeza que me cumpre a tarefa de informá-los que R. Lee Ermey morreu esta manha de complicações com pneumonia. Nós sentiremos muito a sua falta", diz o tuíte publicado na conta do ator pelo seu agente, Bill Rogin.

Foi Stanley Kubrick, para quem Lee Ermey trabalhava como consultor militar em "Nascido para matar" (1979), que lhe deu a oportunidade de fazer o sargento Hartman no filme. O personagem, responsável na primeira parte da trama pelo treinamento dos soldados que iam para a Guerra do Vietnã, lhe valeu uma indicação ao Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante na época.

Lee Ermey interpretando o sargento Hartaman em "Nascido para matar"


O sargento reformado do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA tornou-se, assim, um ator ligado ao arquétipo do homem autoritário. Ele foi o prefeito Tilman em "Mississippi em chamas", o xerife Hoyt na refilmagem de "O massacre da serra elétrica", o capitão de polícia em "Seven - Sete pecados capitais", entre muitos outros.

O jovem Lee Ermey, no tempo em que serviu no Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA na década de 1970


Fonte: O Globo


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

"ATÉ O ÚLTIMO HOMEM": SOLDADO RETRATADO EM FILME DE MEL GIBSON SE RECUSOU A MATAR INIMIGOS POR TEMOR A DEUS

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Personagem principal do novo filme de Mel Gibson, Desmond Doss teve um testemunho impactante de superação e desafios para conservar seus valores de fé, durante a Segunda Guerra Mundial.


Quando Mel Gibson revelou que novo filme seria um drama sobre a Segunda Guerra Mundial e o primeiro homem a contrariar as 'regras de guerra', se recusando a pegar em armas, o ator e diretor teve cinco palavras para descrever o soldado da história: 'heróis reais não vestem Spandex' — fazendo referência ao tecido comumente utilizado para a fabricação das roupas super heróis dos quadrinhos.

O filme "Hacksaw Ridge" (no Brasil, "Até o último homem") conta a verdadeira história de Desmond Doss, um rapaz adventista que se alistou no exército durante a Segunda Guerra Mundial, determinado a salvar vidas na linha de frente como um médico, mas se recusou a carregar uma arma consigo, porque dizia que sua fé não permitia atirar em alguém.

Doss, que morreu em 2006, foi condecorado com a Medalha de Honra do Congresso pelo presidente Harry Truman em 1945, após salvar sozinho a vida de mais de 75 de seus companheiros, durante a batalha de Okinawa (Japão).

O presidente Harry Trumman condecora Doss com a Medalha de Honra do Congresso


Durante a batalha, seu batalhão foi atacado no topo de um penhasco de mais de 120 metros de altura — local que acabou dando nome ao filme 'Hacksaw Ridge' ('Cume de Hacksaw').  Os soldados norte-americanos escalaram a montanha, mas foram recebidos com lança-chamas e tiros de metralhadora dos japoneses.  Enquanto outros recuavam, Doss — um socorrista interpretado por Andrew Garfield no filme — recusou-se a procurar abrigo e passou a cuidar dos feridos feridos. Ele levou os homens, um por um, à beira do precipício e os desceu baixo, usando uma maca que ele mesmo improvisou.

Doss, um membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia, cresceu em Lynchburg, Virginia. Quando ele era criança, seu pai comprou um poster emoldurado dos 'Dez Mandamentos' e uma dessas ordenanças falava forte ao coração do garoto: "Não matarás".  "Eu me perguntava: 'como no mundo, poderia um irmão fazer uma coisa dessas?'. A ideia de matar alguém simplesmente imprime um horror no meu coração. Como resultado eu levei isso para o lado pessoal, como se Deus me dissesse: 'Desmond, se você me ama, você não vai matar ninguém", disse Doss certa vez a Larry Smith, durante o documentário 'Beyond Glory', que contava a história de soldados que ganharam medalhas de honra.

Desmond Doss cresceu em uma cidade pequena, na borda das montanhas de Blue Ridge, na Virgínia (EUA), onde ele acabou vendo seu pai bêbado abusar de sua mãe.

O filme 'Hacksaw Ridge' mostra um incidente de sua infância, no qual Doss entrou em uma briga com seu irmão e acertou a cabeça do garoto com com um tijolo. O acontecimento deixou Desmond muito arrependido. Logo depois, Doss tornou-se um pacifista e passou a se interessar cada vez pela medicina, embora não tivesse condições financeiras para bancar os estudos em uma faculdade.

Em abril de 1942, Doss estava com 23 anos e trabalhava em um estaleiro, quando foi chamado para o exército. Ele teve o direito de tornar-se um 'objetor de consciência', depois de ter se recusado a portar armas, devido a seus princípios de fé. Em seguida, ele se alistou no exército como médico.  Ele escolheu se tornar um socorrista, com o objetivo de seguir o sexto e o quarto mandamentos: honrar o sábado.  Apesar dos adventistas do sétimo dia considerarem a importância de guardar o sábado, Doss acreditava que não haveria problemas em servir como socorrista sete dias por semana, alegando que "Cristo curou no sábado".

Desmond Doss com suas condecorações


"Eu senti que era uma honra servir a Deus e ao meu país", disse ele ao Richmond Times-Dispatch, em 1998. "Eu não queria ser conhecido como alguém que violou as regras do exército, mas tenho certeza que não sabia exatamente no que eu estava entrando".

Pouco antes de entrar efetivamente para o serviço militar em agosto de 1942, Doss se casou com sua namorada, Dorothy, uma enfermeira. 

Doss enfrentou o preconceito dos outros soldados, devido à sua devoção à oração, sua recusa em pegar em armas e comer carne, além do respeito que tinha com relação ao sábado. Certo dia, de acordo com o New York Times, um oficial tentou classificá-lo como um portador de doença mental.  O pacifismo de Doss o levou a ser ameaçado por uma corte marcial, mas o problema foi resolvido e ele foi para a guerra.

Já na batalha de Okinawa, na primavera de 1945, foi durante um sábado, 5 de maio, que Doss e seus companheiros de tropa viveram os momentos de tensão, escalando o cume de Hacksaw. Ele conseguiu descer os soldados feridos do penhasco usando um tipo de maca improvisada, apoiada por uma corda que ele havia, com nós que havia aprendido a dar quando era criança e brincava de marinheiro. Depois de descer cada homem ferido, Doss desceu da montanha ileso.  Acredita-se que Desmond tenha salvo mais de 75 soldados, porém ele mesmo corrigiu este número, baixando esta conta para aproximadamente 50 homens. 

Pouco mais de duas semanas depois, em 21 de Maio, Doss foi ferido nas pernas por uma explosão de granada, durante um ataque noturno, enquanto permanecia em território exposto, ajudando outros soldados. De acordo com informações passadas na citação de sua Medalha de Honra, ele cuidou de seus próprios ferimentos, em vez de pedir a ajuda de um outro soldado.  Doss esperou por cinco horas, até que dois de seus companheiros conseguiram alcançá-lo para levá-lo a um local seguro.

Doss e os homens que o levavam foram depois capturados em um ataque inimigo. Quando Doss viu um homem mais gravemente ferido nas proximidades, se arrastou em direção à maca daquele soldado para ajudar a tratar dos ferimentos de seu colega. Mas, enquanto esperava que os carregadores da maca voltassem, Doss foi atingido novamente e fraturou o braço. Ele improvisou uma tala e se arrastou por cerca de 275 metros até um posto de socorro.

Em 12 de outubro de 1945, o presidente Harry Truman condecorou Doss com a Medalha de Honra por suas ações em Okinawa. "Através de sua coragem excepcional e determinação inabalável diante das condições desesperadamente perigosas, Doss salvou a vida de muitos soldados", dizia o texto da Medalha de Honra. "Seu nome tornou-se um símbolo de toda a 77ª Divisão de Infantaria pela bravura excepcional, muito acima e além do que o dever chama".

Desmond Doss com sua esposa Dorothy


Nos cinco anos seguintes, Doss teve que passar por diversos hospitais para tratar seus ferimentos, e também acabou perdendo um pulmão, devido à tuberculose.

Por causa de suas doenças, Desmond não conseguiu encontrar um trabalho estável e acabou se dedicando à vida ministerial. Trabalhou com jovens em programas patrocinados pela igreja nos estados da Geórgia e do Alabama. Na década de 1950, Doss e sua esposa Dorothy se mudaram para a cidade de Lookout Mountain, a noroeste da Geórgia, onde construíram uma casa e criaram seu filho, Desmond Jr, de acordo com registros da Biblioteca da Virgínia.

Dorothy morreu em um acidente de carro, em 1991 e Doss casou-se com Frances May Duman, uma viúva com três filhos adultos, em 1993. Doss morreu, aos 86 anos, em março de 2006, em razão de uma grave doença respiratória. Ele foi enterrado no cemitério nacional de Chattanooga, no Tennessee (EUA).



Garfield — o ator que interpreta Doss no novo filme — ficou famoso anteriormente por fazer o papel do herói dos quadrinhos, Homem Aranha. Porém o astro de Hollywood não escondeu a satisfação em ter atuado no papel mais recente e afirmou que o soldado cristão foi muito mais inspirador do que o herói mutante.

"Ele tinha uma sabedoria em seu coração, entendendo que ele não deveria tirar a vida de um homem, mas queria servir a algo maior do que ele e encontrou sua própria forma de fazer isso", acrescentou.

"Hacksaw Ridge" foi lançado nos cinemas dos EUA no dia 4 de novembro. A pré-estreia no Festival de Veneza terminou com aplausos que duraram cerca de 10 minutos.

Fonte: Portal guiame.com.br