"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



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sábado, 27 de maio de 2023

OS ATAQUES QUE AJUDAM A EXPLICAR O RANCOR HISTÓRICO DA COREIA DO NORTE CONTRA OS EUA

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"Tudo que se movia." Com essas palavras, o ex-secretário de Estado norte-americano Dean Rusk definiu os alvos das bombas lançadas sobre a Coreia do Norte, durante a Guerra da Coreia (1950-1953), uma missão batizada pelo Pentágono de Operação Estrangular.


Por Guillermo Olmo

Segundo historiadores, foram três anos de ataques aéreos contínuos e indiscriminados, que arrasaram cidades e vilarejos da república comunista e mataram dezenas de milhares de civis.

James Person, especialista em política e história coreanas do centro de estudos Wilson Center, em Washington, diz que essa parte da história dos Estados Unidos não é muito divulgada no país. "Como ocorreu entre a Segunda Guerra Mundial e a tragédia do Vietnã, a maioria do público americano não sabe muito sobre a Guerra da Coreia."

Mas, na Coreia do Norte, nunca se esqueceram dela - e essas lembranças continuam a ser uma das razões do rancor que impera ali contra os Estados Unidos e o mundo capitalista. Desde então, Pyongyang sempre viu os americanos como uma ameaça, uma rivalidade que está na raiz da tensão que existe na região, agora em seu auge. Mas como foi esse capítulo não resolvido da história da península coreana?

Só a intervenção chinesa foi capaz de frear o avanço das tropas dos Estados Unidos e da ONU

No ano de 1950, tropas americanas, apoiadas por uma coalizão internacional, tentavam rechaçar uma invasão na Coreia do Sul. Kim Il-Sung, avô do atual líder da Coreia do Norte, havia lançado seus homens contra o país vizinho após uma forte repressão de simpatizantes do comunismo pelo regime militar comandado por Syngman Rhee em Seul.

Apoiado por Stalin, em Moscou, Il-Sung deu início ao primeiro grande conflito da Guerra Fria. Na primeira fase de hostilidades, o enorme poder aéreo americano havia se limitado a atingir alvos estratégicos, como bases militares e centros industriais, mas um fator inesperado mudou tudo.

Pouco depois do início da guerra, a China, temendo o avanço dos Estados Unidos rumo às suas fronteiras, decidiu sair em defesa da Coreia do Norte, sua aliada. Os soldados americanos começaram a sofrer cada vez mais baixas por conta dos ataques das Forças Armadas chinesas, que não eram tão bem equipadas quanto as dos Estados Unidos, mas muito mais numerosas.

"Para o comando americano, era vital interromper os suprimentos enviados por chineses e soviéticos que permitiam a Coreia do Norte manter seus esforços bélicos", explica Person.
Foi então que o general Douglas MacArthur, herói da Segunda Guerra Mundial no Pacífico, decidiu dar início a sua "tática de terra arrasada".

O general Douglas MacArthur foi quem impulsionou a '"tática de terra arrasada" aplicada pelos EUA


Ofensiva aérea

Foi o marco do início da guerra total contra a Coreia do Norte. A partir desse momento, todas as cidades e vilarejos passaram a receber a visita diária dos bombardeiros americanos B-29 e B-52 e sua carga mortal de napalm, nome dado a um conjunto de líquidos inflamáveis.

Ainda que MacArthur tenha caído em desgraça pouco depois, sua estratégia continuou a ser aplicada. Segundo Taewoo Kim, professor de Humanidades da Universidade Nacional de Seul, todas as cidades e vilarejos da Coreia do Norte foram reduzidos as escombros.
O general Curtis LeMay, chefe do Comando Aéreo Estratégico durante o conflito, declarou muito anos depois: "Aniquilamos cerca de 20% da população".

Cálculos assim levaram o jornalista e escritor Blaine Harden, autor de várias obras sobre a Coreia do Norte, a qualificar como "crime de guerra" a ação militar americana. Person não enxerga assim: "Aquilo foi uma guerra total em que todas as partes envolvidas cometeram atrocidades".

As estimativas de pesquisadores dão conta que, nos três anos de guerra, foram lançadas 635 mil toneladas de bombas contra a Coreia do Norte. De acordo com Pyongyang, 5 mil escolas, mil hospitais e 600 mil residências foram destruídos. Um documento soviético redigido pouco antes do cessar-fogo de 1953 fala em 282 mil civis mortos pelos bombardeios.

As bombas fizeram milhares de civis deixarem suas casas para se salvar

É impossível confirmar esses números, mas ninguém nega a magnitude da devastação. Uma comissão internacional que percorreu a capital norte-coreana após a guerra atestou que não havia restado um único edifício que não tenha sido afetado pelo bombardeios.

Como havia ocorrido com os habitantes de cidades alemãs como Dresden na ofensiva final dos Aliados contra o Terceiro Reich, os norte-coreanos viram suas ruas e casas devorados por chamas, ao ponto de a maioria ter de ir para os minúsculos abrigos subterrâneos improvisados para se salvar.


Medo nuclear

Enquanto o mundo inteiro estava atento à península coreana, temendo que os Estados Unidos e a União Soviética acabassem travando uma guerra nuclear, o então ministro de Relações Exteriores norte-coreano, Pak Hen En, denunciava na ONU o "bestial extermínio de civis pacíficos pelos imperialistas americanos".

Seu relato contava que, para garantir que Pyongyang ficasse sempre cercada por incêndios, os "bárbaros transatlânticos" a bombardeavam com artefatos de ação retardada que detonavam de forma alternada, "impossibilitando que as pessoas saíssem de casa".

Infraestruturas essenciais, como barragens, usinas elétricas e ferrovias, foram sistematicamente atacadas. Taewoo Kim destacou que, "em todo o país, ficou impossível levar uma vida normal na superfície".

As autoridades comandaram uma mobilização nacional para que fossem erguidos mercados, acampamentos militares e outras instalações sob a terra para que o país pudesse funcionar. A Coreia do Norte virou uma nação subterrânea e em permanente estado de alerta.

Person diz que "toda a cidade de Pyongyang se mudou para debaixo da terra, e isso teve um tremendo impacto psicológico nos seus habitantes". O especialista explica que o medo persiste até hoje e a isso se deve o fato de que armazéns e instalações críticas continuem sendo mantidos em grandes profundidades.

Durante a noite, os norte-coreanos recrutados pelo Estado trabalhavam freneticamente para reparar as vias de comunicação e as usinas destroçadas pelas explosões durante o dia. O fruto desse trabalho causava surpresa e frustração no comando americano, que viam alvos de ataques sendo restaurados em pouco tempo.

Uma vez que o conflito em terra se estabilizou, diante da incapacidade de ambos os lados de se imporem, a campanha aérea tornou-se uma luta de desgaste em que os norte-coreanos levaram a pior.

Finalmente, em 1953, após longas negociações, veio o cessar-fogo. O então presidente americano Harry S. Truman sempre quis evitar uma escalada do conflito que pudesse levar a um confronto direto com os soviéticos.

Seu sucessor, Dwight D. Eisenhower, também compreendeu de partida que o país não poderia manter indefinidamente seus esforços bélicos na península. A morte do líder soviético Stálin em março daquele ano mudou o clima político em Moscou, o que facilitou o fim das hostilidades.

A historiadora Kathryn Weathersby, da Universidade da Coreia em Seul, explica que "sabemos pelos arquivos soviéticos que Stálin insistia que as duas Coreias e a China continuassem a lutar para que as forças americanas seguissem ali por ao menos dois ou três anos e, assim, os países do bloco comunista na Europa continuassem a atuar sem medo de uma intervenção".

Sem ele, o armistício foi mais fácil. O acordo de paz definitivo e a reunificação das Coreias seguem pendentes, mas tudo isso cimentou o mito que continua alimentando a retórica oficial norte-coreana.

Às vezes, os meios de comunicação do regime recordam os cidadãos da enorme dor infringida pelos aviões estrangeiros. Tanto Kim Il-sung como seus sucessores Kim Jong-il e Kim Jong-un se apresentam como representantes da heróica resistência que livrou a nação de sucumbir à "agressão" estrangeira. Trata-se, nas palavras de Person, "de reforçar essa narrativa em que a Coreia do Norte mantém os americanos longe com sua grande defesa e sua capacidade de dissuasão".

A propaganda oficial apresenta o avô de Kim Jong-un, Kim Il-Sung, como o artífice da resistência norte-coreana

De alguma maneira, o legado da guerra funciona como combustível ideológico para o regime dos Kim. Também é uma das razões que explicam sua insistência em desenvolver um arsenal nuclear, apesar das constantes críticas internacionais. "Eles decidiram usar a história para justificar a opressão do povo e a miséria", diz Person.

De acordo com especialistas, em seu afã propagandístico, as autoridades de Pyongyang não têm dúvidas em deformar o passado já suficientemente brutal. Weathersby diz que "os museus norte-coreanos diminuem a importância dos bombardeios, talvez porque destacar a superioridade tecnológica americana geraria perguntas incômodas". Em vez disso, explica a pesquisadora, "mostram uma narrativa de matanças gratuitas supostamente perpetradas pelas tropas americanas".

Os americanos também recorreram à propaganda para justificar seu papel no conflito

Para ela, uma divisão da península nunca resolvida definitivamente e o potente poderio militar que o Pentágono mantém na Coreia do Sul e no Japão explicam por que a Coreia do Norte segue ainda sob uma espécie de estado de exceção permanente.

E explicam também, como destacou recentemente em um artigo da BBC o analista Justin Bronk, o fato de suprimentos e munição do exército serem guardados próximos da fronteira sul, em silos sob a terra, para fazer frente a uma hipotética invasão. A guerra e o fogo que choviam do céu fizeram da Coreia do Norte um Estado-bunker. Mais de 70 anos depois, isso não mudou.

Fonte: BBC (transcrição)


segunda-feira, 24 de abril de 2023

CARTA DE DESPEDIDA DE UM PILOTO KAMIKAZE

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Carta manuscrita de despedida para sua família escrita pelo Cabo Nobuo Aihana, 18 anos de idade, pertencente ao Corpo Especial Kamikaze da Marinha Imperial japonesa. 


“Entrei para o Corpo Shinbu Esquadrão de Ataque e vou pagar minha dívida de gratidão para com o país.

Pai e Mãe, eu me propus à batalha em alto astral. Pai e Mãe, eu coloquei uma foto do meu irmão mais velho no meu macacão de voo. Pai e mãe, estou profundamente envergonhado de mim mesmo que, até o final, não corrigi o meu discurso impróprio e rude de uma criança.

Mãe, você me criou desde que eu tinha seis anos de idade, e eu nunca disse 'mãe' para você que é mais do que minha mãe biológica. Como deve ter sido triste para você. Eu pensei muitas vezes em chamá-la, mas eu não fiz diante de você, pois tinha vergonha. Agora é a hora para eu chamá-la em voz alta: 'Mãe'.

Aeronave Kamikaze atacando em baixa altura o porta-aviões USS Yorktown

Provavelmente o meu irmão mais velho, no centro da China, também sente o mesmo. Mãe, por favor, perdoe nós dois. Agora, como estou saindo para a batalha para fazer um ataque especial, a minha única preocupação são as duas coisas mencionadas acima. Para além destas, eu não tenho arrependimentos.

As pessoas vivem 50 anos e eu viverei uma vida longa de 20 anos de idade. Quanto aos 30 anos restantes, dei a metade a cada um de vocês, pai e mãe. Por favor, usem o dinheiro guardado na caixa de cigarros.

Pai e Mãe, eu estou indo. Eu estou indo com um sorriso e a certeza de destruir um navio inimigo."
Nobuo Aihana


Cabo Nobuo Aihana, kamikaze da Marinha Imperial japonesa morto aos 18 anos de idade


Fonte: Museu de Imagem do Japão

quarta-feira, 22 de julho de 2020

HOJE, LIVE SOBRE O PODER AÉREO NA GUERRA DO VIETNÃ

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Nos canais Arte da Guerra e Velho General, com a participação do Cel FAB Cláudio Calaza, professor de história militar da Academia da Força Aérea.

Imperdível!

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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

ARMAS - TÊNDER DE HIDROAVIÕES "GIUSEPPE MIRAGLIA"

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O tênder de hidroaviões italiano Giuseppe Miraglia foi lançado em 1921 como a balsa Città di Messina, destinada ao uso pela Companhia Ferroviária Estatal Italiana, mas foi adquirido pela Regia Marina logo após seu lançamento em 1923. Os trabalhos para convertê-lo em transportador de hidroaviões começaram imediatamente, mas, em 1925, quando estava quase completo, o navio emborcou durante uma tempestade. Recuperado sob a direção de Umberto Pugliese, foi concluído e comissionado em novembro de 1927.

Como muitos navios de sua geração, o Giuseppe Miraglia foi convertido a partir de um mercante


O Giuseppe Miraglia podia transportar cerca de 17 hidroaviões (originalmente Macchi M.18, depois IMAM Ro.43 e Reggiane Re-2000) e era equipado com duas catapultas. Os hidroaviões podiam ser recuperados por meio de grandes portas e guindastes nas laterais do hangar.

Um Reggiane Re-2000 posicionado em uma catapulta do Giuseppe Miraglia

O navio participou da Segunda Guerra Ítalo-Abissínia e da Guerra Civil Espanhola. Durante a Segunda Guerra Mundial, após sobreviver à Batalha de Taranto, foi empregado no Mediterrâneo. Depois do armistício, assinado pela Itália com os Aliados em 1943, o Giuseppe Miraglia navegou, juntamente com grande parte da frota italiana, para Malta, para o internamento.

Com o fim da guerra, o Giuseppe Miraglia foi empregado para repatriar prisioneiros de guerra italianos e passou o resto de sua carreira como quartel e oficina em Taranto até sua desativação em 1950.

O Giuseppe Miraglia em Taranto


Ficha técnica

Classe e tipo: Tênder de hidroaviões
Deslocamento: 5.400 toneladas normais / 5.913 toneladas completas
Comprimento: 121,22 metros
Boca: 14,99 metros
Propulsão: 2 turbinas a vapor Parsons, com 8 caldeiras Yarrow gerando 16.700 shp
Velocidade: 21 nós (39 km/h)
Tripulação: 16 oficiais, 40 sargentos, 240 marinheiros
Armamento: 4 canhões de 102 mm/35 e 12 metralhadoras AAe de 13,2mm
Aeronaves transportadas: 17 hidroaviões
Instalações de aviação: 2 catapultas

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sábado, 4 de agosto de 2018

PALESTRA NO IGHMB - GÓES MONTEIRO E O PODER AÉREO NA GUERRA DE 1932

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O editor do Blog Carlos Daróz-História Militar tem a honra de convidar para palestra que irá ministrar no Instituto de Geografia e História Militar do Brasil.


terça-feira, 10 de julho de 2018

ACADEMIA DA FORÇA AÉREA HOMENAGEIA CENTENÁRIO DA ROYAL AIR FORCE

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Durante a V Olimpíada de História Militar e Aeronáutica, a Academia da Força Aérea (AFA) homenageou o centenário de criação da primeira força aérea independente do mundo.


A solenidade de abertura da V Olimpíada de História Militar e Aeronáutica da AFA foi marcada pela homenagem à Royal Air Force (RAF) pelos 100 anos de sua criação. Acontecimentos nos últimos anos da Grande Guerra (1914-1918) precipitaram o reconhecimento da importância do poder aéreo. A experiência no conflito e a visão de futuro fizeram com que os britânicos entrevissem a necessidade de que a aviação tivesse um comando independente da Marinha e do Exército. Desse modo, foi criada, em 1º de abril de 1918, a Royal Air Force, a primeira força aérea da história. 

Efeméride marcante para todas as forças aéreas, a homenagem brasileira à força aérea britânica teve início com as palavras do coronel Claudio Passos Calaza, professor de História Militar da AFA, que fez uma retrospectiva sobre o processo de autonomia da aviação no Reino Unido no contexto da Primeira Guerra Mundial. O breve discurso culminou com a exaltação à participação da RAF na Batalha da Grã-Bretanha, que sob a liderança do marechal Hugh Dowding garantiu a própria sobrevivência da nação na Segunda Guerra Mundial.

Cadetes da AFA realizam a entrega de brindes para a senhora Cecília Bijos, secretária da aditância de Defesa do Reino Unido no Brasil e o senhor Russel Dowding, empresário, aviador e descendente do marechal Hugh Dowding


Em seguida, cadetes da AFA entregaram uma maquete da aeronave T-27 Tucano aos membros da representação britânica no evento, composta pela senhora Cecília Bijos, secretária da aditância de Defesa do Reino Unido no Brasil e o senhor Russel Dowding, empresário, aviador e descendente do marechal Hugh Dowding.

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sábado, 26 de agosto de 2017

BILLY MITCHELL E SUA VISÃO SOBRE O PODER AÉREO: UM HOMEM À FRENTE DE SEU TEMPO

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A criação dos serviços aéreos nos diversos exércitos e marinhas do mundo, no final da década de 1910, revelou a necessidade da elaboração de uma doutrina de emprego capaz de permitir a utilização mais adequada dos novos meios de combate. Nesse sentido, surgiram, logo após a 1ª Guerra Mundial, teóricos militares que buscaram estabelecer as bases do emprego da nova aviação de guerra, dando origem à teoria do Poder Aéreo.

A experiência da 1ª Guerra Mundial provocou um intenso debate sobre a aplicação dos meios aéreos, sendo os principais teóricos Giulio Douhet, na Itália; Hugh Trenchard, na Grã-Bretanha, e William Mitchell nos EUA. Esses três oficiais contemporâneos eram defensores persistentes da utilização do avião para fins militares.

O General norte-americano William “Billy” Mitchell, contemporâneo de Douhet e Trenchard, desempenhou papel essencial na elaboração do Poder Aéreo dos EUA. Mitchell aprendeu a voar como major, aos 38 anos de idade, e desempenhava a função de observador americano na França quando os EUA entraram na guerra, em 1917, tendo lá estabelecido e comandado o Corpo Aéreo do Exército dos EUA.

O major Billy Mitchell em sua aeronave na França, durante a 1ª Guerra Mundial.

Considerava importante o bombardeio estratégico, mas, ao contrário de Douhet, atribuía grande valor às aeronaves de caça, e, na sua concepção, o enfrentamento entre as forças aéreas oponentes ocupava lugar de destaque.

Mitchell era um estudioso de estratégia e causava-lhe exasperação a falta de atenção das autoridades com o desenvolvimento do Poder Aéreo. Segundo acreditava, era a única forma de dar ao país a vitória na próxima guerra, que previa como inevitável. Na defesa de suas opiniões, entrou em choque diversas vezes com seus superiores. Dentre os choques que travou com a estrutura militar, dois são dignos de registro.

William "Billy" Mitchell, fotografado no início da década de 1920 no posto de Brigadeiro-General com todas as suas condecorações.

Em 1921, sentindo-se ridicularizado pela Marinha, após ter expressado a opinião de que um encouraçado – que custava mil vezes mais que um avião – podia ser afundado por apenas um desses engenhos, desafiou a força naval para um teste. O experimento foi realizado, e o resultado foi o afundamento do ex-encouraçado alemão Ostfriesland por aviões bombardeiros que lançaram bombas de 2.000 libras durante manobras realizadas ao largo da costa de Norfolk.

O experimento de Mitchell de 1921, na costa da Virginia. Um bombardeiro Martin MB-2 lança uma bomba de fósforo branco sobre o encouraçado SMS Ostfriesland


Uma bomba explode junto á proa do encouraçado SMS Ostfriesland


Mortalmente ferido pelas bombas da aviação, o SMS Ostfriesland afunda na costa da Virgínia: o Poder Aéreo se afirmava sobre os antigos encouraçados

As lideranças da Marinha dos EUA, contudo, não se sensibilizaram. Mesmo diante do sucesso da demonstração de Mitchell, ao afundar o Ostfriesland, com bombas lançadas por aviões, os almirantes norte-americanos permaneceram crentes no poder do navio encouraçado, e desprezaram a eficácia do avião contra o navio. Após a experiência, um relatório do Chefe do Estado-Maior do Exército dos EUA chegou a atribuir ao poderio da aviação o mesmo valor das minas navais, lançadas para bloquear os portos inimigos, obviamente subestimando o Poder Aéreo.

Charge publicada no jornal Chicago Tribune sobre o experimento de Billy Mitchell mostrando as visões antagônicas dos almirantes e dos defensores do Poder Aéreo.
Marinha: " Um alvo estacionário indefeso e, ainda assim, veja quanto tempo levou para os aviões bombardeiros afundá-lo!"
Aviadores: "Sim, mas nós o afundamos, não?"

O outro enfrentamento com os superiores do qual Mitchell tomou parte ocorreu em 1925, quando foi submetido à corte marcial por ter chamado publicamente de incompetentes os líderes da Marinha e do Exército. A Corte Marcial, que durou sete semanas, se converteu, na realidade, em um seminário sobre estratégia e sua teoria do Poder Aéreo, onde Mitchell predisse que a próxima guerra seria global, que os EUA enfrentariam o Japão, que os porta-aviões não poderiam fazer frente à aviação baseada em terra e que um forte Poder Aéreo era a única forma de enfrentar com êxito tal situação. Com exceção da vulnerabilidade dos porta-aviões diante da aviação baseada em terra, Mitchell acertou todos os demais quesitos de suas previsões.

Billy Mitchell (o segundo, da direita para a esquerda) sendo submetido à corte marcial. Seria rebaixado ao posto de tenente-coronel, mas defenderia, com grande visibilidade, o conceito do Poder Aéreo.

Mitchell considerava que a única defesa contra o ataque aéreo seria a própria aviação. A força aérea deveria ser constituída por uma força estratégica de grande raio de ação, e por uma série de unidades aéreas locais de defesa, para proteção dos centros vitais do poder. Diferentemente de Douhet, admitia a criação de forças aéreas auxiliares, principalmente com finalidade de observação e transporte, ligadas à marinha e ao exército.

Billy Mitchell pagou um alto preço por estar à frente de seu tempo, Condenado pela corte marcial, foi sentenciado ao rebaixamento, regredindo do posto de brigadeiro-general ao de tenente-coronel. No entanto, sua contribuição para o emprego do Poder Aéreo foi imensa.


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