"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



domingo, 19 de janeiro de 2020

A GUERRA DO PACÍFICO: O MARTÍRIO DA BOLÍVIA



Feriado mais importante no país é exigir o mar de volta ao Chile


Por Fábio Marton

Todo 23 de março, celebra-se o Dia do Mar na Bolívia. É uma espécie de Carnaval patriótico, em que adultos e crianças se vestem de marinheiro ou usam fantasias com chapéu de barco, ondas ou qualquer outro tema "oceânico" e desfilam rumo à plaza Eduardo Albaroa. Também valem roupas de soldado ou os trajes tradicionais dos povos de língua quéchua e aimará, etnias da maioria da população do país. O presidente faz um discurso. Acontecem salvas de canhões e paradas militares, inclusive da Marinha boliviana.
A Bolívia não tem mar. E esse é o ponto do Dia do Mar.


Um pedaço de Marte

A Guerra do Pacífico, como ficou conhecida, colocou Chile contra Bolívia e Peru de 1879 a 1883. Em números absolutos, foi mais modesta que a Guerra do Paraguai, envolvendo cerca de 70 mil combatentes, contra 350 mil. Mas suas consequências e seus ressentimentos seriam bem mais dramáticos. "Como a maioria dos conflitos no que posteriormente seria conhecido como Terceiro Mundo, a Guerra do Pacífico foi um grande momento para os povos envolvidos, mas acabou largamente ignorada fora da região", afirma o historiador Bruce W. Farcau em The Ten Cents War. 

Historicamente, a região não valia nada. Era um pedaço de terra seca, sem rios, no deserto mais inclemente do mundo - o Atacama, onde o período entre duas chuvas se mede em décadas. E uma precipitação anual 20 vezes menor que nas partes mais secas do deserto do Saara. Não há nenhuma vida vegetal ou animal ali, exceto no litoral, onde nevoeiros oferecem alguma umidade a líquens e cactos. A região é comumente usada por equipes de filmagem quando querem recriar o ambiente de Marte, como na série Space Odissey (2004), da BBC. (Perdido em Marte, de 2015, não; esse foi filmado na Jordânia).


Fronteiras tensas

O Atacama é o deserto mais letal do mundo, mas não só por falta de água. Alguém tentando cruzar a fronteira entre Peru e Chile, ao norte de Arica, vai se deparar com uma "atração" inusitada: campos minados, marcados por placas em espanhol, inglês e aimará. 113 121 minas antipessoal e antitanque foram plantadas na fronteira pelo governo Pinochet (1973-1993) e vem sendo removidas desde 2000, mas apenas 9,34% do total foi desativado, segundo dados do governo chileno.

Batalha travada durante a Guerra do Pacífico 

As encrencas do Chile não se limitaram ao norte. Em 1978, quando ditaduras militares dominavam ambos os países, Chile e Argentina quase entraram em guerra por causa de três ilhas minúsculas no canal de Beagle, que faz a passagem do oceano Atlântico para o Pacífico e corta os dois países. A Argentina chegou a preparar uma invasão militar das ilhas, que considerava suas, mas desistiu na última hora. Até o papa teve de intervir: com o fim do regime militar argentino, o presidente Raúl Alfonsín assinou no Vaticano um acordo com Pinochet, entregando as ilhas ao Chile. Pinochet, de seu lado, plantou também minas na fronteira com a Argentina.

Mas mesmo um tirano como Pinochet teve seu momento de iluminação - ou, quem sabe, solidariedade a outros ditadores militares. Em 1972, quando a Bolívia estava sob a ditadura do general Hugo Banzer e o Peru sob a do general (de esquerda) Juan Velasco Alvarado, ele propôs entregar uma faixa de terra à Bolívia, ligando o país à cidade de Arica. Os bolivianos deveriam entregar uma faixa equivalente ao Chile, incluindo aí o território da faixa marítima. Os bolivianos ficaram exultantes, mas, como Arica originalmente era parte do Peru, não da Bolívia, os acordos com o Chile exigiam a consulta ao Peru antes da entrega. O ditador peruano não gostou e propôs que os 3 países dividissem Arica. Acabou ficando tudo como estava - e está.

No conturbado processo de independência das colônias da América do Sul, o deserto acabou dividido entre o Peru, que conquistou a independência, em 1821, e a Bolívia, liberada em 1825. Os países, que eram simplesmente o "Peru" na época colonial, unificaram-se em 1833, e isso levou a uma primeira guerra com o Chile, entre 1836 e 1839, separando-os novamente. O Chile não queria um vizinho gigante ao norte, mas não levou nenhum território - e nem estava interessado. Isso mudaria radicalmente na década de 1840, quando começou a se explorar um recurso inusitado: o guano, excremento de aves marinhas que, sem chuvas para removê-lo e ressecado pelo sol, forma morros brancos em rochas perto do mar. "Os chilenos nunca se incomodaram com a questão de fronteiras até a descoberta do guano", afirma o cientista político Waltraud Q. Morales em A Brief History of Bolivia.

O guano tem em sua composição o nitrato de sódio, ou salitre, que começava a ser usado em fertilizantes e era matéria-prima na produção de explosivos. Não apenas nas pedras brancas mas também enterrado no solo, havia enormes depósitos de salitre no Atacama. Isso tornou, da noite para o dia, o terreno morto em um dos pontos mais importantes da Terra.

A princípio, o Chile não precisou tomar territórios para se favorecer com isso. Com instituições privadas e governamentais bem mais sólidas que as dos vizinhos, foram as indústrias chilenas, fomentadas por capitais britânico, francês e americano, que rapidamente se instalaram na região, com mão de obra dos próprios chilenos e migrantes do mundo todo, inclusive da China.


Acordo secreto

A situação mudou em 1878, quando o Congresso boliviano tornou nulo um acordo que isentava de impostos a chilena Compañia de Salitres y Ferrocarril de Antofagasta (ferrocarril é "ferrovia" em espanhol e Antofagasta era a cidade mais ao sul do litoral boliviano, na fronteira com o Chile). A Compañia deveria pagar 10 centavos de peso para cada 100 kg de salitre extraídos. A empresa se recusou, e o Congresso boliviano votou por confiscar suas propriedades, marcando o início do processo para 23 de fevereiro de 1879. No dia da execução, 500 soldados chilenos desembarcaram em Antofagasta para proteger a empresa - foram recebidos com festa, já que 95% da população da cidade era chilena.

A princípio, os bolivianos decidiram contornar a situação com eufemismos. A declaração de guerra contra o Chile foi aprovada pelo Congresso em 27 de fevereiro, mas não foi anunciada. Em vez disso, o presidente, Hilárion Daza, preferia falar em "estado de guerra". Em 1º de março, anunciou a expulsão dos chilenos do país. Com ou sem declaração, os chilenos se mexeram. Em 23 de março, 554 soldados chilenos avançaram pelo deserto, rumo à cidade de Calama. Lá enfrentaram e massacraram 135 civis e soldados, comandados pelo engenheiro Eduardo Albaroa - que se tornou o mártir do Dia do Mar e herói na Bolívia.

Artilharia chilena em posição.

O Peru também tentou evitar o pior. Desde 1872, tinha um acordo de defesa secreto firmado com a Bolívia, que exigia que honrasse o compromisso. Os peruanos tentaram sediar um congresso de paz em seu país, mas o Chile, tomando conhecimento do acordo de defesa, preferiu declarar guerra a ambos os países em 4 de abril de 1879.


Ofensiva brutal

Avançar pelo deserto era complicado. O Chile preferiu, então, fazer uma guerra focada em combates navais e invasões anfíbias. O país tinha 7 navios, e o Peru, 6 - a maioria comprada dos americanos após a Guerra Civil que funcionavam a vapor e eram modernos para a época.

Em 5 de abril, os chilenos bloquearam o porto peruano de Iquique. Após uma troca de tiros, o Peru conseguiu expulsar os navios chilenos da cidade e afundar um dos 7 navios da Marinha chilena, mas a um enorme preço: o Independencia, um de seus dois navios mais bem armados, bateu em uma rocha e afundou. Com a retirada chilena, o segundo navio peruano mais poderoso, o Huáscar, passou a circular pelas guarnições costeiras chilenas e fazer ataques esporádicos, atrasando seu avanço. Em 8 de outubro, os chilenos conseguiram capturar o Huáscar, na Batalha de Angamos, e o usaram contra as forças peruanas. Depois disso, ficaram praticamente livres para desembarcar tropas. Em 2 de novembro, baixaram em Pisagua, 500 km ao norte de Antofagasta. Em 19 de novembro, conquistaram Iquique. Com um tanto de excesso de confiança, levaram o que foi seu maior revés na guerra: em 27 de novembro, na Batalha de Tarapacá, uma coluna chilena de 2,3 mil homens enfrentou 4,5 mil peruanos e bolivianos e foi massacrada. Apesar disso, os peruanos não conseguiram manter a posição e recuaram para Arica, e as notícias causaram uma enorme turbulência política. 

Tropas do Exército do Chile com uniformes históricos, que remetem à Guerra do Pacífico.


Em 23 de dezembro, um golpe de estado depôs o presidente peruano, Mariano Ignazio Prado, e o boliviano Hilárion Daza fugiu para a Europa no dia 27. Em 26 de fevereiro de 1880, os chilenos invadiram Ilo, isolando as tropas de reforços via Peru. Em 26 de maio, na Batalha de Tacna, destruíram a maioria do que restava do exército, fazendo com que a Bolívia se retirasse do conflito. Em 7 de junho, liquidavam a fatura na Batalha de Arica, em que 5 mil chilenos venceram 1 903 peruanos, deixando o inimigo sem exército.

Em 23 de outubro, numa conferência mediada pelos americanos no navio USS Lackawanna, em Arica, tentou-se uma solução de paz sem resultados. Os chilenos decidiram ir até o fim. Em 17 de janeiro, 23 mil militares chilenos invadiam a cidade de Lima, defendida por 18 mil civis recrutados às pressas e por sobreviventes do exército. A cidade foi saqueada, as mulheres, estupradas, e mesmo a Biblioteca Nacional teve seu conteúdo transferido para o Chile - 3 778 livros, só devolvidos em 2007.


Paz ressentida

Aos peruanos, restou fazer uma campanha de guerrilha e revolta civil até 1883, quando o Tratado de Ancón encerrou as hostilidades. A Bolívia assinou uma trégua em 1884, e um tratado definitivo de "amizade", cedendo todo seu litoral, em 1904, em troca de livre acesso ao porto de Arica e a construção de uma ferrovia ligando-a à capital, La Paz.

O boom do guano durou pouco: no início do século 20, os alemães criaram formas sintéticas de nitrato e a região perdeu interesse comercial. Mas o Chile aproveitou: "Antes de o nitrato de potássio ser produzido sinteticamente, o Chile já havia explorado fontes naturais de nitratos por muitos anos, à custa das regiões ocupadas da Bolívia e do Peru", afirma o historiador Cesar Augusto Barcellos Guazzelli, da UFRGS. Em 1929, quando os bolsões de guano não tinham mais valor comercial, a região de Tacna, no extremo norte, foi devolvida ao Peru. Na década seguinte, o cobre seria descoberto na região. Hoje, o Peru é o segundo maior produtor do mundo, atrás do Chile. Talvez por isso o ressentimento lá sejam um pouco menor que na Bolívia.


Todo mundo levou um naco

Os bolivianos nunca se esqueceram. Depois da guerra, perderam ainda territórios para o Brasil - o Acre, em 1903 - e para o Paraguai - a região do Chaco, em 1935, após outra guerra tola e sangrenta -, além de outros nacos para Chile e Argentina. A soma é cruel: em 1825, a Bolívia tinha 2,36 milhões de km2. Hoje sua área é pouco maior que 1 milhão de km2. Ou seja, o país perdeu mais da metade de suas terras. Essas regiões ainda aparecem nos discursos nacionalistas, mas o litoral é o topo das prioridades. Por todo o país, há murais e estátuas apontando para o mar, ilustrando os massacres da guerra, pedindo a devolução. 

De 2002 a 2005, esse sentimento voltou a aflorar na "Guerra do Gás", uma série de protestos e greves iniciada pela proposta de exportar gás natural através de uma linha até o Chile, em que sentimentos antichilenos se misturaram a anticapitalistas e antiamericanos. Evo Morales, que vinha de uma carreira em defesa dos plantadores de coca, liderou protestos pela nacionalização do gás e acabou eleito presidente, em 2005, fazendo reformas que incluíram uma nova Constituição.

A atual Constituição boliviana anuncia com todas as letras que "o Estado boliviano declara seu direito irrenunciável ao território que dá acesso ao oceano Pacífico e seu espaço marítimo", a seguir toma o cuidado de acrescentar que isso se dará por "vias pacíficas".

O Chile considera isso um entrave à retomada das relações diplomáticas dos países, paradas desde 1978. É fácil entender por quê: os departamentos ao norte do Chile têm a maior renda per capita e Índice de Desenvolvimento Humano do país graças ao cobre, e o metal responde por metade das exportações chilenas. "Além de uma questão de soberania nacional, isto faria da Bolívia um país competidor com o Chile pelo mercado aberto pelo Pacífico, o que é impensável nos termos atuais da economia latino-americana. Controlando as exportações que passam pelo seu país, os chilenos precisariam de compensações econômicas de vulto para ceder tais direitos", afirma Guazzelli. Os tempos mudam, mas nem tanto.

O caso está no Tribunal de Haia desde 2013. A Bolívia está confiante na vitória. 


Saiba mais

- FARAU, Bruce. The Ten Cents War: Chile, Peru, and Bolivia in the War of the Pacific, 1879-1884. Greenwood Publishing Group, 2000.

- SATER, William. Andean Tragedy: Fighting the War of the Pacific, 1879-1884. University of Nebraska Press, 2007

Fonte: Aventuras na História


quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

A BATALHA DA ILHA DE VALCOUR (1776)

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A Batalha Naval da ilha de Valcour teve lugar em 11 de outubro de 1776, no Lago Champlain. A ação principal ocorreu na Baía de Valcour, um estreito entre a ilha de Nova York e a ilha de Valcour. 


A batalha foi uma das primeiras batalhas navais da Guerra de Independência dos EUA e uma das primeiras travadas pela Marinha dos Estados Unidos. Diversos navios da frota americana, sob o comando de Benedict Arnold, foram capturados ou destruídos por uma força britânica sob o comando geral do general Sir Guy Carleton. No entanto, a defesa norte-americana do Lago Champlain deteve os planos britânicos em seus planos para chegar ao vale do Rio Hudson.

Benedict Arnold comandou a frota norte-americana durante a batalha


O comandante britânico Sir Guy Carleton

O Exército Continental tinha se retirado de Quebec para os fortes Ticonderoga e Crown Point em junho de 1776, após as forças britânicas terem sido maciçamente reforçadas. Eles passaram o verão de 1776 fortalecendo essas posições e construindo navios adicionais para aumentar a pequena frota americana já existente no lago. 

O general Carleton possuía um exército de 9.000 homens em Forte Saint-Jean, mas precisava construir uma frota para levá-lo para o lago. Os americanos, durante a sua retirada, tinham capturado ou destruído a maioria dos navios britânicos no lago. No início de outubro, a frota britânica, que era significativamente mais fraca do que a frota americana, estava pronta para o lançamento.

Em 11 de outubro, Arnold atraiu a frota britânica para uma posição que ele tinha escolhido cuidadosamente para limitar suas vantagens. Na batalha que se seguiu, muitos dos navios americanos foram danificados ou destruídos. Naquela noite, Arnold esgueirou a frota americana para além dos britânicos, iniciando uma retirada em direção a Crown Point e Ticonderoga. O clima desfavorável impediu o recuo americano, e boa parte da frota foi capturada ou incendiada antes que pudesse chegar a Crown Point. Ao chegar na localidade, Arnold verificou que os fortes haviam sido queimados, e se retirou para Ticonderoga.

Mapa mostrando o posicionamento da frota americana ao lado da ilha Valcour

A frota britânica incluía quatro oficiais que mais tarde se tornaram almirantes na Marinha Real: Thomas Pringle, James Dacres, Edward Pellew e John Schank.  A Baía de Valcour, o local da batalha, é hoje um Marco Histórico Nacional dos EUA, preservado pelo governo.

O Forte Ticonderoga preservado


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

SISTEMA DE MÍSSEIS AAe BUK - UM PRODUTO DA GUERRA FRIA



Por Ignácio Cobo

O sistema Buk é um produto clássico do final da Guerra Fria, época em que se pensava em um conflito em larga escala entre blocos antagônicos. Nesse contexto, a artilharia antiaérea era o principal elemento para deter a primeira ofensiva dos aviões inimigos.

Em funcionamento desde 1979, o sistema Buk disseminou-se amplamente nos países satélites da Rússia e afins, como Índia, Síria e, naturalmente, Ucrânia. A experiência das guerras árabe-israelenses e a certeza de que um conflito na Europa teria grande mobilidade levaram os criadores do projeto a concluir que o sistema deveria ser autopropulsado e possuir um radar próprio que o tornasse independentemente de qualquer estação fixa. A solução foi colocá-lo sobre um veículo de esteiras, em um lançador com quatro mísseis associados a um radar monopulso, cuja função era guiar o projétil até o alvo.

Cada veículo precisava ser autônomo no momento do disparo, embora o normal fosse agruparem-se em baterias. Cada bateria incluía um posto de comando a partir do qual se controlavam os disparos dos diversos lançadores, um radar de aquisição para localizar alvos a grande distância e vários veículos de abastecimento de armas.

A partir desse modelo básico, que a OTAN apelidou de Gadfly (“Moscão”), foram desenvolvidas várias versões posteriores, algumas com um radar adicional de onda contínua para melhorar a detecção de aeronaves em voo de baixa altitude. Com um alcance de até 32 quilômetros de profundidade e 22 quilômetros de altitude, o sistema Buk se tornou a espinha dorsal da defesa antiaérea de muitos países.

Evidentemente, o manuseio de um sistema tão sofisticado requer pessoal altamente qualificado. Sejam recrutas ou reservistas que tenham prestado o serviço militar em unidades antiaéreas, os operadores devem ser profissionais treinados, dotados de uma visão muito clara do que está voando lá em cima. Com isso, seria quase impossível confundir um avião civil com um de combate.

Um míssil AAe Buk foi o responsável pela derrubada do voo MH-17 da Malaysia Airlines em 2014


Como elemento adicional, a exemplo do que ocorre na maioria dos sistemas antiaéreos modernos, o Buk possui seu próprio sistema de identificação “amigo ou inimigo” (IFF na sigla em inglês), imprescindível para saber que aeronaves estão circulando. Um radar secundário interroga o avião eletronicamente para perguntar “quem está voando”. O avião, seja comercial ou não, responde automaticamente a este sinal. Se, por algum motivo, não houver resposta, os operadores sabem que não é amigo, mas não podem confirmar que seja inimigo. Nesses casos, assim como quando o IFF não funciona, é preciso aplicar as regras de enfrentamento que definem claramente que não se pode derrubar uma aeronave não identificada como inimiga, exceto para autodefesa.

Fazer isso constitui uma ação criminosa que nenhuma eventual vantagem tática justifica. Dizer que o voo MH-17 da Malaysia Airlines foi confundido com uma aeronave militar não é desculpa. Os operadores deveriam saber.

Fonte: El País

sábado, 4 de janeiro de 2020

A BATALHA DA ILHA DE TRINDADE

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 Nos primeiros dias da 1ª Guerra Mundial, um inusitado combate naval entre dois navios de passageiros convertidos em cruzadores auxiliares ocorreu em águas brasileiras.


Mesmo tendo o governo brasileiro ter declarado o país neutro, a guerra continuava a rondar as águas brasileiras, quando ocorreu um inusitado combate naval entre dois navios de passageiros de linha convertidos em cruzadores auxiliares.

Após três semanas protegendo navios-carvoeiros, a canhoneira alemã Eber recebeu ordens para unir-se ao grande navio de passageiros Cap Trafalgar, para o qual deveria transferir seu armamento e a maior parte de sua tripulação, a fim de transformá-lo em incursor de superfície. O encontro entre os dois navios deu-se no dia 31 de agosto de 1914, junto à Ilha de Trindade, em águas territoriais brasileiras. No dia 10 de setembro, completada a transferência dos canhões e do pessoal, agora arvorando em seu mastro uma bandeira de navio mercante e guarnecida por apenas trinta homens, a Eber partiu desarmada em direção à Bahia, e chegou a Salvador quatro dias depois, exatamente na mesma data em que o cruzador auxiliar britânico HMS Carmania afundou o SMS Cap Trafalgar em Trindade.

O novíssimo navio de passageiros alemão Cap Trafalgar foi convertido para atuar como cruzador auxiliar
 
O paquete a vapor Cap Trafalgar era um novíssimo navio de transporte de passageiros, com menos de um ano de uso, que deslocava 18.170 toneladas e possuía 187 metros de comprimento. Aproveitando sua modernidade e bom desempenho em alto-mar, a Marinha Imperial alemã resolveu transformá-lo em cruzador auxiliar para empreender a guerra de corso no Atlântico Sul, atuando em conjunto com os cruzadores SMS Karlsruhe e SMS Dresden.

A trajetória do corsário SMS Cap Trafalgar, no entanto, foi curta e desafortunada. Depois de a canhoneira Eber transferir seu armamento e partir para a Bahia, na manhã de 14 de setembro o Cap Trafalgar estava sendo abastecido pelo navio-carvoeiro Eleonore Woermann, ainda na ilha de Trindade, quando foi surpreendido pelo cruzador auxiliar HMS Carmania, também um navio de passageiros convertido.

O RMS Carmania, pertencente à companhia Cunard Line, afundou o Cap Trafalgar ao largo da ilha de Trindade
 
Após breve perseguição, na qual embarcação alemã tentou se colocar fora do alcance do Carmania, os canhões dos dois navios abriram fogo, dando início a um tenso duelo que durou cerca de duas horas. Como os canhões britânicos possuíam maior alcance e eram servidos por uma central de tiro mais moderna, o Cap Trafalgar foi duramente atingido e começou a adernar. Quando atingiu a inclinação de 30º, o comandante alemão, capitão de corveta Julius Wirth, ordenou o abandono do navio, que não demorou muito para afundar.

O jornal alemão Die Grüne Post, em edição de 1936, rememora a Batalha de Trindade

A vitória não foi sem custo para os britânicos: o Carmania recebeu 73 impactos diretos das granadas dos canhões do Cap Trafalgar e, por muito pouco, também não afundou. Depois de ter um incêndio a bordo controlado, o Carmania precisou ser escoltado pelos cruzadores HMS Bristol e HMS Cornwall até o porto do Recife, onde sofreu reparos de emergência, antes de seguir viagem.

O Carmania recebeu 73 impactos diretos das granadas dos canhões do Cap Trafalgar e, por muito pouco, também não afundou.
Navios-carvoeiros alemães conseguiram resgatar do mar 279 marinheiros do Cap Trafalgar, muitos feridos com gravidade. A Batalha de Trindade, como ficou conhecido o episódio, resultou em 25 mortos, nove britânicos e dezesseis alemães, inclusive o capitão Wirth, que, em conformidade com as melhores tradições navais alemãs, preferiu ir ao fundo com seu navio. Posteriormente, os marinheiros alemães sobreviventes foram desembarcados em Montevidéu, no Uruguai.


Conheça essa e outras histórias lendo:



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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

BATALHA NAVAL DE SETTEPOZZI (1263)

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Travada no Golfo de Argos entre a marinha veneziana e uma coalizão genovesa/bizantina, representou uma vitória decisiva da República de Veneza, e teve, como consequência, o fim da aliança entre Gênova e Bizâncio.


A Batalha de Settepozzi foi travada em algum momento entre maio e junho de 1263 na costa de Settepozzi, o nome italiano de Spetses, entre uma frota bizantino-genovesa e uma veneziana, menor. A vitória dos venezianos teve importantes consequências políticas, pois afastou os bizantinos dos genoveses e restaurou a relação do império com os venezianos.

No início de julho de 1261, o imperador niceno Miguel VIII Paleólogo (c.1259–1261) se aliou com os genoveses através do Tratado de Ninfeu. Esta aliança, cujos termos eram muito vantajosos para os genoveses, era fundamental para os nicenos e para seu plano de recuperar Constantinopla, a capital do moribundo Império Latino. Os imperadores latinos tinham o reforço do poderio naval veneziano, contra quem os genoveses já estavam em guerra), e, sem uma marinha própria para enfrentá-lo, Constantinopla não cairia, como já havia sido provado nos cercos anteriores de 1235 e 1260.

Localização da Ilha de Stepses, no Golfo de Argus, local da batalha

Porém, a cidade acabou sendo reconquistada por Aleixo Estrategópulo menos de quinze dias depois da assinatura do tratado sem nenhuma ajuda genovesa. Durante todo o ano seguinte, Veneza e Gênova nada fizeram. A primeira hesitava confrontar a frota genovesa enviada para o Egeu, muito maior, e esperava o desenrolar dos eventos no ocidente. A segunda enfrentava problemas internos, com a deposição do autocrático "capitão do povo" Marino Boccanegra e a ascensão da liderança nobre colegiada na cidade.

No verão de 1262, os venezianos ordenaram que uma frota de 37 galés se deslocasse para o Egeu, onde encontraram uma outra, genovesa, com 60 galés em Tessalônica, mas estes se recusaram a dar-lhes combate. Uma expedição pirata, porém, liderada pelos nobres de Negroponte, aliados de Veneza, invadiu o Mar de Mármara, onde foi confrontada e derrotada por um esquadrão bizantino-genovês.

Galé genovesa do século XIII



O combate naval

Enquanto isso, uma guerra irrompeu na Moreia, para onde Miguel VIII enviou uma força expedicionária (final de 1262 ou início de 1263) contra o Principado da Acaia. Apesar dos sucessos iniciais, as tentativas bizantinas de conquistar todos os domínios do Principado fracassaram depois das batalhas de Batalha de Prinitza e Macriplagi.

Imperador niceno Miguel VIII Paleólogo


Entre maio e junho de 1263, uma frota bizantino-genovesa de 38 ou 39 galés e 10 saettie leves (veleiros de um só mastro) seguindo para a fortaleza e base naval bizantina de Monenvásia, no sudoeste da Moreia, encontrou uma frota bizantina de 32 galés seguindo para o norte em direção a Negroponte.

Os detalhes do confronto são obscuros. Os "Annales Ianuenses" genoveses alegam que, quando o sinal de ataque foi dado, apenas quatorze navios genoveses avançaram, enquanto o resto permaneceu imóvel e depois fugiu. O cronista veneziano Canale, porém, relata que os navios venezianos atacaram primeiro, enquanto os genoveses tentavam encurralá-lo. A batalha terminou com uma clara vitória veneziana: a frota genovesa, metade da qual nem sequer entrou em combate, perdeu muitos homens, incluindo um almirante e duas naus capitânias, antes de desengajar e fugir. Canale afirma que houve mil baixas genovesas e apenas 420 venezianas.

Galé veneziana em ação

Seja como for, o resultado foi claramente positivo, tanto pela ação de comando dividindo da frota genovesa, como pela relutância, consistentemente demonstrada em confrontos anteriores e posteriores, dos almirantes genoveses em arriscarem seus navios, que eram fornecidos por investidores privados - geralmente ricos mercantes que dominavam a cidade. Preciosos para seus proprietários, os almirantes eram responsáveis pelos danos incorridos a eles em batalhas. 


Resultado

Embora a maior parte da frota genovesa tenha sobrevivido à batalha, a derrota teve grandes ramificações políticas, pois Miguel VIII começou a duvidar de sua aliança com Gênova, cara e pouco lucrativa, principalmente pela falta de audácia dos almirantes genoveses. Como sinal de sua insatisfação, logo depois da batalha, Miguel dispensou sessenta navios genoveses que estavam sob seu comando.

 A insatisfação mútua aumentou em 1264, quando o podestà genovês em Constantinopla foi implicado numa conspiração que visava entregar a cidade a Manfredo da Sicília e que resultou na expulsão dos genoveses da cidade. 

Miguel assinou um tratado com os venezianos em 18 de junho de 1265, mas ele não foi ratificado pelo doge. Obrigado a enfrentar a ameaça de Carlos de Anjou depois de 1266, Miguel teve que renovar sua aliança com Gênova, mas manteve simultaneamente a paz com Veneza assinando um tratado de não-agressão de cinco anos em junho de 1268.

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

MENOS BRILHO PARA BRILHAR MAIS

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Uniformes soviéticos durante a Segunda Guerra Mundial traduziram a realidade da época.

Por Alexandr Verchínin


Às vésperas da Segunda Guerra Guerra Mundial, a União Soviética tinha o maior exército da Europa, com quase 2 milhões de soldados. Mas o país não tinha a possibilidade de mudar constantemente o uniforme de milhões de soldados.

Durante o conflito, o soldado soviético recebia uma roupa desenvolvida pelos generais imperiais ainda no início do século XX. Este uniforme não tinha o luxo daquele usado pelo Exército no século XIX, mas era conveniente e prático nas condições de combate.

De um modo geral, o uniforme russo durante a Primeira Guerra Mundial e o modelo usado por soldados soviéticos na Segunda Guerra Mundial não eram muito diferentes. Ambos eram compostos pela mesma túnica de algodão, calça e sapatos com polainas, devido à escassez de couro. No inverno, usavam também um sobretudo baseado no modelo de 1935, que, por sua vez, reproduzia o corte de casaco de 1912.

Em vez do chapéu de palha, dispunham do popular bibico, que substituiu até mesmo o famoso “budenovka”. Quando esfriava, a cabeça era protegida por um chapéu que cobria até a orelha.

Os soldados do Exército Vermelho recebiam um conjunto completo de equipamento: cinto (de couro, mas muitas vezes de lona), bolsa de cartuchos, principal e de emergência, saco para granadas, rações, pás, cantis e equipamento para fuzis. Além disso, o soldado possuía um capacete de aço. Mas a guerra trouxe suas mudanças.

O equipamento volumoso, embalado em várias sacolas, sobrecarregava os soldados, que tinham de caminhar entre 30 e 40 km por dia. Em vez de várias bolsas foi então introduzida uma única mochila de tecido impermeável.

Equipamento padrão da infantaria soviética em 1941


O sobretudo que os soldados tinham que usar também não facilitava a mobilidade. Assim, em agosto de 1941, foi introduzido um novo “estilo” de inverno: jaquetas acolchoadas, que podiam ser usadas sob o casaco e eram uma peça independente do uniforme.

Em regiões com invernos rigorosos, as jaquetas foram substituídas por casacos de pele e, em vez de sapatos e botas, foram introduzidas botas de lã.


Vestido para a batalha

Junto com milhões de homens no Exército surgiram também milhares de mulheres. O antigo Exército russo nunca tinha visto uma presença maciça de mulheres, portanto, não havia um uniforme especial para elas. Os dirigentes soviéticos tiveram de resolver esse problema muito rapidamente.

Em agosto de 1941, foi lançado um uniforme especial para as mulheres. Em vez do bibico, elas tinham que usar um quepe, e a túnica de soldado foi substituída por um vestido, inicialmente de algodão e depois de lã. 

O uniforme feminino pode ser visto em detalhes nesta fotografia da atiradora de elite Roza Shanina, tomada em 1944



Reforma da cabeça aos pés

As primeiras batalhas mostraram que o uniforme dos oficiais e generais soviéticos os tornavam um alvo fácil para os inimigos. Os emblemas de costura bonita e distintivos na ponta de quepe, introduzidos pouco antes da guerra, chamavam muita atenção.

Foi assim que, em agosto de 1941, abandonou-se o uso de emblemas e as listras brilhantes nas calças, e os emblemas dourados nas lapelas tiveram que ser substituídos por similares de cor cáqui.

O uniforme soviético dos primeiros anos da guerra se distinguia pelas cores, mas foi produzido em grandes quantidades em fábricas que não funcionavam muito bem. Em 1943, decidiu-se então fazer uma grande reforma no guarda-roupa militar.

A principal inovação foi a introdução de insígnias de ombro. Este elemento, que havia sido erradicado do Exército Vermelho, voltou. Havia dois tipos de insígnias dos oficiais do Exército: de combate e do dia-a-dia. Os primeiras eram cáqui, os segundos, eram dourados.

As insígnias de ombro foram introduzidas durante a guerra


A patente passou a ser determinada não por losangos e quadrados nas lapelas, mas pelo número de estrelas nas divisas. Os oficiais do Exército de alta categoria e os marechais tinham um símbolo especial nas divisas – o emblema dourado da URSS.

A reforma não afetou muito as patentes mais baixas, e os soldados tiveram apenas que trocar as camisas. Na nova versão, em vez da gola aberta apareceu a gola fechada com botões, e quase desapareceram os sapatos com polainas.

O Exército usava então as botas de “quirza”, um tipo de couro artificial com pano de muitas camadas tratado com um líquido especial, que o tornava resistente à água. Em comparação com os sapatos pesados, as botas de couro artificial ​​eram muito confortáveis para o exército.

As botas quirza de couro artificial eram extremamente confortáveis


Os uniformes também foram divididos entre modelos para eventos especiais, para combate e para o dia a dia. Oficiais receberam novamente a jaqueta militar (“Kittel”), roupa que era usada pelo Exército imperial. Voltaram também outros elementos do uniforme antigo do Exército, como punhos com costura de ouro e prata.

O uniforme do soldado para cerimônias oficiais tinha linhas vermelhas na gola, nos punhos e nos bolsos. Os soldados soviéticos vestiram esse uniforme de cerimônias oficiais pela primeira vez no dia 24 de junho de 1945, durante o desfile da vitória em Moscou.

Fonte: Gazeta Russa


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

UNESP LANÇA O LIVRO "A HISTÓRIA DO BRASIL NAS DUAS GUERRAS MUNDIAIS"

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O Brasil foi a única nação da América do Sul a enviar contingentes para as duas grandes guerras. O presente livro permite ao leitor ultrapassar as linhas gerais em que são descritas as participações brasileiras nos dois grandes conflitos mundiais e observar de posição privilegiada o que ocorria na trincheira, no navio, na caserna. A obra vem preencher lacuna ainda sentida na bibliografia relativa à temática, contemplando ângulos raramente explorados do envolvimento brasileiro nas duas guerras, como a geopolítica, a economia, a espionagem, o desenvolvimento de instituições militares e o próprio cotidiano dos soldados no calor da batalha.


Ficha Técnica

Assunto: História do Brasil
Ano: 2019
Acabamento: Brochura
Páginas: 262
Edição: 1
ISBN: 9788539308200
Peso: 465g
Formato: 16 X 23


Os autores

Mary Del Priore (Org.)
Mary Del Priore é doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou, pela Editora Unesp, Ao sul do corpo (2009), História do esporte no Brasil (2009), História do corpo no Brasil (2011), História dos crimes e da violência no Brasil (2017) e História das mulheres no Brasil (1997), sendo vencedor dos prêmios Jabuti e Casa Grande & Senzala no mesmo ano.

Carlos Daróz (Org.)
Carlos Daróz é historiador militar, pesquisador e escritor. Doutorando em História Social (UFF), mestre em Operações Militares e em História. Autor de Um céu cinzento (2013), A Guerra do Açúcar (2015), O Brasil na Primeira Guerra Mundial (2016) e Bruxas da Noite (2018)

Adquira seu exemplar clicando AQUI


NAVIO ALEMÃO DA 1ª GUERRA É LOCALIZADO NO MAR DAS FALKLANDS 105 ANOS DEPOIS DE AFUNDADO

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O naufrágio de um cruzador alemão da 1ª Guerra Mundial foi identificado nas Ilhas Malvinas, onde fora afundado pela Marinha britânica há 105 anos.


O SMS Scharnhorst foi o principal ativo da esquadra alemã na Ásia Oriental, comandada pelo vice-almirante Maximilian Graf von Spee. O navio foi afundado em 8 de dezembro de 1914 com mais de 800 homens a bordo, incluindo o próprio vice-almirante.

O líder da busca pelos destroços, Mensun Bound, disse que o momento da descoberta foi "extraordinário". "Muitas vezes, perseguimos sombras no fundo do mar, mas quando o Scharnhorst apareceu pela primeira vez no fluxo de dados, não havia dúvida de que era um navio alemão", disse Bound.

"De repente, ele saiu da escuridão com grandes armas apontando para todas as direções. Como ilhéu das Malvinas e arqueólogo marinho, uma descoberta com esse significado é um momento inesquecível e comovente na minha vida."


Buscas levaram cinco anos

As buscas pelo SMS Scharnhorst começaram há cinco anos, no 100º aniversário da Batalha das Ilhas Malvinas, mas não obtiveram sucesso de início.

As equipes de busca retomaram suas atividades neste ano usando uma embarcação submarina, o Seabed Constructor, e quatro veículos subaquáticos autônomos. O SMS Scharnhorst foi encontrado no terceiro dia, a uma profundidade de 1.610m.

Os destroços não foram afetados pela operação, e o Falkland Maritime Heritage Trust, instituição sem fins lucrativos voltada para a promoção do valor histórico e social do patrimônio marítimo das Ilhas Malvinas, está tentando manter o local formalmente protegido por lei.  O SMS Scharnhorst fazia parte do esquadrão da Ásia Oriental da Marinha Imperial alemã, que operava principalmente no oceano Pacífico até o início da 1ª Guerra Mundial, em 1914.


Da vitória à derrota em cinco semanas

O cruzador blindado desempenhou um papel fundamental na Batalha de Coronel, travada entre a Marinha Real britânica e a Marinha Imperial alemã, na costa do Chile. Foi a primeira derrota naval britânica na 1ª Guerra Mundial, com resultados devastadores. Os alemães afundaram dois dos quatro navios britânicos, com a perda de mais de 1,6 mil vidas. Nenhum marinheiro alemão morreu.

O Scharnhorst afunda durante a Batalha das Falklands

Os efeitos desta derrota foram sentidos em todo o império britânico e além. Mas sua resposta não demorou a chegar. A Marinha Real despachou navios do Mar do Norte para o Atlântico Sul e confrontou os alemães nas Ilhas Malvinas cinco semanas depois.

O esquadrão britânico perseguiu a esquadra alemã. O HMS Invincible e o HMS Inflexible causaram danos substanciais ao SMS Scharnhorst, fazendo com que ele afundasse com todas as 860 pessoas a bordo. A Marinha Real, em seguida, foi atrás dos navios alemães restantes.


Descoberta 'agridoce'

Os dois filhos do vice-almirante von Spee também morreram nesse confronto. No total, 2,2 mil marinheiros alemães morreram neste segundo embate. Para a família von Spee, a descoberta dos destroços foi "agridoce". "É reconfortante saber qual foi o local de descanso final de tantas pessoas, que agora pode ser preservado, além de lembrar do enorme desperdício de vidas", disse Wilhelm Graf von Spee.

Destroços do Schanhorst localizados no fundo do oceano

"Enquanto família, perdemos um pai e seus dois filhos em um dia. Como as milhares de outras famílias que sofreram perdas inimagináveis ​​durante a 1ª Guerra Mundial, nós nos lembramos deles e devemos garantir que seu sacrifício não foi em vão." O vice-almirante von Spee foi aclamado como um herói na Alemanha por não se render, e, em 1934, um novo cruzador recebeu seu nome.

A Batalha das Ilhas Malvinas teve um efeito duradouro na 1ª Guerra Mundial, porque, como resultado, a esquadra da Ásia Oriental, a única formação naval permanente da Alemanha, deixou de existir.

Fonte: BBC