"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



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sexta-feira, 5 de julho de 2024

HÁ 100 ANOS, CIDADE DE SP ERA BOMBARDEADA - AS MARCAS DO CONFLITO QUE PERMANECEM ATÉ HOJE

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Igrejas e colégios guardam "cicatrizes" do conflito centenário; tropas se mobilizaram em SP para tentar dar um golpe de Estado na Presidência da República, que tinha como sede o Rio. Depois de um intenso cerco, militares rebeldes foram bombardeados pelo governo federal.

Por Fabrício Lobel


Na madrugada de 5 de julho de 1924, há cem anos, teve início uma revolta militar que resultou no bombardeio de grande parte da cidade de São Paulo. 

De um lado, militares rebeldes tentavam pôr fim ao período que ficou conhecido como a República do Café com Leite (marcado por eleições fraudulentas e acordos políticos que deixavam o poder federal na mão de poucos).

Do lado oposto, estavam militares fiéis aos governos da província de São Paulo e do governo federal. "A cidade de São Paulo foi palco e vítima uma tentativa de um golpe de Estado fracassada", analisa a historiadora Ilka Stern Cohen.

Durante os conflitos, ruas e avenidas da cidade foram tomadas por barricadas e trincheiras, que tentavam evitar o avanço do inimigo.

"São Paulo não tinha asfalto na época, as ruas tinham o quê? Paralelepípedos. Então eles retiravam aquelas pedras, os paralelepípedos, juntavam e era o principal material utilizado nas trincheiras. Mas também foram utilizadas sacas de açúcar, feno, qualquer material que se juntasse ali e pudesse impedir que o projétil inimigo pudesse atravessar", explicou o coronel da PM e historiador Sérgio Marques.

Confira algumas das marcas da revolução que permanecem até hoje na cidade:


Fachada da Igreja Santa Efigênia

Fachada da igreja Santa Efigênia

Na ponta do Viaduto Santa Efigênia, no Centro, a igreja foi disputada por rebeldes e legalistas ao longo do conflito. As fachadas laterais e centrais da igreja ainda têm marcas dos tiroteios daquele tempo. A igreja foi construída em pedra, sem revestimento, o que ajudou a preservar as marcas até hoje. A história é recontada pelos párocos da Santa Efigênia.

"Como a basílica está num ponto que tem muitos hotéis, muita gente vem conhecer esse ponto turístico de SP que é a basílica. Eu, sempre que posso, explico. Os funcionários também, todos conhecem a história da Revolução de 24, e nós buscamos sempre mostrar as marcas de tiro", disse o pároco João Paulo Rizek.

E emendou: "Já temos um folhetinho preparado falando da história da revolução porque revolução é sempre um momento muito triste, é a falência do diálogo, e deve ser sempre rememorado para que não ocorra novamente".


Liceu Sagrado Coração de Jesus

Marca de tiro no Liceu Sagrado Coração de Jesus, no Centro de SP

Na Alameda Glete, também no Centro, o Liceu foi atingido por três balas de canhão logo no primeiro dia de conflito. Possivelmente, a artilharia tinha como alvo as proximidades do Palácio dos Campos Elíseos, que na época era a casa do governador de São Paulo.

Os fragmentos das balas de canhão estão expostos no museu do Liceu. Os portões da escola ainda estão marcados com as balas disparadas naqueles dias.

Na época, o diretor do colégio fez uma promessa de que, se nenhum estudante ou funcionário fosse morto naqueles combates, ele construiria uma capela em homenagem a Santa Teresinha. A promessa foi cumprida com a construção de uma igreja em Santana, na Zona Norte. Ao lado dela, a mesma ordenação católica fundou depois um outro colégio.


Mosteiro de São Bento

Mosteiro de São Bento

Um dos principais templos católicos da cidade também foi atingido em 1924. Os religiosos contam que uma granada foi parar dentro da basílica. Mas ela não explodiu. Em agradecimento, o mosteiro construiu um altar em homenagem ao Sagrado Coração de Jesus no mesmo lugar em que a granada havia caído.

Mosteiro de São Bento, que tem um altar em homenagem ao Sagrado Coração de Jesus no local em que uma granada caiu, há 100 anos, mas não explodiu


Chaminé na Luz

Uma chaminé de tijolos é o que resta de uma antiga usina termoelétrica na região da Luz. Ela foi construída ao lado do que era a sede da Força Pública, espécie de Polícia Militar da época. Esse é o mesmo prédio hoje ocupado pelo batalhão da Rota. Por isso, foi atingida mais de uma vez por balas de canhão. As marcas estão por lá até hoje.

Chaminé na Luz

Igreja do Cambuci

No alto de uma colina, com vista para o Centro de São Paulo, a igreja do Cambuci foi um ponto estratégico disputado durante os embates. Na época, a fachada, portas, janelas e parte do teto foram muito danificados. A imagem do arcanjo São Miguel na fachada perdeu uma das mãos. Ela permanece assim até hoje, recepcionando os fiéis do alto da entrada da igreja.

Fonte: Globo SP/G1


sábado, 16 de abril de 2016

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR – MARECHAL SETEMBRINO DE CARVALHO



 
 * 13/09/1861 – Uruguiana-RS

+ 24/05/1947 — Rio de Janeiro-RJ


Fernando Setembrino de Carvalho nasceu em Uruguaiana–RS, no dia 13 de setembro de 1861. Aos dezesseis anos assentou praça no 12º Batalhão de Infantaria, em Porto Alegre, e, logo após, requereu sua matrícula na Escola Militar do Rio Grande do Sul, onde concluiu o curso de Artilharia no mês de janeiro de 1882.  Mandado apresentar-se à Escola Militar da Corte em março do mesmo ano, em 5 de setembro foi declarado 2º Tenente e classificado no 2º Batalhão de Artilharia a Pé.  Em 1884 concluiu o curso de Estado-Maior de 1ª Classe e o de Engenharia Militar, recebendo o grau de bacharel em Matemática e Ciências Físicas. Em seguida, foi classificado no 1º Regimento de Artilharia a Cavalo, em São Gabriel–RS, herdeiro do velho "Boi de Botas" de Mallet da Guerra da Tríplice Aliança.


Revolução Federalista e atuação como engenheiro militar

Setembrino de Carvalho atuou como engenheiro na construção de quartéis e fortificações no Rio Grande do Sul. Transferido para Uruguaiana, lá servia quando ocorreu a proclamação da República. Desde 1885 aderira à causa republicana sem alterar, contudo, sua conduta fiel de militar. Com a eclosão da Revolução Federalista, comandou o Batalhão de Infantaria "Defensores da República", integrante da Divisão Oeste, organizado para defender Uruguaiana das tropas federalistas. terminada a revolução, foi transferido para o 2º Batalhão de Engenharia, onde provocou a iniciativa de construir a estrada de ferro estratégica Porto Alegre – Uruguaiana, de alta expressão para a economia gaúcha. Foi promovido a tenente-coronel em abril de 1906, e assumiu o comando do batalhão, passando, em julho de 1907 à construção do ramal ferroviário Cruz Alta – Ijuí. Já em 1908 assumiu a construção da linha telegráfica São Vicente - Santiago do Boqueirão.


Novas missões

Em 1910 foi convidado pelo Marechal Hermes da Fonseca, então candidato à Presidência da República, para exercer a chefia do Gabinete do Ministro da Guerra. Promovido a coronel no mesmo mês, foi mantido no cargo pelo novo Ministro, General Vespasiano Gonçalves de Albuquerque, em 30 de março de 1912. Nomeado comandante da então 4ª Região Militar em Fortaleza, foi, logo a seguir, designado interventor no Ceará em meio a grave crise. Em março de 1914 conseguiu apaziguar a revolta promovida pelo padre Cícero Romão Batista e fazer com que ele e seus seguidores voltassem para Juazeiro. Logo a seguir, em abril, foi promovido a general-de-brigada.


Campanha do Contestado

De volta ao Rio, foi incumbido pelo Ministro da Guerra de tratar da pacificação da luta em Palmas (Campanha do Contestado, 1914-1915) que se estendia desde 1840, liderada por José Maria de Agostinho, o "Monge". Entre 1912 e 1914 haviam sido enviadas seis expedições com tropas do Exército. Todas fracassaram. Para cumprir essa missão, no período de 12 de setembro de 1914 a 9 de março de 1915, comandou a 11ª Região Militar, em Curitiba-PR.  Em seguida, assumiu o comando da 2ª Circunscrição Militar, criada pelo Aviso do Ministro da Guerra nº 652, de 28 de abril de 1915, para pacificar os estados do Paraná e Santa Catarina. Graças à sua habilidade e atuação, os rebeldes foram completamente derrotados até dezembro de 1915, quando regressou ao Rio.




Atuação nos Movimentos Tenentistas

Promovido a general-de-divisão em janeiro de 1918, foi nomeado comandante da 2ª Divisão de Exército, sediada em Niterói. Em 1º de julho de 1922, foi nomeado Chefe do Estado-Maior do Exército pelo Presidente Epitácio Pessoa. No levante dos Fortes de Copacabana e do Vigia, Escola Militar e alguns efetivos da Vila Militar, foi chamado a intervir. Dirigiu-se então ao Realengo, encontrando a Escola Militar já sob controle. Instalou um quartel-general de operações em Deodoro, de onde comandou a repressão. O movimento terminou com o episódio na Avenida Atlântica, envolvendo os 18 do Forte.

Em novembro de 1922, Arthur Bernardes, empossado na Presidência da República, designou-o Ministro da Guerra. Em 1923, surgia no Rio Grande do Sul novo conflito armado. Fracassada a tentativa de armistício e agravando-se o conflito em todo Estado, decidiu Bernardes encarregar da missão o General Setembrino. Chegando a Porto Alegre, Setembrino promoveu o entendimento entre as partes em conflito, obtendo o armistício com o "Pacto das Pedras Altas", na estância de Assis Brasil, no dia 14 de dezembro.

Promovido a Marechal em abril de 1924, viu-se diante de novo movimento, iniciado no dia 5 de julho, com focos em São Paulo, Amazonas e Sergipe. Fez face aos revoltosos, comandados pelo General lsidoro Dias Lopes, conclamando-os por meio de dois manifestos à rendição e isentando-os de culpa.

O Marechal Setembrino afastou-se da vida pública em 1926. Continuou morando no Rio de Janeiro, então capital do Brasil, vindo a falecer no dia 24 de maio de 1947, aos 85 anos de idade.



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domingo, 4 de janeiro de 2015

FORTE DE ÓBIDOS

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O Forte de Santo Antônio dos Pauxis de Óbidos localiza-se à margem esquerda do rio Amazonas, dominando o estreito de Óbidos, no estado do Pará.

A importância da posição estratégica de Óbidos, trecho onde o rio Amazonas possui sua menor largura foi determinado desde a expedição do Capitão-mor Pedro Teixeira (1637-1639), visto que, uma vez dominada, poderia impedir a entrada de navios inimigos no rio:

"O maior estreito, onde este rio recolhe [as] suas águas, é de pouco mais de um quarto de légua, na altura de 2º 40', lugar que, sem dúvida, destinou a Divina Providência, estreitando ali este dilatado mar doce, para que ali se construísse uma fortaleza para impedir a passagem a qualquer armada inimiga, por maiores forças que traga, entrando pela principal boca deste grande rio, porquanto, entrando pelo rio Negro, ali deveria ser posta a defesa."[i]


O estreito de Óbidos, trecho de menor largura do rio Amazonas. Pedro Teixeira já identificara sua importância estratégica

 

O Forte dos Pauxis


Erguido por determinação do Governador e Capitão-general do Estado do Maranhão, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, foi um dos quatro fortes (os outros foram o Forte do Paru de Almeirim, o Forte de São José da Barra do Rio Negro, e o Forte dos Tapajós de Santarém) erguidos pelo maranhense Capitão Francisco da Mota Falcão, às próprias custas, nos locais que lhe fossem indicados, em troca de receber o governo vitalício de uma delas.  Por motivo de falecimento deste empreiteiro, as obras foram concluídas por seu filho Manoel da Mota Sequeira em 1698, em taipa de pilão, artilhado com quatro peças de pequeno calibre e guarnecido por um destacamento. Foi denominado como Presídio dos Pauxis, nome da tribo indígena que habitava a área, descida pelos frades franciscanos da Piedade juntamente com indígenas do rio Trombetas para a sua construção, e para esse fim ali agora aldeados.

Recebeu a denominação de Forte de Óbidos quando a aldeia dos Pauxis foi elevada à categoria de vila com o nome de Óbidos, em 25 de março de 1758. Além de defesa estratégica, essa estrutura funcinou como um Registro, atendendo à fiscalização para cobrança dos dízimos da Coroa Real, das embarcações que percorriam o grande rio, de ou para a Capitania de Mato Grosso e Capitania de São José do Rio Negro.
Já em 1749, sob o comando do Capitão Balthazar Luiz Carneiro, necessitava de reparos mais sérios:

"(...) suposto tenha só a cortina da parte do mar arruinada e que só desta reedificação careça, e de emboço e reboco; contudo esta Fortaleza se acha edificada sobre uma alta ribanceira, a qual o tempo tem demolido, de sorte que dificilmente pode passar qualquer homem entre a beirada da dita ribanceira e a Fortaleza, e achando-se assim esta no princípio de cair nas primeiras invernadas, parece que seria mais acerto fazer-se a dita Fortaleza de novo, por se não pôr no perigo de perder-se o dispêndio, recuando-a para dentro, o que fosse necessário."[ii]

Na falta de recursos do Governo, o Capitão Ricardo Antônio da Silva Leitão, comandante da praça, procedeu-lhe reparos, louvados pelo governador e Capitão-general do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1751-1759) àquele oficial por Ofício de 9 de março de 1753. Naquele momento, o forte contava apenas com três canhões, sete balas de artilharia, 2 arrobas e 18 libras de pólvora, 20 libras de chumbo, 46 libras de balas de mosquetaria, cinco baionetas, reduzindo-se o efetivo ao capitão comandante, um tenente, um sargento ajudante e seis praças.

Canhões do Forte de Óbidos apontados para o rio Amazonas

Em 1758, a aldeia dos Pauxis foi elevada à categoria de vila com o nome de Óbidos. A fortificação encontrava-se em mau estado de conservação, por notícias anteriores do Mestre de Campo José Miguel Aires, e posteriores, de Henrique José de Vasconcelos.

Anos mais tarde, o efetivo estava reduzido a um soldado e a um sargento, sendo que, à falta de soldados, a esposa deste já havia dado guarda mais de uma vez.[iii]

Em 1784 a fortificação constituía-se em um pequeno quadrado de muralhas, os ângulos reentrantes e dois meio-baluartes.


O forte imperial


Apesar de recomendações para a sua reconstrução durante o período colonial (1749-1784), desabada a cortina pelo lado do rio, apenas no Segundo Império é que a praça foi recuperada, com a elevação da vila a cidade, em 2 de outubro de 1854. Nesse ano, o governo imperial iniciou a reconstrução, sob a orientação do Major de Engenharia Marcos Pereira de Salles, na forma de um reduto semicircular com parapeitos à barbeta, artilhado com dez peças de diferentes calibres, entre as quais quatro canhões Armstrong.

No Relatório do Ministério da Guerra de 1858, o Brigadeiro Jerônimo Francisco Coelho informava terem se despendido nas obras, até à data, 72 000$000 réis, sendo necessário gastar ainda mais:
·                     12:000$000 réis em obras de arremate;
·                     68:000$000 réis para erguer uma bateria complementar, ao lume d'água;
·                     21:000$000 réis para novas baterias, no sopé da serra da Escama, a cavaleiro, e de uma Capela;
·                     88:000$000 para a fortificação da margem oposta do estreito de Óbidos

Em 1860, a fortificação foi visitada em passagem pelo Tenente-Coronel Hilário Maximiniano Antunes Gurjão, herói da batalha de Itororó, que acompanhava o então presidente da Província.

Canhões coloniais com seus projéteis preservados diante do Forte de Óbidos

O incidente com os navios a vapor peruanos "Morona" e "Pastazza" (1862), que desobedecendo ordens de Belém, forçaram a sua passagem em frente a Óbidos, recebendo o primeiro apenas um tiro inofensivo no costado, demonstrou a fragilidade da fortificação, bem como a necessidade dessas obras complementares de defesa, para as quais o Ministro da Guerra, Ângelo Moniz da Silva Ferraz, chamava a atenção em 1866.  O padre Francisco Bernardino de Souza, referindo-se ao discurso de um deputado amazonense, cita:


"Construiu-se há pouco tempo um fortim na raiz da serra; esse fortim parece mais um brinquedo de criança do que um complemento de fortificação; monta três peças sem ter o necessário espaço para o seu recuo, nem para conter as respectivas guarnições."[iv]


Em 1868, sendo titular da pasta da Guerra João Lustosa da Cunha Paranaguá, foram procedidas obras como: a construção de uma plataforma corrida em cantaria de Lisboa, arrecadação (armazém) de armamento e quartel, ficando fechada por duas cortinas, uma a Leste e outra a Oeste, e protegida pela margem do rio. Montaram esses reparos a 13:000$000 réis. Pequenos reparos foram procedidos em 1875, e em 1889, quando se encontrava classificada como fortificação de 2ª Ordem.[v]


O forte na República


O forte sofreu novas intervenções de reparos em 1909 e 1911. No auge da Questão do Acre (1902-1903) foi guarnecido com um contingente de ocupação. De 1902 a 1911 uma nova estrutura foi levantada, na serra da Escama, para complemento da sua defesa (Forte Gurjão). À época da 1ª Guerra Mundial, este conjunto defensivo estava guarnecido pelo 4º Batalhão de Artilharia (1915), tendo caído nas mãos dos revolucionários tenentistas de 1924, no Amazonas. A partir de 1930, ambos os fortes foram desarmados, permanecendo o quartel guarnecido por um destacamento da 8ª Região Militar.

Canhão Vickers-Armstrong de 152,4mm rodeado pela floresta no Forte Gurjão

Durante a 2ª Guerra Mundial, foi ocupado sucessivamente por uma bateria de Artilharia e por uma Companhia de Infantaria. Com o fim do conflito, o forte ficou guarnecido por um pequeno contingente militar, tendo ali funcionado uma estação de rádio do Exército Brasileiro, de grande utilidade para a população. Em 1967 tudo foi retirado, tendo a Prefeitura de Óbidos se esforçado para manter o acervo material que restou.[vi]

A partir de 2012, o Forte de Óbidos teve iniciadas obras de restauração, no contexto do Programa de Aceleração do Crescimento das Cidades Históricas, patrocinado pelo Ministério da Cultura.  As obras ainda estão em andamento. Atualmente o Forte de Óbidos está aberto ao público no centro histórico da cidade, bem como as ruínas do Forte Gurjão. 

Fonte: adaptado da Wikipedia







[i] ACUÑA, Cristóvão d'. Novo descobrimento do grande rio das Amazonas. 1641. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XXVIII, Vol. XXX, Parte I, 2º Trim/1865. p. 187.
[ii] Relatório do Capitão de Ordenanças José Miguel Ayres acerca do estado das fortificações mantidas ao longo do Amazonas datado de 4 de janeiro de 1749
[iii] D. frei João de São José. Viagem e Visita do Sertão em o Bispado do Grão Pará em 1762 e 1763.
[iv] SOUZA, Pe. Francisco Bernardino de (Relator). Comissão do Madeira (3ª parte). 1874. apud: op. cit., p. 66
[v] GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940, p.19-20.
[vi] OLIVEIRA, José Lopes de (Cel.). "Fortificações da Amazônia". in: ROCQUE, Carlos (org.). Grande Enciclopédia da Amazônia (6 v.). Belém do Pará, Amazônia Editora Ltda, 1968, p.745.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR - GENERAL DALTRO FILHO

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* 1882 - Cachoeira do Sul-RS

+ 1938 – Porto Alegre-RS



Manuel de Cerqueira Daltro Filho inicou sua carreira militar aos 16 anos, ao sentar praça no 9° Batalhão de Infantaria, em Salvador. Após uma passagem pelo Rio de Janeiro, foi transferido para o Rio Grande do Sul, onde cursou a Escola Tática e de Tiro de Rio Pardo. Em 1901 retornou ao Rio para a Escola Militar da Praia Vermelha, onde permaneceu até 1904, quando a escola foi fechada por haver apoiado a Revolta da Vacina.

Entre 1906 e 1908, retornou ao Rio Grande do Sul para cursar a Escola de Guerra em Porto Alegre. Em 1911 foi transferido para Curitiba, onde, no ano seguinte, passou a integrar o Estado-Maior do general Setembrino de Carvalho, tendo participado do combate ao movimento do Contestado. Ainda em Curitiba, participou, com os amigos Victor Ferreira do Amaral e Nilo Cairo, em 19 de dezembro de 1912, da criação da Universidade do Paraná, embrião da UFPR, compondo a primeira diretoria da instituição, no cargo de 2° secretário.

Ao estourar a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana em 1922. era comandante da 3ª Companhia de Metralhadoras no Rio de Janeiro, integrada ao destacamento do general João de Deus Menna Barreto no combate aos revoltosos.

Major no governo de Artur Bernardes, foi ajudante de ordens do presidente da república. No final do mandato foi nomeado adido militar na Bélgica. Retornou ao Brasil em 1928, onde assumiu o comando do 7° Regimento de Infantaria, em Santa Maria. Em 1929 matriculou-se na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, no Rio de Janeiro.

Durante a Revolução de 1930, combateu a Aliança Liberal, que depôs o presidente Washington Luís e levou Getúlio Vargas ao poder, tendo organizado as forças governistas na região de Nova Friburgo. Após a derrota, entretanto, aproximou-se do novo governo e passou a apoiá-lo.

Combateu a Revolução de 1932, cercando as tropas revoltosas em Cruzeiro e depois, com Newton Cavalcanti, isolou a capital São Paulo. Foi depois nomeado interventor federal interino do estado de São Paulo durante dois meses, antes da posse de Armando Sales de Oliveira. Nomeado comandante da 2ª Região Militar, foi destituído do cargo em 1934 por apoiar a candidatura de Goes Monteiro à presidência. Foi, então, nomeado para o comando da 8ª Região Militar, em Belém.

Nomeado comandante da 3ª Região Militar, sediada em Porto Alegre, em agosto de 1937, foi um dos principais apoiadores do golpe que instaurou o Estado Novo e combateu a resistência organizada pelo então interventor do Rio Grande do Sul, José Antônio Flores da Cunha. Com a deposição e o exílio de Flores da Cunha, Daltro Filho foi empossado como interventor federal no estado, no dia 17 de outubro de 1937, pouco antes da instauração oficial da ditadura, em 10 de novembro do mesmo ano.

Permaneceu, entretanto, apenas três meses no cargo, sendo obrigado a se afastar de suas funções no dia 19 de janeiro de 1938 por motivos de saúde, vindo a falecer alguns dias depois.


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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A MORTE DO TENENTE SIQUEIRA CAMPOS

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Antônio de Siqueira Campos nasceu em Rio Claro-SP no ano de 1898. Formado na Escola Militar, ainda no posto de tenente participou do Movimento Tenentista e da Revolta do Forte de Copacabana, em julho de 1922. Foi um dos militares que marcharam na Avenida Atlântica, na orla marítima de Copacabana, em direção à tropa legalista e que, após intenso tiroteio em um combate totalmente desigual – 18 revoltosos contra 3.000 soldados do governo –, acabaram sendo derrotados em frente à Rua Barroso, na altura do Posto 3 de Copacabana, no episódio que passou à história como  “os dezoito do forte”.  A maioria dos revoltosos morreu, somente sobrevivendo os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes e algumas praças. 

Posteriormente, a Rua Barroso, onde ocorreu o confronto final da Revolta dos 18 do Forte, foi rebatizada com o nome de Rua Siqueira Campos, como é conhecida atualmente. Na esquina desta rua com a Avenida Atlântica, foi erigida uma enorme estátua representando o Tenente Siqueira Campos no momento em que recebeu o tiro que o derrotou no confronto.


No calçadão de Copacabana marcham os dezoito revolucionários remanescentes contra 3.000 soldados legalistas.

Siqueira Campos participou do início do chamado Movimento Tenentista, que visava romper os vícios da política brasileira da época, em que grupos elitistas se perpetuavam no poder. Após período de exílio, o Tenente Siqueira Campos participou ativamente, como um dos seus principais líderes, da famosa Coluna Miguel Costa-Prestes. Durante mais de três anos a Coluna percorreu o interior do Brasil do Sul ao Nordeste no prosseguimento da luta para derrubar a República Velha, que viria a cair em outubro de 1930 com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder.


Morte no Rio da Prata

O tenente Siqueira Campos morreu em um acidente aéreo, ao retornar do Uruguai para o Brasil em 10 de maio de 1930, antes da Revolução que levaria Vargas ao poder, quando a aeronave em que estava caiu no rio da Prata. Dizia ele: "À Pátria tudo se deve dar, sem nada exigir em troca, nem mesmo compreensão".

O também revolucionário tenentista João Alberto Lins de Barros viajava no mesmo avião com Siqueira Campos e, em sua obra Memórias de um Revolucionário (p.227-229), relatou como se deu o acidente com o Laté 28:


“(...) dentro do Laté 28, apinhavam-se cinco passageiros: o piloto, Comandante Negrin, veterano da guerra e reconhecido ás da aviação francesa. O Sr. Pranville, diretor da Latecoere para a América do Sul; o telegrafista, o Siqueira e eu. Os dois primeiros viajavam no comando do aparelho e o resto na cabine. Valentim Bouças, em tempo desistia da viagem. 

Apesar do risco que corríamos, sentimos alívio quando o avião tomou altura. Queríamos chegar aos nossos destinos de qualquer maneira, o mais rapidamente possível. Não tínhamos nem um minuto a perder e no momento, a questão de segurança pessoal afigurava-se nos secundária.

Tirei os sapatos, levantei a gola do sobretudo, sentando-me na primeira cadeira do lado esquerdo. Fazia um frio penetrante. Fatigado dos trabalhos diurnos, rapidamente adormeci.
Despertei com um golpe na cabeça. 

O avião boiava na água, agitando pelas ondas que contra ele se quebravam. Nós três – os da cabine – caíramos com as cadeiras, em confusão. Eu estava ferido na testa, na face esquerda e no nariz. Siqueira, o primeiro a recuperar os sentidos, arrastou-se para uma porta lateral, abrindo-a com algum trabalho. Aí a água entrou, alagando o compartimento em que nos encontrávamos, até atingir os nossos joelhos. Ele pulou fora, ficou sobre o teto da cabine e içou, com a minha ajuda, o telegrafista, já ao meu lado nesse momento. Logo após, eu me reunia também aos dois. Em cima daquele pequeno avião que, sacudido pelas ondas, afundava lentamente, estávamos os cinco passageiros do malfadado Laté 28, agarrando-nos uns aos outros, a fim de não sermos precipitados na água. Fomos tirando a roupa para poder nadar.

Um vento frio de inverno fazia-nos tremer. Densa e baixa, a cerração permitia-nos apenas lobrigar, na linha do horizonte, as luzes de uma cidade.

O motor do avião começou a desaparecer. Procuramos, instintivamente, equilibrarmo-nos em sua calda. Ninguém tomava a iniciativa de abandonar o aparelho. Nada menos de três quilômetros de mar banzeiro nos separava da costa. Uma dura etapa a vencer durante a noite, com aquele frio áspero, cortante.

O piloto Negrin, talvez levado pela responsabilidade de Comandante do aparelho, que submergia, avisou-nos de que era preciso lançarmo-nos à água. Era um homem da nossa idade, demonstrando parecença física com o Siqueira. Como nós três, estava apenas com as roupas debaixo. E, tomando a iniciativa, para dar exemplo, atirou-se à água. Seguiu-o o Sr. Pranvile, tipo de burguês francês, baixo, forte, um pouco calvo.

O telegrafista e eu permanecemos ainda no avião, agarrados ao leme do aparelho. Siqueira, vendo-me banhado em sangue, olhava-me com expressão singular. Apesar de atordoado, sentia que ele ainda não se jogara na água por minha causa. Doía-lhe deixar-me sozinho. Era preciso ganhar coragem e enfrentar a realidade, arremessando-me e tentando alcançar a costa. Precedeu-me, porém, na decisão, o telegrafista. Seguira os nossos movimentos e despira, como nós, a roupa de cima. Saltou na água e estoicamente, deixando um último adeus em espanhol, que era também uma confissão: ‘Eu não sei nadar, Vou morrer. Adeus companheiros!’. E começou a bater-se com as ondas ali, do nosso lado. Veio à tona três ou quatro vezes, sem pedir socorro. Depois desapareceu. (...) Mal havia recuperado a calma (talvez decorrido uns dez minutos de nado), ouvi, perto de mim, o grito angustiante do Siqueira. ‘Espera, João.’ Voltei-me ainda em tempo de o ver, a um metro de mim, ser tragado por uma onda. Desapareceu sem estender um braço para pedir auxílio. Apenas, na face, aquela expressão de energia indômita que eu conhecia tão bem nos momentos de luta, desfigurando agora por uma intensa expressão de dor. Esperei um instante, afastando-me somente depois que percebi que ele não retornaria (...) jamais poderia eu supor, naquele momento, que o vitimara um ataque de angina, conforme foi constatado, mais tarde, pela autópsia”.



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