"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



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sexta-feira, 9 de outubro de 2020

1954: OS FRANCESES SÃO DERROTADOS NA INDOCHINA

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No dia 7 de maio de 1954, a guerra do Vietnã terminou para os franceses. Após oito semanas de sítio e fogo cerrado, as tropas francesas capitularam em Dien Bien Phu.


Por Michael Kleff

Após a fundação da União Indochinesa, no final do século XIX, a França aproveitou os conflitos regionais e expandiu o seu domínio colonial a uma grande parte do Vietnã atual, ao reinado vizinho do Camboja e ao Laos. Porém, já na virada do século, aumentava a resistência entre a pequena elite cultural vietnamita contra a colonização sistemática.

Nos primeiros 40 anos dos anos 1900, os franceses ainda conseguiram controlar uma população de 18 milhões de pessoas. Quando, em novembro de 1940, uma rebelião dos comunistas foi reprimida de forma sangrenta no sul do Vietnã, fundou-se então a Liga para a Independência do Vietnã, conhecida como Viet Minh, com participação decisiva do líder revolucionário e posterior chefe de Estado Ho Chi Minh.


Da resistência ao conflito armado

Foi só uma questão de tempo até que estourasse o conflito aberto entre os franceses, reivindicando direito sobre a "sua" colônia, e a aspiração de independência do Viet Minh. Em novembro de 1946, quando tropas francesas bombardearam a cidade portuária de Haiphong, no norte do Vietnã, o Viet Minh começou a resistir com mão armada ao domínio colonial francês em todo o país.

Apesar do apoio financeiro e logístico dado pelos EUA às tropas francesas, a partir do início de 1950 o Viet Minh já controlava cerca de dois terços do território vietnamita no final daquele ano.

No começo de 1954, 12 mil soldados franceses de uma tropa de elite foram cercados na região montanhosa e isolada perto de Dien Bien Phu, norte do Vietnã, pelas forças muito mais numerosas do Viet Minh. Apesar disso, o comandante-chefe francês Navarre acreditava que conseguiria vencer uma batalha decisiva.


Eisenhower e o medo do comunismo

Em março de 1954, quando o Viet Minh intensificou seus ataques e as tropas francesas só podiam ser abastecidas por meio de paraquedas, Paris e Washington se conscientizaram da crise. O presidente americano Eisenhower e seu secretário de Estado não queriam aceitar a derrota dos franceses. Contudo, um ataque aéreo teria provocado uma intervenção chinesa.

O presidente Eisenhower ressaltou diante da imprensa internacional, em 7 de abril de 1954, a gravidade da situação e a importância da Indochina para o seu país. Nessa entrevista, ele chamou de teoria do dominó a avaliação política exterior do conflito com o comunismo, em vigor na estratégia governamental americana desde 1950.

Eisenhower almejava uma coalizão dos EUA, entre outros, com o Reino Unido, a França e a Austrália, a fim de defender o Vietnã e todo o Sudeste da Ásia contra o comunismo. Porém, tais planos não encontraram apoio. Ele rechaçou, por sua vez, uma ação unilateral dos americanos, assim como uma intervenção somente ao lado dos franceses. A seu ver, os Estados Unidos ficariam então muito identificados com a política colonial francesa aos olhos da opinião pública mundial.

Ho Chi Min condecorando soldados do Viet Minh após a vitória em Diem Bien Phu

Selou-se assim o destino das tropas francesas em Dien Bien Phu, cuja derrota foi anunciada em Washington no dia 7 de maio de 1954 pelo secretário de Estado americano John Foster Dulles: "Há algumas horas, caiu Dien Bien Phu. Sua resistência de 57 dias entrará na história como um dos maiores atos de heroísmo de todos os tempos. Os franceses e as forças nacionais de defesa impingiram graves perdas ao inimigo. Os soldados franceses provaram que estão dispostos e aptos à luta, mesmo sob as piores condições. O Vietnã provou que tem soldados com a capacidade necessária para defender o seu país."

A queda de Dien Bien Phu marcou não apenas o fim do domínio colonial da França no norte do Vietnã, mas também o começo da retirada francesa de toda a Indochina.

Fonte: DW


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

1954: COMEÇA A GUERRA DE INDEPENDÊNCIA DA ARGÉLIA

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No dia 31 de outubro de 1954, começou a guerra pela independência na Argélia. A luta contra as tropas de ocupação da França durou sete anos e causou a morte de mais de 260 mil pessoas.

Por Peter Philip

Os primeiros disparos foram ouvidos na noite de 31 de outubro para 1º de novembro de 1954. Jovens argelinos, integrantes da até então desconhecida FLN (Frente de Libertação Nacional), iniciavam assim a luta para acabar com o domínio francês, que começara através da invasão do norte da África em 5 de julho de 1830, consolidando-se nos 17 anos seguintes. Num panfleto, os rebeldes conclamavam à criação de um Estado independente na Argélia, cujo sistema social deveria ser uma mescla de social-democracia e islamismo e que garantisse também direitos iguais a todos os cidadãos.

Sempre existira insatisfação popular quanto ao domínio francês na Argélia, pois uma minoria europeia imperava sobre a maioria do povo argelino, constituído de árabes e berberes. No decorrer dos anos, os franceses começaram a tratar a colônia norte-africana como se fosse uma parte do território da França e os argelinos, como estrangeiros no próprio país. Foram feitas inúmeras tentativas de impor a igualdade de direitos entre europeus e muçulmanos, mas sempre sem êxito duradouro.

Por exemplo, no ano de 1947. A Assembleia Nacional, em Paris, aprovou um estatuto para a Argélia, no qual a colônia foi definida como "um grupo de províncias com caráter urbano, autonomia financeira e uma organização especial". O que isto significava ficou claro na constituição do Parlamento argelino: divididos em dois grupos numericamente iguais, os 120 deputados representavam, de um lado, os 370 mil colonizadores europeus e os 60 mil argelinos assimilados e, do outro, a grande maioria de cerca de 1,3 milhão de árabes e berberes.


Concessões

Mas foram introduzidas também algumas concessões aos muçulmanos argelinos: eles podiam viajar à França em busca de trabalho e, lá, podiam professar livremente a sua religião. Além disto, foi permitido oficialmente o ensino do idioma árabe na Argélia.

O líder argelino Ahmed Ben Bella


O documento não conseguia ocultar que teria prosseguimento a discriminação da população da Argélia e isto ficava ainda mais claro no dia a dia argelino. A insatisfação crescia. Tanto mais quanto maior o número de países árabes a se livrarem do jugo dos europeus e a conquistarem sua independência nacional.

A resistência começou a aparecer paulatina e cautelosamente. Um primeiro sinal de alarme para os franceses ocorreu em 1950, com um assalto ao correio central de Oran, comandado por Ahmed Ben Bella. O líder rebelde argelino tinha servido no Exército francês durante a Segunda Guerra Mundial, como muitos dos seus compatriotas, tendo sido altamente condecorado pelas suas ações nos campos de batalha da Itália. Ben Bella transformou-se na figura símbolo da luta argelina de libertação e foi, posteriormente, o primeiro chefe de governo da Argélia independente.

Inicialmente, porém, a repressão francesa da rebelião ficava a cada dia mais cruel. Depois dos primeiros disparos de 31 de outubro de 1954, milhares de argelinos foram presos. A maioria deles nada tinha a ver com a FLN e sua luta. Os franceses continuaram cometendo os mesmos erros: as tentativas de concessões aos argelinos sempre foram muito modestas e vieram tarde demais.


Ódio

Mas todas as manifestações antifrancesas eram punidas com extremo rigor. Com isto, o ódio dos argelinos tornou-se sempre mais profundo, chegando ao auge quando o Exército francês na Argélia foi reforçado com 500 mil homens. Isto – e a pressão da FLN sobre muçulmanos hesitantes – consolidou a frente da rebelião.

Soldados franceses com aprisionam um argelino 


A situação ficou ainda mais tensa quando a Tunísia e o Marrocos conquistaram a independência, mas a França continuava enviando os líderes argelinos para a prisão. Houve massacres dos dois lados e, muitas vezes, a iniciativa partia dos próprios colonizadores franceses, apelidados de pieds noirs ("pés negros"), que temiam que o governo parisiense acabasse abrindo mão da Argélia. Os colonizadores rebelaram-se duas vezes, mas acabaram não podendo impedir que ocorresse aquilo que temiam.

Na França, a rebelião argelina acabou levando Charles de Gaulle de volta ao poder: em 1958, ele decretou maiores direitos para os cidadãos muçulmanos da Argélia e, um ano depois, já falava do direito da Argélia à autodeterminação. O resto foi uma questão de tempo: a França iniciou as negociações com a FLN em 1961, depois que seus líderes foram libertados das prisões.

Na primavera europeia de 1962, foi acertado um plebiscito, realizado a 1º de julho. Seis milhões de argelinos votaram a favor da independência e apenas 16 mil foram contrários a ela. Em seguida, os políticos argelinos assumiram o poder em Argel e a maioria dos europeus deixou o país.

Fonte: DW


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

HISTÓRIA MILITAR NA FRANÇA - MEMORIAL NACIONAL DA GUERRA DA ARGÉLIA E DA LUTA NO MARROCOS E NA TUNÍSIA

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Quase aos pés da icônica Torre Eiffel está instalado outro monumento com referências à História Militar francesa, homenageando os mortos durante as guerras de descolonização no norte da África.

O Memorial Nacional da Guerra da Argélia e da Luta no Marrocos e na Tunísia é um monumento de guerra erguido na Quai Branly, no 7º Distrito de Paris, para rememorar os conflitos de independência que ocorreram na África do Norte francófona entre 1952 e 1962, nos departamentos franceses da Argélia e departamentos franceses do Saara, retrospectivamente chamados de guerra da Argélia (1954-1962) e aqueles situados no protetorado francês deo Marrocos e no protetorado francês da Tunísia, denominada "lutas da Tunísia e do Marrocos" (1952-1956 e, em seguida, 1961 para a crise de Bizerte).

Soldados franceses na Argélia

O monumento homenageia a memória dos 23 mil soldados mortos pela França - franceses e soldados coloniais Harkis -, bem como vítimas civis. Foi inaugurado em 5 de dezembro de 2002 pelo Presidente Jacques Chirac, na presença de Michèle Alliot-Marie, Ministro da Defesa, e Hamlaoui Mekachera, Secretário de Estado para Assuntos dos Veteranos. Em 2003, devido à inauguração deste monumento, a data de 5 de dezembro foi escolhida para instituir o "dia nacional de homenagem aos mortos pela França durante a guerra da Argélia e as lutas no Marrocos e na Tunísia”.


Descrição

O memorial foi erigido por Gérard Collin-Thiébaut e consiste em três monitores eletrônicos verticais configurados em três colunas de 5,85 metros de altura, exibindo, em cada uma delas, as cores da bandeira francesa e informações sobre as pessoas e eventos rememorados:
- Na primeira coluna, percorrem continuamente os nomes e sobrenomes dos 23 mil soldados que morreram pela França no norte da África.
- Na segunda coluna, passam mensagens que recordam o período da guerra na Argélia e a memória de todos os que desapareceram após o cessar-fogo. Em 26 de março de 2010, o governo francês decidiu inscrever nessa coluna os nomes das vítimas civis da manifestação da rue d'Isly, em Argel, ocorridas em 26 de março de 1962.
- Na terceira coluna, através do uso de um terminal interativo localizado no pé do monumento, os visitantes podem ver o nome de um soldado específico, pesquisando entre a lista de nomes na lista.

Aspecto das colunas do memorial. Pode-se ver a  base da Torre Eiffel no canto esquerdo da imagem.

No chão está gravado: "Em memória dos combatentes que morreram pela França durante a guerra da Argélia e a luta no Marrocos e na Tunísia, e a de todos os membros das forças auxiliares, mortos após o cessar-fogo na Argélia, muitos dos quais não foram identificados.

Inscrições existentes no piso do memorial

Placa indicativa

Há também uma placa que diz: "A Nação associa as pessoas desaparecidas e as populações civis vítimas de massacres ou extorsões cometidas durante a guerra da Argélia e após 19 de março de 1962, em violação dos acordos de Evian, bem como as vítimas civis dos combates no Marrocos e na Tunísia, ao tributo pago aos combatentes mortos pela França no norte da África".

O editor do Blog Carlos Daroz-História Militar diante do memorial



Referências
- Decreto nº 2003-925, de 26 set. 2003 – Institui o dia 5 de dezembro como "dia nacional de homenagem aos mortos pela França durante a guerra da Argélia e as lutas no Marrocos e na Tunísia”.

- MERCHET, Jean-Dominique. Guerre d'Algérie: un jour qui ne fait pas date. Libération, 18 set. 2003.