"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



Mostrando postagens com marcador Guerra de Resistência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guerra de Resistência. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de março de 2020

MORRE O GREGO QUE RETIROU A BANDEIRA NAZISTA DA ACRÓPOLE DURANTE A 2ª GUERRA MUNDIAL

.

Herói da resistência grega  Manolis Glezos tinha 97 anos.

Por Helena Tecedeiro


Manolis Glezos tinha apenas 18 anos quando, a 30 de maio de 1941, ele e o amigo Apostolos Santas decidiram subir à Acrópole no meio da noite para retirar a bandeira com a suástica que os nazistas haviam hasteado junto ao Partenon, durante a ocupação da Grécia. Foi nessa noite que o estudante ganhou a aura de herói da resistência grega que o acompanharia até à morte, nesta segunda-feira, aos 97 anos.

O herói de guerra estava já hospitalizado desde o início do mês devido a uma gastroenterite e uma infecção urinária, tendo acabado por não resistir a uma parada cardíaca, anunciou a televisão estatal grega ERT. Em novembro, Glezos já tinha estado no hospital devido a problemas respiratórios.

Tropas alemãs hasteando a bandeira nazista na Acrópole, junto ao Partenon
 
Depois daquela noite de 1941, os nazistas condenaram à morte os responsáveis por retirar a bandeira da Acrópole, à revelia. E se Glezos e Santas terminaram sendo detidos pelos ocupantes em março de 1942, por outras atividades ligadas à resistência, acabaram por ser libertados um mês depois, uma vez que os nazistas desconheciam a identidade de quem tinha retirado a bandeira. Apostolos Santas morreu em 2011.

"Hitler disse num discurso que a Europa é livre. Quisemos mostrar-lhe que a luta estava apenas começando", afirmou Glezos à AFP em 2011, numa entrevista em que recordou como roubou a bandeira com o amigo. E lamentou que depois da guerra a Grécia tenha "conquistado a sua liberdade mas não a sua independência", numa referência à dependência do país de credores estrangeiros durante a crise.

Terminada a 2ª Guerra Mundial, Glezos foi eleito várias vezes para o Parlamento grego, com apoio dos comunistas, dos socialistas e de outros partidos da esquerda, tendo servido como deputado durante mais de seis décadas.

Manolis Glezos e Apostolos Santas

Em 2014, Glezos foi eleito para o Parlamento Europeu pelo Syryza, o partido de esquerda radical do então primeiro-ministro Alexis Tsipras, tornando-se no mais velho eurodeputado, aos 91 anos.

Apesar desse apoio, durante auge da crise económica grega, Glezos não hesitou em criticar as medidas de austeridade extremas impostas pelo governo, por pressão da União Europeia e do FMI, tendo feito campanha para obrigar a Alemanha a pagar à Grécia indenizações de guerra. Um dinheiro que queria ver usado para pagar os empréstimos internacionais que o país teve de fazer.

Fonte: Diário de Notícias


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A VERDADE SOBRE A RESISTÊNCIA FRANCESA: NEM TÃO AMPLA E NEM TÃO FRANCESA

.



O historiador Robert Gildea desmonta a versão oficial do que 
aconteceu na França durante a ocupação nazista



Por Guillermo Altares


O discurso nacional que a França construiu depois da Segunda Guerra Mundial é que o país foi libertado pela Resistência, com alguma ajuda dos aliados, e que “salvo um punhado de miseráveis”, nas palavras do general Charles de Gaulle, o resto dos cidadãos se comportou como verdadeiros patriotas. Nada mais distante da realidade. O professor britânico Robert Gildea desmonta essa imagem nacional, que já estava bastante fissurada, em seu novo livro, Combatientes en la Sombra (Combatentes na sombra, em tradução livre), que traça um minucioso retrato da ocupação no qual, mais que de Resistência Francesa, ele prefere falar de “resistência na França” pelo enorme número de estrangeiros que se juntaram à luta contra o nazismo.


A França foi derrotada e ocupada pela Alemanha. Quando foi libertada e unificada de novo, criou-se uma história única que afirma que todo o país alcançou a liberdade unido sob a liderança de De Gaulle e esse relato foi propagado por meio de medalhas, cerimônias, títulos”, explica Robert Gildea, professor de História Moderna do Worcester College da Universidade de Oxford, cujo livro será publicado nesta semana na Espanha pela Taurus, com tradução de Federico Corriente. Os esquecidos nessa história não foram apenas os espanhóis que fugiram do franquismo, mas também judeus da Polônia ou da Romênia, os comunistas e as mulheres, cujo trabalho como resistentes também foi subestimado.


O livro ainda não foi publicado na França – está previsto para o ano que vem –, mas recebeu excelentes críticas no ano passado no mundo anglo-saxão em veículos de comunicação como The Economist e The New York Review of Books, cuja resenha assinada pelo grande historiador de Vichy Robert O. Paxton se intitulava “A verdade sobre a Resistência”. Gildea, que publicou outros ensaios sobre a história da França nos quais estuda o mesmo período, reconhece que a imagem ideal da sociedade francesa já havia sido questionada em filmes como o documentário A Dor e a Piedade ou Lacombe Lucien, longa-metragem de Louis Malle, que teve como roteirista o escritor Patrick Modiano, que ganhou o prêmio Nobel. No entanto, seu estudo de 650 páginas, que usa tanto fontes documentais quanto entrevistas, é o mais completo escrito até agora do ponto de vista crítico sobre a Resistência durante a ocupação, entre 1940 e 1944. O enorme sucesso alcançado na França pelas seis temporadas da série Un Village Français (Um Vilarejo Francês) demonstra o quanto continua sendo um tema delicado e sempre atual.


Temos de estudar o que aconteceu na França no contexto da luta na Europa contra o nazismo, mas também do Holocausto e da Guerra Fria. Muita gente da Resistência combateu nas Brigadas Internacionais; são o que Arthur Koestler, que compartilhou cativeiro com eles, chamou de 'escória da Terra' num livro, gente que não tinha para onde ir. Muitos republicanos foram presos na França. O objetivo deles era acabar primeiro com os nazistas e depois com Franco, de fato, fizeram uma tentativa fracassada de invadir a Espanha em 1944. O relato simplista da libertação nacional francesa só fornece uma parte da história, não toda”, continua Gildea em uma conversa telefônica.


O papel dos comunistas também foi muito importante, especialmente durante a libertação de Paris. Durante muitos anos houve um confronto entre as duas versões, a gaullista e a comunista. Em 1944, os nazistas capturaram um grupo de resistência formado por comunistas e judeus da Europa de Leste e o usou como propaganda dizendo que eram 'criminosos estrangeiros', mas havia algo de verdade nisso”, afirma.


O livro de Gildea não estuda apenas os grandes movimentos históricos, mas está cheio de personagens como Jean-Pierre Vernant, um dos grandes helenistas franceses, que foi uma figura muito importante na Resistência, mas nunca quis se vangloriar disso. Quando a guerra terminou, durante a qual arriscou a vida muitas vezes, voltou para seus livros e seus clássicos. Também aparece Lew Goldenberg, filho de revolucionários russos de origem judaica próximos de Rosa Luxemburgo, que se negou a aceitar o armistício, ou Leon Landini, um jovem toscano que participou do descarrilamento de um trem alemão em outubro de 1942, quando tinha 16 anos.


E, naturalmente, estão os republicanos espanhóis, não apenas os membros de La Nueve, a mítica brigada que foi a primeira a entrar em Paris em agosto de 1944 e cujo papel foi silenciado durante anos – só em 2008 foram inauguradas placas mostrando o seu percurso. No livro aparecem combatentes como Vicente López Tovar, nascido em Madri em 1909, que passou a juventude em Buenos Aires, lutou na defesa de Madri e na Batalha do Ebro e, depois de fugir para a França, participou da organização do maquis. “A Guerra Civil tinha nos endurecido muito”, disse o próprio López Tovar a Gildea.


“Depois do desembarque na Normandia, em junho de 1944, houve uma guerra civil dentro da Segunda Guerra Mundial, não somente entre os resistentes e os nazistas, mas também com a milícia, a força paramilitar de Vichy”, diz o professor de Oxford. Em relação à ocultação do papel desempenhado pelas mulheres, Gildea explica que só foram contempladas com medalhas aquelas que participaram de ações militares, enquanto muitas mulheres trabalharam na organização da resistência, papel tão perigoso quanto o combate, mas nunca totalmente reconhecido. Tudo isso não significa que os franceses não tiveram nenhum papel, mas não foram os únicos heróis daquela guerra.



"O que esses espanhóis todos estão fazendo desfilando?"


A libertação de Toulouse, em 19 de agosto de 1944, foi coordenada pelas forças lideradas por Jean-Pierre Vernant, mas os republicanos tiveram um papel essencial. De fato, regiões como o Périgord ou cidades como Foix foram liberadas diretamente pelos espanhóis, coisa que não agradou muito De Gaulle. Gildea relata que o general visitou Toulouse muito rapidamente porque não queria perder nenhum pingo do controle sobre os territórios dos quais os nazistas estavam sendo expulsos. 

Os republicanos participaram do desfile da libertação com os capacetes dos soldados alemães pintados de azul. Quando De Gaulle viu isso, exclamou: “O que estão fazendo todos esses espanhóis desfilando com as Forças Francesas livres?”. É uma anedota que, para o historiador britânico, reflete a profunda mudança que estava acontecendo na narração da Resistência e na tomada do poder na França.


Fonte: El País

.