"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



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sábado, 30 de setembro de 2023

A HISTÓRIA DA INFÂMIA CASTILHISTA

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Por Ricardo Ritzel


A degola de inimigos é um capítulo macabro na história do período revolucionário rio-grandense. Macabro e cruel. Autores estimam que, entre 1893 e 1932, mais de mil combatentes, dos dois lados do conflito, foram executados desta maneira nas guerras e refregas gaúchas.

Mas o número total pode dobrar e até mesmo triplicar se contarmos os infelizes “desaparecidos” ou mortos “com discrição” longe do teatro de operações da guerra civil, como recomendava o presidente do Estado, Julio de Castilhos, para seus subordinados.

Como neste telegrama que o líder republicano enviou para o coronel Madruga, em Cacimbinhas (hoje Município de Pinheiro Machado), interceptado pela inteligência federalista.

– “Adversários não se poupa nem se dá quartel. Remeto armas e munições que pede. […] o inteiro desagravo da república ultrajada requer que, ultrapassados mesmo certos limites, com as devidas cautelas e discrição, sofram pela eliminação, o justo castigo que merecem […]. Castilhos”.

Também entram nessa infame soma os perseguidos políticos que sentiram a faca na garganta durante aquela estranha paz que o Rio Grande do Sul viveu entre uma e outra revolta armada, principalmente de 1895 a 1923. O certo é que não foi o gaúcho que inventou esse tipo de execução, que desde os tempos bíblicos é usada pela “humanidade” como forma de aterrorizar os inimigos.

Assim como é certo que, desde o século XVII, a gauchada do outro lado da fronteira usou e abusou deste recurso perverso para eliminar seus adversários. Tanto no Uruguai como na Argentina.

Alguns até se tornaram tristemente famosos por isto, como Manoel Oribe, o “Tigre de Palermo“, Juan Manuel Rosas, o “Corta Cabezas” e o general Facundo Quiroga, que tinha como lema e bandeira “sangue, terror, barbárie". Todos eles chegaram ao poder, e o exerceram, pela violência e terror. Todos com uma história de crueldade sem igual por estes lados do mundo.

Na verdade, o hábito de matar o adversário cortando a garganta está presente na cultura gaúcha, ou gaucha, desde os tempos coloniais. E foram os próprios exércitos imperiais de Portugal e Espanha que começaram a utilizá-lo com objetivo de dominar pelo medo.

Sepé Tiarajú que o diga, já que tão logo seu corpo caiu morto em Caiboaté, sua cabeça foi arrancada do corpo. E assim também na retomada das Missões, quando as milícias portuguesas usaram e abusaram desta triste prática para por as mãos, o mais rápido possível, nas terras indígenas reivindicadas por Artigas e Andrés Guasurarí para a Liga de Los Pueblos Libres.

Há também relatos de degolas praticadas durante a Revolução Farroupilha (e não foram poucos casos), mas literalmente esquecidas pela historiografia oficial, já que maculava a vida e a obra de alguns de seus principais líderes. Afinal, não fica bem para ninguém ter degolas no currículo.

E também não foram poucos os paraguaios que sentiram o fio de adagas rio-grandenses no pescoço durante a Guerra da Tríplice Aliança. Na verdade, a simples menção que havia tropas gaúchas por perto deixava em pânico a população daquele país, dividida entre o terror de Estado imposto por Solano Lopez e o tratamento dispensado pelas forças de ocupação. Consideravam a gauchada como um bando de bárbaros, tanto que chamavam a lendária cavalaria rio-grandense de “Cavalaria Loca” pelas suas arrojadas manobras em combate e também seu comportamento fora da peleja.


Revolução Federalista

Mas foi na Revolução Federalista de 1893 que a prática de degolar foi aprimorada com requintes de pavor. Tanto que até explicações “científicas”, como era costume se dizer na época, surgiram para justificar tão desumano ato.

“O gaúcho é, essencialmente, um criador de gado que tem maestria no manejo de lâminas. E, assim, vê sangue com naturalidade” diziam uns. “Na guerra de movimentos e de poucos recursos, não há condições de ter e fazer prisioneiros. Então, faca na garganta para economizar munição, tempo e alimentos”, concluíam outros.

Foi aí que surgiu também a classificação da degola, conforme a técnica que era utilizada. A primeira era chamada de crioula, corbata colorada ou castelhana: quando a faca passava, com um só corte, de uma orelha a outra do condenado. A segunda, conhecida como brasileira, ou científica, quando simplesmente faziam dois pequenos cortes exatamente sobre as carótidas do vivente, para verem a criatura se debater, alucinada, tentando segurar o próprio sangue. E, com o domínio dessas duas técnicas básicas, começaram a surgir nomes que se tornaram tristemente famosos, como dos maragatos Adão Latorre, coronel Furião, coronel Juca Tigre, Cezário Saravia e o uruguaio “El Rengo”, entre outros rebeldes menos conhecidos.

Os coronéis maragatos Adão Latorre e Manuel Rodrigues de Macedo (Fulião) também colocaram seus nomes na triste lista dos mais famosos degoladores


Aliás, não foram poucos que se alistaram nas tropas revolucionárias simplesmente para vingar um familiar ou ente querido morto desta maneira pela repressão castilhista. Talvez por isto, os pica-paus tenham uma lista bem maior de nomes inscritos na triste “arte” da gravata colorada. Afinal, ela era incentivada pelo Estado.

Foi assim com Xerengue, tenente Chachá Pereira, tenente Corbiniano, tenente-coronel João Alves, coronel João Francisco (também conhecido como a Hiena do Caty) e o mais famoso e também o maior degolador da revolta, o general cruz-altense Firmino de Paula.

Até 1893, antes mesmo de o conflito ser deflagrado, Firmino já tinha um longo histórico de violências e atrocidades contra adversários políticos na região do Planalto Médio gaúcho, como nos conta o historiador Rossano Cavalari, em seus livros já clássicos: Cruz Alta – Ninho de Pica-Paus e Os Olhos do General. Mas foi no Boi Preto, em abril de 1894, que ele foi alçado à fama de o maior degolador da revolução.

A história começa quando chefe federalista de Palmeira das Missões, Ubaldino Machado, reúne uma tropa de cerca de 400 combatentes e toma o rumo de Santo Ângelo. Nas imediações daquela cidade missioneira, travam combate com cerca de 300 legalistas e os vencem sem muito esforço, deixando mais de 40 inimigos mortos e outros tantos em uma corrida sem igual até Cruz Alta, cidade conhecida como um verdadeiro ninho de pica-paus. E lá, a Divisão do Norte, que vinha em perseguição a Gumercindo Saraiva, toma conhecimento do fato e também da localização e direção da coluna maragata de Ubaldino. Na mesma hora, o então coronel Firmino de Paula se separa do grosso da tropa e parte em busca dos rebeldes. No caminho, encontra e aprisiona um piquete de retaguarda de Ubaldino, descobrindo então, o local exato onde suas forças estão acampadas: o Boi Preto, na periferia de Palmeira.

1895 – Cavalaria do coronel João Francisco Pereira de Souza, a ‘Hiena do Caty’. Maragato que entrava vivo neste quartel, não saía vivo


Depois, degola todos os integrantes do piquete maragato e parte em direção ao acampamento rebelde. Naquela mesma noite, sem saber da iminente chegada de Firmino e sua gente e ainda acreditando no boato que não haveria mais combates e um tratado de paz seria assinado por aqueles dias, os revolucionários promovem um grande churrasco com a presença de mulheres “de vida fácil” e muito trago. Às cinco horas da madrugada, o líder pica-pau cruz-altense surpreende o acampamento de “borrachos” e ressacosos e os encurrala abaixo de tiros. No raiar do dia, e com garantias de vida, 370 maragatos se rendem e são amarrados com tiras de couro. Todos são obrigados a assim marcharem até Cruz Alta. No caminho, os prisioneiros foram sendo degolados e abandonados na beira da estrada para servirem de exemplo a outros rebeldes que ousassem passar perto daquela cidade.

As mortes não lhe perturbavam, nem os pedidos de clemência de um dos prisioneiros implorando insistentemente para ser solto. Era um primo-irmão de Firmino, Arthur Beck, que lhe serviu de enfermeiro determinada vez em Santa Maria, e que noutra vez, salvou seu filho de uma tenaz enfermidade. Firmino não lhe dirigiu o olhar, continuou imóvel, como em um êxtase macabro. Segundos depois, acelera o galope do cavalo e, ao se aproximar de seus imediatos, faz o fatídico sinal com a mão direita, cruzando-a pelo pescoço. Mais um lote de prisioneiros seria degolado. Entre eles, Arthur Beck, o seu "primo-irmão”, descreveu Rossano Cavalari.

E desta maneira, aos lotes, foram mortos os 370 prisioneiros rebeldes. Trinta perto do Boi Preto; Na Porteira, mais de cem; em Olhos D’Água, próximo a Cruz Alta, outros 140 homens; além de grupos de 10 a 20 prisioneiros que foram sendo deixados pelo caminho com a garganta cortada e cartazes o identificando-os como maragatos. E com ordens expressas de não removerem os cadáveres. Era exatamente o dia 5 de abril de 1894. Ao chegar a Cruz Alta, Firmino ainda enviou um cabotino telegrama a Julio de Castilhos, contando detalhes do fato:

Hoje, às 5 da manhã, bati em combate Ubaldino acampado em Boi Preto, morrendo 370 dos 500 maragatos, muitos deles oficiais […]. Não houve mortes entre nossa gente.  
Coronel Firmino de Paula, comandante da 5ª Brigada da Divisão do Norte.”

Não havia 500 guerrilheiros inimigos e também é difícil imaginar um combate com 370 mortos de um lado e nenhum do outro. Mesmo nas piores condições de guerra.

Firmino ainda veio a colocar seu nome em outro triste episodio da revolução de 1893. Quando Gumercindo Saraiva é atingido por dois tiros nos campos do Carovi e vem a morrer entre os chapadões da Estância Santiago, hoje Município de Bossoroca, ele foi um dos responsáveis pela exumação do corpo do mais famoso general maragato no Cemitério dos Capuchinhos, sua decapitação e o envio de sua cabeça para Porto Alegre como troféu de guerra para Julio de Castilhos.

Firmino de Paula, o general cruz-altense está diretamente ligado a nada menos que 1.070 degolas durante a Revolução Federalista de 1893-95.


E, mais triste ainda, sua Brigada caçou, maneou e amarrou pelo pescoço cerca de 800 maragatos (entre eles, muitas mulheres e crianças) que desertaram das fileiras revolucionárias logo após a morte de Saraiva. Sem muita demora, todos foram sumariamente degolados em frente a soldadesca ensandecida, também sob suas ordens expressas. Foi, então, que a fama de Firmino se espalhou pela Pampa. A má fama de degolador.

E esta horrenda prática também foi registrada na Revolução de 1923. Mas, em todo, em número bem menor que as de 1893-95. Muito por Flores da Cunha e Honório Lemes, dois dos maiores líderes daquela refrega, coibirem energicamente a degola de inimigos entre suas forças.

Não houve relatos de degolas nas revoluções de 1924, 25 e 26. E pelo menos uma degola durante a Revolução de 1930. Está aconteceu na divisa dos Estados do Paraná e São Paulo, onde forças paulistas faziam uma encarniçada e resistente defesa do território.

Conta a história que, quando combatentes gaúchos conseguiram entrar em uma das inúmeras trincheiras do inimigo, um combatente paulista se rendeu depois da morte de todos seus colegas. Logo depois, foi degolado na frente de seus companheiros de armas que, aterrorizados com a barbárie, saíram em uma fuga tresloucada.

Como era de hábito, o episódio foi “esquecido” pela historiografia oficial. Afinal, é a história da infâmia nas guerras gaúchas.


Fonte: claudemirpereira.com.br


domingo, 24 de maio de 2020

8 PERGUNTAS PARA ENTENDER A GUERRA CIVIL NA SÍRIA

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Um levante pacífico contra o presidente da Síria que teve início há oito anos transformou-se em uma guerra civil que já deixou mais de 400 mil mortos, devastou cidades e envolveu outros países.


O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) calcula que mais de 5 milhões já deixaram o país – o maior êxodo da história recente. 

Em 13 de abril de 2018, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que o país havia iniciado na madrugada anterior uma série de ataques aéreos na Síria em coordenação com a França e o Reino Unido. A operação foi uma resposta às evidências de um ataque químico na cidade síria de Douma, na semana passada. EUA e aliados denunciam que o ataque foi protagonizado pelo regime do presidente sírio, Bashar al-Assad, que por sua vez nega tal participação. Segundo o Pentágono, foram atingidos um centro de pesquisas científicas em Damasco, que seria ligado à produção armas químicas e biológicas, um local de armazenamento de armas químicas a oeste de Homs e outro armazém que também funcionava como importante posto de comando, na mesma região.

Entenda, a seguir, os últimos acontecimentos, a origem do conflito e suas consequências até agora.


1. Como a guerra começou?

Mesmo antes do conflito começar, muitos sírios reclamavam dos altos índices de desemprego, corrupção e falta de liberdade política sob o presidente Bashar al-Assad, que sucedeu seu pai, Hafez, após sua morte, em 2000.

Em março de 2011, protestos pró-democracia eclodiram na cidade de Deraa, ao sul do país, inspirados pelos levantes da Primavera Árabe em países vizinhos. Quando as forças de segurança sírias abriram fogo contra os ativistas - matando vários deles -, as tensões se elevaram e mais gente saiu às ruas. Os manifestantes pediam a saída de Assad. A resposta do governo foi sufocar as divergências, o que reforçou a determinação dos manifestantes. No fim de julho de 2011, centenas de milhares saíram às ruas em todo o país exigindo a saída de Assad.

Apoiadores da oposição pegaram em armas, primeiro para defender a si mesmos e depois para expulsar forças de segurança das áreas onde viviam. Assad prometeu acabar com o que chamou de "terrorismo apoiado por estrangeiros". Seguiu-se uma rápida escalada de violência, e o país mergulhou em uma guerra civil. Grupos rebeldes se reuniram em centenas de brigadas para combater as forças oficiais e retomar o controle das cidades e vilarejos. 

Em 2012, os enfrentamentos chegaram à capital, Damasco, e à segunda cidade do país, Aleppo. O conflito já havia, então, se transformado em mais que uma batalha entre aqueles que apoiavam Assad e os que se opunham a ele - adquiriu contornos de guerra sectária entre a maioria sunita do país e xiitas alauítas, o braço do Islamismo a que pertence o presidente. Isto arrastou as potências regionais e internacionais para o conflito, conferindo-lhe outra dimensão.


2. Quantas pessoas já morreram?

O Observatório Sírio de Direitos Humanos, uma ONG britânica que monitora o conflito com base em uma rede de fontes locais, registrou 353.900 mortes até março de 2018, incluindo 106 mil civis. Os dados não incluem 56.900 pessoas que estão desaparecidas e consideradas mortas. O grupo também estima que 100 mil mortes não foram documentadas. O enviado da ONU para a Síria, Steffan de Mistura, estimou que a guerra já matou 400 mil pessoas. Já o Centro Sírio para Pesquisa de Políticas, outro grupo de estudos, calcula que o conflito já tenha causado a morte de mais de 470 mil pessoas.

Enquanto isso, o Centro de Documentação de Violações, que recorre a ativistas na Síria, registrou o que avalia ser violações às leis de direitos humanos internacionais, inclusive ataques contra civis. Foram documentadas 185.980 mortes relacionadas ao conflito, entre elas as de 119.200 civis, até fevereiro de 2018.



3. Quem está lutando contra quem?

A rebelião armada evoluiu significativamente desde suas origens. Há um número de membros da oposição moderada secular lutando contra as forças de Assad. O Exército curdo, um dos grupos que os Estados Unidos estão apoiando no norte da Síria, faz parte da oposição.

Mas há também uma grande quantidade de radicais e jihadistas - partidários da "guerra santa" islâmica. Entre eles estão o autointitulado Estado Islâmico (EI) e a Frente Nusra, afiliada à al-Qaeda. Os combatentes do EI - cujas táticas brutais chocaram o mundo - criaram uma "guerra dentro da guerra", enfrentando tanto os rebeldes da oposição moderada síria quanto os jihadistas da Frente Nusra.

Os rebeldes moderados têm requisitado armas antiaéreas ao Ocidente para responder ao poderio do governo sírio. Mas Washington e seus aliados têm procurado controlar o fluxo de armas por medo de que acabem indo parar nas mãos de grupos jihadistas.


4. Qual é o envolvimento das potências internacionais?

Os principais apoiadores do governo são a Rússia e o Irã, enquanto os Estados Unidos, a Turquia e a Arábia Saudita apoiam os rebeldes. Na era Obama, os Estados Unidos culpavam Assad pela maior parte das atrocidades cometidas no conflito e exigiam que ele deixasse o poder como pré-condição para a paz.

Trump, por sua vez, dizia que derrubar o presidente sírio não era uma prioridade, mas sim derrotar o Estado Islâmico - e que Assad era um aliado nessa batalha. Após o aparente ataque químico ocorrido em abril, porém, seu discurso mudou. Os Estados Unidos, Reino Unido, França e outros países ocidentais forneceram variados graus de apoio para o que consideram ser rebeldes "moderados".

Uma coalizão global liderada por eles também realiza ataques contra militantes do Estado Islâmico na Síria desde 2014 e ajudou uma aliança entre milícias árabes e curdas chamada Forças Democráticas Sírias (FDS) a assumir o controle de territórios antes dominados por jihadistas.

Já a Rússia apoia a permanência de Assad no poder, o que é crucial para defender os interesses de Moscou no país. O país já tinha bases militares na Síria e lançou uma campanha militar aérea em apoio a Assad em 2015 que foi crucial para virar o andamento da guerra a favor do governo. Os militares russos dizem que os ataques têm como alvo "terroristas", mas ativistas afirmam que regularmente morrem rebeldes e civis. A intervenção russa possibilitou vitórias significativas das forças de Assad. A maior delas foi a retomada da cidade de Aleppo, um dos principais redutos dos grupos de oposição, em dezembro de 2016.

Bashar al-Assad e Vladimir Putin: apoio da Rússia

O Irã, de maioria xiita, é o aliado mais próximo de Bashar al-Assad. A Síria é o principal ponto de trânsito de armamentos que Teerã envia para o movimento Hezbollah no Líbano - a milícia também enviou milhares de combatentes para apoiar as forças sírias. Estima-se que os iranianos já tenham desembolsado bilhões de dólares para fortalecer as forças sírias, provendo assessores militares, armas, crédito e petróleo.

A Turquia apoia há tempos os rebeldes, mas concentrou esforços em usá-los para conter a milícia curda que domina a FDS, acusando-a de ser uma extensão de um grupo rebelde curdo banido do território turco. A Arábia Saudita foi um elemento-chave para conter a influência iraniana e também armou e financiou os rebeldes.

Ao mesmo tempo, Israel tem se preocupado muito com o envio de armas iranianas para o Hezbollah na Síria e tem realizado ataques aéreos para interromper isso.


5. Qual é o impacto da guerra?

Além de causar centenas de milhares de mortes, a guerra incapacitou 1,5 milhões de pessoas, entre ela 86 mil que perderam membros do corpo. Ao menos 6,1 milhões de sírios tiveram de deixar suas casas para buscar abrigo em alguma outra parte do país, enquanto outros 5,6 milhões se refugiaram no exterior.

Líbano, Jordânia e Turquia, onde 92% destes sírios refugiados vivem hoje, têm enfrentado dificuldades para lidar com um dos maiores êxodos da história recente. A ONU estima que 13,1 milhões de pessoas necessitarão de algum tipo de ajuda humanitária na Síria em 2018. Os dois lados do conflito pioraram essa situação ao se recusar a permitir o acesso de agências com fins humanitários a quem precisa de auxílio. Quase 3 milhões de pessoas vivem em áreas alvos de cerco e de difícil acesso. Os sírios também têm acesso limitado a serviços de saúde.

A organização Médicos por Direitos Humanos registrou 492 ataques a 330 instalações médicas até dezembro de 2017, o que resultou em 847 profissionais de saúde mortos. Grande parte do patrimônio cultural da Síria também foi destruído. Todos os seis locais considerados pela Unesco como patrimônio da humanidade sofreram danos significativos. Bairros inteiros foram arrasados em todo o país.


6. Como o país está dividido?

O governo reassumiu o controle das maiores cidades sírias, mas grandes partes do país ainda estão sob o comando de grupos rebeldes e da FDS. O principal reduto de oposição é a província de Idlib, no nordeste do país, onde vivem mais de 2,6 milhões de pessoas. Apesar de designada como uma zona onde não deveria haver hostilidades, Idlib é alvo de uma ofensiva do governo, que diz estar combatendo jihadistas ligados à Al-Qaeda.
Ataques por terra também estão em curso em Ghouta Oriental. Seus 393 mil residentes estão sob o cerco do governo desde 2013 e enfrentam intensos bombardeios, assim como uma grave falta de comida e de suprimentos médicos.


Enquanto isso, a FDS controla a maioria do território a leste do rio Eufrates, incluindo a cidade de Raqqa. Até 2017, esta era a capital do "califado" que o Estado Islâmico disse ter instaurado, mas, agora, o grupo controla apenas alguns bolsões na Síria.


7. Por que a guerra está durando tanto?

Um fator chave é a intervenção de potências regionais e internacionais. Seu apoio militar, financeiro e político tanto para o governo quanto para a oposição tem contribuído diretamente para a continuidade e intensificação dos enfrentamentos, e transformado a Síria em campo para uma guerra indireta.

A intervenção externa também é responsabilizada por fomentar o sectarismo no que costumava ser um Estado até então secular (imparcial em relação às questões religiosas). As divisões entre a maioria sunita e a minoria alauita no poder alimentou atrocidades de ambas as partes, não apenas causando a perda de vidas, mas a destruição de comunidades, afastando a esperança de uma solução pacífica.

A escalada de terror causada por grupos jihadistas como o EI - que aproveitou a fragilidade do país para tomar o controle de vastas partes de território no norte e leste - acrescentou outra dimensão ao conflito. Não há qualquer sinal de que o conflito chegará ao fim em breve, mas todos os lados envolvidos concordam que uma solução política é necessária.

Tropas do Exército Sírio em ação

O Conselho de Segurança da ONU pediu a implementação de um governo de transição "formado com base em consentimento mútuo". Mas nove rodadas de conversas de paz mediadas pela ONU desde 2014 obtiveram poucos progressos. Assad parece cada vez menos disposto a negociar com a oposição. Rebeldes ainda insistem que ele renuncie como parte de qualquer acordo.


8. Por que EUA, França e Reino Unido se uniram em novo ataque a alvos de Assad?

Os ataques realizados por Estados Unidos, França e Reino Unido contra a Síria foram uma resposta às evidências de uso de armas químicas pelo governo do presidente sírio, Bashar al-Assad. Os sintomas observados nas vítimas na cidade de Douma, um reduto rebelde na periferia da capital da Síria, Damasco, indicam possível uso de agentes neurotóxicos como o cloro e o gás sarin, que teriam provocado a morte de, pelo menos, 40 pessoas. Imagens chocantes de adultos e crianças sofrendo sintomas do que parecia ser um ataque químico correram o mundo.

"Ordenei as forças armadas dos Estados Unidos a lançar ataques precisos em alvos associados com instalações de armas químicas do ditador sírio Bashar al-Assad", disse Trump, na ocasião, em pronunciamento na Casa Branca.

Armas químicas são proibidas por acordos internacionais. Seu uso motivou o ataque de americanos e aliados contra três alvos - instalações químicas, segundo o Pentágono - em Damasco e em Homs. A Síria e a Rússia disseram que a acusação é uma farsa e negaram o uso de tais agentes.

Não é a primeira vez que Assad é acusado de usar armas químicas. Em 2017, 86 pessoas – 27 delas crianças – foram mortas em um incidente com uso de armas químicas em Khan Sheikhoun, na província de Idlib, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos. Tanto a Organização Mundial da Saúde quanto a instituição de caridade médica Médicos Sem Fronteiras disseram na época que as vítimas apresentavam sintomas consistentes de exposição a agentes que afetam o sistema nervoso.

Fonte: BBC



segunda-feira, 4 de março de 2019

CINCO PERGUNTAS PARA ENTENDER A GUERRA CIVIL NO IÊMEN, A PIOR CRISE HUMANITÁRIA DO MUNDO

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A guerra civil no Iêmen, o país mais pobre do mundo árabe, deixa 22 milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade, segundo os dados mais recentes da Organização das Nações Unidas (ONU), que considera essa a maior crise humanitária global em curso atualmente.



Só em 2018, 85 mil pessoas foram forçadas a deixar suas casas por conta do conflito iemenita, e o total de mortos ultrapassa 10 mil em três anos. É uma guerra que opõe duas potências do Oriente Médio. De um lado, estão as forças do governo de Abd-Rabbu Mansour Hadi, apoiadas por uma coalizão sunita liderada pela Arábia Saudita. Do outro, está a milícia rebelde huti, de xiitas, apoiada pelo Irã, que controla a capital, Sanaa.

Em meio à guerra, o país sofre com bloqueios comerciais impostos pelos sunitas, que impedem que ajuda humanitária e itens básicos, como comida, gás de cozinha e medicamentos, cheguem a 70% da população iemenita.

Os anos de conflito não só provocaram uma escassez aguda de alimentos como destruíram o sistema de saúde do país, dificultando o combate a uma grave epidemia de cólera. Em dezembro, o número de casos suspeitos de cólera alcançou 1 milhão.

A seguir, listamos alguns pontos do conflito para explicar o que acontece nesse país da Península Arábica:


1. Por que essa guerra importa para o resto do mundo?

O que acontece no Iêmen pode aumentar muito as tensões na região e os temores do Ocidente de ataques vindos do país à medida que ele se torna mais instável. As agências de inteligência consideram o braço da organização extremista Al-Qaeda na Península Arábica como o mais perigoso, por causa de seus conhecimentos técnicos e alcance global. O surgimento, na região, de novos movimentos afiliados ao grupo extremista autodenominado Estado Islâmico também é motivo de preocupação. O conflito entre os hutis e o governo também é visto como parte de uma batalha regional por poder entre os xiitas, liderados pelo Irã, e os sunitas, liderados pela Arábia Saudita.

Os países do Golfo Pérsico, que apoiam o presidente iemenita, Abd-Rabbu Mansour Hadi, acusam o Irã de apoiar os hutis (xiitas) financeiramente e militarmente, apesar de o Irã negar. O Iêmen é estrategicamente importante, porque está no estreito de Bab-el-Mandeb, que faz ligação com a África e é rota de navios petroleiros. Além disso, muitas potências lucram indiretamente com a guerra iemenita: a coalizão saudita que bombardeia o Iêmen compra armas de países como Estados Unidos, Reino Unido e França.

Mapa do Iêmen: impostante posição geopolítica no Golfo Pérsico

Questionado a respeito disso em março de 2018, o chanceler francês, Jean-Yves Le Drian, afirmou ser "verdade que há muitas armas sauditas (no conflito), mas também muitas armas iranianas". Só as empresas britânicas teriam lucrado £6 bilhões (R$27 bilhões, aproximadamente) com venda de armas à Árabia Saudita desde o início da guerra no Iêmen, segundo pesquisa da ONG War Child UK.


2. Como tudo começou?

Essa guerra tem suas raízes no fracasso de uma transição política que supostamente traria estabilidade ao Iêmen após uma revolta na sequência da Primavera Árabe, em 2011, que forçou a saída do poder do ex-presidente Ali Abdullah Saleh, após 33 anos – ele acabaria sendo morto em dezembro, acusado de traição. Na época, ele passou o comando do país para o seu então vice, Abd-Rabbu Mansour Hadi.

Hadi enfrentou uma variedade de problemas, incluindo ataques da Al-Qaeda, um movimento separatista no sul, a resistência de muitos militares que continuaram leais a Saleh, assim como corrupção, desemprego e insegurança alimentar. O movimento huti, que segue uma corrente do islã xiita chamada zaidismo e havia travado uma série de batalhas contra Saleh na década anterior, tirou proveito da fraqueza do novo presidente e assumiu o controle da província de Saada, no nordeste do país. Desiludidos com a transição, muitos iemenitas – incluindo os sunitas – apoiaram os hutis e, em setembro de 2014, eles entraram na capital, Sanaa, montando acampamentos nas ruas e bloqueando as vias.

Os rebeldes xiitas hutis entraram em Sanaa em setembro de 2014 e assumiram seu controle meses depois

Em janeiro de 2015, eles cercaram o palácio presidencial e colocaram o presidente Hadi e seu gabinete em prisão domiciliar. O presidente conseguiu fugir para a cidade de Áden no mês seguinte. Os hutis tentaram então tomar o controle do país inteiro, e Hadi teve que deixar o Iêmen. Alarmados com o crescimento de um grupo que eles acreditavam ser apoiado militarmente pelo poder xiita local do Irã, a Arábia Saudita e outros oito Estados sunitas árabes começaram uma série de ataques aéreos para restaurar o governo de Hadi.
Essa coalizão recebeu apoio logístico e de inteligência dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França.


3. O que aconteceu desde então?

Há três anos e meio, essa guerra está em curso e nenhum dos lados parece disposto a ceder. A ONU tentou, por três vezes, sem sucesso, negociar um acordo de paz. Forças pró-governo, constituídas principalmente por soldados leais ao presidente Hadi. sunitas de tribos do sul e separatistas conseguiram evitar que os rebeldes tomassem a cidade de Áden após quatro meses de uma batalha violenta, que deixou centenas de mortos.

Tendo assegurado um espaço no porto, tropas das forças de coalizão desembarcaram e ajudaram a expulsar os hutis para o sul. O presidente Hadi estabeleceu residência temporária em Áden, apesar da maioria de seu gabinete ter continuado exilada. Os hutis, no entanto, conseguiram manter um cerco na cidade de Taiz e lançar morteiros e foguetes através da fronteira com a Arábia Saudita.

Os jihadistas da Al-Qaeda na Península Arábica e rivais de organizações parceiras do Estado Islâmico têm tirado proveito do caos, confiscando territórios no sul e realizando ataques mortais, principalmente em Áden. O lançamento de um míssil em direção a Riad em novembro levou a Arábia Saudita a intensificar o bloqueio no Iêmen.

Uma coalizão internacional liderada pelos sauditas interveio no Iêmen em 2015

A coalizão alegou querer parar o contrabando de armas para os rebeldes do Irã, mas a ONU disse que as restrições poderiam desencadear "a maior crise de fome que o mundo já viu em décadas".


4. Qual o impacto na população?

A população tem suportado o caos da guerra e sido constantemente vítima do que o conselho de direitos humanos da ONU chama de "incessantes violações do Direito internacional". Os ataques aéreos da coalizão saudita foram as principais causas da morte de civis. A destruição da infraestrutura do país e as restrições de importação de comida, de medicamenteos e de combustível causaram o que a ONU diz ser uma situação catastrófica.
Mais de 20 milhões de pessoas, incluindo 11 milhões de crianças, precisam de ajuda humanitária imediata. Há 7 milhões de pessoas dependentes de ajuda para comer e 400 mil crianças sofrendo de desnutrição.

Ao menos 14,8 milhões estão sem cuidados básicos de saúde, e apenas 45% dos 3,5 mil postos de saúde estão funcionando e lutando para conter a maior epidemia de cólera do mundo, que até o final do ano passado havia resultado em 2.196 mortes. E 2 milhões de iemenitas estão desabrigados por causa da guerra, além dos 188 mil que fugiram para países vizinhos.

População do Iêmen vive uma situação de emergência alimentar


5. Por que há um racha entre os rebeldes?

O assassinato do ex-presidente Saleh por rebeldes, em dezembro, evidenciou um racha. Saleh era aliado dos hutis, mas foi considerado "traidor" por se dizer disposto a dialogar com a Arábia Saudita, que apoia o governo iemenita. Durante meses, houve sinais de que a aliança entre os hutis e os apoiadores de Saleh estava estremecida, o que se provou verdade com o assassinato do ex-presidente.

No dia 29 de novembro de 2018, conflitos entre os antigos aliados emergiram na capital Sanaa. Com cada um dos lados culpando o outro pela ruptura, no dia 2 de dezembro, Saleh apareceu na televisão dizendo à coalizão saudita estar aberto a um novo capítulo nas relações. Ele pediu à coalizão para interromper os ataques aéreos e afrouxar o bloqueio no país. Também se dispôs a um novo diálogo, o que foi bem recebido pela coalizão, mas visto como uma traição pelos hutis, que o assassinaram.

Fonte: BBC


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

HÁ 100 ANOS, O FIM DA SANGRENTA GUERRA DO CONTESTADO

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Por Tatiana Beltrão



Adeodato Ramos havia passado boa parte do gelado inverno catarinense de 1916 embrenhado na mata, fugindo de seus perseguidores. Depois de uma noite de geada, o último líder rebelde da Guerra do Contestado estava exausto. Ao sair da mata e sentar-se à beira da estrada para se aquecer ao sol, foi flagrado por uma patrulha. O “temido facínora”, o “sanguinário chefe dos fanáticos”, o “flagelo de Deus”, como o descreviam os jornais da época, entregou-se sem nem sequer esboçar resistência.


A captura dele, na virada de julho para agosto, marcaria o fim da guerra, que se arrastou por quatro anos e transformou a região do Contestado (área disputada por Santa Catarina e Paraná) no palco da revolta mais sangrenta do século 20 no Brasil.


Os rebeldes chegaram a se espalhar por uma área equivalente ao tamanho de Alagoas. Entre 1912 e 1916, eles enfrentaram as forças policiais e militares dos dois estados e do Exército. Os insurgentes eram movidos por motivos que iam do messianismo à luta pela terra. Eram contra o poder público e os coronéis locais. Reagiam ao impacto da construção de uma estrada de ferro, que os expulsou da terra onde viviam.


Estima-se que pelo menos 10 mil pessoas pereceram na região do Contestado, tanto nos combates quanto de fome e de doenças como o tifo, que se alastrou pelas “cidades santas” erguidas pelos revoltosos. Entre os mortos, milhares de mulheres e crianças.


A guerra mobilizou metade do efetivo do Exército: mais de 7 mil soldados, nos momentos de luta mais intensa.




Messianismo


A indefinição dos limites territoriais entre Santa Catarina e Paraná vinha desde o Império, e até a Argentina pleiteava a posse de áreas dos dois estados. O Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa aos catarinenses em 1904 e reafirmou sua decisão nos anos seguintes, mas a sentença era ignorada pelo governo paranaense. Nesse cenário de conflito, a revolta prosperou.


A guerra começou pequena, com um grupo reduzido de sertanejos (moradores desses campos do Sul, chamados de sertão na época) que em 1912 reuniu-se em torno de um curandeiro. José Maria seguia a tradição de outros dois curandeiros que haviam passado por lá anos antes e eram considerados “monges” pelos sertanejos. Ele também fazia profecias: anunciava uma monarquia celestial em que todos viveriam em comunhão, dividindo bens.


Dos seguidores do novo monge, muitos eram posseiros, sitiantes e pequenos lavradores que haviam sido expulsos das terras em que viviam pelo grupo americano responsável pela construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, do megaempresário Percival Farquhar.


Além da concessão, Farquhar ganhou do governo brasileiro as terras situadas às margens da ferrovia, uma vasta faixa de 15 quilômetros de cada lado.

 

Depois da construção da estrada de ferro, a região, coberta de matas de árvores nobres como a araucária, começou a ser desmatada. O empresário ergueu lá a maior madeireira da América do Sul na época e uma companhia colonizadora que, depois do desmate, venderia as terras a imigrantes europeus. Famílias que viviam no local foram expulsas por milícias armadas da empresa, com apoio das autoridades brasileiras.



Primeira batalha


O monge José Maria e os fiéis se instalaram em Taquaruçu, nos arredores de Curitibanos (SC). Temendo que o grupo fosse usado por inimigos políticos, um poderoso coronel da cidade pediu ao governo catarinense tropas para dispersar um “ajuntamento de fanáticos” que supostamente queria proclamar a Monarquia no Sul do Brasil.


Ao saber que a força policial havia sido chamada, os fiéis fugiram para Irani (SC), localidade que na época estava na área do Contestado.


A chegada do grupo foi vista pelo Paraná como uma investida de Santa Catarina para forçar a posse do território contestado. Em resposta, o Paraná enviou um destacamento policial para expulsar os supostos invasores. Em outubro de 1912, a ação terminou de forma trágica, com 21 mortos. Entre eles, o monge José Maria e o comandante das forças de segurança do Paraná, coronel João Gualberto.

Comandante João Gualberto (montado) a caminho da batalha, pouco antes de morrer em combate
 

Documentos históricos guardados no Arquivo do Senado mostram a reação dos senadores ao conflito. Dois dias depois da batalha, a morte do comandante foi anunciada no Plenário do Senado, sediado no Palácio Conde dos Arcos, no Rio.


O senador paranaense Generoso Marques falou aos colegas sobre a “horda de bandidos e fanáticos” que havia invadido o Paraná e leu um telegrama enviado pelo governador do Paraná, Carlos Cavalcanti, ao Congresso. O governador comunicava que o estado havia pedido ao presidente da República, Hermes da Fonseca, a intervenção de forças federais.

O senador catarinense Abdon Batista apoiou o colega:
— Esse acontecimento, ao mesmo tempo em que nos cobre de pesado luto, nos anima e nos incita na obrigação de secundar as forças do estado vizinho para que, de uma vez, sejam extirpados os elementos maus que procuram perturbar nossa vida de trabalho e progresso.


Ao longo do conflito, os dois estados trocariam acusações de incentivar os revoltosos e até de fornecer-lhes armas.



Exército encantado


Depois da morte do monge, os devotos se dispersaram. O messianismo, porém, permaneceu. No ano seguinte, difundiu-se a crença de que José Maria voltaria do céu, acompanhado do “Exército Encantado de São Sebastião”. Uma criança de 11 anos dizia ver o monge em sonhos pedindo aos fiéis que se preparassem para uma guerra santa. O grupo rebelde voltou a se reunir em Taquaruçu.


Agora não eram apenas os antigos seguidores do monge José Maria que se prepararam para a luta. Somaram-se a eles descontentes em geral: mais colonos expulsos, fazendeiros que se opunham aos coronéis, tropeiros sem trabalho, desempregados da obra da ferrovia e até ex-combatentes da Revolução Federalista (1893–1895), que tinham experiência com armas e contestavam a República.

Artilharia das forças paranaenses que seria usada nos ataques contra os sertanejos
 

— Num determinado momento, torna-se uma guerra de pobres contra ricos — diz o historiador Paulo Pinheiro Machado, autor do livro "Lideranças do Contestado". — Uma guerra daqueles que queriam formar suas comunidades autônomas, onde todos viveriam em comunhão de bens, o que era uma negação da própria ordem republicana, da concentração fundiária, do poder dos coronéis da Guarda Nacional e da força da polícia, do Exército e da companhia norte-americana ferroviária sobre eles.


Machado contesta a visão de que o fanatismo religioso de sertanejos pobres e ignorantes foi o principal combustível da revolta. O pesquisador sustenta que, paralelamente à crença na guerra santa, os rebelados haviam desenvolvido uma nítida consciência de sua marginalização social e política e de que “lutavam contra o governo, que defendia os interesses dos endinheirados, dos coronéis e dos estrangeiros”.



“Novo Canudos”


Na época, porém, a visão predominante na imprensa, refletida no Congresso Nacional, ignorava os problemas que motivaram a insurreição sertaneja. Em setembro de 1914, o senador Abdon Batista desqualificou no Plenário denúncias do deputado federal Maurício de Lacerda, do Rio de Janeiro, que afirmava que a usurpação de terras era a principal causa do conflito:

— É uma lenda. Essa gente não tem terras nessas zonas, o que querem é viver sem trabalhar.


Uma das poucas vozes dissonantes no Congresso, Lacerda disse à imprensa que o Contestado era “um novo Canudos” e defendia os revoltosos, “brasileiros donos de suas terras e que foram usurpados por uma empresa estrangeira”.

— As vítimas, como era natural, defenderam-se. O que se devia esperar? Que o Estado fosse em socorro daqueles homens, mas verificou-se o contrário — declarou aos jornalistas.


O deputado denunciava que dois influentes políticos paranaenses, “protetores da empresa estrangeira que havia se apoderado à força das terras dos sertanejos”, conseguiram que o governo mandasse forças para “defender os ladrões e matar brasileiros que licitamente defendiam suas propriedades”.


Esses políticos eram o senador Alencar Guimarães (que havia governado o Paraná) e o vice-governador Affonso Camargo.  Guimarães defendeu-se no Plenário do Senado.

— Nunca fui homem de negócios, jamais advoguei interesses de qualquer companhia nacional ou estrangeira que colidissem com interesse do Estado.



“Pavor e pena"


Expedições militares tentaram desmobilizar o movimento, atacando Taquaruçu. Depois de várias tentativas, o reduto foi destruído em fevereiro de 1914. A força militar bombardeou a comunidade de longe. Atingiu principalmente mulheres, crianças e idosos, pois a maior parte dos homens havia partido para formar outro reduto, o de Caraguatá.


Foi um massacre. Metralhadoras, canhões e até granadas foram usados no ataque. No livro A Campanha do Contestado, o militar Demerval Peixoto, que participou dos combates como soldado, reproduz o relatório do médico que acompanhou a expedição:


“Pernas, braços, cabeças, casas queimadas... Fazia pavor e pena o espetáculo que se desenhava aos olhos. Pavor motivado pelos destroços humanos; pena das mulheres e crianças que jaziam inertes por todos os cantos”.


A revolta da população contra o massacre só fez fortalecer o movimento, e os sertanejos começaram a expandir suas ações. Milhares de novos adeptos se mudavam para os redutos. Novas “cidades santas” surgiam. A maior delas, Santa Maria (que não tem relação com o município gaúcho homônimo), tinha 25 mil pessoas.


Ao mesmo tempo, o movimento se militarizou, com líderes “de briga” aliados aos religiosos. No inverno de 1914, os sertanejos começaram a saquear fazendas, roubando gado e comida e arregimentando pessoal (até sob ameaça) para reforçar os redutos. Passaram a atacar e ocupar cidades. Nos ataques, estações de trem e repartições públicas eram queimadas.


Com apoio dos governadores de Santa Catarina e Paraná, em 1914 o governo federal decidiu empreender uma grande operação militar para aniquilar a insurreição. Sob o comando do general Setembrino de Carvalho, 6 mil soldados rumaram para o sul do país. Além deles, 2 mil civis (chamados vaqueanos), a maioria integrantes das guardas privadas armadas mantidas pelos coronéis da região, foram contratados para auxiliar o Exército. A ordem do governo era clara: “acabar com os fanáticos”, como contou o próprio general Setembrino em suas memórias.

General Setembrino de Carvalho (de quepe branco) em estação em União da Vitória (PR)

 Quando o cerco aos redutos se apertou, começou a faltar comida, remédios e munição para os rebeldes. Sobreviventes relataram que, no final, comeram até couro de cintos e arreios para não morrer de fome. Para evitar deserções, alguns líderes, como Adeodato, impuseram um regime de terror nos redutos, executando os suspeitos de traição.


O reduto de Santa Maria foi destruído na Páscoa de 1915. Em telegrama a Setembrino, o capitão responsável pelo ataque detalha:

“Tomei e arrasei 13 redutos com enormes sacrifícios do meu heroico destacamento. Matamos em combate perto de 600 jagunços, não contando o grande número de feridos. Arrasei perto de 5 mil casas e 10 igrejas”.


Os últimos combates ocorreram em dezembro de 1915, e os rebelados, derrotados, se dispersaram. Houve rendições em massa das famílias sertanejas.


Os vaqueanos começaram então uma caçada aos últimos líderes rebeldes. Muitos deles foram mortos em execuções sumárias, mesmo depois de rendidos. Alguns vaqueanos ganharam fama por retirar sertanejos da cadeia para executá-los.



Acordo de limites


Com a captura de Adeodato Ramos, o último e mais temido líder dos rebelados, a guerra foi encerrada de vez, naquele inverno de 1916. Logo em seguida, em outubro, finalmente veio a assinatura do acordo de limites entre Santa Catarina e Paraná. Pressionados pelo presidente Wenceslau Braz, cada um dos dois estados teve que ceder um pouco. A partilha, porém, foi vista como favorável aos catarinenses, que ficaram com 28 mil dos 48 mil quilômetros quadrados da área contestada.


Na assinatura do acordo, no Palácio do Catete, no Rio, o governador de Santa Catarina, Felipe Schmidt, comemorou a paz, encerrando um “passado amargo” que fazia os dois estados se olharem com desconfiança, como “dois povos estranhos que aguardassem, de arma em punho, a hora da peleja”.


O governador do Paraná, Affonso Camargo, também exaltou a paz, mas deixou claro o ressentimento com um desfecho que considerava injusto. Ele justificou sua decisão de assinar o acordo mesmo assim citando a necessidade urgente de encerrar uma “luta fratricida sem precedentes”:

— Ali caíram sem vida oficiais do Exército, bravos soldados das forças nacionais e estaduais e milhares de sertanejos, na sua maioria laboriosos, em uma confusão desumana que dolorosamente impressionou todo o país.


Ao citar os sertanejos “em sua maioria laboriosos”, o governador reconhecia que o movimento, hoje visto como uma das maiores revoltas camponesas do Brasil, era mais que uma combinação de fanatismo e banditismo.


Essa consciência se ampliaria a partir dos anos 1970, explica o historiador Paulo Pinheiro Machado. Com a redemocratização do país, criou-se um ambiente favorável para a retomada da memória e dos estudos sobre a Guerra do Contestado.


No Senado, essa releitura histórica ficou patente numa sessão especial realizada em agosto de 2009 para lembrar a guerra. No Plenário, os senadores ressaltaram o caráter de revolta social do movimento, as injustiças cometidas contra a população pobre do Contestado e a ausência do Estado.


“Quando o Estado falta, não cumpre com seu dever, se omite, o resultado é este: as pessoas reagem”, disse o senador Raimundo Colombo, hoje governador de Santa Catarina.


O então senador Flavio Arns, do Paraná, afirmou que o governo desconsiderou uma população pobre para privilegiar empresários e fazendeiros.


Na época da guerra, uma rara visão lúcida do conflito veio justamente de um comandante do Exército, o jovem capitão Mattos Costa. Idealista, ele defendia uma solução pacífica e morreu em combate, em 1914. Ficou registrada em relatos militares sua concepção da guerra: “A revolta do Contestado é apenas uma insurreição de sertanejos espoliados nas suas terras, nos seus direitos e na sua segurança. A questão do Contestado se desfaz com um pouco de instrução e o suficiente de justiça, como um duplo produto que ela é da violência que revolta e da ignorância que não sabe outro meio de defender o seu direito”.



Último líder dos rebeldes ganhou fama de “demônio”


A Guerra do Contestado começou com um líder considerado santo — o monge José Maria — e terminou com outro tido como o próprio diabo — Adeodato Ramos.


“O demônio está encarcerado”, anunciou em agosto de 1916 o jornal O Imparcial, de Canoinhas (SC), referindo-se à captura de Adeodato, que tinha fama de assassino e era temido pelos próprios companheiros.

 

O repórter do jornal O Estado, de Florianópolis, porém, se surpreendeu ao entrevistar Adeodato na prisão:  “Nós, que esperávamos ver o semblante perverso de um bandido, cujos traços fisionômicos estivessem a denotar sua filiação entre os degenerados do crime, vimos, pelo contrário, um mancebo em todo o vigor da juventude, de uma compleição física admirável, esbelto, olhos de azeviche [pretos], dentes claros, perfeitos e regulares, e ombros largos”, escreveu, destacando a postura recatada do “célebre bandoleiro”.


O jornal O Dia, de Florianópolis, relatou que ele respondia aos policiais de forma serena e “tinha o olhar suave”.


Adeodato era uma figura controvertida. “É evidente que ele cometeu muitas atrocidades nos redutos, mas não era muito diferente de outros líderes rebeldes”, escreveu o historiador Paulo Pinheiro Machado, ressaltando que houve uma “demonização” do último líder rebelde, alimentada pelos próprios sertanejos.


Conta-se que, no julgamento, após a ouvir a sentença de 30 anos de prisão, o réu declamou no tribunal versos irônicos:


“Para tirar o mal do mundo / Tinha feito uma jura
Ajudei nosso governo / A quem amo por ternura 
Acabei com dez mil pobres / Que livrei da escravatura 
Liquidei todos os famintos / E os doentes sem mais cura 
Quem é pobre neste mundo / Só merece sepultura.”


Adeodato foi morto em 1923, numa suposta tentativa de fuga da prisão.



Fonte: Agência Senado

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