"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



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domingo, 19 de julho de 2020

O CERCO DE ANFÍPOLIS (357 a.C.)

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O cerco de Anfípolis (357 a.C.) foi uma vitória antecipada de Filipe II da Macedônia, que conquistou uma posição chave na Trácia, embora à custa de prejudicar permanentemente seu relacionamento com Atenas.


Anfípolis era uma cidade importante, localizada no interior, a leste de Calcutá. Foi fundada pelos atenienses na tentativa de controlar a costa da Trácia e as rotas comerciais para o Mar Negro. A posse de Anfípolis era um objetivo ateniense de longo prazo, embora a cidade só permanecesse em suas mãos por um curto período de tempo (entre a fundação da cidade em 437 a.C. e sua perda para os espartanos no ano 424 a.C. (seguida pela derrota ateniense na batalha de Anfípolis em 422 a.C.). Em 359 a.C., Atenas havia combinado uma aliança com Filipe II, talvez acreditando que ele prometera apoiar sua reivindicação à cidade.

Moeda contendo a efígie de Filipe II, rei da Macedônia

De acordo com Demóstenes, Filipe prometera entregar Anfípolis a Atenas, uma vez que ele controlara, em troca de Pydna, um porto macedônio que estava nas mãos de Atenas desde 346 a.C. No entanto, este foi um tratado secreto. A aliança libertou Filipe para concentrar tropas em suas fronteiras norte e oeste. Primeiro, ele derrotou as tribos paonianas, ao norte da Macedônia; depois, em 358 a.C., derrotou o rei Bardylis de Ilíria ( batalha do vale Erigon ou planície de Lyncus). Essas vitórias empurraram a fronteira da Macedônia para mais longe do coração da Macedônia.

Em 357 a.C., Atenas foi enfraquecida pela eclosão do Guerra Social (357-355 a.C.), desencadeada por uma série de revoltas contra o domínio ateniense. Logo depois, Filipe atacou Anfípolis, aproveitando a fraqueza ateniense ou porque essa fraqueza reduziu o valor da aliança ateniense. Seu pretexto era que o povo de Anfípolis estava mal disposto com relação a ele.

Segundo Diodoro, Filipe empregou suas armas de cerco e aríetes em um ataque severo e contínuo contra a parede. Logo, foi criada uma brecha no muro e suas tropas invadiram a cidade. Após a queda da cidade, Filipe exilou os que se opunham a ele, mas tratou o resto dos habitantes com indulgência. Demóstenes nos diz que dois enviados de Anfípolis - Hierax e Stratocles - chegaram a Atenas durante o ano 357 a.C. e pediram aos atenienses que tomassem a cidade.

O sucesso de Filipe preocupou Olinto, líder da Liga Calcídica. Olinto fez concessões para Atenas, mas sem sucesso. Eles também entraram em negociações com Grabus, um rei ilírio. Filipe respondeu com uma contraproposta. Ele prometeu ajudar a restaurar o controle da Liga em Potideia, que era um clérigo ateniense desde 361 a.C. e entregava o território fronteiriço de Anthemus. Os olintianos aceitaram a oferta de Filipe e concordaram com ele. Um dos termos era um acordo para não entrar em aliança com Atenas sem a presença de Filipe.

Hoplitas combatendo em Anfipolis


Logo depois de tomar Anfípolis, Filipe expandiu ainda mais seu poder na área. O rei trácio Cersobleptes tentou capturar o centro de mineração de Crenides, ao redor da montanha Pangaean. Este era um centro de produção de ouro e, assim, quando os crenidenses apelaram para Felipe, ele ficou feliz em ajudar. Cersobleptes foram forçados a voltar e as comunidades dispersas de Crenides estavam concentradas em uma cidade, com o novo nome de Filipos.

Ruínas das muralhas de Anfipolis

Logo após esses eventos, Filipe capturou Pydna, pelo menos de acordo com Demóstenes, com a ajuda de traidores na cidade.

Atenas respondeu à queda de Anfípolis declarando guerra a Filipe, desencadeando a "Guerra de Anfípolis", que duraria dez anos. Durante a década seguinte, os atenienses frequentemente planejavam ajudar os inimigos de Filipe, mas suas forças quase sempre chegavam tarde demais para ajudar, e a guerra acabou com a Paz de Filócrates (346 a.C.) , o mesmo acordo que levou ao fim da Terceira guerra sagrada.



quarta-feira, 20 de maio de 2020

O HEROÍSMO E OS VALORES OBSCUROS DE ESPARTA, A MÁQUINA DE GUERRA DA GRÉCIA ANTIGA

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O fato de associarmos o termo "espartano" a alguém que seja austero, sóbrio, firme, severo, sem frescuras não vem do acaso. Vem da história.

Por Emma Aston

Esses adjetivos estão relacionados a uma espécie de modelo ideal dos antigos espartanos, os habitantes de Esparta, no sul da Grécia Antiga, na península do Peloponeso. Eles eram guerreiros por excelência, criados desde a infância para suportar terríveis sofrimentos e dificuldades.

A personalidade espartana é perfeitamente resumida nos contos sobre a Batalha das Termópilas, em 480 a.C. Diante da marcha dos persas com o objetivo de invadir a Grécia, o rei de Esparta Leônidas colocou 300 espartanos para enfrentar a ofensiva na estreita passagem das Termópilas. Leônidas morreu depois que os arqueiros persas cumpriram a ordem de "escurecer o céu com flechas".

Embora não tenham conseguido deter os persas, os espartanos lutaram bravamente e deram suas vidas atrasando o progresso dos inimigos por uma semana inteira — ganhando assim um tempo precioso para seus companheiros gregos.


Disciplina e frases marcantes

Essa batalha representa muito do que é admirado nos espartanos: sua lealdade a uma causa maior que eles mesmos; sua devoção à liberdade e à preservação de sua terra natal.

E eles faziam isso exibindo um tipo de humor sombrio — familiar para nós hoje quando os heróis dos filmes, em momentos de ameaça, lançam frases icônicas como "Hasta la vista, baby" em O Exterminador do Futuro 2. Quando os persas exigiram que os espartanos deixassem suas armas, por exemplo, a famosa resposta de Leônidas foi: "Μολων λαβε" ou, em português, "Venha pegá-las!". E quando as flechas mortais dos arqueiros persas cobriram a luz do Sol, Leônidas brincou dizendo: "Excelente, agora lutaremos na sombra!".

Representação da Batalha das Termópilas por Jacques-Louis David (1748-1825); episódio alçou modelo ideal dos espartanos como grandes guerreiros

Também é admirável a persistência dos espartanos a fim de ter uma forma física robusta, dureza e resistência. Atualmente, esse povo dá nome a um tipo particularmente duro de pista de obstáculos, que desafia as pessoas a alcançarem seu melhor desempenho atlético e físico.

Além disso, diferentemente de outras partes da Grécia, há relatos de que as mulheres espartanas recebiam educação e se exercitavam, sendo também duronas e fortes.

Hoplita espartano, c.500 a.C.


Como os valores espartanos seriam encarados na contemporaneidade?

É preciso, porém, considerar alguns aspectos antes de aceitarmos os espartanos como um ícone perfeito de nossos valores modernos.

Por exemplo, eles podem ser apropriados por extremistas. Na Alemanha da década de 1930, os espartanos foram uma inspiração militar e estética. Eles chegaram também a ser uma referência para o que seria a ancestralidade mestra da raça ariana, essencialmente legitimando o antissemitismo e outras formas de xenofobia.

Outra questão é se hoje realmente queremos reviver o modelo espartano de masculinidade. A emoção era reprovada; o indivíduo não era nada, o Estado era tudo.

À medida que percebemos hoje a importância de as pessoas se expressarem, em vez de reprimir suas emoções, talvez o ideal espartano de masculinidade comece a se distanciar de algo que queremos.

Batalhas e tipos de Esparta inspiram diversas produções culturais da modernidade - mas o quanto nós seríamos capazes de realmente incorporar o modelo deste povo antigo?


Não é por acaso que os espartanos inspiraram o sistema de educação pública britânica dos séculos XIX e XX, em que os ideais de disciplina, resistência e austeridade eram primordiais.

Até a dureza das mulheres espartanas é suspeita. Fontes antigas nos dizem que seus corpos eram treinados não para seu benefício individual, mas sob o ideal da gestação de crianças fortes. E, quando estas cresciam, as mães precisavam ver com resignação seus filhos morrerem em batalhas. Segundo registros do autor Plutarco, as espartanas diziam a seus maridos na véspera da guerra: "Volte com seu escudo ou em seu escudo." A ideia por trás disso é a de que os espartanos mortos eram levados para casa sobre seus escudos; apenas um covarde largaria essa proteção e fugiria.

Evocar Esparta hoje é frequentemente uma maneira de tentar recuperar valores que para alguns estão perdidos ou prestes a desaparecer, como os de resiliência e abnegação.
No entanto, historiadores há muito desafiam a veracidade do antigo estereótipo dos espartanos.

Por décadas, esses pesquisadores vêm tentando apresentar outra versão de Esparta, com uma cultura mais rica, por exemplo - com arte, música e preceitos muito mais complexos do que o que tradicionalmente lhes foi atribuído.

No entanto, não há sinais de que estamos verdadeiramente abrindo mão do modelo ideal espartano. Somos apegados demais a este estereótipo para cedermos em favor de uma realidade mais matizada.

Fonte: BBC


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

IMAGEM DO DIA - 29/01/2016

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Durante a Batalha de Plateia (479 a.C.), uma falange grega ataca tropas persas na planície.




quinta-feira, 4 de junho de 2015

OS TREZENTOS DE ESPARTA E SUAS REPRESENTAÇÕES ARTÍSTICAS




O feito dos espartanos nas Termópilas vem sendo celebrado constantemente pela humanidade no último milênio e meio.  Poetas como Simónides de Céos, Cícero, Lord Byron e até Luís de Camões fizeram alusões a Leônidas e seus 300 homens em algumas de suas obras.  Estátuas e pinturas ressaltando o feito – como o óleo de Jacques-Loius David, Leônidas nas Termópilas, obra típica do romantismo europeu, atualmente exposta no Louvre, em Paris – podem ser vistas em museus de todo o mundo.

 A tela Leônidas nas Termópilas, de Jacques-Louis David, em exposição no Louvre


A literatura também contemplou essa saga inesquecível em Gates of fire: an epic novel of the Battle of Termopylae (1998), de Steven Pressfield.  Mas foi na sétima arte que o legado dos 300 de Esparta ficou mais evidenciado dentro de nossa cultura de massa.  Em 1962, o polonês Rudolph Mate dirigiu o épico The 300 spartans.  Ais recentemente, Zack Snyder dirigiu 300 – estrelado por Gerard Butler e pelo brasileiro Rodrigo Santoro -, baseado na minissérie em quadrinhos que Frank Miller produziu em 1998, contando sua versão para os fatos.

 Os quadrinhos 300, de Frank Miller

Em uma entrevista ao jornal The New York Times, na época do lançamento do filme, Miller declarou que o mais fascinante da saga de Leônidas e seus comandados é a noção de que os heróis não têm que ser necessariamente invencíveis: “Eu estava acostumado a ver o Super-Homem socando planetas.  Foi uma epifania perceber que o herói não é necessariamente o cara que vence.  Como escritor eu tendo a criar personagens que podem morrer esgarçados pelo mundo, que perdem os combates mas conquistam a vitória moral.”   

O artista estava ainda mais preocupado com a possibilidade de ver a obra que criou chegar aos cinemas: “300 era a jóia da coroa da minha carreira e significa muito para mim.  Vê-lo homogeneizado em algo como Troia, que praticamente vira a Ilíada do avesso, seria uma traição para mim.”

Já o diretor Zack Snyder, de acordo com o que cansou de declarar durante as turnês de lançamento do filme, não se sentiu tão pressionado assim por Miller: “A coisa foi bem estressante para mim no começo, mas logo Frank ficou totalmente à minha disposição dizendo que faria tudo que eu precisasse, mas que o filme era meu e iria detonar.  Isso, às vezes, foi duro de ouvir, porque a responsabilidade ficava totalmente nas minhas mãos.  Era como se ele dissesse: ‘não vá ferrar com tudo.’  Quando viu o filme, Frank me disse o seguinte: ‘Olha, escrevi essa história porque assisti a um filme chamado Os 300 de Esparta quando era menino.  Depois que vi sua versão da minha história em quadrinhos, compreendi que desejara que o filme que eu havia visto fosse o seu, não o que de fato vi’.”

 
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sábado, 23 de fevereiro de 2013

ESPARTA - A CIDADE GUERREIRA

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Mesmo para os turistas do Império Romano, gente mais do que acostumada a espetáculos sangrentos, aquela era uma atração especial. O sucesso era tanto que, por volta do ano 200 da nossa era, até a construção de um anfiteatro em volta do templo foi autorizada, para que os visitantes pudessem acompanhar cada detalhe do ritual. Um adolescente nu tentava apanhar o queijo depositado sobre o altar da deusa Ártemis, enquanto um dos sacerdotes o chicoteava sem dó, fazendo o sangue espirrar no altar. O jovem que aguentasse mais era saudado como campeão – isso quando tinha a sorte de sobreviver à cerimônia. Os estrangeiros provavelmente deixavam o anfiteatro romano muito satisfeitos: tinham testemunhado um legítimo costume da lendária cidade-estado de Esparta.

Para muita gente, a imagem de um adolescente torturado resume à perfeição o significado de Esparta para a história. Na escola, aprendemos que, entre as cidades gregas de 2500 anos atrás, Atenas foi o berço da democracia e da liberdade de pensar e criar que valorizamos tanto, enquanto os espartanos viviam sob um regime totalitário, cuja única preocupação era a guerra, e submetiam os jovens ao treinamento militar mais desumano do planeta. Desse ponto de vista, passar de superpotência grega a parque temático sadomasoquista teria sido um destino mais do que merecido.

Acontece que, assim como a visão dourada de Atenas, essa imagem dos espartanos não passa de caricatura. Em quatro grandes batalhas contra os persas os espartanos ajudaram a proteger o que seria a origem do mundo ocidental. Por mais estranho que isso soe agora, Esparta esteve entre as primeiras cidades gregas a criar um governo constitucional, onde todo cidadão era igual diante da lei, e seus exércitos foram vistos como libertadores perto da ambição de Atenas. Por tudo isso, vale a pena tentar enxergar através das distorções que cercam a cidade mais controversa da Grécia.


Conquistadores

Mito e arqueologia concordam num ponto: Esparta é um produto do primeiro grande desastre da história grega. Até por volta do ano 1200 a.C., o Peloponeso (como é conhecida a região do extremo sul da Grécia, onde fica a cidade) estava cheio de pequenos reinos. Inscrições e objetos achados nos palácios do Peloponeso mostram que seus habitantes já falavam uma forma primitiva de grego e levavam uma vida de luxo, comerciando cerâmica, metais preciosos e marfim com o Egito, a Palestina e a atual Turquia.

Uma onda de invasões e saques, porém, acabou com essa vida mansa. Boa parte dos grandes palácios do Peloponeso foi queimada, e a região voltou a ter um estilo de vida rústico e rural durante cerca de um século. É então que, pouco antes do ano 1000 a.C., como sugerem mudanças na cerâmica e em outros objetos do dia-a-dia, chegou ali um novo povo: os dórios, ancestrais dos espartanos.

Na mitologia grega, a chegada dos dórios ficou conhecida como “o retorno dos filhos de Héracles”. Os descendentes desse herói - conhecido entre nós como Hércules - seriam os legítimos herdeiros dos reinos do Peloponeso, expulsos injustamente de lá. Mas os filhos de Héracles reuniram um exército, formado por três tribos do norte da Grécia, e recuperaram no braço o que era seu. A parte da herança é claramente invenção para legitimar a invasão, mas os dórios realmente tinham uma origem étnica comum e falavam um dialeto nortista.
 
 
Hoplitas espartanos em formação
 
 
 Parte dos recém-chegados ocupou a Lacônia, o vale fértil do rio Eurotas, e fundou quatro vilarejos perto de um assentamento da época dos palácios. Por volta do ano 900 a.C., as aldeias se uniram politicamente para formar Esparta. Unificada, a cidade partiu para uma expansão das mais respeitáveis. Toda a Lacônia caiu nas mãos de Esparta: alguns habitantes - provavelmente os que resistiram aos ataques - engrossaram as fileiras dos servos, chamados de “hilotas”, enquanto outras aldeias conseguiram manter a autonomia interna, desde que reconhecessem a soberania espartana. Os moradores desses lugares ficaram conhecidos como periecos (“os que habitam em volta”). A expansão foi até por volta do ano 700 a.C., quando a cidade, sozinha, dominava dois quintos do Peloponeso.


Democráticos

Tantas conquistas, claro, trouxeram prosperidade. “Historiadores como o francês Claude Mossé consideram que, já no século 7 a.C., Esparta tem uma aristocracia amante das artes e desenvolve atividades comerciais marítimas”, diz a historiadora Maria Aparecida de Oliveira Silva, autora do livro Plutarco Historiador. Os poetas e músicos de Esparta ficaram conhecidos na Grécia inteira, e sua elite levava uma vida luxuosa, com finos objetos de bronze e metais preciosos fabricados localmente ou importados da Ásia. No entanto, há indícios de que só alguns espartanos se beneficiaram de verdade com as vitórias, virando senhores do grosso das novas terras, enquanto outros empobreciam. Em outras palavras: tensão social – que veio acompanhada por problemas militares para conter as constantes rebeliões.




A tradição espartana, que chegou até nós por relatos de historiadores como Heródoto, Xenofonte e Plutarco, diz que a solução para esses problemas foi bolada pelo sábio Licurgo, tio e tutor de um dos reis da cidade. Ele teria implantado uma reforma política profunda. Todos os cidadãos – ou seja, todos os homens livres de Esparta – passaram a eleger os 28 membros da Gerúsia, o Conselho dos Anciãos, encarregado de elaborar as leis da cidade. Os reis continuaram a ter uma série de privilégios simbólicos (o mais bizarro era o direito de ficar com a pele e o lombo de todos os animais sacrificados aos deuses), mas, na prática, viraram simples generais hereditários. O poder de decisão final ficava nas mãos do damos – o povo, versão dória da palavra que é uma das raízes do termo “democracia”.

Reunidos em assembléia, os homens de Esparta podiam aprovar ou vetar as propostas da Gerúsia, usando um método que parece ter saído de um programa de auditório – o “sim” ou o “não” ganhava dependendo da quantidade de barulho produzida de cada lado. Houve também uma reforma agrária: cada espartano recebeu um lote de terra suficiente para sustentar sua família. A reforma se completou mais tarde com o surgimento dos éforos, 5 magistrados eleitos anualmente por todos os espartanos que, na prática, passaram a deter a maior parte do poder de executar as leis.

Na época em que foi criado, esse sistema era revolucionário. O Oriente Médio ainda era dominado por monarcas absolutos, considerados semideuses. Atenas, futuro símbolo da democracia, estava nas mãos de um grupo minúsculo de famílias nobres e ricas, assim como outras cidades gregas. Esparta parece ter inventado a idéia de que mesmo um plebeu pobre tinha o direito de eleger seus representantes e ser eleito, e de que ninguém, nem mesmo os reis, estava acima da lei. Não é só conversa: a história espartana está cheia de relatos sobre soberanos que pisaram na bola e foram presos ou exilados. Os hilotas e periecos, é verdade, continuavam sem direitos políticos – mas o mesmo valia para a massa de escravos em todas as outras cidades gregas.

A partir daí, numa sociedade quase democrática, começou a se criar a futura fama de Esparta como potência militar. Também por volta do século 7 a.C., os gregos passavam por uma revolução na arte da guerra. Antes, o costume era que só os nobres e sua guarda pessoal lutassem, e os combates não passavam de expedições pequenas para roubar o gado ou as mulheres da vila vizinha. Mas a população e a riqueza da Grécia tinham crescido, e os conflitos cresciam na mesma proporção. O ideal era juntar o máximo possível de soldados no campo de batalha. Os exércitos das cidades-Estado passaram a agir como grandes unidades: os guerreiros, usando pesadas armaduras de bronze e lanças, só eram eficazes lutando em conjunto. O escudo protegia só o lado esquerdo de quem o carregava: o outro lado do corpo era resguardado pelo escudo do soldado ao lado. Se alguém fraquejasse, todos eram prejudicados. Ora, se a massa dos cidadãos passa a ser importante na guerra, a cidade não tem como se defender sem eles. Isso coloca um poder considerável nas mãos do damos de Esparta: o povo ganha força para exigir direito de voto ou uma fazenda nos arredores.

O sucesso das reformas foi indiscutível. Enquanto a Grécia inteira passou do século 7 a.C. ao 5 a.C. sofrendo com ditadores e revoluções, Esparta virou um oásis de estabilidade.


Educação de guerreiros

Para manter as conquistas e o sistema político, todo cidadão de Esparta passou a ser preparado desde pequeno para ser um supersoldado. O treinamento era conhecido simplesmente como agogué (“criação”, em grego). “A única descrição da agogué que temos é do ateniense Xenofonte, que escreve tarde, por volta do ano 400 a.C.”, afirma o historiador Paul Cartledge, da Universidade de Cambridge (Reino Unido). Segundo Xenofonte, os testes começavam no nascimento: os bebês eram lavados com vinho e levados aos anciãos de seu clã para inspeção. Os disformes ou fracos demais eram abandonados para morrer (Até aí, nada de mais: todos os gregos praticavam o infanticídio em situações parecidas.). Os meninos ficavam até os 6 anos com a mãe; depois, passavam a ser criados em pequenos grupos por um supervisor, dormindo em barracões, aprendendo a cantar, dançar (exercícios adequados para se acostumar ao ritmo da marcha militar), ler e escrever.

Quando chegava a adolescência, o cabelo dos garotos era raspado. Eram obrigados a usar apenas um manto leve, fizesse chuva ou sol, e a andar descalços o tempo todo. Recebiam pouca comida; podiam complementar a dieta roubando, mas, se fossem apanhados, levavam uma surra terrível. As chibatadas às vezes vinham em rituais religiosos, como o descrito no começo desta reportagem.

Adolescentes espartanos sendo educados na arte da guerra

Aprendiam a falar só o essencial – daí a expressão “laconismo”, derivada da Lacônia, o vale fértil onde Esparta foi fundada. “Seria mais fácil ouvir as vozes de estátuas de pedra do que as daqueles rapazes”, afirma Xenofonte. Os jovens praticavam a dança e o canto, em cerimônias elaboradas que simulavam os movimentos da guerra. Relacionamentos amorosos entre adolescentes e rapazes mais velhos eram comuns e até incentivados – os adultos eram considerados mentores dos mais novos.

Aos 19 anos, o rapaz se tornava soldado pleno, mas ainda não era considerado cidadão. Deixava crescer o cabelo – todos os espartanos adultos tinham longas madeixas, que enfeitavam com flores. Podia se casar, mas ainda não tinha permissão de passar a noite com a mulher. Isso – junto com os outros privilégios da cidadania, como votar – só era possível quando ele fazia 30 anos. Uma última obrigação o acompanhava pelo resto da vida: fazer diariamente as refeições com sua unidade de combate, geralmente formada por 15 guerreiros espartanos. O prato principal costumava ser a intragável sopa negra, feita com cevada, sangue e carne de porco.

Esse sistema tornava os espartanos resistentes e corajosos, mas sua principal função era criar espírito de equipe. A lenda de que os soldados de Esparta nunca se rendiam ou recuavam é balela: não havia vergonha nenhuma em baixar as armas se essa fosse a ordem do rei ou do general. Abandonar os companheiros é que era considerado intolerável, porque um escudo a menos na formação significava expor todo mundo ao risco de morte.

Não havia glória maior do que tombar na linha da frente, morrendo lado a lado com os companheiros: essa, para os espartanos - e para a maioria dos outros gregos - era a “bela morte”. Mas eles só agiam como kamikases quando não havia outra escolha. Uma frase registrada pelo historiador grego Tucídides é emblemática. Perguntaram a um espartano capturado se os colegas mortos tinham sido mais valentes que ele. “As flechas seriam muito espertas se conseguissem distinguir os valentes dos covardes”, retrucou o guerreiro. “Essa é uma coisa na qual o filme 300 acerta: ele mostra esse humor negro com o qual os espartanos enfrentavam a guerra”, diz Paul Cartledge.

Outro ponto que sempre se omite sobre Esparta é a condição das mulheres. Elas levaram uma vida bem melhor que as do resto da Grécia. Eram incentivadas a praticar exercícios físicos e a ficar ao ar livre, ao contrário das atenienses, quase sempre trancadas em casa. Também podiam herdar terras. “No entanto, isso não quer dizer necessariamente que as mulheres de Esparta fossem vistas pelos homens de forma diferente das outras gregas”, diz Isabel Romeo, historiadora da UFRJ que estuda o tema. “Para os gregos, a função da mulher era sempre ter filhos saudáveis. A diferença é que os espartanos achavam que, para desempenhar, ela precisava ter uma vida ativa”, afirma.


Defensores

O engraçado é que, embora o Exército espartano fosse mais poderoso do que nunca, a expansão direta da cidade parou. “Esparta temia que as cidades vizinhas apoiassem as revoltas dos servos e procurou alguma forma de convivência pacífica com elas”, diz Robin Osborne, da Universidade de Cambridge. Os espartanos forjaram uma aliança que acabaria englobando todo o Peloponeso. As cidades-Estado tinham voz nas decisões, mas era Esparta a cidade líder, que tinha mais peso na hora de ditar a política externa do bloco e decidir como e quando guerrear.

Hoplitas espartanos enfrentando os persas

Essa liderança relativamente democrática acabou sendo providencial para a Grécia. Enquanto as cidades-Estado continuavam brigando entre si, o Império Persa nascia e virava um gigante no Oriente, o grande inimigo dos gregos. Por volta de 540 a.C., as cidades gregas da Ásia caíram nas mãos dos persas. O novo império trouxe paz e estabilidade à região, mas também sufocou os desejos gregos de uma política mais democrática (os persas apoiaram ditadores fantoches por ali). O bolso grego também foi afetado, porque a Pérsia cobrava impostos ferozes e mutilava o comércio. Os gregos da Ásia se revoltaram, com o apoio de Atenas, mas levaram uma sova. A ajuda ateniense era a desculpa perfeita para a Grécia européia ser incluída no alvo das invasões. Assim pensou o rei persa Dario, cujo exército desembarcou perto de Atenas no ano 490 a.C.

Nas primeiras batalhas, os persas foram totalmente derrotados. Mas até as pedras do Eurotas sabiam que a coisa não ia ficar por isso mesmo. Xerxes, filho e sucessor de Dario, jurou vingança e preparou o maior exército que o mundo já tinha visto (talvez 120 mil soldados) e a maior marinha (cerca de 1000 barcos) para invadir a Grécia. Nenhum dos súditos do rei tinha muita escolha nessa história: todas as regiões do império tinham de contribuir com sua cota de homens, e a palavra de Xerxes era lei sagrada. Atenas e Esparta (que tinha apoiado os atenienses na primeira invasão) estavam no topo da lista negra de Xerxes. A lenda, reproduzida no filme 300, conta que as duas cidades tinham atirado dentro de um poço os mensageiros do rei, que pediam terra e água como sinal de submissão, dizendo: “Aí tendes terra e água”.

Além de enfrentar o reino mais poderoso da época, a Grécia tinha que lidar com a desunião interna. Na primavera de 480 a.C., quando a segunda onda de invasões persas começou, poucas cidades gregas queriam saber de aliança. “De 700 cidades-Estado que poderiam ter se unido à resistência, só cerca de 30 o fizeram”, diz Cartledge. Dessas poucas cidades corajosas, metade integrava o grupo dos “lacedemônios”, como eram chamados os espartanos e aliados, grupo que hoje nós chamamos de Liga do Peloponeso. “A resistência simplesmente não teria sido possível sem a Liga do Peloponeso”, diz o historiador de Cambridge. A ela se juntaram Atenas e pequenas cidades, como Plataia.

O comando supremo, tanto na terra quanto no mar, ficou nas mãos de Esparta, já que ela era a líder do bloco que formava o coração da resistência. Mais do que o comando, porém, os aliados tinham do seu lado os soldados espartanos, “a infantaria pesada mais bem treinada da Grécia – na verdade, a única infantaria profissional de que os gregos dispunham”, afirma Peter Green, professor da Universidade do Texas em Austin e um dos principais especialistas nos conflitos entre gregos e persas.

Os líderes espartanos nem sempre estiveram à altura de seus guerreiros. Há sinais de que a cidade e os outros membros da liga queriam se arriscar o mínimo possível fora do Peloponeso. Essa é uma das explicações (além da coincidência de um festival religioso, durante o qual Esparta normalmente não guerreava) para o fato de que o rei Leônidas tenha levado consigo só 300 espartanos para o desfiladeiro das Termópilas, no centro-norte da Grécia. A missão dos 300, ao lado de cerca de 7 mil aliados gregos, era tentar impedir o avanço de Xerxes em terra, enquanto a frota grega adotava a mesma estratégia no mar, no estreito de Artemísio.

Por três dias, Leônidas e os 300 – que foram vistos penteando os longos cabelos com toda a calma quando os primeiros persas surgiram – detiveram forças imensamente superiores e mataram dois irmãos de Xerxes. Mas sua retaguarda não estava bem coberta. Graças a um grego traidor, Leônidas acabou cercado e lutou até a morte com seus homens e mais 1000 voluntários aliados, ganhando tempo para que o resto do exército fugisse. Xerxes mandou decapitar o rei e crucificar seu corpo.

A sorte grega deu uma guinada cerca de um mês depois, quando a frota aliada destroçou as trirremes persas na ilha de Salamina, perto de Atenas. O próprio Xerxes decidiu voltar para a Ásia e, no ano seguinte, suas forças terrestres foram esmagadas pelo sobrinho de Leônidas. Os persas jamais pisariam outra vez na Grécia européia.

Rei Leônidas I de Esparta, líder militar na Batalha das Termópilas


Personagens

Depois de botar os estrangeiros para fora, a Grécia pôde viver seu esplendor. Em Atenas, um ano depois de os persas darem no pé, nasceu Sócrates, um dos grandes alicerces da filosofia ocidental, seguido por Platão e Aristóteles. Com os invasores contidos, a obra deles e de pensadores anteriores, como Tales de Mileto e Pitágoras, pôde sobreviver até hoje. Em 438 a.C., no lugar de um antigo templo destruído pelos persas, Atenas construiu o Partenon, símbolo máximo do período clássico grego.

No entanto, já que derramar sangue era como um passatempo para os gregos, as guerras não pararam por ali. As cidades voltariam a lutar entre si: Atenas, poderosa demais depois de vencer os persas, se tornou um império maldoso demais para as cidades conquistadas. Aliados de Atenas mandavam mensagens secretas para os espartanos, suplicando que eles “libertassem a Grécia”. O conflito era só uma questão de tempo – e as alianças passaram as 3 últimas décadas do século 5 a.C. afundadas nele. A guerra terminou com a vitória de Esparta, financiada por ouro persa.

A influência espartana agora dominava a Grécia inteira. Mas, sem o menor tato, os espartanos instalavam governadores militares impopulares ou apoiavam oligarcas que perseguiam os opositores políticos. O resultado? Mais guerra, dessa vez promovida por um novo poder: a cidade de Tebas, ao norte de Atenas. O confronto decisivo entre a desafiante e a campeã aconteceu na Batalha de Leuctras, em 371 a.C. A derrota de Esparta foi completa. A cidade virou ruínas. Tornou-se irrelevante e foi absorvida pelo Império Romano, junto com o resto da Grécia, em 146 a.C.

Diante da arte e do pensamento ateniense, pode parecer que Esparta só teve importância militar. Mas não é demais voltar a 480 a.C. e ao punhado de homens que ousou se colocar no caminho dos persas. Heródoto diz que um rei espartano exilado, Damárato, acompanhava Xerxes nas Termópilas. O rei persa teria perguntado se os espartanos, sendo tão poucos, ousariam enfrentá-lo. “Rei”, respondeu Damárato, “embora sejam livres, eles não são livres em tudo. Acima deles está a lei, um senhor a quem eles temem muito mais do que os teus servos têm medo de ti. Eles fazem o que a lei ordena, e a sua ordem é esta: não fugir diante de nenhuma multidão de homens, mas ficar em seus postos.” Poucas idéias foram tão capazes de mudar o mundo.


Fonte: Super Interessante

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domingo, 24 de julho de 2011

IMAGEM DO DIA - 24/07/2011

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Durante a Guerra de Troia, o herói grego Aquiles mata o príncipe troiano Heitor


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sexta-feira, 3 de junho de 2011

A GUERRA DO PELOPONESO E SEUS PARALELOS COM A GUERRA FRIA

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A disputa entre Atenas e Esparta, no século 5 a.C., foi muito parecida com as décadas de tensão da Guerra Fria. A diferença é que as duas potências gregas não ficaram só nas ameaças




Hesitação prudente passou a ser covardia; moderação tornou-se sinônimo de falta de hombridade. A sociedade ficou cindida em dois campos, nos quais homem nenhum confiava em um amigo.” Essas palavras horrorizadas foram escritas pelo grego Tucídides, que acompanhou a Guerra do Peloponeso, travada entre 431 a.C. e 404 a.C. Um dos fundadores da ciência que hoje chamamos de História, ele previu que aquele duelo, que opôs Atenas e Esparta, mudaria para sempre o mundo grego.

Ali não estavam em jogo apenas território e riqueza, mas dois estilos opostos de vida. De um lado, a democracia de Atenas. De outro, a conservadora Esparta, comandada por uma pequena elite militarizada. E as duas não lutaram sozinhas. Atenas liderava as cidades-estado filiadas à Liga de Delos, promovendo seu modelo democrático em todas elas. Já Esparta era a líder de outro grupo de comunidades, a Liga do Peloponeso, em que a regra era o governo oligárquico.

“Generais, diplomatas, políticos e estudiosos comparam as condições que levaram à guerra na Grécia com o que poderia ter ocorrido na época da Guerra Fria”, diz o historiador americano Donald Kagan em A Guerra do Peloponeso. Lançado no Brasil no fim de 2006, o livro une os textos clássicos de Tucídides a descobertas recentes para compor um retrato detalhado do conflito. E, conhecendo de perto essa trágica história, não é difícil encontrar semelhanças entre a situação bipolar vivida pelos gregos e a rivalidade que assombrou o mundo na segunda metade do século XX. A tensão entre os Estados Unidos e a União Soviética surgiu depois do fim da Segunda Guerra, em 1945. Após se unirem para derrotar a Alemanha de Hitler, os dois países emergiram como superpotências rivais. Os americanos pretendiam espalhar pelo mundo o capitalismo e a democracia, enquanto os soviéticos buscavam disseminar o socialismo.


A rixa entre Atenas e Esparta também começou após uma estrondosa vitória conjunta. Em 479 a.C., na batalha de Platéia, as duas cidades-estado tinham liderado os gregos na expulsão dos invasores persas. Pouco depois, entretanto, a desconfiança mútua tomou conta de ambas as aliadas. Esparta temia a supremacia naval de Atenas, que continuou à frente dos gregos na luta para libertar as cidades-estado da Ásia ainda sob domínio persa. Nos anos seguintes, Atenas encheu o cofre com pilhagens das batalhas e estendeu sua esfera de influência por todo o mar Egeu, consolidando a Liga de Delos.

Mas os atenienses também se sentiam inseguros diante dos espartanos. Enquanto Atenas tinha expandido sua influência pelo mar, Esparta havia utilizado seu disciplinado exército para ganhar a supremacia no interior da península do Peloponeso, ao sul da Grécia. Com o “quintal” em ordem, o que impediria os espartanos de clamar por mais poder?

A paranóia de Atenas acabou se concretizando num tipo de construção que, nos anos 1960, viraria o grande símbolo da Guerra Fria em Berlim, na Alemanha. Temendo um ataque repentino de Esparta, os atenienses decidiram erguer um muro em volta de si. Os espartanos nada disseram (segundo Tucídides, ficaram “secretamente amargurados”). Mas, depois que a muralha foi construída, os radicais de Esparta propuseram um ataque imediato. Foram contidos após um intenso debate.

A situação, porém, se complicaria ainda mais. Em 465 a.C., Esparta enfrentou uma revolta de escravos. Como oficialmente todas as cidades-estado que haviam lutado contra os persas ainda eram aliadas, várias partes da Grécia saíram em seu socorro. Atenas não foi exceção: mandou um grupo de hoplitas (soldados que usavam armaduras). Os espartanos, porém, pediram que eles se retirassem dali, levando junto suas “idéias perigosas”. O medo, claro, era de que o povo de Esparta se sentisse atraído pela democracia. Os atenienses se retiraram, mas ficaram ofendidos. Desmancharam a aliança com Esparta e firmaram um pacto com a cidade-estado de Argos, o pior inimigo dos espartanos. E mais: acolheu de braços abertos os escravos sobreviventes do levante, expulsos de Esparta.

Em 459 a.C, 20 anos após a vitória sobre os persas, a relação entre as duas superpotências gregas já estava deteriorada. Cidades-estado menores começaram, então, a tirar proveito da instabilidade para lutar entre si. Foi o caso de Corinto e Megara, que entraram numa disputa por fronteiras. Ambas estavam na esfera de influência de Esparta, que optou por não intervir no conflito. Megara, sentindo-se prejudicada, foi buscar a ajuda de Atenas, que topou entrar na guerra a seu favor. O problema é que Corinto fazia parte da Liga do Peloponeso, encabeçada pelos espartanos.

O conflito localizado deu origem a quase 15 anos de batalhas entre os aliados de Atenas e os de Esparta. As duas apoiaram seus protegidos, mas não chegaram a se enfrentar diretamente em conflitos de larga escala. Quando Esparta por fim se preparou para invadir Atenas, os pacifistas dos dois lados conseguiram, na última hora, forjar um acordo chamado de “Paz dos Trinta Anos”, encerrando as hostilidades em 446 a.C. O tratado estabelecia que nenhuma das superpotências podia interferir nas áreas de influência da rival e que os membros das alianças não podiam mudar de lado. O mundo grego foi formalmente dividido em dois. Como ocorreu com americanos e soviéticos, mais de 2 mil anos depois, o medo de atenienses e espartanos parecia maior que a vontade de brigar. Parecia.


Vias de fato

A paz foi posta em xeque pela primeira vez em 440 a.C., quando Samos, poderoso membro da Liga de Delos, revoltou-se contra Atenas. O que era uma fogueira virou um incêndio, pois os insurgentes logo conseguiram apoio da Pérsia. Sabendo disso, os radicais espartanos convocaram uma assembléia, reunindo toda a Liga do Peloponeso. Segundo eles, era a hora ideal de atacar Atenas. Manobrando nos bastidores, os pacifistas prevaleceram de novo (e Atenas esmagou a revolta).

A situação se inverteu tempos depois, quando a Córcira, uma cidade neutra, entrou em guerra contra Corinto. Vendo que iam levar a pior, os córciros apelaram para Atenas. Relutando em entrar no jogo contra um membro da Liga do Peloponeso, os atenienses concordaram apenas em enviar uma pequena força de dez navios para atuar de modo defensivo, caso Corinto tentasse atacar a frota da Córcira. Foi o que ocorreu. Graças aos atenienses, os coríntios acabaram levando uma surra. Corinto reclamou a Esparta, acusando Atenas de interferência indevida no conflito. Os espartanos, entret
anto, resistiram a ir à guerra.

Soldado espartano

Testada pela terceira vez, a paz não resistiu. Megara, que havia se aliado a Esparta, foi punida por Atenas com um bloqueio comercial. Em 432 a.C., diante das reclamações contra o “imperialismo” de Atenas, os espartanos convocaram seus aliados para uma assembléia. Os atenienses também foram chamados a se explicar. Seus diplomatas não queriam entrar em guerra contra Esparta. Mas escolheram o jeito errado de evitar o conflito. Diante da assembléia, em tom ameaçador, disseram que enfrentar os atenienses seria uma insensatez. Arquidamo, o rei espartano, era amigo do líder ateniense Péricles e entendeu o jogo de cena: apesar da fanfarronice, os atenienses queriam paz. A interpretação dos aliados de Esparta, entretanto, não foi a mesma. Tomados por décadas de ressentimento, exigiram guerra contra os arrogantes atenienses. Obrigada a aceitar a decisão, Esparta partiu para o confronto. Atenas não teve como recuar. E, a partir de 431 a.C., o conflito tragou toda a Grécia.

Os gregos lutavam seguindo um rígido código de batalha, que não permitia abusos de violência. Mas, dessa vez, as partes deixaram a ética de lado. “Ódio, frustração e desejo de vingança resultaram em uma progressão de atrocidades, que incluíam mutilação e assassinato dos inimigos capturados. Cidades inteiras foram destruídas, seus homens mortos, suas mulheres e crianças vendidas como escravos”, escreveu Kagan. A guerra terminou com a vitória de Esparta e seus aliados, mas não houve muito o que comemorar. O resultado dos combates arrasou a Grécia e jogou seus habitantes num período de barbárie. Fragilizadas, Atenas e Esparta foram submetidas ao domínio de uma nova potência, a Macedônia.

No século passado, por sorte, Estados Unidos e União Soviética não imitaram atenienses e espartanos. Se a diplomacia grega se parece muito com a nossa, as armas contemporâneas ficaram muito mais letais. O livro de Kagan permite imaginar o que teria ocorrido se a tensão da Guerra Fria tivesse irrompido numa guerra direta. Com mísseis nucleares no lugar de barcos e hoplitas, tudo teria sido ainda mais triste que a legítima tragédia grega do Peloponeso.


Cidadãos, às armas!

Quando Atenas perdeu seus marinheiros, o povo assumiu os remos

Trirremes ateniense e espartana se enfrentando no mar Egeu


Durante a Guerra do Peloponeso, Atenas nunca perdeu a supremacia marítima. O segredo estava na habilidade de seus remadores, capazes de realizar manobras complexas sem desorganizar as três fileiras de remos dos trirremes (os barcos de combate gregos). Mas havia um ponto fraco: os marinheiros eram mercenários. Sabendo disso, em 406 a.C. Esparta se envolveu em negociatas com os persas e conseguiu dinheiro para comprar os serviços dos remadores de Atenas. Em pouco tempo, a maré pareceu estar mudando: depois de alguns combates, a combalida frota ateniense foi encurralada na ilha de Lesbos, no mar Egeu. Atenas fez, então, um último esforço de guerra. A primeira vítima, ironicamente, foi a estátua da deusa da vitória, Nike, que enfeitava a cidade. Ela foi derretida e seu ouro foi usado para montar uma nova frota. Mas quem iria remar? Só os escravos não bastariam. A solução foi convocar os cidadãos. Em vez de usar o voto para decidir os destinos da cidade, eles agora teriam que fazer isso no braço. Com muito improviso, Atenas e seus aliados reuniram 155 barcos.

O combate teve lugar nas ilhas Arginusas, perto da costa da atual Turquia, onde Esparta tinha 120 trirremes. Apesar da inexperiência, os atenienses souberam usar sua superioridade numérica: em vez de dispor seus barcos numa fileira única, como era o costume, eles montaram linhas duplas, em que os de trás davam cobertura aos da frente. Surpresos, os espartanos não conseguiram evitar a mais humilhante das derrotas, que incluiu a morte de seu comandante, Calicrátidas. Acostumada a perder um quarto da frota toda vez que enfrentava Atenas, Esparta viu a proporção se inverter. Só um quarto de seus barcos voltou para casa.



Fonte:  Aventuras na História
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