"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



sexta-feira, 9 de outubro de 2020

1954: OS FRANCESES SÃO DERROTADOS NA INDOCHINA

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No dia 7 de maio de 1954, a guerra do Vietnã terminou para os franceses. Após oito semanas de sítio e fogo cerrado, as tropas francesas capitularam em Dien Bien Phu.


Por Michael Kleff

Após a fundação da União Indochinesa, no final do século XIX, a França aproveitou os conflitos regionais e expandiu o seu domínio colonial a uma grande parte do Vietnã atual, ao reinado vizinho do Camboja e ao Laos. Porém, já na virada do século, aumentava a resistência entre a pequena elite cultural vietnamita contra a colonização sistemática.

Nos primeiros 40 anos dos anos 1900, os franceses ainda conseguiram controlar uma população de 18 milhões de pessoas. Quando, em novembro de 1940, uma rebelião dos comunistas foi reprimida de forma sangrenta no sul do Vietnã, fundou-se então a Liga para a Independência do Vietnã, conhecida como Viet Minh, com participação decisiva do líder revolucionário e posterior chefe de Estado Ho Chi Minh.


Da resistência ao conflito armado

Foi só uma questão de tempo até que estourasse o conflito aberto entre os franceses, reivindicando direito sobre a "sua" colônia, e a aspiração de independência do Viet Minh. Em novembro de 1946, quando tropas francesas bombardearam a cidade portuária de Haiphong, no norte do Vietnã, o Viet Minh começou a resistir com mão armada ao domínio colonial francês em todo o país.

Apesar do apoio financeiro e logístico dado pelos EUA às tropas francesas, a partir do início de 1950 o Viet Minh já controlava cerca de dois terços do território vietnamita no final daquele ano.

No começo de 1954, 12 mil soldados franceses de uma tropa de elite foram cercados na região montanhosa e isolada perto de Dien Bien Phu, norte do Vietnã, pelas forças muito mais numerosas do Viet Minh. Apesar disso, o comandante-chefe francês Navarre acreditava que conseguiria vencer uma batalha decisiva.


Eisenhower e o medo do comunismo

Em março de 1954, quando o Viet Minh intensificou seus ataques e as tropas francesas só podiam ser abastecidas por meio de paraquedas, Paris e Washington se conscientizaram da crise. O presidente americano Eisenhower e seu secretário de Estado não queriam aceitar a derrota dos franceses. Contudo, um ataque aéreo teria provocado uma intervenção chinesa.

O presidente Eisenhower ressaltou diante da imprensa internacional, em 7 de abril de 1954, a gravidade da situação e a importância da Indochina para o seu país. Nessa entrevista, ele chamou de teoria do dominó a avaliação política exterior do conflito com o comunismo, em vigor na estratégia governamental americana desde 1950.

Eisenhower almejava uma coalizão dos EUA, entre outros, com o Reino Unido, a França e a Austrália, a fim de defender o Vietnã e todo o Sudeste da Ásia contra o comunismo. Porém, tais planos não encontraram apoio. Ele rechaçou, por sua vez, uma ação unilateral dos americanos, assim como uma intervenção somente ao lado dos franceses. A seu ver, os Estados Unidos ficariam então muito identificados com a política colonial francesa aos olhos da opinião pública mundial.

Ho Chi Min condecorando soldados do Viet Minh após a vitória em Diem Bien Phu

Selou-se assim o destino das tropas francesas em Dien Bien Phu, cuja derrota foi anunciada em Washington no dia 7 de maio de 1954 pelo secretário de Estado americano John Foster Dulles: "Há algumas horas, caiu Dien Bien Phu. Sua resistência de 57 dias entrará na história como um dos maiores atos de heroísmo de todos os tempos. Os franceses e as forças nacionais de defesa impingiram graves perdas ao inimigo. Os soldados franceses provaram que estão dispostos e aptos à luta, mesmo sob as piores condições. O Vietnã provou que tem soldados com a capacidade necessária para defender o seu país."

A queda de Dien Bien Phu marcou não apenas o fim do domínio colonial da França no norte do Vietnã, mas também o começo da retirada francesa de toda a Indochina.

Fonte: DW


segunda-feira, 5 de outubro de 2020

VERA BELIK – A “BRUXA DA NOITE” QUE MORREU JUNTO COM SUA AMIGA INSEPARÁVEL

 

Conheça a trajetória de Vera Belik, uma navegadora do regimento "Bruxas da Noite" que se sacrificou pela defesa de sua Pátria.


A  tenente Vera Lukianovna Belik atuou como navegadora no 46º Regimento de Aviação de Bombardeiros Noturnos de Guardas Taman, onde trabalhou com a piloto Tatyana Makarova. Morta em combate quando seu Po-2 foi abatido por um caça alemão, após completar uma missão de bombardeio, foi postumamente premiada com o título de Heroína da União Soviética, em 23 de fevereiro de 1945.

Belik nasceu em Ohrimovka, no dia 12 de junho de 1921, em uma família ucraniana. Filha de um mestre-eletricista, possuía cinco irmãos mais novos.  Durante a maior parte de sua infância, morou em Kerch, na Crimeia, onde se formou na escola secundária em 1939. Posteriormente,matriculou-se no Instituto Pedagógico Karl Liebknecht em Moscou, para estudar Matemática.

Antes de ingressar no Exército Vermelho, em outubro de 1941, Vera Belik participou da construção de defesas e fossos antitanque, com o propósito de barrar o avanço alemão. Depois de ingressar na unidade de aviação feminina fundada por Marina Raskova, ela começou o treinamento de navegação na escola de aviação militar de Engels. Antes da guerra, os cursos regulares de navegação duravam três anos, mas, devido ao estado de guerra na época, precisavam ser completados em apenas seis meses. 

Vera Belik, nascida em Ohrimovka, na Ucrânia, e educada em Kerch e Moscou. Completou 813 missões de combate antes de se sacrificar por seu país.

Em maio de 1942, Belik foi desdobrada na frente de combate com o 588º Regimento de Bombardeiros Noturnos, que seria redesignado como 46º Regimento de Guardas, em 1943. Durante o conflito, ela trabalhou em estreita colaboração com Tatyana Makarova, que pilotava o Po-2 enquanto ela realizava a navegação.  Em dezembro de 1942, o regimento foi ampliado e Belik foi promovida a navegadora do 2º Esquadrão, do qual Makarova se tornou a comandante.  No entanto, depois que o piloto de caça alemão Josef Kociok abateu quatro aviões do esquadrão, na noite de 31 de julho-1° de agosto, Makarova solicitou sua exoneração do comando do esquadrão, e Belik, por lealdade a ela, optou por também solicitar rebaixamento para continuar voando com sua amiga.  

Vera Belik voou em missões difíceis sobre a Ucrânia, na região de Kuban, no norte do Cáucaso, na Crimeia, na Bielo-Rússia e na Polônia. Em 1º de agosto de 1944, ela e Makarova voaram a primeira missão de bombardeio sobre a Prússia Oriental, tornando-se a primeira tripulação aérea do regimento a lutar sobre o solo alemão.

Vera Belik (à direita) com a inseparável amiga Tatyana Makarova. Ambas morreram em combate aos 23 anos de idade, quando seu avião foi abatido sobre a Polônia em 1944. 
As duas se tornaram, no mesmo dia e postumamente, Heroínas da União Soviética.

Na noite de 25 de agosto de 1944, no entanto, quando completava sua 813ª missão de combate,  Belik encontrou a morte, juntamente com sua amiga inseparável. O Po-2 em que ela e Makarova voavam foi interceptado e atacado por um caça alemão em Ostrołęka, na Polônia. A aeronave incendiou-se e, como as “Bruxas da Noite” voavam sem paraquedas, ambas morreram queimadas. Vera possuía apenas 23 anos de idade.

Em suas 813 missões, Belik lançou 106 toneladas de explosivos sobre o território controlado pelo inimigo, causou 156 grandes explosões e 143 incêndios, destruiu dois holofotes, dois depósitos de munição, três entroncamentos ferroviários inimigos, três baterias antiaéreas e diversas concentrações de infantaria. 

Por suas conduta nas operações de combate e por seu sacrifício, ela recebeu, postumamente, em 23 de fevereiro de 1945, o título de Heroína da União Soviética, junto com sua amiga Tatyana Makarova. Além da maior distinção do país, Belik recebeu também a Ordem de Lênin (23 de fevereiro de 1945), a Ordem da Bandeira Vermelha (25 de outubro de 1943), a Ordem da Guerra Patriótica de 1ª Classe (14 de abril de 1944) e a Ordem da Estrela Vermelha (9 de setembro de 1942).

Depois da guerra, os soviéticos souberam honrar seus heróis e suas heroínas. Na cidade de Kerch, onde Vera Belik passou boa parte de sua infância, uma estátua a homenageia.

Como foi comum com as “Bruxas da Noite”, Vera Belik recebeu muitas homenagens em seu país, dentre os quais um envelope soviético de 1981 de uma série de capas com retratos de pessoas premiadas como Heróis da União Soviética que apresentava Belik e Makarova.  Na cidade de Kerch, onde passou boa parte da infância, uma estátua homenageia Vera Belik, e o saguão do Instituto Pedagógico do Estado de Moscou, onde ela estudou, leva o seu nome e contém um memorial dedicado a ela. Duas escolas, uma em sua cidade natal Ohrimovka, na Ucrânia, e outra em Kerch, foram nomeadas em homenagem à corajosa “Bruxa da Noite” que se sacrificou por sua Pátria.

Quer conhecer mais sobre a inspiradora história dessas corajosas aviadoras? Leia

BRUXAS DA NOITE: AS AVIADORAS SOVIÉTICAS NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL,

de Carlos e Ana Daróz



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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

BATALHA DE TAGINA (552)

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Entre junho e julho de 552, forças do Império Bizantino sob o comando de Narses venceram os ostrogodos na Itália, e abriram o caminho para a reconquista temporária bizantina na Península Itálica


Desde o ano de 549, o imperador Justiniano I planejara despachar um grande exército para a Itália, com o propósito de encerrar a prolongada guerra com os ostrogodos iniciada em 535. Durante 550-51, uma grande força expedicionária totalizando cerca de 25.000 homens foi gradualmente reunida em Salona em o Adriático, compreendendo unidades bizantinas regulares e um grande contingente de aliados estrangeiros, notadamente lombardos, herulos e búlgaros, sob o comando do camareiro imperial Narses. Na primavera seguinte, Narses liderou esse exército bizantino ao longo da costa do Adriático até Ancona, e depois voltou-se para o interior, com o objetivo de marchar pela Via Flaminia até Roma.

Em um local conhecido como Busta Gallorum, perto da vila de Taginae ou Tagina, os bizantinos encontraram o exército ostrogodo comandado pelo rei Tótila, que avançava para interceptá-los. Por estar consideravelmente em menor número, Tótila entabulou negociações ostensivamente, enquanto planejava um ataque surpresa, mas Narses não se deixou enganar por esse estratagema.

Rei ostrogodo Tótila

Embora gozasse de superioridade numérica, Narses posicionou seu exército em uma sólida posição defensiva. No centro, ele reuniu o grande corpo de mercenários germânicos desmontados em uma formação densa, e colocou as tropas bizantinas em ambos os flancos do dispositivo. Em cada ala ele colocou 4.000 arqueiros.

Tótila tentou, inicialmente, flanquear seu oponente tomando uma pequena colina à esquerda do dispositivo bizantino, que dominava a única rota para a retaguarda, mas parte da infantaria bizantina desdobrada em uma formação compacta e bem protegida conseguiu derrotar ataques sucessivos de a cavalaria ostrogoda.


Tendo falhado em desalojar Narses, e esperando 2.000 reforços de Teia, Tótila usou vários meios para atrasar a batalha, incluindo ofertas fraudulentas de negociação e duelos realizados entre as linhas de batalha. Em uma dessas ocasiões, Tótila enviou um desertor bizantino chamado Coccas para desafiar qualquer bizantino a um combate individual. Coccas era grande e imensamente forte, e tinha uma reputação entre os godos de ser um guerreiro cruel e poderoso. Um armênio chamado Anzalas, um dos guarda-costas de Narses, respondeu ao desafio. Coccas atacou-o em Anzalas, mas no último momento, Anzalas desviou o cavalo e esfaqueou o campeão godo pelo lado. Não era o presságio mais auspicioso para os ostrogodos.

Guerreiro ostrogodo

No entanto, o rei ostrogodo empreendeu mais uma tática de atraso. Ambos os exércitos observaram Tótila, vestido com uma armadura roxa e dourada brilhante, e montando um garanhão enorme, galopando em direção ao espaço entre os dois enormes exércitos. Seu cavalo deu voltas, empinou, parou e recuou, quando Tótila jogou sua lança no ar e a pegou. Por fim, ele voltou para seu próprio exército e se abrigou entre as fileiras, bem no momento em que os reforços haviam chegado sob o comando de Teia.

Com a chegada dos reforços, Tótila retirou-se para almoçar. Narses, desconfiado de um possível ardil, permitiu que suas tropas se refrescassem sem deixar suas posições. Tótila, aparentemente esperando pegar seu inimigo de surpresa, lançou um súbito ataque em larga escala contra o centro bizantino. 

Cavalarianos bizantino e ostrogodo se enfrentando em Tagina

Autores antigos e modernos o acusaram de loucura, mas Tótila provavelmente tentou se aproximar do inimigo o mais rápido possível, a fim de evitar os efeitos dos formidáveis arqueiros bizantinos. Os bizantinos, contudo, estavam preparados para esse movimento e os arqueiros se prepararam nos flancos para encurtar a frente em direção ao centro, de modo que sua linha de batalha tomou um formato de crescente. Preso no enfileiramento de flechas cruzadas de ambos os lados, a cavalaria ostrogoda sofreu elevadas baixas e seu ataque vacilou.

O curso e a duração da batalha subsequente são incertos, mas, no início da noite, Narses ordenou um avanço geral, e os ostrogodos se separaram e fugiram. Embora as contas variem, foi provavelmente durante a derrota subsequente que Tótila foi morto.

Narses, o general bizantino vitorioso em Tagina

Narses prosseguiu para Roma, que caiu após fraca resistência. Os ostrogodos se reagruparam sob o sucessor de Tótila, Teia, mas sofreram uma derrota final na Batalha dos Montes Lactarius (perto do Monte Vesúvio) e, posteriormente, provavelmente foram absorvidos pelos lombardos, outra tribo germânica que invadiu a Itália no século VI.



sexta-feira, 11 de setembro de 2020

PESQUISADORES INAUGURAM OFICIALMENTE A REDE INTERNACIONAL HERMES

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​Nesta segunda-feira (31) foi inaugurada a Rede Internacional Hermes, um grupo que pretende congregar pesquisadores e instituições que se dedicam aos estudos e pesquisas em Fronteiras, Integração, Conflitos, Forças Armadas e Defesa. A proposta é estabelecer uma Rede de comunicação e troca de informações profícua e frequente. Para iniciar o evento, o doutor Tito Carlos Machado de Oliveira, da UFMS, destacou a importância de uma visão holística sobre os temas fronteiras, integração, conflitos, forças armadas e defesa que, muitas vezes, seja por dificuldades de fontes, seja por uma visão limitada das pesquisas, acabam sendo abordados como elementos estanques.

Feita a abertura oficial do evento, foi a vez da palestra conduzida pelo doutor Armando Marques-Guedes, da Universidade Nova de Lisboa, que falou sobre a importância de se discutir a política dos mares e suas influências na constituição das sociedades. Em uma de suas justificativas, ele apontou, com propriedade, que há quatro vezes mais oceanos do que terra firme no planeta. Mas, apesar disso, muitas vezes o assunto acaba não recebendo a devida atenção por parte dos pesquisadores. Por isso, ele frisou que é preciso aprofundar as investigações em hidropolítica.

Em seguida, coube ao General de Brigada Marcio Tadeu Bettega Bergo, presidente do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB) e antigo chefe do Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do Exército (CEPHiMEx) abordar a questão das fronteiras militares, físicas e da integração entre nações no contexto de uma sociedade em constantes transformações como o mundo do Século XXI. Além disso, o general Bergo também tocou em questões importantes acerca de conflitos e tensões internacionais, equilíbrio de forças e imposições culturais.  

Após as palestras inaugurais, o presidente da Rede Internacional Hermes, doutor Fernando Rodrigues, do PPGH-UNIVERSO, conduziu uma sessão de perguntas elaboradas pelo público para os dois pesquisadores. Neste momento, foi possível perceber a qualidade dos questionamentos e como as pessoas ficaram positivamente impressionadas com as palestras. Ao final do evento, o doutor Fernando Rodrigues destacou a importância da Rede para a pesquisa militar no Brasil e no mundo.

- É com grande satisfação que, hoje, inauguramos oficialmente a Rede Internacional Hermes. Ela já é uma realidade. Um caminho sem volta. Um grupo que veio para ficar. Que surgiu da vontade de reunirmos pesquisadores de diversas partes do Brasil e do mundo para aprofundarmos os estudos sobre temas tão importantes quanto fronteiras, conflitos, integração, forças armadas e defesa. Todos são fundamentais neste projeto – analisou.

A página oficial da Rede Internacional Hermes é https://www.redeinternacionalhermes.org/. Nela é possível encontrar as linhas de pesquisa, os grupos de pesquisa, os profissionais associados, publicações, eventos e um farto material relacionado ao tema Fronteiras, Integração, Conflitos, Forças Armadas e Defesa. Integram a Rede pesquisadores de diversas instituições do Brasil e do mundo.


A conferência de inauguração oficial da Rede Hermes pode ser vista em
https://www.youtube.com/watch?v=Fsa3-rr-Ms0.




sábado, 5 de setembro de 2020

ASSASSINOS DAS SS COM DOUTORADO

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Em estudo monumental, historiador francês Christian Ingrao ressalta o papel decisivo dos intelectuais na elite da Ordem Negra de Himmler
 

Por Jacinto Antón

A imagem que se tem popularmente de um oficial da SS é a de um indivíduo cruel, chegando ao sadismo, corrupto, cínico, arrogante, oportunista e não muito culto. Alguém que inspira (além de medo) uma repugnância instantânea e uma tranquilizadora sensação de que é uma criatura muito diferente, um verdadeiro monstro. O historiador francês especializado em nazismo Christian Ingrao (Clermont-Ferrand, 1970) oferece-nos um perfil muito diverso, e inquietante. A ponto de identificar uma alta porcentagem dos comandantes da SS e de seu serviço de segurança, o temido SD, como verdadeiros “intelectuais comprometidos”.

O termo, que escandalizou o mundo intelectual francês, é arrepiante quando se pensa que esses eram os homens que lideravam as unidades de extermínio. Em seu livro Crer e Destruir: Os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista, Ingrao analisa minuciosamente a trajetória e as experiências de oitenta desses indivíduos que eram acadêmicos – juristas, economistas, filólogos, filósofos e historiadores – e ao mesmo tempo criminosos –, derrubando o senso comum de que quanto maior o grau de instrução mais uma pessoa estará imune a ideologias extremistas.

Há um forte contraste entre esses personagens e o clichê do oficial da SS: assassinos em massa fardados e com um doutorado no bolso, como descreve o próprio autor. O que fizeram os “intelectuais comprometidos”, teóricos e homens de ação, da SS foi terrível. Ingrao cita o caso do jurista e oficial do SD Bruno Müller, à frente de uma das seções do Einsatzgruppe D, uma das unidades móveis de assassinato no Leste, que na noite de 6 de agosto de 1941 ao transmitir a seus homens a nova ordem de exterminar todos os judeus da cidade de Tighina, na Ucrânia, mandou trazer uma mulher e seu bebê e os matou ele mesmo com sua arma para dar o exemplo de qual seria a tarefa.

Bruno Müller, comandante de uma seção do Einsatzgruppe D, assassinou pessoalmente uma mãe com seu filho na Ucrânia para "dar o exemplo" para suas tropas. Ele era um jurista conhecido na Alemanha 

É curioso que Müller e outros como ele, com alto grau de instrução, pudessem se envolver assim na prática genocida”, diz Ingrao. “Mas o nazismo é um sistema de crenças que gera muito fervor, que cristaliza esperanças e que funciona como uma droga cultural na psique dos intelectuais.

O historiador ressalta que o fato é menos excepcional do que parece. “Na verdade, se examinarmos os massacres da história recente, veremos que há intelectuais envolvidos. Em Ruanda, por exemplo, os teóricos da supremacia hutu, os ideólogos do Hutu Power, eram dez geógrafos da Universidade de Louvain (Bélgica). Quase sempre há intelectuais por trás dos assassinatos em massa”. Mas, não se espera isso dos intelectuais alemães. Ingrao ri amargamente. “De fato eram os grandes representantes da intelectualidade europeia, mas a geração de intelectuais de que tratamos experimentou em sua juventude a radicalização política para a extrema direita com forte ênfase no imaginário biológico e racial que se produziu maciçamente nas universidades alemãs depois da Primeira Guerra Mundial. E aderiram de maneira generalizada ao nazismo a partir de 1925”. A SS, explica, diferentemente das ruidosas SA, oferecia aos intelectuais um destino muito mais elitista.

Mas o nazismo não lhes inspirava repugnância moral? “Infelizmente, a moral é uma construção social e política para esses intelectuais. Já haviam sido marcados pela Primeira Guerra Mundial: embora a maioria fosse muito jovem para o front, o luto pela morte generalizada de familiares e a sensação de que se travava um combate defensivo pela sobrevivência da Alemanha, da civilização contra a barbárie, arraigaram-se neles. 

A invasão da União Soviética em 1941 significou o retorno a uma guerra total ainda mais radicalizada pelo determinismo racial. O que até então havia sido uma guerra de vingança a partir de 1941 se transformou em uma grande guerra racial, e uma cruzada. Era o embate decisivo contra um inimigo eterno que tinha duas faces: a do judeu bolchevique e a do judeu plutocrata da Bolsa de Londres e Wall Street. 

Otto Rasch, comandante do Einsatzgruppe C, aqui fotografado na condição de criminoso de guerra após o conflito, possuía dois doutorados, em Direito e Economia Política. Segundo a tradição acadêmica alemã, era conhecido como "Professor doutor doutor"

Para os intelectuais da SS, não havia diferença entre a população civil judia que exterminavam à frente dos Einsatzgruppen e os tripulantes dos bombardeiros que lançavam suas bombas sobre a Alemanha. Em sua lógica, parar os bombardeiros implicava em matar os judeus da Ucrânia. Se não o fizessem, seria o fim da Alemanha. Esse imperativo construiu a legitimidade do genocídio. Era ou eles ou nós”.

Assim se explicam casos como o de Müller. “Antes de matar a mulher e a criança falou a seus homens do perigo mortal que a Alemanha enfrentava. Era um teórico da germanização que trabalhava para criar uma nova sociedade, o assassinato era uma de suas responsabilidades para criar a utopia. Curiosamente era preciso matar os judeus para realizar os sonhos nazistas”.

Ingrao diz que os intelectuais da SS não eram oportunistas, mas pessoas ideologicamente muito comprometidas, ativistas com uma visão de mundo que aliava entusiasmo, angústia e pânico e que, paradoxalmente, abominavam a crueldade. “A SS era um assunto de militantes. Pessoas muito convictas do que diziam e faziam, e muito preparadas”. O que é ainda mais preocupante. “É claro. É preciso aceitar a ideia de que o nazismo era atraente e que atraiu como moscas as elites intelectuais do país”.

Fonte: El País


domingo, 23 de agosto de 2020

MOSCOU INVADIDA E INCENDIADA

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Ocupação mais pacífica da capital russa foi realizada por polaco-lituanos no século XVII. Mongóis, por outro lado, destruíram e queimaram toda a cidade. Por ocasião das invasões napoleônicas, no começo do século XIX, a cidade foi novamente invadida e incendiada pelos próprios russos.

Por Boris Egorov

Moscou foi saqueada e queimada pela primeira vez durante a invasão da Rússia por mongóis. Então, em 1238, os invasores eram um vasto exército de nômades e a cidade ainda não era a capital do país.

Durante o cerco de cinco dias, os moscovitas realizaram um ataque bem-sucedido contra o inimigo. Indignados, os mongóis capturaram e incendiaram a cidade e cortaram, literalmente, o comandante da guarnição local em pedaços.


Cerco do khan Toctamix

Embora a vitória do grão-príncipe de Moscou Demétrio Donskoi sobre os mongóis na Batalha de Kulikovo, em 1380, tenha sido um passo significativo na libertação do domínio mongol, a vitória final ainda era um objetivo difícil de se alcançar.

Em 1382, o guerreiro mongol Toctamix (também referido como Toqtamish, Tokhtamish ou Tokhtamysh) invadiu os principados russos e, inesperadamente, chegou às muralhas de Moscou. As principais forças russas lideradas pelo príncipe Demétrio estavam fora de Moscou e a cidade entrou em pânico.

Em 1382, o guerreiro mongol Toctamix invadiu os principados russos e, inesperadamente, chegou às muralhas de Moscou

Os mongóis enganaram os moscovitas oferecendo negociações, mas quando os primeiros mongóis entraram na cidade, o exército seguiu, invadiu a cidade e começou um massacre. Os mongóis levaram tudo que havia de valor e queimaram a cidade. Quando Demétrio Donskoi retornou a Moscou, deparou-se com as ruas cobertas de cadáveres.


Ataques de Devlet Giray

No século XVI, o poderoso Estado mongol conhecido como Horda de Ouro, caiu no esquecimento, enquanto o Estado russo crescia rapidamente e tinha que lidar com seus “fragmentos”: numerosos canatos e hordas.

Em 1571, a Rússia entrou na Guerra da Livônia (1558-1583) e a maioria das tropas russas lutava contra as forças suecas e polonesas-lituanas no Báltico. O khan do khanato da Crimeia, Devlet Giray, decidiu que esta era a oportunidade perfeita para saquear as terras russas.

Forças do khan Devlet Giray assaltam Moscou na década de 1570

Ele chegou sem empecilhos a Moscou e incendiou as aldeias nos arredores da cidade. O fogo imediatamente se espalhou por Moscou. Mas Devlet decidiu não invadir o Kremlin e, depois de capturar dezenas de milhares de prisioneiros, voltou à Crimeia.

Inspirado por este sucesso, o khan chegou a propor que o sultão otomano Selim II conquistasse o Estado russo. No entanto, após a derrota colossal na Batalha de Molodi, não muito longe de Moscou, em 1572, o sultão decidiu cancelar a ofensiva.


Intervenção polaco-lituana

A crise política e a fome no início do século XVII levou ao chamado “Tempo de Dificuldades” da Rússia. O país foi divido por diferentes grupos políticos e movimentos e sofreu com muitas intervenções estrangeiras.

A campanha militar estrangeira mais bem sucedida na Rússia foi realizada pela Comunidade Polaco-Lituana, também conhecida como a República das Duas Nações.  As tropas polonesas participaram ativamente de todos os conflitos civis, apoiando diferentes candidatos ao trono russo.

Em 1610, os poloneses derrotaram as tropas do tsar russo Basílio IV e a nobreza russa ofereceu o trono ao príncipe polonês Vladislav Vasa. Sem enfrentar qualquer resistência, as tropas polaco-lituanas lideradas por Stanislaw Zolkiewski entraram na cidade e ocuparam o Kremlin.

Forças russas sitiam a guarnição polonesa no Kremlin em 1612

Apesar da promessa dos poloneses de não incluir a Rússia na Comunidade Polaco-Lituana e não prejudicar a religião ortodoxa, eles começaram a agir como conquistadores e logo causaram grande descontentamento público.

Um movimento anti-polonês ganhava popularidade em todo o país. A guarnição polonesa foi sitiada no Kremlin e, após tentativas de desbloqueio, rendeu-se em 1612. Mas a libertação de Moscou não significou o fim da guerra, que durou por mais seis anos. Já Vladislav Vasa deixou de reivindicar o trono russo apenas em 1634.


La Grande Armée em Moscou

Os poloneses voltaram a Moscou 200 anos mais tarde.  Soldados polacos compuseram o exército francês, no 5º Corpo do Grande Armée de Napoleão, e estiveram entre os primeiros a entrar em Moscou em 1812.

Os comandantes russos decidiram abandonar Moscou após grandes perdas do exército na Batalha de Borodino. Quando, em 14 de setembro, Napoleão entrou em Moscou, a capital russa já estava quase completamente abandonada.

O imperador francês aguardava iniciativas para iniciar as negociações com a Rússia, mas os soldados russos incendiaram a maior parte de Moscou, destruindo grande parte da cidade. Os franceses responderam com execuções em massa.

Moscou em chamas por ocasião da invasão Napoleônica, em 1812

Um mês mais tarde, devido ao inverno que chegava, Napoleão decidiu abandonar a cidade, retirando-se. Não conseguindo obter nada, La Grand Armée começou uma longa e tortuosa jornada para casa, que levou ao seu fim.

Fonte: Russia Beyond


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

O CERCO DE ANCONA (1860)

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O cerco de Ancona (18-29 de setembro de 1860) foi a última ação importante durante a breve invasão piemontesa aos Estados papais em 1860, e viu a queda do único porto que poderia ter sido usado por uma força expedicionária austríaca, reduzindo bastante o risco de intervenção estrangeira na guerra.


Os piemonteses invadiram os Estados papais em 11 de setembro. O general Lamoricière, comandante do Exército Papal decidiu tentar chegar a Ancona, o principal porto do Adriático ainda em mãos papais. A única maneira que as forças papais poderiam esperar derrotar os piemonteses era com ajuda estrangeira. Os austríacos, que guarneceram Ancona até 1859, eram vistos como os mais propensos a intervir. Os piemonteses também sabiam disso e, portanto, metade do seu exército, sob o comando do general Cialdini, foi enviado ao longo da costa em direção a Ancona.

Quando Cialdini soube que Lamoricière estava indo para Ancona, decidiu deixar a costa, mover-se pelo porto e tentar bloquear o exército papal ao sul da cidade. A batalha resultante de Castelfidardo (18 de setembro de 1860) terminou como uma esmagadora derrota papal. Lamoricière conseguiu alcançar Ancona, mas, ao chegar, tinha somente 45 homens com ele. O resto de seu exército foi disperso ou capturado.

O general Louis Juchault de Lamoricière, comandante do exército dos Estados Papais

Os piemonteses voltaram sua atenção para Ancona. Cialdini recebeu reforços do corpo de Della Rocca e também foi apoiado pela frota piemontesa, que forneceu uma frota de 13 navios de guerra sob o almirante conde Carlo Pellione di Persano. A frota também carregava o trem de cerco, então Cialdini logo estava em posição de começar um bombardeio regular de Ancona. Isto foi seguido por uma série de ataques às fortificações terrestres e muitos dos trabalhos secundários caíram.

O golpe final ocorreu em 28 de setembro, quando a frota de Persano iniciou um bombardeio das defesas costeiras. Isso terminou com a destruição de um paiol de pólvora. Isso acabou com qualquer chance de resistência efetiva e, em 29 de setembro, a cidade e sua guarnição de 4.000 a 6.000 homens se rendeu. Os combates  contra os Estados papais haviam terminado e os piemonteses puderam se concentrar em ir para o sul para apoiar a campanha de Garibaldi em Nápoles.

Monumento em homenagem ao general piemontês Enrico Cialdini, o vencedor em Ancona, localizado em Castelfidardo

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

HISTÓRIA MILITAR OTOMANA E TURCA

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Eles prevaleceram sobre os bizantinos em Manzikert em 1071, no que representou uma batalha de aniquilação. Essa vitória estabeleceu firmemente os Guerreiros Gazi de Osman como combatentes de primeira classe e permitiu que os otomanos conquistassem a Anatólia. Mas, reconhecendo as dificuldades de um exército nômade semidisciplinado, a dinastia otomana gradualmente criou um exército permanente que incorporou muitos aspectos de seu oponente bizantino.


 Por Dr. Edward J. Erickson

É uma honra ser convidado a revisar a história otomana e turca e apresentar brevemente meus pensamentos sobre sua progressão de 1300 até os dias atuais. Os períodos que apresento e minhas avaliações sobre seu significado e impacto são como organizo meu pensamento sobre a história militar otomana e turca como "arquivos de conexão", em vez de uma narrativa histórica estritamente definida. Sabemos, é claro, que a moderna República Turca não é o Império Otomano, mas é justo dizer que as forças armadas turcas levam adiante as tradições e aspirações de seu antecessor.

Eu destacaria que a resiliência, a inovação e a liderança dinâmica têm sido assinaturas contínuas dos sistemas militares otomanos e turco ao longo dos últimos mil anos.


As fundações (1300-1451)

Os guerreiros turcomanos que vinham das colinas Altay da Ásia Central faziam parte da tradição militar estepe-nômade de cavaleiros armados, com arcos compostos. Eles prevaleceram sobre os bizantinos em Manzikert, em 1071, no que representou uma batalha de aniquilação. Essa vitória estabeleceu firmemente os Guerreiros Gazi de Osman como combatentes de primeira classe e permitiu que os otomanos conquistassem a Anatólia. Mas, reconhecendo as dificuldades de um exército nômade semidisciplinado, a dinastia otomana gradualmente criou um exército permanente que incorporou muitos aspectos de seu oponente bizantino.

O exército permanente compunha o corpo de infantaria leve que foi criado no início dos anos 1300, bem como as unidades de cavalaria leve de Sipahi. No entanto, a inovação mais conhecida das forças armadas de Osmanli foi a formação de Kapıkulu Ocakları baseada em escravos, que se transformou nos Janízaros mundialmente famosos e temidos (Yeniçeriler). Os janízaros forneceram a espinha dorsal do sistema militar otomano até o final do século XVIII e podem ser caracterizados como uma elite corporativa. Cruzando a Europa, os otomanos obtiveram vitória após vitória, embora algumas, como no Kosovo, em 1389, fossem excepcionalmente caros. Quando o exército entrou no século XIV, adquiriu artilharia, e sultões com visão de futuro abraçaram os exércitos da Era da Pólvora.


Apex Predador (1451-1683)

A ascensão do sultão Mehmet II ao trono em 1451 marcou o início do que o professor Mesut Uyar chamou de Período Clássico nos assuntos militares otomanos. Em 1453, o jovem sultão conquistou Constantinopla usando métodos inovadores para mover navios para o Chifre de Ouro, bem como empregando o primeiro trem de cerco moderno de artilharia pesada para destruir as formidáveis muralhas da cidade. Muito importante, neste período, os otomanos criaram um sistema logístico inovador e avançado, que lhes permitiu empregar grandes forças nas fronteiras do império por longos períodos de tempo. Também desenvolveu um sistema mais avançado de forças auxiliares e construiu um sistema de fortalezas modernas. 

Enquanto o Período Clássico terminou em 1606, o Exército Otomano permaneceu a máquina militar dominante no mundo, até atingir sua marca d'água máxima e derrota nos portões de Viena em 1683. Para ser justo, o exército já estava mostrando sinais de declínio, mas, em muitos aspectos, este foi relativo porque os exércitos europeus estavam alcançando os otomanos em sua abordagem organizacional e tecnológica da guerra. Nesse período, no entanto, o exército otomano se mostrou resiliente e imbatível em combate, e é justo dizer que estava em uma classe por si só.


Um leão no inverno (1683-1876)

Assim, poderíamos perguntar: “como as forças armadas otomanas perderam sua posição proeminente como as melhores do mundo?” Acredito que haja duas razões principais. Primeiro, os otomanos ficaram para trás dos europeus tecnologicamente e seus sistemas de armas se tornaram obsoletos ao longo do tempo. Mas, mais importante, os efeitos das revoluções militares modernas que ocorrem na Europa (os historiadores concordam hoje que houve cinco revoluções militares) condenaram os esforços otomanos. Na Primeira Revolução Militar, os Estados-nações modernos criaram sistemas financeiros que permitiram a uma nação suportar os altos custos da criação de forças militares profissionais permanentes. Isso levou à profissionalização e padronização dos exércitos pequenos, mas altamente eficazes da Era de Frederico, o Grande. A segunda Revolução Militar foi um resultado da Revolução Francesa, e envolveu recrutamento nacional e mobilização nacional. Os enormes exércitos da era de Napoleão foram o resultado. Finalmente, a terceira Revolução Militar foi o resultado da industrialização que permitiu que os Estados-nações produzissem armas modernas em massa. 

Cavalaria otomana no século XIX
 

Enquanto alguns sultões tentaram reformas militares, principalmente o sultão Selim III, o Estado Otomano não reconheceu e adotou as revoluções militares que estavam mudando o equilíbrio de poder na Europa de forma contínua. 

Como explicamos essa perda de competitividade militar? Existem muitas explicações, mas acredito que a mais simples é que o estado otomano estava fortemente vinculado à tradição e também por uma resistência institucional à mudança. É difícil para instituições (e nações) bem-sucedidas mudarem fazendo o que sempre funcionou para elas. Mas, em particular, o governo e seu povo rejeitaram as ideias europeias, bem como a rejeição da industrialização da sociedade e da economia. Isso inevitavelmente levou o império a ser trancado nas tecnologias do século XVII. 

Com o tempo, depois de perder uma série de guerras caras, o império perdeu a Crimeia, Grécia, Hungria e grande parte do Cáucaso e dos Bálcãs. Independentemente da causa, em 1876, o Império Otomano foi rotulado como "o homem doente da Europa". Isso inevitavelmente levou o império a ser trancado nas tecnologias do século XVII.


O renascimento (1876-1922)

Começou uma espécie de renascimento com a ascensão do sultão Abdülhamid II ao trono. O jovem sultão estava muito interessado nas novas tecnologias e estava determinado a alcançar o Oeste. Os Meijis do Japão já haviam iniciado esse processo e muitos otomanos, especialmente oficiais do exército, compartilhavam a visão de Abdülhamid. O sultão começou a importar armas modernas, mas, o mais importante, convidou uma missão militar alemã para aconselhar o Exército Otomano em seus esforços de modernização. 

Embora o império ainda estivesse marcado por derrotas militares, a adoção dos métodos e currículos educacionais militares alemães levou ao crescimento de um quadro de jovens oficiais profissionais comprometidos e dedicados à modernização.

A partir disso, surgiram os “jovens turcos”, muitos dos quais, incluindo Mustafa Kemal, liderariam a nação em sua luta pela sobrevivência na década de 1920. Os esforços de reforma do Exército Otomano foram bem-sucedidos na criação de instituições militares capazes de suportar os rigores da guerra e derrotar os oponentes europeus. O exército foi notavelmente inovador e criou a moderna Divisão de Infantaria Triangular, além de desenvolver o sistema mais eficaz para a criação de novas divisões de infantaria prontas para combate na Primeira Guerra Mundial. 

Embora os otomanos tenham perdido a Primeira Guerra Mundial, vale lembrar que seu exército não entrou em colapso ou motim, e que ainda estava lutando com muito afinco na época do armistício. Um quadro de experientes e brilhantes líderes emergiu das cinzas do desastre para liderar os exércitos nacionalistas contra os gregos invasores durante a Guerra da Independência. Esses generais não eram apenas tatica e tecnicamente proficientes em suas habilidades de combate, mas também se mostraram brilhantes no treinamento e na reconstrução do exército nacionalista. 

A Grande Ofensiva de Mustafa Kemal, em agosto de 1922, proporcionou ao mundo uma lição de táticas modernas, que ainda permitiam batalhas de aniquilação por cerco. A perseguição subsequente a Izmir e a destruição quase total do Exército Grego foram modelos e abriram caminho para negociações bem-sucedidas no Tratado de Lausane, em 1923. 

Também está claro que, sem líderes prescientes e esclarecidos, que reconheceram e reagiram com sucesso às mudanças na transição do século XIX para o XX, a Turquia moderna existiria hoje apenas como o pequeno “Estado tampãoprevisto pelo Tratado de Sèvres.


A era Ataturk (1923-1991)

A importância de Mustafa Kemal Atatürk na criação da Turquia moderna está fora de dúvida. Seus esforços para industrializar a economia e unificar a sociedade turca forneceram uma forte plataforma para levar a nova nação à corrente principal do sistema global. É importante ressaltar que o ditado de Atatürk (“Paz em casa, paz no mundo”) proporcionou estabilidade à política externa da Turquia durante os tempestuosos anos entre guerras e seu sucessor, Izmit İnönü (que também era um general brilhante e qualificado) manteve a Turquia fora da Segunda Guerra Mundial. Essa providência foi crucial, pois permitiu à Turquia competir de maneira justa contra as economias danificadas pela guerra das potências europeias do pós-1945.

A Turquia ingressou nas Organizações do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em 1952, tornando-se assim um aliado integrante e importante dos Estados Unidos na Guerra Fria. As forças militares e navais da nação se tornaram cada vez mais competentes durante esse período. De notar, a força aérea, o exército e a marinha turcos conduziram uma eficiente campanha anfíbia para proteger o norte de Chipre em 1974, que demonstrou capacidade de conduzir operações combinadas de armas do tipo mais difícil. 

A Turquia ingressou na OTAN em 1952.
 

Após o embargo americano de 1974, o Estado-Maior turco iniciou um programa sistêmico e deliberado para incentivar e ajudar as empresas turcas a criar uma indústria doméstica de Defesa. Isso foi projetado para alcançar autonomia estratégica, tornando a nação autossuficiente na produção doméstica de armamentos e munições.

À medida que a Guerra Fria avançava, as forças armadas turcas se tornaram cada vez mais importantes no planejamento da defesa da OTAN para impedir que os soviéticos, em caso de guerra, invadissem o Estreito da Turquia e o Mar Mediterrâneo. 

É importante notar que as forças armadas turcas se tornaram uma das três nações da OTAN que utilizam drones não tripulados - um prenúncio do futuro nos anos 1980. A Turquia também se tornou um parceiro pleno na implantação e planejamento de emprego de armas nucleares táticas da OTAN. Deve-se notar também que, a partir do final da década de 1970, os militares turcos também travaram uma bem-sucedida campanha de contrainsurgência doméstica contra o Partido dos Trabalhores do Curdistão (Partiya Karkerên Kurdistan - PKK), que foi amplamente vencida nos derradeiros anos do século XX.


O segundo renascimento (1991 até o presente)

Após o colapso da União Soviética, as forças armadas turcas participaram das operações das Organizações das Nações Unidas (ONU) na Somália em 1992, fornecendo tropas e um general comandante. A participação da Turquia nas operações lideradas pela OTAN na Bósnia e no Kosovo e operações lideradas pela União Europeia (EU) na Albânia aprimoraram ainda mais as habilidades de suas forças militares. As operações em nível de corpo de exército transfronteiriço da década de 1990 no Iraque para destruir os santuários do PKK e a brilhante operação especial em 1999, que capturou o líder terrorista do PKK Adbullah Ocalan no Quênia, provaram indiscutivelmente que as forças armadas turcas poderiam ser classificadas como de primeira classe.

Um Livro Branco inovador, publicado pelo Estado-Maior Turco em 2000, mudou fundamentalmente a política militar turca de uma postura defensiva para uma postura mais proativa e ofensiva. O Livro Branco declarou explicitamente que as forças militares turcas seriam preparadas e capazes de transferir operações através das fronteiras quando necessário, a fim de manter uma defesa avançada. A equipe geral posteriormente anunciou alvos de defesa que comprometeram os militares a formar uma Zona de Paz e Segurança na região circundante, quando necessário. As mudanças do Livro Branco na postura de defesa nacional assustaram os parceiros da OTAN na Turquia, mas serviram como aviso de que as forças armadas da Turquia haviam entrado no século XXI como uma força a ser considerada em considerações geoestratégicas.

No novo século, as forças armadas turcas participaram das operações da OTAN no Afeganistão e o que veio a ser chamado de "a Doutrina Zorlu" entrou no vocabulário da OTAN como uma política inovadora de contrainsurgência. A Turquia também forneceu forças de manutenção da paz para o Líbano e forneceu apoio de comando e controle para operações aéreas da OTAN sobre a Líbia em 2011. As forças armadas turcas também forneceram estabilização no norte do Iraque, por meio de observadores e presença direta. Durante esse período, a Turquia manteve seu compromisso com a OTAN, mas transferiu suas forças armadas de pesadas forças defensivas para forças expedicionárias mais leves de reação rápida.

Forças leves de intervenção turcas no Afeganistão


A sede do III Corpo de Exército turco se mostrou totalmente destacável, ao assumir o comando das operações da OTAN no Afeganistão. Após a primavera árabe, a Turquia reagiu às ameaças externas relacionadas ao Daesh  (Estado Islâmico) e ao PKK enviando forças militares para o norte da Síria e do Iraque. Isso foi fundamental para acabar com o domínio do Daesh no norte do Iraque e também para proteger as fronteiras do sul contra ameaças do PKK.

Simultaneamente, as forças armadas turcas esmagaram com sucesso um surto renovado de terrorismo PKK no sudeste. Embora um pequeno número de militares tenha apoiado a tentativa de golpe desencadeada em julho de 2016, a grande maioria dos militares permaneceu firmemente leal ao governo eleito constitucionalmente.

É claro que, da mesma maneira que as forças armadas otomanas reconheceram a necessidade de mudança na década de 1870 e reagiram a esse imperativo, as forças armadas turcas modernas reagiram à mudança de maneiras igualmente bem-sucedidas.


Considerações finais

Então, o que se pode dizer sobre a conexão da história militar otomana à história militar turca moderna ou, nesse caso, às operações das forças armadas turcas contemporâneas hoje? 

Eu destacaria três assinaturas duradouras que unificam esses segmentos. Primeiro, desde os seus períodos de fundação, as forças armadas otomanas e turcas se mostraram excepcionalmente resistentes e prontas para o combate, tanto na vitória quanto na derrota. 

Segundo, a inovação militar impulsionada pelo reconhecimento da mudança tem sido uma marca registrada dessas forças ao longo de sua história.

Terceiro, a liderança dinâmica e brilhante é uma característica marcante das forças armadas otomana e turca há quase mil anos. De qualquer forma, essa é uma história notável que não mostra sinais de desaceleração em pleno século XXI.]

Fonte: M5