O Karukaya era um destróier de segunda classe da classe Wakatak. Externamente, as classes Momi e Wakatake eram idênticas. O Karukaya foi afundado em 10 de maio de 1944 depois de ser torpedeado duas vezes pelo submarino USS Cod, 150 milhas náuticas a noroeste de Manila, nas Filipinas. Setenta e três membros de sua tripulação não sobreviveram.
domingo, 28 de junho de 2020
terça-feira, 23 de junho de 2020
BATALHA DE VERDUN SIMBOLIZA ABSURDO DA 1ª GUERRA MUNDIAL
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Durante
300 dias de 1916, alemães e franceses se confrontaram com violência inaudita às
margens do Mosa, resultando numa carnificina com centenas de milhares de mortos
e sem sentido estratégico nem vencedores reais.
Por
Volker Wagener
O
rugido da artilharia pesada começa de manhã cedo: por nove intermináveis horas
os alemães disparam armas de todos os calibres. O mundo nunca vira algo igual:
a 200 quilômetros de distância ainda se ouvem os canhões de Verdun.
"Tempestade de aço" é como o escritor Ernst Jünger denominaria esse
horror.
O
21 de fevereiro de 1916, início da ofensiva que os alemães chamaram de
"Operação Tribunal", não foi um dia normal de guerra. Os combates já
duravam um ano e meio na Europa, mas a Batalha de Verdun viria a se tornar o
símbolo mais eloquente da Primeira Guerra Mundial (1914-18).
Lá
162 mil franceses e 143 mil alemães perderam a vida: uma média de 500 mortos
por dia do lado da Alemanha, mais ainda do outro lado. Na maioria dos casos não
se trata de caídos em combate no clássico sentido militar: a violência das
armas esfacela, explode, pulveriza os soldados.
"Sangria"
de peso psicológico
Até
hoje o sentido da ofensiva germânica continua sendo um enigma. Mas Erich von
Falkenhayn, chefe do Estado-maior alemão, forneceu uma explicação: Verdun seria
uma "bomba de sangue", com o fim de aplicar uma sangria nos
franceses.
Para o General Von Falkenheyn, Verdun seria "uma bomba de sangue" para debilitar os franceses
Também
perdura até nossos dias o debate sobre por que o local escolhido terá sido o
acidentado terreno ao longo das margens do Rio Mosa, que faz uma curva em
Verdun. Peritos militares são unânimes em apontar que – mesmo se fosse tomada
pelos alemães – a cidade não seria um bom ponto de partida para investidas mais
profundas em direção a Paris, localizada a 250 quilômetros de distância.
De
fato, a meta de Von Falkenhayn com essa batalha não era nem um avanço nem um
cerco, mas literalmente esgotar o sangue dos franceses, "sangrar até
ficarem brancos", como definiu o general alemão. Um cálculo cínico, já
que, para a França, Verdun era bem mais do que um nó estratégico-militar.
Como
explica o historiógrafo Herfried Münkler, a cidade na região da Lorena
representava "um símbolo da oposição franco-alemã". Lá pela primeira
vez o Império Carolíngio fora dividido em três, no século IX. Mais tarde, no
fim da Idade Média, se formaram a partir daí a França Oriental e Ocidental.
Local de grande significado psicológico para os franceses, Verdun não podia,
sob hipótese alguma, cair nas mãos do inimigo.
General
Pétain envolve a nação inteira
Entretanto,
o defensor da cidade, general Philippe Pétain, percebeu a intenção de Von
Falkenhayn, contrapondo-lhe uma astuta tática. Ele envolveu literalmente toda a
nação francesa na batalha no leste do país, mobilizando mais de 70% de seus
soldados para as trincheiras de Verdun, pelo menos uma vez, por um período de
oito e dez dias.
Com
esse princípio rotativo, Pétain realizou uma jogada de xadrez com amplas
consequências: quase todas as famílias da França estavam de alguma forma
presentes no local da batalha. Sobretudo entre fevereiro e junho de 1916,
contingentes importantes do Exército nacional concentraram-se lá.
General Pétain, o defensor de Verdun: "On ne passe pas!"
Mesmo
em retrospectiva, parece inimaginável o poder de fogo gerado por essa guerra
industrializada que se travava pela primeira vez. Calcula-se que, em menos de
30 quilômetros quadrados, foram disparados 10 milhões de tiros, com um peso
total de 1,35 milhão de toneladas de aço. O estrondo deixou muitos surdos, e
aos sofrimentos dos soldados logo veio se somar um mau cheiro indescritível.
Carnificina
disfarçada de vitória
Verdun
transformou-se num polo de extrema concentração de violência em espaço
reduzidíssimo. As substâncias de combate empregadas deixaram a área contaminada
por décadas, com certos trechos declarados zone rouge – zonas interditadas.
Essas
foram algumas das cicatrizes duradouras de uma orgia de destruição material e
de vidas humanas que em nenhum momento rendeu mais de quatro quilômetros de
terreno conquistado para os dois exércitos.
Cemitério militar em Verdun
A
partir de julho de 1916, após o fracasso de várias ofensivas alemãs menores, o
general Von Falkenhayn ordenou "defensiva estrita", pois há muito as
tropas nacionais eram necessárias em outros focos de combate, sobretudo no Rio
Somme, no front ocidental.
Em
outubro os franceses avançaram, retomando, até dezembro, quase todos os
territórios perdidos. Essa aparente vitória, contudo, fora na realidade um
empate militar ao preço de uma catástrofe humana sem precedentes. E o início de
um culto memorial que se mantém cem anos depois.
Símbolo
da estupidez da Primeira Guerra
Entre
os incontáveis monumentos aos 300 dias de Verdun, nenhum é tão impressionante
quanto o Ossário de Douaumont, erguido em 1927 diante do forte mais poderoso e
setentrional da zona de batalha. Na torre principal dessa sepultura de massa
jazem os restos mortais de cerca de 130 mil soldados franceses e alemães, todos
desconhecidos. Até hoje ainda são depositados lá ossos da época, achados por
acaso em jardins, campos e bosques da região.
Para
a França e os franceses, a catástrofe de Verdun é superposta hoje pelo
sentimento de vitória, uma vitória de defensiva, segundo o lema de Pétain:
"On ne passe pas!" – "Aqui não se passa!"
Restos mortais nas trincheiras de Verdun: a batalha foi um símbolo do desperdício de vidas ocorrido durante a 1ª Guerra Mundial
Para
os alemães, em contrapartida, ela permanece como símbolo da total falta de
sentido. Ainda assim não faltaram esforços para glorificar a posteriori a
carnificina. Um exemplo são os 14 volumes de Die unsterbliche Landschaft – Die
Fronten des Weltkrieges (A paisagem imortal – Os fronts da Guerra Mundial), de
Erich Otto Volkmann, lançado em 1934-35, logo após a ascensão dos nazistas ao
poder.
Além
dos números astronômicos de suas vítimas, a Batalha de Verdun permanece na
memória mundial também por motivos estratégico-militares, como um cínico
exemplo de uma estratégia desumana.
Como
analisa o historiador militar German Werth: "Ao contrário da 'batalha de
movimento' no Rio Marne, a batalha no Mosa foi marcada por falta de imaginação
e monotonia, fazendo dela um símbolo perfeito para a estupidez assassina de
quatro anos de uma guerra de posições."
Fonte:
DW
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domingo, 21 de junho de 2020
NOVO LIVRO CONTA A HISTÓRIA DA ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DA AERONÁUTICA
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Mesmo em tempos de Covid-19, chega ao mercado o primeiro volume da obra Pensando a educação: uma história da Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR), escrita pelo Coronel João Rafael Mallorca Natal, que atuou na instituição de ensino por cerca de doze anos.
O presente volume trata da gênese da Escola, ou seja, suas origens, como parte do processo de apoio fornecido pelos EUA ao Brasil, durante e logo após a Segunda Guerra Mundial, até 1948, ano da consolidação da ECEMAR em sua sede própria, no bairro carioca de Laranjeiras. Porção significativa da oficialidade da Força Aérea Brasileira cursou a ECEMAR, último degrau de educação na carreira militar aeronáutica.
Em um futuro próximo serão publicados o Volume II (Laranjeiras e Galeão), e Volume III (Afonsos). Essa trilogia fornecerá uma visão ampla de Educação de Pós-Formação no âmbito da FAB.
Pensando a Educação é uma obra essencial para os estudiosos da história da educação militar e das instituições militares e preenche uma lacuna na historiografia sobre o tema.
Para garantir seu exemplar, basta seguir os procedimentos abaixo:
- Depositar o valor de R$ 40,00 (quarenta reais) na conta do Banco do Brasil, agência 4819-4, Conta Corrente 15.150-5.
- Enviar para o e-mail rafaeljrmn@uol.com.br o endereço completo, inclusive com CEP, para a remessa pelos Correios.
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sábado, 20 de junho de 2020
PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR - CAPITÃO MARCOLINO JOSÉ DIAS
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Por Renato Coutinho
O Capitão Marcolino José Dias (também conhecido como Marcolino Dias dos Santos) trouxe da Bahia, sob seu comando, a 2ª Companhia de Zuavos baianos. Tinha sido nomeado Alferes em comissão, depois efetivado no posto e, no momento do embarque para o Rio de Janeiro, já havia sido promovido ao posto de Tenente em comissão. No dia 19 de maio de 1865, a Ordem do dia nº 447, da Repartição da Ajudância-Geral, publicou a nomeação para Capitão em comissão do Tenente da 2ª Companhia de Zuavos baianos Marcolino José Dias. O Corpo de Zuavos, mais conhecidos como "Zuavos Baianos" ou "Zuavos da Bahia", chegou a ter como comandante interino o Capitão Marcolino José Dias.
Sabemos que, infelizmente, o Corpo de Zuavos foi dissolvido e seus membros foram transferidos para outras unidades. Muitos deles foram servir no Corpo de Saúde e, os demais, foram incorporados em diversos batalhões de infantaria brasileiros. O Capitão Marcolino Dias foi servir no 8º Corpo (Batalhão) de Voluntários da Pátria, batalhão este que foi organizado no Rio de Janeiro com grande contingente da Província do Rio de Janeiro e, também, com pequenos contingentes de Alagoas e Sergipe.
O 8º de Voluntários da Pátria participou com destaque do assalto contra Curuzu (3 de setembro de 1866). Conquistamos a posição defensiva paraguaia ao custo de 941 baixas (baixas computadas entre os dias 1º e 3, incluindo as baixas da Marinha). Sofremos mais de 830 baixas, do Exército Brasileiro, no assalto de infantaria do dia 3. Os paraguaios sofreram 2.132 baixas. Avançando debaixo de fogo inimigo, o 8º de Voluntários penetrou no entrincheiramento paraguaio, lutou corpo a corpo com os infantes paraguaios e conquistou a posição com muita determinação e coragem (claro que outros batalhões brasileiros também combateram e tiveram participação na captura da trincheira inimiga). O 8º de Voluntários capturou duas bandeiras paraguaias nesta ação, uma que tremulava no topo da posição paraguaia e, outra, que pertencia a um dos batalhões de infantaria paraguaios que defendia Curuzu. O batalhão sofreu 105 baixas na tomada de Curuzu (talvez 106 baixas).
A bandeira paraguaia que tremulava no topo do entrincheiramento de Curuzu, "desafiando nossos soldados", foi derrubada e capturada pelo bravo e destemido Capitão Marcolino José Dias. Ele foi ferido quando estava se aproximando da bandeira inimiga, mas conseguiu capturá-la e protegê-la. Ficou de posse daquele troféu de guerra até quase o fim do combate e ai de quem tentasse tomá-la de suas mãos. Ele só foi passar adiante o troféu no momento em que o comandante da 1ª Divisão de Infantaria brasileira, Brigadeiro (General de Brigada) Joaquim José Gonçalves Fontes, apareceu no interior da trincheira paraguaia, entregando o estandarte inimigo para o comandante de sua divisão (o 8º de Voluntários fazia parte da 2ª Brigada de infantaria brasileira, a qual, por sua vez, fazia parte da 1ª Divisão de Infantaria brasileira).
O Capitão Marcolino José Dias foi muito elogiado na parte (relatório) de combate do comandante do 8º de Voluntários da Pátria, Major Rufino Voltaire Carapeba (descrevendo o feito de armas do mencionado Capitão). O comandante da 2ª Brigada de infantaria brasileira, Tenente-Coronel Augusto de Barros e Vasconcelos, também elogiou o comportamento e o feito de armas realizado pelo nosso ilustre capitão baiano.
Em 1867, por Decreto de 15 de junho, foram concedidas honras do posto de Capitão do Exército ao Capitão em comissão Marcolino José Dias. Ainda em 1867, Marcolino recebeu baixa por motivo de incapacidade física não especificada (talvez em decorrência do ferimento recebido em Curuzu).
Fonte: História Militar e Militaria brasileira
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Zuavos
terça-feira, 16 de junho de 2020
BATALHA DO GELO (1242): ALEXANDER NEVSKY CONTRA OS CAVALEIROS TEUTÔNICOS
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Em 1242, com uma brilhante armadilha, Alexander Nevsky levou ao fundo os Cavaleiros Teutônicos
Por Sergio Cauti
Santo para a Igreja Ortodoxa, herói para o povo, mito para a Rússia. Protagonista central de eventos que realinharam o equilíbrio religioso e político no Leste Europeu, na Idade Média, e grande líder militar e político. O príncipe Alexander Nevsky foi tudo isso. O feito que lhe garantiu lugar na História e no imaginário mundial foi a vitória em uma batalha decisiva para a nação russa, travada sobre um lago congelado. A Batalha do Gelo foi um confronto modesto diante de épicos que mudaram a História, como Waterloo e Stalingrado. Mas mudaria para sempre o destino da Rússia.
Ataques de vikings
Os antecedentes do confronto tem lugar décadas antes. Na primeira metade do século XIII, a Rússia Kieviana – primeiro grande Estado eslavo da História – era uma mistura de etnias e culturas e vivia um período de prosperidade. Isso até os vikings dominarem a região. Mas Kiev entraria definitivamente em colapso em 1240, quando o mongol Batu Khan, descendente de Gêngis Khan, tomaria definitivamente a capital da Rússia. Os príncipes russos sobreviventes e as cidades-estado que não foram destruídas submeteram-se ao Khan, que fundou na região o Canato da Horda Dourada, anexando-o ao Império Mongol.
Novgorod estava entre as poucas que escaparam. Unindo habilidade política ao pagamento de pesados tributos aos mongóis, conseguiu manter sua independência. Mas na Idade Média, bonança atraía violência. Se Novgorod escapara da ameaça dos mongóis vindos do leste, estava prestes a enfrentar um perigo maior: os europeus, que pressionavam do oeste. Os suecos foram os primeiros.
Queriam controlar as ricas rotas fluviais entre o Báltico e o Mar Negro. Com uma forma de governo rara para a época, Novgorod escolhia, entre a aristocracia, o Kniaz, um príncipe com o mandato temporário de comandante político e militar. O cargo era revogável pela assembleia do povo, a Vetche. O Kniaz de então era Alexander Jaruslavic, de 19 anos.
Jaruslavic e sua pequena armada atacaram o Exército sueco às margens do Rio Neva, destruindo-o completamente. Foi tão definitiva a derrota, que a vontade dos suecos em conquistar o território russo desmoronou. A vitória mudaria o sobrenome de Jaruslavic para Nevsky (em russo, do Neva). Mas faria surgir forte inveja na aristocracia, os chamados boiardos, o que obrigaria o Kniaz a se exilar. Logo, uma ameaça bem pior do que os suecos faria a aristocracia mudar de ideia. Uma ordem de monges guerreiros de origem alemã, os Cavaleiros Teutônicos, invadira a vizinha Livônia, atual Letônia, que havia se tornado o epicentro das Cruzadas do Norte.
Alexander Nevsky, comandante militar e santo na Igreja Ortodoxa
O que os movia era o impulso de levar o cristianismo, pela espada, aos povos pagãos da Europa do Leste. Novgorod professava o cristianismo ortodoxo. Mas, se algum cavaleiro teutônico foi tomado por alguma dúvida moral sobre uma possível luta de cristãos contra cristãos, o papa Gregório IX, não. Abençoou a expansão como forma de glorificação do catolicismo.
Os cruzados avançavam em direção de Novgorod e os boiardos chamaram o príncipe de volta. A ofensiva teutônica começou no inverno de 1240. Os cruzados chegaram com sua pesada cavalaria. Devastaram e saquearam o que encontraram pela frente e conquistaram Pskov, parceira comercial de Novgorod. O jovem príncipe juntou à sua guarda pessoal, formada por cavaleiros de elite, uma milícia com gente de Novgorod e dos clãs tribais. Atacou de surpresa e reconquistou Pskov. Os prisioneiros foram libertados, mas não houve piedade aos boiardos que colaboraram com o invasor. Foram enforcados.
A armadilha
Os teutônicos eram soldados profissionais. Passada a surpresa, reorganizaram-se e passaram ao contra-ataque. Perto de Tartu exterminaram parte do Exército de Nevsky em missão de observação. O revés fez o príncipe mudar sua estratégia. Era hora de recuar para enfrentar os teutônicos em terras conhecidas. Como local do confronto, Nevsky escolheu o Lago Peipus.
O lago era profundo, estava congelado e era cercado por pântanos que davam passagem somente em três pontos, que Nevsky conhecia bem. O príncipe também sabia que naquele começo de abril a superfície gelada do lago era fina. E não aguentaria o peso da cavalaria teutônica. Era possível montar uma armadilha para os cruzados, percebeu. Posicionou suas tropas para obrigar o inimigo a cavalgar bem em cima do gelo e aguardou. Os alemães caíram no engodo. Mesmo em inferioridade numérica, 800 cavaleiros contra 5 mil russos, estavam seguros de sua superioridade bélica, com seus poderosos cavalos e pesadas armaduras.
O Lago Peipus nos dias atuais: cenário da batalha
Assim, subestimaram o inimigo, considerando-os um bando de camponeses mal-armados e sem treinamento militar. Não deixavam de ter razão. “Os homens de Nevsky não eram soldados. Eram camponeses tirados à força de seus trabalhos rurais, não treinados e mal-armados”, diz Mikhail Krom, professor de Estudos Históricos Comparados na Universidade Europeia de São Petersburgo.
Os cruzados repetiram a clássica e bem-sucedida tática utilizada em todos os confrontos precedentes: cavalgar compactos para o centro do Exército inimigo, usando a força de impacto da cavalaria pesada para dividi-lo em duas partes e enfrentá-las separadamente. Nevsky estava preparado.
Quando o inimigo estava próximo, deu a ordem de abrir a frente em duas partes, que atacaram os invasores pelos flancos. Isso obrigou os teutônicos a permanecerem no centro do lago. O príncipe escondia mais um trunfo: arqueiros mercenários mongóis a cavalo. Foram decisivos. Esse detalhe tático entrou na tradição eslava como o mito de que anjos chegaram dos céus salvando o príncipe.
Sob a água e o gelo
Cercados e ofuscados pelo sol refletido no gelo, os cruzados foram fustigados pelas flechas e atacados pela infantaria. O confronto foi rápido, mas sangrento. Os cruzados tentaram se retirar da superfície do lago, mas o gelo quebrava por debaixo deles. Cavalos e cavaleiros desapareciam nas águas geladas. O ponto de força da cavalaria teutônica, as armaduras pesadas, se revelou sua maldição. Somente 300 cruzados se salvaram do massacre.
A batalha sobre o gelo do Lago Peipus: vitória de Nevsky
Mais uma vez, Nevsky voltou triunfante como gênio militar. A estratégia de amizade com os dominadores asiáticos lhe assegurou, em 1252, a nomeação como Grão-Príncipe. Alexander começou uma política de acomodação com os mongóis. Não lutou contra eles e perseguiu os rebeldes que não queriam pagar os tributos ao Canato da Horda Dourada.
Mas, segundo uma versão aceita pelos historiadores, os mongóis mostraram-se ingratos e o teriam envenenado, aos 43 anos, durante uma visita oficial. “Provavelmente, ele tinha se tornado independente demais”, especula Mari Isoaho, professora de História da Universidade de Helsinque e autora do livro The Image of Aleksandr Nevskiy in Medieval Russia. Três séculos mais tarde, a Igreja Ortodoxa proclamou Alexander Nevsky santo, dedicando-lhe igrejas e monastérios em toda a Rússia.
Fonte: Aventura na História
terça-feira, 2 de junho de 2020
OS CANHÕES SOVIÉTICOS DE 305mm
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O gigante Canhão do Tsar em exposição no Kremlin de Moscou é símbolo da capital russa há muito tempo. Sempre que os guias turísticos contam aos visitantes sobre sua história, eles ressaltam que a arma nunca disparou um tiro sequer. No entanto, poucas pessoas sabem que o lendário canhão foi o protótipo de uma geração notável de armas que não só entrou em serviço de combate, mas também garantiu seu lugar como os exemplares mais poderosos de seu tempo.
Por Aleksandr Verchínin
A ideia de criar uma arma terrestre de alta potência foi primeiramente lançada nos círculos militares, em 1915, no auge da Primeira Guerra Mundial, quando o Exército russo sofreu uma sucessão de derrotas contra as forças alemãs.
Essas derrotas no campo de batalha se deviam principalmente a graves lacunas nos arsenais de artilharia da Rússia e na artilharia pesada em particular, enquanto os alemães eram capazes de usar armas de última geração para esmagar uma divisão russa após a outra. O Exército russo precisava urgentemente de poder de fogo capaz de infligir perdas iguais sobre o inimigo.
As armas mais poderosas eram tradicionalmente utilizadas pela Marinha russa, já que os navios proporcionavam uma plataforma conveniente para artilharia pesada. No verão de 1915, oito obuseiros 305 milímetros tinham sido produzidos para a Marinha. Mas por causa da situação difícil no fronte, ficou decidido que quatro deles seriam destinados para as forças de campo do Exército. Os monstros de 64 toneladas podiam ser transferidos entre as localizações por transporte ferroviário, sem qualquer efeito negativo para sua eficácia. O poder devastador dessa arma foi demonstrado logo nos primeiros testes, em que bombas incendiárias, pesando quase 400 kg, provaram ser capazes de perfurar qualquer fortificação reforçada de concreto. Além disso, disparar uma arma de 305 milímetros gerava tal pressão de gases que uma salva toda criava um vácuo em um raio de vários metros, sugando itens soltos no caminho, como se fosse um redemoinho.
As armas de 305 milímetros chegaram ao fronte no verão de 1916 e tiveram seus primeiros disparos em um momento de ira em 19 de junho. Um ataque direto a um abrigo alemão literalmente o jogou a metros no ar criando uma coluna de terra e detritos.
Canhão soviético de 305mm montado em reparo ferroviário
Naquele inverno, uma divisão das armas também entrou em ação perto de Riga, transformando as posições de tiro e ninhos de metralhadora dos alemães em crateras enormes com alguns bons disparos. A infantaria russa não encontrou resistência ao tomar controle das posições inimigas que tinham sido construídas ao longo de 18 meses.
A Revolução de 1917 e o fim repentino da Primeira Guerra Mundial para a Rússia tornou essas armas pesadas desnecessárias. No entanto, as 30 armas retidas pelo Exército Vermelho serviram de base do projeto das armas soviética de 305 milímetros, que foram mais tarde instaladas em fortalezas e bases de defesa da Marinha.
Sua força foi mostrada sobre as forças de Hitler em setembro de 1941, quando as barragens de oito armas 305 milímetros interromperam o ataque alemão a Sebastopol. Disparando de uma margem de 44 km, a bateria permanecia imune a qualquer disparo do inimigo. As armas foram igualmente usadas para defender posições em torno de Leningrado, que nunca foi dominada pela forças alemãs.
Os velhos canhões do tsar foram agrupados em cinco divisões com poder de fogo especial e enviados para a frente de batalha em 1944. Seu momento de glória aconteceu durante a ofensiva soviética na Karélia, Bielorrússia e Polônia, onde as defesas inimigas estavam concentradas em uma série de linhas reforçadas e cidades-fortalezas.
Uma divisão de artilharia organizada em apoio de tanques e forças navais bastou para romper a zona fortificada finlandesa ao longo da Linha Mannerheim, que o Exército soviético tinha atacado com grandes perdas durante vários meses no inverno de 1939 e 1940.
Canhões soviéticos de 305mm preservados
O poder das armas russas de 305 milímetros também foi sentido por posições alemãs no rio Oder, que o comando nazista tinha calculado ser suficiente para verificar o avanço soviético. Em abril de 1945, as armas pesadas também deram apoiou à tomada de Berlim.
O ponto alto dos canhões do tsar, porém, se deu durante a operação para capturar o forte gigante do Terceiro Reich em Königsberg (atual Kaliningrado), quando três divisões da artilharia pesada infligiram mais de 200 ataques diretos no reduto. Apesar de apenas 15% das bombas penetraram o invólucro de betão das colocações, foi o suficiente para romper as defesas alemãs.
Depois de ter sido produzido para esses elevados padrões de montagem, as velhas continuaram a servir na artilharia soviética muito tempo depois da Segunda Guerra Mundial. As últimas unidades foram retiradas de serviço apenas no final de 1950, e uma delas está agora em exposição no Museu de Artilharia de São Petersburgo.
Fonte: Gazeta Russa
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quinta-feira, 28 de maio de 2020
MORRE, AOS 105 ANOS, A ENFERMEIRA DA FEB CARLOTA MELLO
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Quando se formou, não satisfeita com a vida de professora, resolveu fazer o curso de Enfermagem de Emergência, em 1942, na Cruz Vermelha. Inquieta, viu uma propaganda do Exército Brasileiro convocando interessados em fazer curso de socorrista para atuar na Europa. “Não pensei duas vezes e resolvi me inscrever. Confesso que fiquei apavorada com o módulo prático. Tínhamos que correr comum tronco nos ombros, rastejar na lama, fazer tudo que um soldado faz. Das 16 moças que foram para esse curso no Rio de Janeiro, apenas quatro foram aprovadas para ir à guerra”, disse.
Lá, a Enfermeira permaneceu por 11 meses, em condições bem diferentes das encontradas no Brasil. “Cheguei à Europa numa época em que a neve cobria os joelhos e o frio fazia doerem os ossos. Morei em uma barraca de lona, sem colchões, e comia apenas derivados de trigo e frutas. A carne era de cavalo. No início achei estranho, mas depois me acostumei”, contou em entrevista.
O hospital em que trabalhava era totalmente de barracas de tábuas e cobertura de lona no centro, uma verdadeira estufa, conforme lembrou Carlota Mello. "E tudo era norte-americano: nossos uniformes de trabalho, chefes, alimentação e nossa convivência. Eu trabalhava em uma enfermaria com doentes brasileiros que contavam com o atendimento de mais duas Enfermeiras norte-americanas, dois técnicos, além de doutores norte-americanos e brasileiros. Os 64 leitos lá instalados ficavam permanentemente ocupados", lembrou.
No 45º, o serviço era contínuo: cuidava-se de soldados sem perna, braço, olho e, muitas vezes, sem memória, segundo a enfermeira. Aplicava-se penicilina, fazia-se curativos, tirava-se gesso, dava-se comida na boca, aferia-se a pressão arterial, media-se temperatura, dava-se comprimido para dor, entre outros cuidados, que até superavam as atribuições específicas da Enfermagem. "Escrevíamos cartas para mães, esposas, namoradas e, assim, esquecíamos as apreensões de um possível bombardeio, de uma mina implantada em qualquer lugar - uma chegou a explodir bem próximo ao alojamento onde estava -, das saudades, angústias, tristezas e incertezas do amanhã."
Em um dos constantes bombardeios que presenciou, Carlota Mello arriscou a própria vida para salvar a dos soldados hospitalizados. Quando todos saíram correndo para se proteger, ela correu para carregar um caixote contendo ampolas de penicilina, usadas nos 64 pacientes sob os cuidados das brasileiras. “Consegui chegar rápido, juntei todas as minhas forças e o levei até o local seguro. Ao chegar lá, para minha surpresa, fui aplaudida e os soldados me levantaram no ar. Me senti como se fosse um jogador de futebol em fim de campeonato”, brincou.
Com o fim da Segunda Guerra, em maio de 1945, a tenente Carlota demorou mais dois meses para retornar ao Brasil. “Algumas regiões da Europa foram rapidamente evacuadas,mas não foi o caso de Nápoles. A batalha tinha acabado no campo, mas os hospitais continuavam a receber feridos”, contou.
Mesmo com tantas batalhas, ao chegar ao Brasil, a sensação da enfermeira foi de dever cumprido. "Sinto-me gratificada pelos serviços que prestei ao meu país, pelos quais me foram outorgados o Diploma da Medalha de Campanha, o Diploma da Medalha de Guerra, o Diploma da Cruz Vermelha, o Diploma da Inconfidência e Diploma de Honra ao Mérito."
Que nossa heroína descanse em paz. A cobra continuará fumando.
Fonte: adaptado da Revista do COREN-MG
Faleceu hoje em Belo Horizonte, aos 105 anos de idade, uma heroína do Brasil, a enfermeira da FEB Carlota Mello.
Carlota Mello era natural de Salinas, Norte de Minas, e foi uma das 73 mulheres que serviram na Europa durante a Segunda Guerra Mundial integrando a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Como enfermeira, foi um exemplo para todos os profissionais de enfermagem. Única mulher entre oito filhos, Carlota desde cedo queria um destino diferente de suas primas. Segundo ela, “não desejava, de jeito nenhum, me casar e ter uma penca de filhos. Por isso, decidi vir para Belo Horizonte, morar com meu irmão mais velho e fazer o curso de normalista, uma das únicas funções que uma mulher poderia assumir naquela época”.
Quando se formou, não satisfeita com a vida de professora, resolveu fazer o curso de Enfermagem de Emergência, em 1942, na Cruz Vermelha. Inquieta, viu uma propaganda do Exército Brasileiro convocando interessados em fazer curso de socorrista para atuar na Europa. “Não pensei duas vezes e resolvi me inscrever. Confesso que fiquei apavorada com o módulo prático. Tínhamos que correr comum tronco nos ombros, rastejar na lama, fazer tudo que um soldado faz. Das 16 moças que foram para esse curso no Rio de Janeiro, apenas quatro foram aprovadas para ir à guerra”, disse.
Em 1944, Carlota Mello fez o curso de Enfermagem de Emergência do Exército, ministrado pela Diretoria de Saúde na 4ª Região Militar, sendo nomeada Enfermeira de 3ª Classe e, no mesmo ano, foi convocada para atuar no Teatro de Operações da Itália, incorporando-se à equipe brasileira no 45º Hospital Geral norte-americano, em Nápoles, na Itália. Diante das colegas norte-americanas, todas oficiais, acharam por bem dar o posto de 2ª tenente às Enfermeiras brasileiras.
A tenente Carlota na 2ª Guerra Mundial
Lá, a Enfermeira permaneceu por 11 meses, em condições bem diferentes das encontradas no Brasil. “Cheguei à Europa numa época em que a neve cobria os joelhos e o frio fazia doerem os ossos. Morei em uma barraca de lona, sem colchões, e comia apenas derivados de trigo e frutas. A carne era de cavalo. No início achei estranho, mas depois me acostumei”, contou em entrevista.
O hospital em que trabalhava era totalmente de barracas de tábuas e cobertura de lona no centro, uma verdadeira estufa, conforme lembrou Carlota Mello. "E tudo era norte-americano: nossos uniformes de trabalho, chefes, alimentação e nossa convivência. Eu trabalhava em uma enfermaria com doentes brasileiros que contavam com o atendimento de mais duas Enfermeiras norte-americanas, dois técnicos, além de doutores norte-americanos e brasileiros. Os 64 leitos lá instalados ficavam permanentemente ocupados", lembrou.
No 45º, o serviço era contínuo: cuidava-se de soldados sem perna, braço, olho e, muitas vezes, sem memória, segundo a enfermeira. Aplicava-se penicilina, fazia-se curativos, tirava-se gesso, dava-se comida na boca, aferia-se a pressão arterial, media-se temperatura, dava-se comprimido para dor, entre outros cuidados, que até superavam as atribuições específicas da Enfermagem. "Escrevíamos cartas para mães, esposas, namoradas e, assim, esquecíamos as apreensões de um possível bombardeio, de uma mina implantada em qualquer lugar - uma chegou a explodir bem próximo ao alojamento onde estava -, das saudades, angústias, tristezas e incertezas do amanhã."
Carlota Mello sendo homenageada em seu 105º aniversário
Em um dos constantes bombardeios que presenciou, Carlota Mello arriscou a própria vida para salvar a dos soldados hospitalizados. Quando todos saíram correndo para se proteger, ela correu para carregar um caixote contendo ampolas de penicilina, usadas nos 64 pacientes sob os cuidados das brasileiras. “Consegui chegar rápido, juntei todas as minhas forças e o levei até o local seguro. Ao chegar lá, para minha surpresa, fui aplaudida e os soldados me levantaram no ar. Me senti como se fosse um jogador de futebol em fim de campeonato”, brincou.
Com o fim da Segunda Guerra, em maio de 1945, a tenente Carlota demorou mais dois meses para retornar ao Brasil. “Algumas regiões da Europa foram rapidamente evacuadas,mas não foi o caso de Nápoles. A batalha tinha acabado no campo, mas os hospitais continuavam a receber feridos”, contou.
Mesmo com tantas batalhas, ao chegar ao Brasil, a sensação da enfermeira foi de dever cumprido. "Sinto-me gratificada pelos serviços que prestei ao meu país, pelos quais me foram outorgados o Diploma da Medalha de Campanha, o Diploma da Medalha de Guerra, o Diploma da Cruz Vermelha, o Diploma da Inconfidência e Diploma de Honra ao Mérito."
Que nossa heroína descanse em paz. A cobra continuará fumando.
Fonte: adaptado da Revista do COREN-MG
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domingo, 24 de maio de 2020
8 PERGUNTAS PARA ENTENDER A GUERRA CIVIL NA SÍRIA
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Um levante pacífico contra o presidente da Síria que teve início há oito anos transformou-se em uma guerra civil que já deixou mais de 400 mil mortos, devastou cidades e envolveu outros países.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) calcula que mais de 5 milhões já deixaram o país – o maior êxodo da história recente.
Em 13 de abril de 2018, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que o país havia iniciado na madrugada anterior uma série de ataques aéreos na Síria em coordenação com a França e o Reino Unido. A operação foi uma resposta às evidências de um ataque químico na cidade síria de Douma, na semana passada. EUA e aliados denunciam que o ataque foi protagonizado pelo regime do presidente sírio, Bashar al-Assad, que por sua vez nega tal participação. Segundo o Pentágono, foram atingidos um centro de pesquisas científicas em Damasco, que seria ligado à produção armas químicas e biológicas, um local de armazenamento de armas químicas a oeste de Homs e outro armazém que também funcionava como importante posto de comando, na mesma região.
Entenda, a seguir, os últimos acontecimentos, a origem do conflito e suas consequências até agora.
1. Como a guerra começou?
Mesmo antes do conflito começar, muitos sírios reclamavam dos altos índices de desemprego, corrupção e falta de liberdade política sob o presidente Bashar al-Assad, que sucedeu seu pai, Hafez, após sua morte, em 2000.
Em março de 2011, protestos pró-democracia eclodiram na cidade de Deraa, ao sul do país, inspirados pelos levantes da Primavera Árabe em países vizinhos. Quando as forças de segurança sírias abriram fogo contra os ativistas - matando vários deles -, as tensões se elevaram e mais gente saiu às ruas. Os manifestantes pediam a saída de Assad. A resposta do governo foi sufocar as divergências, o que reforçou a determinação dos manifestantes. No fim de julho de 2011, centenas de milhares saíram às ruas em todo o país exigindo a saída de Assad.
Apoiadores da oposição pegaram em armas, primeiro para defender a si mesmos e depois para expulsar forças de segurança das áreas onde viviam. Assad prometeu acabar com o que chamou de "terrorismo apoiado por estrangeiros". Seguiu-se uma rápida escalada de violência, e o país mergulhou em uma guerra civil. Grupos rebeldes se reuniram em centenas de brigadas para combater as forças oficiais e retomar o controle das cidades e vilarejos.
Em 2012, os enfrentamentos chegaram à capital, Damasco, e à segunda cidade do país, Aleppo. O conflito já havia, então, se transformado em mais que uma batalha entre aqueles que apoiavam Assad e os que se opunham a ele - adquiriu contornos de guerra sectária entre a maioria sunita do país e xiitas alauítas, o braço do Islamismo a que pertence o presidente. Isto arrastou as potências regionais e internacionais para o conflito, conferindo-lhe outra dimensão.
2. Quantas pessoas já morreram?
O Observatório Sírio de Direitos Humanos, uma ONG britânica que monitora o conflito com base em uma rede de fontes locais, registrou 353.900 mortes até março de 2018, incluindo 106 mil civis. Os dados não incluem 56.900 pessoas que estão desaparecidas e consideradas mortas. O grupo também estima que 100 mil mortes não foram documentadas. O enviado da ONU para a Síria, Steffan de Mistura, estimou que a guerra já matou 400 mil pessoas. Já o Centro Sírio para Pesquisa de Políticas, outro grupo de estudos, calcula que o conflito já tenha causado a morte de mais de 470 mil pessoas.
Enquanto isso, o Centro de Documentação de Violações, que recorre a ativistas na Síria, registrou o que avalia ser violações às leis de direitos humanos internacionais, inclusive ataques contra civis. Foram documentadas 185.980 mortes relacionadas ao conflito, entre elas as de 119.200 civis, até fevereiro de 2018.
3. Quem está lutando contra quem?
A rebelião armada evoluiu significativamente desde suas origens. Há um número de membros da oposição moderada secular lutando contra as forças de Assad. O Exército curdo, um dos grupos que os Estados Unidos estão apoiando no norte da Síria, faz parte da oposição.
Mas há também uma grande quantidade de radicais e jihadistas - partidários da "guerra santa" islâmica. Entre eles estão o autointitulado Estado Islâmico (EI) e a Frente Nusra, afiliada à al-Qaeda. Os combatentes do EI - cujas táticas brutais chocaram o mundo - criaram uma "guerra dentro da guerra", enfrentando tanto os rebeldes da oposição moderada síria quanto os jihadistas da Frente Nusra.
Os rebeldes moderados têm requisitado armas antiaéreas ao Ocidente para responder ao poderio do governo sírio. Mas Washington e seus aliados têm procurado controlar o fluxo de armas por medo de que acabem indo parar nas mãos de grupos jihadistas.
4. Qual é o envolvimento das potências internacionais?
Os principais apoiadores do governo são a Rússia e o Irã, enquanto os Estados Unidos, a Turquia e a Arábia Saudita apoiam os rebeldes. Na era Obama, os Estados Unidos culpavam Assad pela maior parte das atrocidades cometidas no conflito e exigiam que ele deixasse o poder como pré-condição para a paz.
Trump, por sua vez, dizia que derrubar o presidente sírio não era uma prioridade, mas sim derrotar o Estado Islâmico - e que Assad era um aliado nessa batalha. Após o aparente ataque químico ocorrido em abril, porém, seu discurso mudou. Os Estados Unidos, Reino Unido, França e outros países ocidentais forneceram variados graus de apoio para o que consideram ser rebeldes "moderados".
Uma coalizão global liderada por eles também realiza ataques contra militantes do Estado Islâmico na Síria desde 2014 e ajudou uma aliança entre milícias árabes e curdas chamada Forças Democráticas Sírias (FDS) a assumir o controle de territórios antes dominados por jihadistas.
Já a Rússia apoia a permanência de Assad no poder, o que é crucial para defender os interesses de Moscou no país. O país já tinha bases militares na Síria e lançou uma campanha militar aérea em apoio a Assad em 2015 que foi crucial para virar o andamento da guerra a favor do governo. Os militares russos dizem que os ataques têm como alvo "terroristas", mas ativistas afirmam que regularmente morrem rebeldes e civis. A intervenção russa possibilitou vitórias significativas das forças de Assad. A maior delas foi a retomada da cidade de Aleppo, um dos principais redutos dos grupos de oposição, em dezembro de 2016.
Bashar al-Assad e Vladimir Putin: apoio da Rússia
O Irã, de maioria xiita, é o aliado mais próximo de Bashar al-Assad. A Síria é o principal ponto de trânsito de armamentos que Teerã envia para o movimento Hezbollah no Líbano - a milícia também enviou milhares de combatentes para apoiar as forças sírias. Estima-se que os iranianos já tenham desembolsado bilhões de dólares para fortalecer as forças sírias, provendo assessores militares, armas, crédito e petróleo.
A Turquia apoia há tempos os rebeldes, mas concentrou esforços em usá-los para conter a milícia curda que domina a FDS, acusando-a de ser uma extensão de um grupo rebelde curdo banido do território turco. A Arábia Saudita foi um elemento-chave para conter a influência iraniana e também armou e financiou os rebeldes.
Ao mesmo tempo, Israel tem se preocupado muito com o envio de armas iranianas para o Hezbollah na Síria e tem realizado ataques aéreos para interromper isso.
5. Qual é o impacto da guerra?
Além de causar centenas de milhares de mortes, a guerra incapacitou 1,5 milhões de pessoas, entre ela 86 mil que perderam membros do corpo. Ao menos 6,1 milhões de sírios tiveram de deixar suas casas para buscar abrigo em alguma outra parte do país, enquanto outros 5,6 milhões se refugiaram no exterior.
Líbano, Jordânia e Turquia, onde 92% destes sírios refugiados vivem hoje, têm enfrentado dificuldades para lidar com um dos maiores êxodos da história recente. A ONU estima que 13,1 milhões de pessoas necessitarão de algum tipo de ajuda humanitária na Síria em 2018. Os dois lados do conflito pioraram essa situação ao se recusar a permitir o acesso de agências com fins humanitários a quem precisa de auxílio. Quase 3 milhões de pessoas vivem em áreas alvos de cerco e de difícil acesso. Os sírios também têm acesso limitado a serviços de saúde.
A organização Médicos por Direitos Humanos registrou 492 ataques a 330 instalações médicas até dezembro de 2017, o que resultou em 847 profissionais de saúde mortos. Grande parte do patrimônio cultural da Síria também foi destruído. Todos os seis locais considerados pela Unesco como patrimônio da humanidade sofreram danos significativos. Bairros inteiros foram arrasados em todo o país.
6. Como o país está dividido?
O governo reassumiu o controle das maiores cidades sírias, mas grandes partes do país ainda estão sob o comando de grupos rebeldes e da FDS. O principal reduto de oposição é a província de Idlib, no nordeste do país, onde vivem mais de 2,6 milhões de pessoas. Apesar de designada como uma zona onde não deveria haver hostilidades, Idlib é alvo de uma ofensiva do governo, que diz estar combatendo jihadistas ligados à Al-Qaeda.
Ataques por terra também estão em curso em Ghouta Oriental. Seus 393 mil residentes estão sob o cerco do governo desde 2013 e enfrentam intensos bombardeios, assim como uma grave falta de comida e de suprimentos médicos.
Enquanto isso, a FDS controla a maioria do território a leste do rio Eufrates, incluindo a cidade de Raqqa. Até 2017, esta era a capital do "califado" que o Estado Islâmico disse ter instaurado, mas, agora, o grupo controla apenas alguns bolsões na Síria.
7. Por que a guerra está durando tanto?
Um fator chave é a intervenção de potências regionais e internacionais. Seu apoio militar, financeiro e político tanto para o governo quanto para a oposição tem contribuído diretamente para a continuidade e intensificação dos enfrentamentos, e transformado a Síria em campo para uma guerra indireta.
A intervenção externa também é responsabilizada por fomentar o sectarismo no que costumava ser um Estado até então secular (imparcial em relação às questões religiosas). As divisões entre a maioria sunita e a minoria alauita no poder alimentou atrocidades de ambas as partes, não apenas causando a perda de vidas, mas a destruição de comunidades, afastando a esperança de uma solução pacífica.
A escalada de terror causada por grupos jihadistas como o EI - que aproveitou a fragilidade do país para tomar o controle de vastas partes de território no norte e leste - acrescentou outra dimensão ao conflito. Não há qualquer sinal de que o conflito chegará ao fim em breve, mas todos os lados envolvidos concordam que uma solução política é necessária.
Tropas do Exército Sírio em ação
O Conselho de Segurança da ONU pediu a implementação de um governo de transição "formado com base em consentimento mútuo". Mas nove rodadas de conversas de paz mediadas pela ONU desde 2014 obtiveram poucos progressos. Assad parece cada vez menos disposto a negociar com a oposição. Rebeldes ainda insistem que ele renuncie como parte de qualquer acordo.
8. Por que EUA, França e Reino Unido se uniram em novo ataque a alvos de Assad?
Os ataques realizados por Estados Unidos, França e Reino Unido contra a Síria foram uma resposta às evidências de uso de armas químicas pelo governo do presidente sírio, Bashar al-Assad. Os sintomas observados nas vítimas na cidade de Douma, um reduto rebelde na periferia da capital da Síria, Damasco, indicam possível uso de agentes neurotóxicos como o cloro e o gás sarin, que teriam provocado a morte de, pelo menos, 40 pessoas. Imagens chocantes de adultos e crianças sofrendo sintomas do que parecia ser um ataque químico correram o mundo.
"Ordenei as forças armadas dos Estados Unidos a lançar ataques precisos em alvos associados com instalações de armas químicas do ditador sírio Bashar al-Assad", disse Trump, na ocasião, em pronunciamento na Casa Branca.
Armas químicas são proibidas por acordos internacionais. Seu uso motivou o ataque de americanos e aliados contra três alvos - instalações químicas, segundo o Pentágono - em Damasco e em Homs. A Síria e a Rússia disseram que a acusação é uma farsa e negaram o uso de tais agentes.
Não é a primeira vez que Assad é acusado de usar armas químicas. Em 2017, 86 pessoas – 27 delas crianças – foram mortas em um incidente com uso de armas químicas em Khan Sheikhoun, na província de Idlib, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos. Tanto a Organização Mundial da Saúde quanto a instituição de caridade médica Médicos Sem Fronteiras disseram na época que as vítimas apresentavam sintomas consistentes de exposição a agentes que afetam o sistema nervoso.
Fonte: BBC
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