"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



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domingo, 18 de novembro de 2012

A CANÇÃO DE ROLANDO E A CONTROVÉRSIA DE RONCESVALES

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No dia 15 de agosto de 778, toda a retaguarda do exército de Carlos Magno foi dizimada por um grupo de montanheses bascos na batalha de Roncesvalles.


Um dos conflitos mais mal explicados da história aconteceu em Roncesvalles, quase na fronteira entre as atuais Espanha e França, nos primórdios da Idade Média.  A versão consagrada afirma que o exército de Carlos Magno, rei dos francos, foi atacado por muçulmanos – o que registra a Canção de Rolando, texto considerado um dos fundadores da língua francesa.  Na verdade, os francos foram atacados por outros cristãos, os bascos, furiosos depois de verem Pamplona, sua cidade mais importante, destruída para não servir futuramente de base às forças islâmicas.

As hostes francas voltavam de uma mal sucedida campanha que pretendia conquistar Zaragoza das mãos dos muçulmanos e dominar os Pirineus, a cadeia de montanhas entre a França e a Espanha, e o rio Elbro, que corta Zaragoza.  O objetivo era criar uma região que servisse como uma barreira defensiva para proteger o reino dos francos das forças islâmicas de Al-Andalus, no sul da Península Ibérica.

Na volta, a coluna passou por Pamplona e, temeroso de um ataque muçulmano, o rei dos francos ordenou que o Exército arrasasse suas muralhas. “Assim evitaria que o possível inimigo se refugiasse em uma cidade fortificada”, escreve o historiador Carlos Alvar em seu livro Carlomagno em Zaragoza.  A destruição de Pamplona teria motivado os bascos a planejarem sua vingança, levada a termo em um vale dos Pirineus, próximo à vila de Roncesvalles, a 8 quilômetros da fronteira com a França.

Rolando jura lealdade a Carlos Magno


Por muito tempo a batalha ficou conhecida como a pior derrota sofrida por Carlos Magno, mas essa versão tem sido refutada.  Carlos Magno mal sentiu essa derrota”, afirma José Luis Corral, da Universidade de Zaragoza. “A importância histórica é escassa, pois não significou nada na política do século VIII.  Já a literéria é enorme, pois foi a inspiração da primeira cantiga de gesta européia e de inúmeros romances e relatos”, diz Corral, referindo-se à Canção de Rolando, escrita no fim do século XI, supostamente por um monge normando chamado Turoldo.

Segundo o poema épico, obra emblemática da literatura francesa, os responsáveis pela chacina dos soldados francos foram 400 mil árabes.  Graças a essa obra, “Rolando se tornaria um dos mais famosos heróis literários do Ocidente, tendo matado milhares de infiéis antes de cair morto em Roncesvalles”, diz Alessandro Barbero em Charlemagne: father of a Continent, inédito no Brasil.

Carlos Magno encontra o corpo de Rolando em Roncesvalles


Em relação ao que realmente aconteceu, o debate suscita mais perguntas do que respostas.  As principais fontes são os Anais Reais dos Francos, do século IX, claros em acusar os “vascones” como autores da cilada.  O tamanho do Exército Franco também é discutido. “Acredito que poderiam ter entre 10 e 12 mil soldados”, diz Armando Besga, da Universidade de Deusto, em Bilbao.  Corral duvida que superasse 5 mil homens, dos quais apenas 500 estariam a cavalo.  Existe o consenso apenas de que não foram os muçulmanos.  Besga acredita que o ataque pode ter sido perpetuado por menos de mil homens, tão cristãos quanto os soldados de Carlos Magno.

Para a história, pode não ter sido uma batalha épica, mas a literatura saiu ganhando e a saga de Rolando, ainda que fictícia, ajudou a mobilizar os cristãos para as Cruzadas, três séculos depois.


Fonte: Aventuras na História

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domingo, 9 de setembro de 2012

A BATALHA DE POITIERS (732)

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No início do século VIII, o reino dos Francos era de início governado pela dinsatia dos Merovíngios, mas o chefe da administração e do exército, porta-voz da aristocracia, o prefeito do palácio, era o verdadeiro senhor. Desde o fim do século VII, a família dos Pepinos, antepassados dos carolíngios, controlava essa importante função.

Em 711 os muçulmanos se apoderam do reino dos Visigodos, que controlavam então a península ibérica, Os visigodos recuaram para o norte do país e se refugiaram nos montes Cantábricos, nos Pirineus e na Septimânia, atual Languedoc. As áreas compreendidas entre o sul da Aquitânia e o norte da Espanha muçulmana permanecem indefinidas. Percorridas por saqueadores ou exércitos em campanha, são abandonadas por seus habitantes.

Mais ao sul, os árabes e os berberes fundaram, no século VII, um poderoso principado, o emirado de Córdoba, nas mãos da dinastia omíada a partir de 750. Potência militar temida, o emirado é o centro de uma brilhante civilização urbana em contato constante com a África do Norte.

Carlos Martel, prefeito do palácio dos reis merovíngios e avô de Carlos Magno, interessava-se muito pelas áreas meridionais do reino ainda não totalmente submissas à dominação franca. Uma incursão de muçulmanos vindos da Espanha foi para ele a ocasião para firmar seu poder na Aquitânia.

Carlos Martel

 
O duque da Aquitânia, Eudes, desejava acima de tudo conservar sua independência e desconfiava dos francos, sempre prontos a fazer incursões militares em direção do sudoeste. Eudes precisou seguir uma delicada política: defendendo seu principado e sua capital sitiada, Toulouse, contra os muçulmanos da Espanha que se apoderaram da septimânia tomando Narbona, Carcassone e Nimes em 725, não hesita, contudo, em fazer aliança com um chefe berbere, senhor da região da Cerdanha e em rebelião com o governador da Espanha. Mas, em outubro de 732, os sarracenos liderados pelo novo governador Abd Al-Rahman, cruzaram os Pirineus, submeteram a Cerdanha e marcharam sobre Bordeaux.



Carlos Martel parte em socorro de Eudes da Aquitânia

O duque Eudes foi tomado totalmente pela surpresa. Não esperava uma incursão tão fulgurante e pensava que Abd Al-Rahman começaria a atacar por Toulouse. A cavalaria berbere derrotou rapidamente os bascos, guardiões das colinas dos Pirineus, e arremeteu contra Bordeaux. Eudes reuniu nelas seus fiéis súditos, mas, batido sob as muralhas da cidade, recuou precipitadamente para o norte e, de bom ou mal grado, refugiou-se junto a Carlos para lhe pedir socorro.

O prefeito do palácio encontrou ali uma ocasião inesperada para retomar a Aquitânia. Na mesma ocasião, poderia tentar por fim às incursões de saqueadores sarracenos que, desde 719, não hesitavam em penetrar profundamente no reino, seguindo, especialmente, os vales do Ródano e do Saône. Reunindo um exército de soldados de infantaria, Carlos dirigiu-se para São Martinho de Tours, a poderosa e rica abadia do vale do rio Loire, ameaçada por Abd Al-Rahman.

Soldados sarracenos

 
O exército sarraceno, composto essencialmente de berberes recém-convertidos comandados pelos árabes, parecia procurar mais um bom espólio do que conquistas territoriais. Os cronistas evocam um grande exército que agrupava centenas de milhares de homens. Essas estimativas fantasiosas não têm nenhuma relação com os efetivos dos exércitos do século VIII. Trata-se mais provavelmente de uma tropa que operava em ordem dispersa e não de um gigantesco exército de invasão. Os sarracenos saquearam os lugares onde se concentravam as riquezas, as cidades e, acima de tudo, os opulentos monumentos e templos religiosos, como a basílica de Santo Hilário de Poitiers. Posteriormente, a mesma tropa marchou sobre a abadia de São Martinho de Tours.
 

A escaramuça de Poitiers

Ao anúncio da chegada dos francos e de Eudes, os sarracenos retiraram-se lentamente para o sul. Durante uma semana ocorreram enfrentamentos dispersos. As escaramuças sucederam às emboscadas. Em seguida, o grosso da tropa entrou efetivamente em contato.

O choque entre os dois exércitos teve lugar, provavelmente, em Moussais, entre Poitiers e Tours, no dia 25 de outubro de 732. Abd Al-Rahman dispunha de uma poderosa cavalaria ligeira e lançou seus guerreiros contra as tropas de Carlos e Eudes. Mas esses cavaleiros, armados com espadas e dardos, estavam acostumados com choques rápidos e seu impulso se arrefeceu diante dos francos dispostos em massa compacta de lanças erguidas. Os francos, que combatiam a pé, dispunham de armas defensivas eficazes: cota de malha, escudo e capacete.

Cavaleiro franco

 
Cansados de seus repetidos fracassos e desorientados pela morte em combate de Abd Al-Rahman, os sarracenos abandonaram o campo de batalha e bateram em retirada a noite. Pela manhã, Carlos Martel invadiu o acampamento sarraceno e se apoderou de muitos despojos deixados pelos fugitivos.


Resultados
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A repercussão dessa batalha foi considerável. Mesmo que o próprio combate tenha sido de caráter limitado, os contemporâneos viram nela uma vitória dos cristãos sobre os muçulmanos e a manifestação da proteção divina em relação ao prefeito do palácio. Mas a batalha de Poitiers não pôs fim nem à presença dos sarracenos nas fronteiras meridionais dos domínios francos, nem às veleidades de independência dos habitantes da Aquitânia.


Fonte:  Adaptado de Grandes batalhas da História. Editora Larousse .